sábado, 28 de junho de 2025

Economia dos EUA encolhe após tarifas de Trump

economia americana sofreu uma contração maior do que a prevista anteriormente nos primeiros três meses deste ano, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (26/06) pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos.

O Produto Interno Bruto (PIB) real americano caiu 0,5% no primeiro trimestre do ano, em comparação com uma previsão anterior do Departamento de Comércio de queda de 0,2%.

A queda de janeiro a março no PIB reverteu um aumento de 2,4% nos último trimestre de 2024 e marcou a primeira vez em três anos que a economia se contraiu. As importações aumentaram 37,9%, o maior crescimento desde 2020, e pressionaram o PIB em quase 4,7 pontos percentuais.

Os gastos do consumidor também desaceleraram acentuadamente, expandindo apenas 0,5%, abaixo dos robustos 4% do quarto trimestre do ano passado.

O mau desempenho veio na esteira de um aumento nas importações desencadeado pelo anúncio das tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que levou empresas e consumidores a estocarem produtos importados, principalmente da China, antes das novas taxas entrarem em vigor.

<><> Tarifas de Trump valerão a partir de julho

O ritmo das importações provavelmente não se repetirá no segundo trimestre e, portanto, não deverá pesar sobre o PIB, já que o crescimento entre maio e junho deve retornar a 3%, segundo algumas previsões.

Trump acabou adiando ou recuando em algumas das tarifas mais altas devido às negociações com os parceiros comercias, ainda em andamento. Contudo, a aproximação do prazo final de julho para a entrada em vigor das tarifas mais altas aumenta as incertezas econômicas no país.

As tarifas de Trump levaram a China e a União Europeia (UE) a uma corrida para encontrar novos parceiros comerciais, com os Estados-membros da UE se aproximado de países das regiões do Indo-Pacífico e do Sul Global.

No mês passado, Trump suspendeu as tarifas de 50% sobre produtos da UE até 9 de julho.

<><> Americanos mais pessimistas com a economia

Na cúpula Otan realizada nesta quarta-feira, o presidente da França, Emmanuel Macron, chamou "aberração" a guerra comercial impulsionada por Trump e pediu a redução das tarifas após os membros da aliança militar do Atlântico Norte firmarem o compromisso de dedicar 5% de seus PIBs aos gastos com defesa.

O think tank Conference Board relatou esta semana que a perspectiva dos americanos sobre a economia piorou em junho, retomando uma queda que havia levado a confiança do consumidor em abril para seu nível mais baixo desde a pandemia de covid-19, há cinco anos.

O Conference Board informou nesta terça-feira que seu índice de confiança do consumidor caiu para 93 em junho, uma queda de 5,4 pontos em relação aos 98,4 do mês passado.

¨      PIB dos EUA desaba mais que o previsto e pressiona Trump

O Departamento de Comércio dos Estados Unidos divulgou nesta quinta-feira, 26, uma revisão do desempenho econômico do país no primeiro trimestre, indicando uma contração maior do que a estimada inicialmente. A nova leitura mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou a uma taxa anualizada de 0,5%, acima da retração de 0,2% informada na estimativa anterior.

A revisão foi atribuída principalmente à queda nos gastos dos consumidores, que representam mais de dois terços da atividade econômica nos Estados Unidos. Segundo o relatório, o consumo teve crescimento de apenas 0,5% no período, bem abaixo da estimativa anterior de 1,2%.

Além disso, a demanda doméstica, que exclui o impacto do comércio exterior, foi reduzida para uma taxa de crescimento de 1,9%, frente aos 2,5% projetados anteriormente. O resultado marca uma desaceleração significativa em comparação com o quarto trimestre de 2024, quando a economia dos Estados Unidos cresceu a uma taxa de 2,4%.

A contração no início de 2025 é atribuída, em parte, ao aumento de importações no fim de 2024, quando empresas americanas anteciparam compras para evitar as tarifas impostas pelo governo do ex-presidente Donald Trump. A antecipação dessas compras pressionou negativamente o saldo comercial no primeiro trimestre, contribuindo para a retração do PIB.

De acordo com o relatório, as empresas aumentaram suas encomendas de mercadorias estrangeiras no final do ano passado, especialmente veículos automotores, para evitar os efeitos das tarifas. Essa movimentação inflou temporariamente as importações e provocou distorções nas contas nacionais.

Com a normalização do fluxo de importações nos meses seguintes, analistas projetam um desempenho mais favorável da economia no segundo trimestre. O Federal Reserve de Atlanta estima uma recuperação com crescimento de 3,4% no período de abril a junho. A projeção, no entanto, é recebida com cautela por economistas que alertam para sinais de desaceleração em outros indicadores.

Dados recentes sobre vendas no varejo, mercado de trabalho e setor imobiliário indicam que a atividade econômica permanece moderada. Segundo analistas, a elevação de juros promovida pelo Federal Reserve nos últimos trimestres também continua a exercer efeitos sobre o consumo e o investimento.

Embora o desempenho negativo do primeiro trimestre tenha sido atribuído a fatores pontuais, como o ajuste nas importações, economistas alertam que a volatilidade dos dados não deve ser interpretada como sinal de força estrutural. As previsões para os próximos trimestres dependem do comportamento da inflação, da política monetária e da resposta dos consumidores a eventuais mudanças no mercado de crédito.

O relatório do Departamento de Comércio também indicou que estoques e gastos governamentais tiveram influência limitada no resultado do trimestre. As exportações permaneceram estáveis, enquanto os investimentos empresariais tiveram leve retração.

Apesar da expectativa de recuperação no segundo trimestre, a incerteza sobre a trajetória da economia americana persiste. O mercado monitora de perto os próximos indicadores de inflação, emprego e confiança do consumidor, que podem influenciar os próximos passos do Federal Reserve em relação à taxa básica de juros.

Até o momento, o banco central dos EUA não sinalizou alterações significativas em sua estratégia de política monetária, mas dirigentes da instituição têm adotado um discurso cauteloso. A projeção atual é de manutenção das taxas de juros no patamar atual até que haja sinais mais claros de desaceleração sustentada da inflação.

Com o desempenho revisado do primeiro trimestre, o crescimento anual dos Estados Unidos em 2025 dependerá do ritmo de retomada nos próximos trimestres. A possibilidade de expansão acima de 2% ao longo do ano ainda está em análise por parte das principais instituições financeiras.

A próxima leitura do PIB, com os dados do segundo trimestre, será divulgada em agosto e poderá oferecer uma visão mais precisa sobre a consistência da atividade econômica em meio ao atual cenário global.

¨      Trump e o cavalo de Troia digital da privatização da moeda. Por Yanis Varoufakis

Até agora, os banqueiros centrais consideravam as criptomoedas um mero incômodo, de magnitude insuficiente para alterar as políticas que estão sob seu encargo. Mas eles estão muito mais preocupados desde a aprovação, na terça-feira, 17 de junho, da Lei Genius (Lei de Orientação e Estabelecimento da Inovação Nacional para Stablecoins dos EUA) pelo Senado deste país, que segue o decreto assinado pelo presidente Donald Trump em 6 de março e que estabelece uma reserva estratégica de criptomoedas.

Agora temem que Trump se baseie nas “moedas estáveis” (criptoativos cujo valor está indexado a outro produto) atreladas ao dólar para reconfigurar o sistema monetário global (de passagem, fazendo fortuna para ele e sua família). Eles temem um desmantelamento deliberado e caótico da ordem monetária do século XX, na qual os bancos centrais reinavam como os únicos arquitetos da moeda.

O Projeto de Lei Genius permite moedas estáveis privadas; mas há também outro projeto de lei que visa proibir o Federal Reserve (Fed, o banco central estadunidense) de emitir moedas digitais de banco central (MNBC). A adoção definitiva desses dois textos consagraria os tokens emitidos por determinadas empresas como os novos instrumentos da hegemonia do dólar.

Não se trata de uma inovação, mas de uma oferta pública de compra hostil de dinheiro. Na ausência de qualquer regulamentação séria, as moedas estáveis não são nem estáveis nem uma alternativa real ao dólar. Elas nada mais são do que o cavalo de Troia para a privatização do dinheiro.

O Banco Central Europeu (BCE) está ciente do perigo. Se a gestão e o comércio de títulos migrarem para o blockchain – se os títulos, as ações e os derivativos forem “tokenizados” –, os sistemas regulatórios também precisarão se adaptar. A solução do BCE reside em um euro digital que circula através de um blockchain. O dinheiro público, portanto, permaneceria sendo a base das finanças. Até agora, o BCE enfrentava a resistência dos bancos privados alemães e franceses. Agora, enfrenta um segundo problema, ainda mais sério: os Estados Unidos estão indo na direção contrária. Ao proibir as MNBCs e dar sinal verde para as moedas estáveis, a equipe de Trump não está apenas rejeitando a ideia de um dinheiro público digital, mas também terceirizando a supremacia do dólar para as Big Techs.

Feudalismo monetário

Os mesmos libertários que se rebelam contra o Estado agora imploram para que ele transforme suas moedas estáveis em moeda oficial de fato. Pior ainda, exigem o direito de depositar seus tokens nas reservas de um banco central, o Federal Reserve. Imagine um mundo em que Tether, Circle ou um “token X” apoiado por Elon Musk se beneficiam do apoio implícito do Tesouro dos EUA, ao mesmo tempo em que escapam de qualquer regulamentação bancária. Uma forma de feudalismo monetário!

Os Estados Unidos já passaram por esse caos monetário. No século XIX, milhares de bancos selvagens emitiram notas privadas; os pânicos financeiros frequentes deixaram os cidadãos, e particularmente a classe trabalhadora, com papéis sem valor. O próprio J.P. Morgan ficou tão consternado que travou um cabo de guerra com o governo federal e outros banqueiros para criasse o Federal Reserve como uma instituição pública com a missão de estabilizar a moeda.

Os Estados Unidos estão retornando a esse passado, arrastando o resto do mundo consigo. O Genius Act é a receita perfeita para desencadear uma era digital selvagem, na qual as moedas estáveis, indexadas ao dólar, mas controladas por agentes privados, inundariam a economia global com pseudodólares digitais. As stablecoins privadas jamais manterão sua âncora no dólar depois de receberem o imprimatur oficial das autoridades federais e verem seu volume disparar. Mesmo que os países abandonem o dólar, permanecerão prisioneiros de sua sombra digital.

<><> Um renminbi digital

Ciente da ameaça, o Banco Central Europeu acelera a criação de uma “MNBC atacadista”, um euro digital para uso institucional, que serviria como uma solução paliativa: um sistema híbrido projetado às pressas com o objetivo de ganhar tempo até que uma solução regulatória real se apresente.

Mas pode ser tarde demais. Se as moedas estáveis se tornarem a moeda padrão para os mercados de criptomoedas, as finanças descentralizadas e as economias emergentes, o euro digital mal encaminhado do BCE entraria no campo de batalha de uma guerra já perdida.

O único banco central que tomou a iniciativa foi o Banco Popular da China. Com seu próprio renminbi digital já em operação, o Banco Popular da China pode se dar ao luxo de se recusar a conferir legitimidade às moedas estáveis, proibindo-as. No entanto, esta escolha deixaria sem resposta um dilema considerável: as instituições públicas e privadas chinesas acumularam economias de aproximadamente US$ 4,5 bilhões (€ 3,9 bilhões). Deveriam se livrar delas, impulsionando assim o plano de desvalorização do dólar estadunidense da equipe de Trump, ou mantê-las e permanecer expostos à turbulência que o presidente dos EUA é tão bom em causar?

A longo prazo, esta bifurcação monetária pode exacerbar as incertezas geopolíticas. Dois sistemas monetários paralelos – um baseado em moedas públicas emitidas na China, Índia e, potencialmente, na zona do euro, e o outro composto por dinheiro privado cada vez mais dominado por moedas estáveis indexadas ao dólar – inevitavelmente acabariam em conflito. Os banqueiros centrais não são os únicos que têm motivos para se preocupar.

¨      Trump pressiona petroleiras dos EUA para aumentarem a produção após tensão com Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a pressão sobre o setor energético norte-americano em 23 de junho, após uma série de interrupções no tráfego de petroleiros na região do Estreito de Ormuz.

Através de publicações em redes sociais, Trump acusou os produtores de petróleo de contribuírem com os adversários do país e solicitou ao Departamento de Energia que aumentasse imediatamente a produção nacional.

Em uma de suas declarações, Trump utilizou a expressão “Perfure, baby, perfure”, retomando o discurso que marcou sua política energética durante o mandato anterior. A reação ocorreu horas depois de ao menos dois superpetroleiros alterarem suas rotas na região do Golfo Pérsico, o que contribuiu para a elevação dos preços do petróleo ao maior nível dos últimos cinco meses.

Dados de rastreamento das plataformas Kpler e LSEG indicam que as embarcações Coswisdom Lake — fretada pela chinesa Unipec — e South Loyalty — programada para carregar petróleo bruto iraquiano — reverteram seus cursos ao se aproximarem do Estreito de Ormuz em 22 de junho. Após interrupções, ambas retomaram suas rotas parcialmente, mas o episódio gerou atrasos generalizados no transporte de petróleo na região.

Segundo a consultoria Sentosa Shipbrokers, o volume de navios petroleiros, tanto carregados quanto vazios, que atravessaram o Estreito de Ormuz caiu 27% e 32%, respectivamente, na última semana.

Parte das embarcações ancorou nas proximidades de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, enquanto outras foram desviadas para a costa de Omã. Companhias de navegação como Nippon Yusen e Mitsui OSK Lines instruíram suas tripulações a reduzirem o tempo de permanência no Golfo.

As declarações de Trump ocorreram no mesmo período em que seu grupo político tem reforçado propostas para acelerar a produção de combustíveis fósseis. A equipe do ex-presidente defende a flexibilização de regras ambientais, a ampliação da perfuração em áreas públicas e a eliminação de barreiras regulatórias para empresas de energia.

“Temos a maior quantidade de petróleo e gás de qualquer país na Terra – e vamos usá-los”, disse Trump em declaração feita no início deste ano, que voltou a ser repercutida diante dos recentes desdobramentos no Oriente Médio.

A Chevron, uma das maiores produtoras de petróleo dos Estados Unidos, informou um crescimento de 19% em sua produção ao longo de 2024. No entanto, executivos da empresa destacam que o aumento da oferta está condicionado à revisão legislativa sobre os processos de licenciamento de infraestrutura energética. Representantes do setor também apontam a volatilidade dos mercados e disputas judiciais como obstáculos ao crescimento acelerado da produção.

A tensão no Estreito de Ormuz ganhou novos contornos após o parlamento iraniano aprovar uma medida para fechar a passagem marítima, que ainda aguarda a autorização de instâncias superiores do país. Embora o estreito continue operando, o anúncio elevou a percepção de risco para o comércio global de petróleo e aumentou a pressão para que os Estados Unidos adotem ações de resposta imediata.

O Estreito de Ormuz é um dos principais pontos estratégicos para o transporte marítimo de petróleo no mundo. Cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente passa por essa rota. A instabilidade na região é observada com atenção por governos, empresas de energia e mercados financeiros.

A Casa Branca, sob orientação do grupo de Trump, está mobilizando esforços para revisar políticas energéticas nacionais em resposta à emergência declarada no setor. Entre as prioridades estão o incentivo à perfuração em terras federais e o destravamento de projetos que envolvem gasodutos e refinarias.

A decisão de Trump de se manifestar publicamente sobre o tema ocorre em meio a disputas internas sobre a condução da política energética dos Estados Unidos. Enquanto a atual administração adota uma abordagem mista entre expansão da energia limpa e manutenção de reservas fósseis, o ex-presidente tem reforçado o discurso de autossuficiência e independência energética por meio da exploração intensiva de petróleo e gás.

Empresas do setor aguardam os desdobramentos da proposta iraniana e as respostas das autoridades americanas. O mercado global permanece instável diante do risco de bloqueio da principal via marítima de exportação de petróleo do Oriente Médio.

O aumento dos preços, registrado logo após os desvios de rota dos petroleiros, reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade das cadeias logísticas energéticas e o papel dos Estados Unidos no abastecimento global. Para Trump e aliados, a solução está na produção interna em larga escala. O Departamento de Energia, segundo fontes próximas à equipe do ex-presidente, já recebeu orientações para revisar metas e acelerar projetos em andamento.

Com o avanço da tensão geopolítica, os próximos dias deverão ser decisivos para a definição de novas diretrizes de produção e exportação de petróleo por parte dos Estados Unidos. O impacto potencial sobre o mercado global dependerá da resposta política e operacional à ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz e da capacidade do país de elevar sua produção rapidamente.

 

Fonte: DW Brasil/Reuters/IHU/The Cradle

 

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