segunda-feira, 30 de junho de 2025

José Reinaldo Carvalho: O Irã derrotou Israel e os EUA, mas a paz duradoura no Oriente Médio ainda está distante

O anúncio do cessar-fogo entre Israel e Irã, formalizado na última terça-feira (24), após 12 dias de guerra do estado sionista israelense contra o Irã, foi recebido por muitos como um alívio diante do risco iminente de uma guerra regional devastadora. O Irã conquistou importante vitória. Preservou, embora com significativos danos, o seu programa nuclear para fins civis, manteve a coesão nacional, preservou seu governo, a estabilidade da República, a soberania nacional, a integridade territorial, a incolumidade de suas forças armadas e da guarda revolucionária e paralisou, ao menos temporariamente a máquina de guerra dos inimigos.

Ainda há muito a verificar para atestar se o cessar-fogo significará uma paz duradoura ou se será apenas uma trégua temporária. Há muitas interrogações e especulações sobre as reais motivações do chefe da Casa Branca para anunciar o cessar-fogo depois de ter cometido um grave ato de banditismo ao bombardear instalações nucleares do Irã. Com os ataques, os Estados Unidos violaram duplamente o direito internacional. Além de atacar um país soberano, violando abertamente a Carta da ONU, abriu fogo contra instalações protegidas pela Agência Internacional de Energia Atômica.

O desenvolvimento da situação geopolítica, sobretudo no caso de uma guerra tão agressiva contra um país pacífico e independente, com evidentes reflexos na estabilidade internacional, não pode ser examinado com as lentes da retórica trumpista, que tudo vê por meio das lentes da primazia dos interesses imperialistas dos Estados Unidos e de suas exacerbadas ambições pessoais. Donald Trump, muito ao contrário da imagem que difunde, não é um artífice da paz.

Desde o início da guerra e mesmo antes da agressão israelense, Trump e a caterva de reacionários e belicistas que o cercam e monopolizam o poder nos Estados Unidos, tentaram inflamar o conflito, apostando no alinhamento automático com Israel e no discurso de "conter o Irã". No entanto, o desenrolar dos acontecimentos revelou rapidamente as limitações dessa abordagem.

A encarniçada resistência iraniana, sua surpreendente capacidade de luta, o poderio de seus ataques, a contraofensiva maciça empreendida contra Israel, as imagens de destroços em edifícios na capital, Tel Aviv, o ataque à base estadunidense, a resiliência de forças político-militares como o Hezbollah (Líbano), Ansarullah (Iêmen) e de outros agrupamentos do Eixo da Resistência mostraram que o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio não é mais dominado exclusivamente pelos EUA e seus aliados. A resposta iraniana, apesar das bravatas ocidentais, foi contundente e coordenada, revelando uma capacidade militar que expõe a vulnerabilidade de Israel e das bases americanas na região.

Frente a isso, o governo Trump percebeu o risco de uma escalada incontrolável. Não se trata de súbito pacifismo, mas de puro pragmatismo: um conflito de larga escala poderia sair do controle, afetar interesses estratégicos e comprometer gravemente ainda mais a declinante potência imperialista norte-americana, com inevitáveis reflexos negativos na própria estabilidade política e social dos EUA.

Bastaram os primeiros dias de guerra para que os mercados globais reagissem. O preço do petróleo disparou, bolsas despencaram e o fantasma da inflação voltou a rondar economias centrais, inclusive os Estados Unidos. Nos círculos imperialistas instalou-se o medo pânico do fechamento do Estreito de Ormuz. Para um presidente que vende a imagem de gestor eficiente e garante que a América está "no comando", uma crise econômica alimentada por suas próprias decisões militares seria um desastre político.

Além disso, o cálculo eleitoral é inegável. Trump sabe que parte considerável de seu apoio depende da ilusão de prosperidade interna. Um conflito prolongado, com efeitos diretos no bolso dos consumidores, poderia minar sua popularidade e abrir espaço para o avanço da oposição nas eleições legislativas de 2026.

Outro elemento que não pode ser ignorado são os sinais vindos de Tel Aviv. Apesar do tradicional alinhamento incondicional com Washington, o governo israelense sofreu um duro golpe militar e moral, com a evidência de sua torpeza que se soma aos efeitos da condenação unânime pela parte sã da Humanidade dos crimes que está cometendo contra os palestinos em Gaza.

A aceitação do cessar-fogo, mesmo com a retórica agressiva ainda em curso, foi também uma necessidade para o governo de Israel, que precisa salvar-se do colapso.

Outro fator central para entender o recuo de Trump é o avanço geopolítico de China e Rússia na região. O gigante socialista asiático, que já vinha se posicionando como mediador e defensor da estabilidade no Oriente Médio, ganhou espaço político diante da agressividade ocidental. Moscou, por sua vez, fortaleceu suas relações com o Irã.

Trump sabe que um conflito prolongado e descontrolado só serviria para acelerar o declínio dos EUA e abrir ainda mais espaço para os rivais estratégicos. Apesar da retórica belicista, o governo americano enfrenta limitações concretas. Décadas de guerras fracassadas no Oriente Médio deixaram um legado de cansaço, rejeição interna a novas aventuras militares e vulnerabilidade estratégica. As bases americanas na região estão ao alcance dos mísseis iranianos, e o custo humano e material de um conflito direto seria altíssimo.

Trump, que se vende como "presidente da força", sabe que iniciar uma guerra cujas consequências não pode controlar seria politicamente suicida. Por isso, apesar da retórica, foi obrigado a recuar.

É fundamental compreender que o cessar-fogo não resolve as causas profundas da agressão permanente dos sionistas ao Irã e demais países do Oriente Médio. A guerra de Israel e dos EUA contra o Irã segue latente. As disputas geopolíticas, os interesses estratégicos e as ambições regionais continuam a alimentar um cenário de instabilidade crônica.

A região ainda está distante da paz duradoura. Por isso, os países que se empenham pela multipolaridade, por um novo equilíbrio do mundo, os povos e os movimentos progressistas devem manter o olhar crítico e vigilante. A paz verdadeira não virá das potências imperialistas. Só a mobilização dos povos, a luta constante pela autodeterminação, justiça e paz podem deter a mão criminosa do imperialismo e do sionismo.

¨      Sobre a guerra Israel – Irã – EUA. Por Fábio Cesar  Alves Cunha

A guerra Israel-Irã e a entrada, por enquanto superficial, dos EUA no conflito, com o bombardeio às instalações nucleares do Irã e a sua retaliação à base militar estadunidense no Catar, nos mostram algumas evidências, discutidas a seguir.  

Está mais que comprovado que não é mais possível confiar nos EUA como nação que pode trazer alguma paz para o mundo. Mesmo não admitindo no início, os EUA deram o aval para que Israel atacasse o Irã, no dia 12 de junho, ainda durante negociações diplomáticas sobre o não enriquecimento do urânio no país islâmico. Isso por si só é um ato de covardia e desrespeito às leis internacionais. Trump abala a reputação de seu país. 

O governo de Israel, que já vem sendo criticado pelo mundo todo pelas ações genocidas na Faixa de Gaza, aproveitou a oportunidade para fazer os ataques de surpresa. Atacou instalações nucleares, assassinou militares, cientistas ligados ao programa nuclear iraniano e seus vizinhos com os bombardeios. Famílias inteiras foram aniquiladas. Israel, achando que resolveria os problemas com esses ataques, acabou pagando caro com a retaliação que o Irã iniciou no mesmo dia.  

Em abril de 2024, Israel já havia realizado um ataque à embaixada iraniana em Damasco, na Síria. Algo até então nunca visto, já que as embaixadas são protegidas por tratados diplomáticos históricos que não permitem qualquer tipo de agressão a esses locais, pois são considerados territórios estrangeiros que não podem ser violados. Naquele mesmo mês, o Irã atacou Israel, não sem avisar o mundo de seu ataque. Com 170 drones, 120 mísseis balísticos e 30 mísseis de cruzeiro, o “Domo de Ferro”, sistema de defesa aérea do qual Israel se orgulha, não impediu que duas bases militares fossem atingidas. Esse ataque já deixava claro, no ano passado, que o poder de atingir Israel com facilidade era uma nova realidade e sua hegemonia no oriente médio não existia mais. O Irã se mostrou com grande capacidade de armamentos e uma tecnologia muito desenvolvida. 

Esta constatação se provou mais uma vez com a retaliação sem precedentes que o Irã impôs a Israel. Este país, até então, nunca havia sido atacado como foi, apesar de a mídia ocidental tentar esconder isso. Os mísseis hipersônicos, tecnologia que o ocidente ainda não detém, é bom frisar, foram os protagonistas da devastação que o Irã impôs pela primeira vez ao território israelense. Os sistemas de defesa aérea de Israel não deram conta dos intensos ataques do Irã. As qualidades do “Domo de Ferro”, tão propagadas por Israel, evaporaram. O mito da invencibilidade israelense acabou, a ponto do seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, correr para pedir socorro aos EUA, solicitando um cessar-fogo imediato. Os EUA tiveram que realizar um ataque “brando” ao Irã, para tentar de qualquer forma o cessar-fogo implorado por Israel.  

Estamos agora vivenciando um cessar fogo sem saber até quando vai, mas já é possível apontar que o Irã tem vários argumentos para não mais confiar na Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Esta se mostrou não mais confiável, desonesta, pois não condenou Israel ao atacar instalações nucleares. Passou informações até dos endereços dos cientistas iranianos que foram assassinados pelos ataques realizados. O Irã tem vários motivos para não mais compactuar com esta Agência que é, na verdade, um instrumento de sabotagem a serviço do Ocidente.  

Os ataques implementados por Israel e pelos EUA não enfraqueceram militarmente o Irã, nem o seu programa nuclear. O Irã já declarou que continuará com seu programa de enriquecimento de urânio; se será para fins pacíficos, depois disso tudo, ninguém sabe. As consequências ainda são uma incógnita.  

Trump e Netanyahu conseguiram tirar o Irã do acordo nuclear fechado com Obama em 2017, no qual o Irã se limitava a enriquecer o urânio em seu território. A própria chefe de inteligência dos EUA, que havia declarado que Teerã não estava desenvolvendo armas nucleares, foi afastada das reuniões! Trump e Netanyahu podem ter jogado o Oriente Médio em um conflito sem precedentes, inclusive, nuclear.  

O Paquistão já anunciou que pode fornecer armas nucleares para o Irã.  

Rússia e China, aliados do Irã, também já anunciaram que este país terá total apoio. Tudo pode escalar para uma situação inimaginável.  

As armas nucleares têm o poder da dissuasão, isto é, de convencer alguém a deixar de fazer algo. Sem serem detonadas, servem para fazer com que o inimigo mude de ideia e desista de atacar. Neste ponto, as armas nucleares podem ser consideradas também instrumentos de paz. Se o Irã já possuísse uma arma nuclear, Israel não teria realizado o ataque do dia 12 de junho. 

¨      'Irã não tem nenhum plano de se reunir com Estados Unidos', afirma chanceler

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, contradisse nesta quinta-feira (26/06) a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que Washington planejava manter negociações com o Irã na próxima semana.

“O Irã atualmente nenhum plano de se reunir com os Estados Unidos”, disse o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.

O ministro iraniano afirmou que Teerã está avaliando se as negociações com os Estados Unidos são de seu interesse, após cinco rodadas de negociações realizadas antes dos ataques de Israel e da cumplicidade dos Estados Unidos.

Não leve suas palavras muito a sério. Nenhum acordo foi alcançado para iniciar as negociações. Estamos considerando qual caminho seguir em função dos interesses do Irã”, declarou Abbas Araghchi.

<><> Danos

Quanto à política de pressão máxima dos EUA para impedir o Irã de exercer seus direitos, ele apontou: “eles também tentaram nos persuadir a abrir mão de nossos direitos durante as negociações, mas quando não alcançaram o resultado desejado, usaram meios militares contra a nação iraniana. Defendemos os direitos da nação iraniana durante as negociações. Não conseguindo chegar a um resultado, eles deram ao regime sionista carta branca para atacar o Irã“.

Os Estados Unidos e Israel asseguraram que os ataques tinham como objetivo impedir a capacidade do Irã de produzir armas nucleares, enquanto o Irã sustenta que seu programa nuclear visa exclusivamente o uso civil.

O ministro das Relações Exteriores afirmou que o dano causado às instalações nucleares “não foi pequeno” e que as autoridades competentes estão considerando o novo contexto do programa nuclear iraniano que informará a futura postura diplomática do Irã.

Em 22 de junho, os EUA bombardearam as instalações de Natanz, Isfahan e Fordó. Informações recentes confirmam que estes locais poderão em breve retomar o seu programa nuclear de caráter pacífico.

Teerã denunciou como agressão ilegal os recentes ataques dos Estados Unidos contra as suas instalações nucleares pacíficas, que estavam sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O país acusa Washington de violar a sua soberania, a Carta da ONU e o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi

 

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