'Indústria
de alimentos adotou métodos da indústria tabagista de semear dúvidas sobre
pesquisas e recrutar influenciadores'
A
nutricionista americana Marion Nestle tinha 65 anos de idade e décadas de
experiência como pesquisadora quando publicou o livro que transformaria não
apenas sua carreira, mas o debate sobre comida e nutrição nos Estados Unidos.
Na
época em que Food Politics: How the Food Industry Influences Nutrition and
Health ("Política alimentar: como a indústria de alimentos influencia a
nutrição e a saúde", em tradução livre) foi lançado, em 2002, as decisões
sobre alimentação costumavam ser consideradas puramente uma questão de
responsabilidade individual.
O
livro, no entanto, argumentava que, por trás disso, havia um sistema projetado
para incentivar as pessoas a comerem mais e desencorajar escolhas saudáveis. Um
sistema no qual a indústria de alimentos e seu lobby têm grande influência
sobre políticas governamentais, e a preocupação principal é o lucro, não a
saúde pública.
"As
empresas de alimentos criam um ambiente que estimula o consumo excessivo de
comida, por meio de publicidade, marketing indireto, brindes, redes sociais,
apoio a organizações, apoio a pesquisas", diz Nestle em entrevista
exclusiva à BBC News Brasil.
"E,
longe da vista do público, [há] lobby e financiamento de campanhas eleitorais.
A responsabilidade pessoal não tem chance contra essa investida esmagadora.
Tentar comer de forma saudável nesse contexto significa que você está
enfrentando sozinho todo o sistema alimentar."
Uma de
suas motivações para escrever o livro foi a frustração ao ouvir, repetidamente,
a ideia de que, para combater a obesidade infantil, o segredo era ensinar as
mães a alimentar seus filhos de forma mais saudável.
Ao
colocar a responsabilidade nas mães, esse debate não mencionava como as
empresas direcionavam o marketing de junk food (comida de baixo valor
nutricional e alta densidade calórica) para as crianças.
Ela
revolucionou essa discussão ao mostrar como forças econômicas influenciam
decisões individuais sobre o que comer e, assim, têm impacto nas taxas de
obesidade e doenças crônicas.
"Gosto
de dizer que a indústria alimentícia não é um serviço social ou uma agência de
saúde pública. Seu propósito, seu único propósito, é gerar lucro para os
investidores. Se não fizer isso, os investidores reclamam, e os preços das
ações caem", afirma Nestle, cujo sobrenome se pronuncia "Néssol"
e não tem nenhuma relação com a empresa Nestlé.
"O
trabalho de uma empresa de alimentos é vender mais comida, não menos,
independentemente do efeito de seus produtos na saúde. Sendo bem direta: [a
população] comer menos é ruim para os negócios."
Nestle
já tinha uma trajetória respeitada, mas a publicação do livro consolidou sua
posição como uma das principais autoridades em nutrição e política alimentar
dos Estados Unidos.
Ela
inspirou gerações de nutricionistas e ativistas e, aos 88 anos de idade,
continua sendo uma das vozes mais influentes nesse campo.
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Trajetória profissional
Seu
olhar crítico é apoiado pelo treinamento formal como cientista, e ela costuma
dizer que muitas vezes já atacaram suas opiniões, mas nunca o rigor científico
de seu trabalho.
Apesar
de sempre ter se interessado por comida, o foco em nutrição ocorreu por acaso.
Em 1968, após concluir doutorado em Biologia Molecular pela Universidade da
Califórnia em Berkeley, ela foi contratada como bolsista de pós-doutorado na
Universidade Brandeis, em Massachusetts.
Depois
de alguns anos dedicados a pesquisas no Departamento de Biologia da
universidade, foi encarregada de lecionar um novo curso que a Brandeis havia
criado, sobre nutrição.
Como
sua formação não era nessa área, mergulhou em livros e pesquisas sobre o tema
para se preparar. Ela conta que, ao fim desse processo, estava apaixonada pelo
assunto, dando início a uma virada em sua trajetória profissional.
Em
1976, foi contratada como professora de Biologia e Ciência da Nutrição na
Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF),
onde permaneceu por dez anos. Durante esse período, também obteve um mestrado
em Nutrição em Saúde Pública.
Nestle
teve uma breve passagem por Washington, onde foi consultora sênior de política
de nutrição para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA por dois
anos. Foi nessa época, após ver de perto o poder da indústria de alimentação
nas políticas do governo, que começou a trabalhar no livro Food Politics.
Em
1988, chegou à Universidade de Nova York (NYU, na sigla em inglês) com a
incumbência de modernizar o que era na época o Departamento de Economia
Doméstica e Nutrição. Sob seu comando, surgiu o Departamento de Nutrição e
Estudos Alimentares.
A
iniciativa de dedicar um programa acadêmico ao estudo não apenas de nutrição ou
nutrientes individuais, mas da alimentação como um todo, incluindo implicações
sociais, culturais e políticas, foi pioneira na época e teve grande influência.
Hoje, outras universidades nos Estados Unidos e outros países têm programas do
tipo.
Nestle
se aposentou oficialmente em 2017, mas mantém o título de professora emérita de
Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da NYU e não dá sinais de que
pretenda parar. Ela continua viajando pelo país em palestras e eventos e é uma
das principais fontes de referência para jornalistas e documentaristas sobre o
tema.
Depois
do sucesso de Food Politics, publicou mais de 15 livros sobre segurança
alimentar, política alimentar e nutrição, vários deles premiados. Em 2022,
lançou um livro de memórias, relembrando sua carreira.
Ela tem
dois títulos com lançamento previsto para este ano, entre eles What to Eat Now
("O que Comer Agora", em tradução livre), versão atualizada de What
to Eat ("O que Comer"), de 2006, e já trabalha em um novo projeto
para o ano que vem.
Nestle
tem mais de 130 mil seguidores na rede social X e mantém um blog, Food
Politics, no qual publica notícias, análises e críticas sobre políticas
alimentares.
Um dos
alvos constantes de suas críticas no blog é o financiamento corporativo de
pesquisas sobre nutrição, que considera mais publicidade do que ciência, já que
buscam demonstrar benefícios para os produtos do patrocinador. Ela já comparou
a indústria de alimentos à indústria tabagista.
"A
indústria de alimentos adotou o manual da indústria tabagista, os métodos que
esta empregou para lançar dúvidas sobre pesquisas desfavoráveis e recrutar
influenciadores para defender seus produtos", afirma.
"As
empresas de alimentos semeiam dúvidas sobre estudos desfavoráveis, financiam
suas próprias pesquisas, contratam pesquisadores como consultores, insistem na
autorregulação, reclamam que as regulamentações constituem um estado
paternalista, fazem lobby e financiam campanhas eleitorais. Elas são muito boas
em tudo isso."
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Comida 'de verdade'
Ao
refletir sobre o que mudou nas cinco décadas desde que começou sua carreira
nesse campo, Nestle diz que o interesse público em nutrição e saúde é hoje
maior do que nunca.
Mas, em
um ambiente em que proliferam modismos, dietas milagrosas e informações muitas
vezes contraditórias, lembra que as recomendações básicas para uma alimentação
saudável são simples e continuam as mesmas de décadas atrás.
"Nos
anos 1950, para prevenir doenças crônicas, éramos aconselhados a comer mais
frutas, verduras, legumes e grãos, reduzir a ingestão de sal, açúcar e gordura
saturada e equilibrar a ingestão e o gasto de calorias. Ainda recebemos as
mesmas recomendações", afirma.
Nestle
diz ignorar a onda de influenciadores que fazem sucesso nas redes sociais com
fórmulas e memes sobre nutrição.
"Infelizmente,
muita gente presta muita atenção. Meu conselho: descubra quem os está
patrocinando".
Sua
dica para uma alimentação saudável, que ela própria garante seguir "com
facilidade", é manter uma dieta variada, com comida "de
verdade", dando preferência a frutas, verduras, legumes e grãos, sem
exagerar nas porções.
Nestle
também ressalta a importância de evitar alimentos ultraprocessados, que estão
ligados a consequências negativas para a saúde e são definidos por ela como
"aqueles produzidos industrialmente para serem irresistíveis, se não
viciantes, cheios de sal, açúcar, calorias e aditivos industriais, e
impossíveis de serem feitos na cozinha da sua casa".
"As
recomendações básicas de alimentação não mudam muito, ou quase nada. Onde há
divergências é na forma de elaborar dietas que sigam essas orientações",
ressalta.
"Há
muitas maneiras de escolher dietas que sigam os princípios fundamentais. O
quanto você come é tão importante, se não mais, do que o que você come. A
comida é um dos grandes prazeres da vida. Saboreie o que você come!"
Nestle
elogia a política alimentar de países da América Latina, especialmente o
Brasil.
"Países
latino-americanos lideram em iniciativas de saúde pública para proteger
crianças contra a publicidade de alimentos ultraprocessados", afirma.
"As
diretrizes alimentares do Brasil são as mais inovadoras do mundo. Rótulos de
advertência, restrições à publicidade e restrições [de ultraprocessados] na
alimentação escolar são avanços gigantescos. Quem dera tivéssemos isso [nos
Estados Unidos]."
Fonte:
BBC News Brasil

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