Precariedade
e violência escolar: prevenção como única solução
A
violência escolar está crescendo, o convívio escolar torna-se mais caótico e os
resultados cognitivos e psicológicos da educação pioram a níveis alarmantes.
Neste sentido, a UNESCO, a OCDE, a ARTEBRA, e outras organizações que pesquisam
a Educação vêm detectando e alertando há muitos anos sobre o crescimento global
do analfabetismo funcional (AnF), com poucas exceções. No Brasil, muitos dos
estudantes de escola pública são analfabetos funcionais (ARTEBRA, 2024c). Isto
não é apenas uma “outra variável”, mais um elemento central na causalidade da
violência escolar.
Os
seminários que a ARTEBRA oferece às comunidades escolares sobre este tema,
começam com a seguinte reflexão: “a violência é uma expressão que nem se trata
nem se enfrenta, a solução é substituí-la por mecanismos civilizados…”. Embora
à primeira vista pareça uma formulação romântica, ela se fundamenta num
conhecimento científico que os seminários tentam promover.
Este
artigo se baseia em diversas pesquisas sobre a violência escolar no Brasil,
realizadas entre 2002 e 2024, as quais combinam análise estatística das seis
maiores cidades do país, com estudos de caso conduzidos pela ARTEBRA em escolas
públicas de Salvador/BA (2023, 2024, 2024c), e com uma análise multidisciplinar
e multidimensional que entende a violência sistêmica como consequência de
desigualdades estruturais, fundamentalmente na distribuição de renda e
patrimônio público, no acesso a serviços públicos de qualidade, e na garantia
de direitos e mecanismos de justiça, realidades que se configuram e vivenciam
como violência institucional. Em termos gerais, estes estudos revelam:
• Aumento de 260% nos casos de violência
escolar (2015-2024) e 310% em incidentes graves com dano físico (2022-2024)
• Subnotificação de casos de assédio
sexual, sendo 92% das vítimas mulheres menores de idade. Em mais de 3.300 casos
em Salvador, entre 2022 e 2024, apenas um em cada três é reportado e tratado
adequadamente pela gestão educacional.
• Custo anual da violência escolar na rede
estadual da Bahia: R$ 240 milhões, incluindo gestão, saúde e patrimônio.
• 80% da violência física concentra-se em
um terço dos alunos.
• A percepção mais recorrente na maioria
dos estudantes, educadores e famílias é que “a escola não é um lugar seguro” e
“a estrutura funcional é insuficiente para o ensino-aprendizagem acontecer”,
com referências explícitas à gestão e à legislação.
• Apesar de as abordagens socioeducativas
e soluções preventivas terem se mostrado eficazes, 72% das escolas continuam
sem suporte psicossocial, chegando a 85% no Norte-Nordeste. Enquanto isso,
políticas públicas como o Programa Escola Segura priorizam o controle e a
punição, mas não a prevenção.
A
violência escolar é uma categoria particularmente complexa e multi-causal. Como
ensinam Foucault (1991) e Bourdieu (2008), trata-se de uma rede de
determinações que envolve micro-poderes institucionais e macroestruturas
sociais, que reproduzem no ambiente escolar distintas versões dos conflitos
sociais. Como toda dimensão social, a violência escolar também se constitui a
partir da subjetividade que cada sujeito carrega e com a qual interage para
construir fenômenos sociais.
Cria-se
assim um circuito dialético onde ambas as dimensões, individual e social, se
reconfiguram, e no qual a subjetividade opera como mediação das experiências
psico-afetivas (BOWLBY, 1989), e onde os mecanismos defensivos filtram e
ressignificam as relações inter-pessoais que se dão na escola³. Nesta dinâmica,
a violência emerge quando falham tanto os processos identificatórios quanto as
estruturas de gestão e acolhimento institucional (WINNICOTT, 1965). Como bem
nos lembra Lacan (1966) toda agressividade é a consequência do fracasso do
sujeito em reconhecer o outro como um semelhante, com estatuto simbólico
equivalente ao próprio. Importante aclarar que este processo de construção
simbólica não se dá pela simples interação e articulação racional, mas requer
de um trabalho psíquico profundo, sustentado pela mediação do desejo, da
linguagem e das experiências de alteridade.
Embora
a maior parte dos estudos focalize na violência que envolve agressão física, se
entende que a violência simbólica também produz danos concretos, mesmo que
geralmente não sejam imediatos. No nível mais fundamental, os atos de violência
física respondem a um acúmulo de tensão angustiante que a mente não consegue
metabolizar. Esta incapacidade gera uma perda momentânea do controle mental
sobre os atos.
Os
mecanismos de defesa contra a angustia como a projeção e a sublimação são
processos de simbolização que exigem um certo grau de desenvolvimento do
pensamento abstrato, e um amadurecimento das funções cognitivas e afetivas.
Estudos sobre o perfil dos educandos agressores nas escolas mostram que a
incapacidade apontada antes tem relação com a ausência de funções mentais
específicas, como a tolerância à frustração, a projeção dos atos, e a
consistência da própria imagem. Esta insuficiência psicológica está fortemente
ligada a limitações na capacidade de abstração, evidenciadas numa disfunção no
uso da linguagem e na compreensão lógico-matemática.
Em
todas as
escolas públicas estudadas
observou-se uma correlação
forte (r = 0,44, p < 0,05) entre os índices de violência e de
analfabetismo funcional. Embora nem a literatura nem a matemática acalmem os
ânimos violentos, o exercício mental requerido num ensino-aprendizagem bem
dirigido amplia a capacidade de abstração e permite à criança desenvolver
funções mentais mais complexas, o que por sua vez se traduz num maior controle
mental sobre a angustia e os próprios atos através da simbolização.
É esta
condição a que reduz a probabilidade de uma agressão física acontecer,
diminuindo a violência escolar de maneira geral.
Os
limites, enquanto estruturas internalizadas nas relações sociais, permitem à
criança construir seu mapa de possibilidades através da experimentação. Essas
fronteiras, presentes nos âmbitos familiar, escolar e comunitário, precisam
integrar tanto normas explícitas quanto códigos culturais sutis, evidenciando o
papel central das interações no desenvolvimento. Contudo, os educadores
identificam predominância de comportamentos agressivos e apáticos entre os
alunos, associados ao aumento da violência doméstica a partir da pandemia
(2020) e à fragilidade dos vínculos familiares; mais da metade dos alunos acima
de 10 anos não têm presença paterna regular.
Essa
carência relacional dificulta a construção da empatia, sobrecarregando escolas
despreparadas para suprir tais lacunas. Paradoxalmente, as próprias
instituições educacionais, ao negligenciar gestão humana e infra-estrutura
reproduzem violência simbólica através de instalações precárias, tratamento
depreciativo e contradições pedagógicas (UNESCO, 2003). Esse ciclo evidencia a
erosão da autoridade escolar, convertendo-a simultaneamente em causa e
consequência da violência estrutural.
• A violência institucionalizada
A
violência que parece brotar “do indivíduo” é, na verdade, a ponta visível de um
iceberg de falhas sistêmicas; famílias desestruturadas pela precarização do
trabalho (MÉSZÁROS, 2008); currículos que ignoram o processo de desenvolvimento
e as diversidades culturais (GIROUX, 1997); e políticas públicas que
transformam escolas em depósitos de crianças. Nos enfrentamos assim com outro
paradoxo central: se por um lado a violência sempre se manifesta através de
indivíduos concretos (com suas histórias, traumas e mecanismos defensivos), por
outro, ela só se sustenta como padrão recorrente quando há um contexto
institucional que a permite e estimula. É o que Saviani (2018) chama de
“violência da não-aprendizagem”, quando a escola, ao não cumprir sua função
social de transmissão cultural e desenvolvimento humano integral, propícia a
geração de frustrações que logo se convertem em agressividade, deteriorando
todo o sistema de relações interpessoais e retroalimentando os conflitos
sociais que na escola se vivenciam.
Quando
entendemos esta dinâmica vemos que tratar educandos “problemáticos” não é
suficiente, sendo fundamental reconstruir aquilo que Vygotsky (2007) chamava de
“mediação social do desenvolvimento”, criando espaços educativos que
transformem a agressividade potencial em energia criativa. Isto não constitui
apenas uma questão pedagógica, trata-se antes de uma política institucional que
precisa ser pensada e instrumentalizada.
Neste
sentido, a realidade brasileira, e em particular o Estado da Bahia onde se
concentraram os estudos sobre a violência escolar, continua muito aquém de
cumprir esta função com responsabilidade e eficácia. Todas as camadas de
gestão, desde os núcleos territoriais até as diretorias das Secretarias de
Educação, continuam sendo tratadas e configuradas como palcos da política
partidária. O amadorismo nas gestões e a fragilidade dos mecanismos de
prestação de contas geram um padrão de contradições sistêmicas (entre
discurso/prática, normas/aplicação, e planejamento/resultados) cuja
irracionalidade crônica produz efeitos psicossociais patogênicos. Estes
efeitos, além de minarem a credibilidade do sistema educacional e a saúde
mental da comunidade escolar, configuram uma meta-mensagem que diz para as
crianças que os adultos e a autoridade (o Estado) não se importam com elas.
Nesta realidade, o único resultado social possível de uma rede escolar é o
subdesenvolvimento humano e a violência generalizada.
A
interrupção do processo democrático (impeachment de 2016) e a configuração de
um Estado quase-militar legitimado a partir de uma eleição democrática (2018)
demonstraram que ainda uma grande parcela da sociedade brasileira é conivente e
propensa ao autoritarismo, fato que inevitavelmente as crianças percebem e
adquirem como referencial, com o agravante de que ao não possuírem a
racionalidade suficiente para compreender o que acontece, ficam expostas a
quaisquer tipos de interpretações e identificações com atos violentos.
Ao
mesmo tempo, as políticas de segurança tem se mostrado ineficazes em legitimar
a autoridade do Estado e proteger as áreas mais vulneráveis. O uso da
violência, além de não produzir os resultados esperados, provocou um mal-estar
geral e criou uma identificação da autoridade com o agressor delinquente. Isto
tem criado mais um foco de violência institucional e contradições que afetam às
comunidades escolares. Frente a impossibilidade de gerir programas de prevenção
da violência e de melhorar a gestão educacional, as escolas se vêm forçadas a
conviver com uma constante presença policial.
Desta
forma o Estado gera mais uma meta-mensagem negativa que diz para as crianças
que a escola é um lugar inseguro e que seus gestores são incapazes de exercer
sua autoridade.
A pesar
de todas as evidências alguns gestores e educadores ainda sustentam a ilusão de
“pacificar” adolescentes agressivos com algumas semanas de diálogo racional e
terapêutico, sem entender que as mudanças súbitas no comportamento quase nunca
constituem a resolução do conflito, mas apenas uma acomodação sintomatológica
passageira. Sucessivos erros conceituais na política de Estado e as
inconsistências na comunicação institucional converteram a violência numa forma
de comunicação urbana, naturalizando-a. Esta situação se evidencia nas soluções
até agora propostas para lidar com a violência escolar: detector de metais,
presença policial e monitoramento permanente, elementos que já fracassaram nos
EUA, país com maior número e proporção de mortes nas escolas por atos
violentos. Como bem nos lembra Judith Butler (2010)9 a violência não é somente
um ato físico mas também uma forma de produzir e regular identidades.
Outro
fator central é a persistente tentativa em mascarar a principal característica
de todo ato violento: em 88% dos casos dentro da escola, e 95% fora da escola,
os agressores são homens.
Contudo,
observa-se uma aplicação irregular das informações de gênero nos dados sobre
violência, mesmo quando estes dados estão disponíveis. Nos países pesquisados
(G20) as estatísticas oficiais categorizam os dados por tipo de crime (físico,
sexual, doméstico) e por vítima, mas rara vez fornecem dados consolidados sobre
o perpetrador. Esta realidade global e transcultural acerca do gênero da
violência possui uma explicação psicológica consistente, mas as políticas
praticadas em alguns países (Brasil, EUA e Índia, dentre outros) é refratária a
essa compreensão, e propõe entender e tratar a violência como sendo um
comportamento humano transversal, sem nenhuma característica marcante. Ora se o
fato de 95% dos atos violentos serem cometidos por homens não é uma
característica marcante, o que seria então? O silêncio e a naturalização deste
fato persistente na realidade evidenciam o caráter profundamente patriarcal da
maioria dos sistemas socioculturais, fator considerado como o principal
obstáculo para a implementação de soluções eficazes na prevenção da violência.
• A violência como entretenimento
A
violência midiatizada parece atingir crianças e adolescentes de uma forma
peculiar. Veicular em excesso cenas de agressão praticadas por menores
constitui um fator de risco para o comportamento agressivo. Como falou um jovem
numa entrevista: “a mídia te leva a enxergar um mundo que você vai, você entra
nele sem saber. Quando você vê, você já fez qualquer coisa…”. O cinema, a TV,
os games e a realidade virtual re-significam a violência como entretenimento,
espetacular e glamoroso, excitante e relaxante ao mesmo tempo; a virtualidade
não transmite a essência da dor. O efeito por acumulação em longo prazo num
mundo globalizado é um novo espaço simbólico no qual a violência deixa de ser
violenta e condenável e ganha um novo sentido “pacifico, justo e recreativo”,
tal como expressado por alguns agressores nas entrevistas.
Existem
fortes indícios de que a exposição intensa de crianças a cenas de violência
naturaliza a resposta num sentido fisiológico e psicológico. A mente se
acostuma às “cenas” de violência, o cérebro aprende com cada repetição, a
sensação da experiência se torna prazerosa porquanto se trata de uma
ficção-entretenimento, e assim a resposta violenta adquire diversos sentidos,
extrapolando o campo ético e normativo. Segundo os estudos longitudinais
conduzidos com crianças, a exposição repetida à violência midiática reduz
respostas emocionais (como a ansiedade) e normaliza comportamentos agressivos.
Na opinião de Weber (2006), cenas violentas ativam o sistema de recompensa
cerebral (via dopamina), especialmente em indivíduos com baixa empatia, criando
uma associação entre violência e prazer. Pesquisas dos anos 60 e 70 já
indicavam que a violência midiática oferece modelos substitutivos de
comportamento quando os reais falham.
Este
influxo da imagem aumenta quando a criança não possui uma relação de diálogo
com a família e quando o convívio escolar não se registra como uma experiência
satisfatória; condições estas que impossibilitam os processos identificatórios
que a criança precisa vivenciar para se desenvolver mentalmente de forma plena.
Quando as condições para que a criança consiga operar seu desenvolvimento são
insuficientes a dificuldade resultante é convertida em rejeição ao processo de
socialização e a todos seus elementos.
Lembrando
a correlação entre comportamentos violentos e analfabetismo funcional, pode-se
afirmar que todo subdesenvolvimento cria as condições de possibilidade para um
aumento de atos violentos envolvendo agressão física.
A mídia
audiovisual atua sobre a configuração de referentes e padrões culturais com a
mesma eficácia (potencial) da propaganda comercial. Através da “saturação”, a
mente se “adapta”, re-configura sentidos e logo respostas. O próprio conceito
de “entretenimento” é viciado de sinais contraditórios. Artistas, influencers,
jogadores de futebol e políticos são convertidos em protótipos de sucesso.
Assim, a ascensão social é associada à sorte, à fama ou ao talento inato,
tornando a educação e a capacidade intelectual elementos de menor valor.
O
processo de refletir e aprender, outrora viabilizado pela educação, agora é
substituído pelo dizer e o agir.
A pesar
das campanhas de comunicação institucional que tentam dar sustentação a
personagens políticos, é impossível ocultar do espectador a cultura do
privilégio e da impunidade. Assim, a sociedade, e em particular a criança,
“registra e aprende” que é possível se eximir de toda responsabilidade e
castigo, e utiliza esses aspectos da realidade, amplificados pela mídia, para
alimentar a ilusão de ter acesso a esse espaço de privilegio, onde tudo é
possível. Porém, quando o desejo ou necessidade é impedido por algum fator da
realidade, a frustração logo se processa como rejeição e exclusão, e em seguida
ódio, criando a pre-condição para um ato violento.
• A violência como paradigma cultural
A
cultura individualista do prazer, do não-limite como expressão de liberdade, e
do cancelamento do outro como mero obstáculo, banaliza as relações sociais,
dificulta as interações, e faz com que a imposição pela força se torne o padrão
para a solução de conflitos. Eis que a violência se naturaliza, se legitima e
adquire novas formas (discriminação, intolerância, denigração). Nas pesquisas
realizadas observa-se uma forte interdependência entre o desenvolvimento de
laços coletivos, a organização social e a diminuição da violência. Quando as
condições de existência socioeconômicas impedem estes movimentos a violência
cresce.
O
processo civilizatório não é uma disposição natural (ELIAS, 2011), mas uma
conquista frágil que depende da internalização de códigos que surgem da relação
com construções sociais (cultura, educação, leis, ciência). Por sua vez, estas
construções operam de várias formas através de aparelhos ideológicos que
naturalizam as normas (famílias, escolas, mídias); por meio de economias
simbólicas que valorizam elementos da cultura; e pela neuroplasticidade social
que converte conjuntos de estímulos repetidos em circuitos cerebrais. Neste
contexto, a indústria do entretenimento infantil-adolescente não é inocente nem
inócua; ela produz conteúdos simbólicos que podem subverter a ordem
civilizatória, reforçar estereótipos e dessensibilizar indivíduos. Como já
alertava Adorno (1954), a “semi-formação cultural”, isto é, quando o
entretenimento substitui à educação, produz sujeitos incapazes de pensamento
crítico, vulneráveis ao fascismo cotidiano. Daí a urgência de implementar
mecanismos de regulação ética dos conteúdos, educação midiática desde a escola,
e produção coletiva de narrativas autênticas.
Sem a
institucionalização sistemática desse trabalho social e multidimensional, que
inclui família, escola e políticas públicas, a barbárie converte-se na norma,
não por determinação biológica, mas por omissão civilizatória dos fluxos
simbólicos que moldam nossas subjetividades.
• Recomendações para a prevenção da
violência escolar
Talvez
a posição epistemológica para construir soluções eficazes na prevenção da
violência escolar seja entender que um enorme dano já foi causado, e o que
vivemos hoje são algumas das consequências. Porém, não admitamos isso e
possamos ativamente reparar esse dano, a situação continuará se degradando.
Mas, o que implica reparar o dano? Implica entender que algumas medidas
extraordinárias são necessárias temporariamente, e que isto representará um
custo adicional. Portanto, faz parte essencial de uma solução definir ações
restauradoras e revisar o orçamento da educação.
• Sistema de prevenção da violência
escolar
Há
consenso e evidência científica suficiente acerca da necessidade de
disponibilizar nas escolas um Sistema de Prevenção da Violência Escolar, que
envolva métodos, procedimentos, software, equipamentos e material de
treinamento, elaborados com uma abordagem multidisciplinar e multidimensional.
Este
sistema deveria interconectar às escolas para melhor identificar, compreender e
prevenir condutas e ambientes violentos, compartilhando o conhecimento
apreendido. Ao mesmo tempo, deveria servir de suporte para organizar as
atividades socioeducativas que são essenciais no processo de prevenção da
violência.
Um
sistema eficaz também deve organizar um suporte psicossocial que permita
conhecer o perfil psicológico do educando e suas famílias, e forneça os
tratamentos e acompanhamentos adequados. É fundamental identificar a função
terapêutica de algumas atividades, tais como as competições periódicas com
micro-premiações e outras que viabilizem o conhecimento sobre si mesmo e a
auto-estima. As pesquisas também mostraram correlação entre a diminuição das
atividades produtivas nas escolas e o aumento da violência.
Entende-se
por atividade produtiva não apenas o estudo em sala de aula, mas também a
leitura, a pesquisa, o lazer digital supervisionado, as práticas artísticas e
culturais, as práticas de empreendedorismo, os projetos multidisciplinares e as
competições esportivas. A realidade escolar está ainda muito distante de um
nível aceitável de atividades produtivas, e a solução a este problema está nos
recursos humanos, não nos materiais.
• Sistema de comunicação audiovisual
É
importante implantar um sistema de comunicação audiovisual inter-escolar com
mensagens construtivas e geradoras, e conteúdos produzidos pelos educandos. A
rede escolar precisa ocupar um espaço significativo na dimensão comunicacional,
imagética e digital, e utilizá-lo como suporte das relações com o educando e
suas famílias. A rede escolar também deve trabalhar como mediadora na reflexão
crítica dos conteúdos veiculados pelos meios de comunicação, em particular
sobre a violência, e explicitar a lógica do processo midiático como forma de
diminuir seus efeitos tóxicos nas crianças.
• Novo estatuto normativo
É
preciso modificar o estatuto normativo escolar de modo a transferir
efetivamente às famílias a responsabilidade pelos danos causados pelos filhos
na escola. Embora isto possa parecer politicamente inconveniente, representa
uma mudança de sinal e de paradigma nas relações com o educando e os demais
atores envolvidos, essencial para prevenir a violência e preencher de modo funcional o vazio de autoridade criado nas
últimas décadas. A interferência política deve recuar e abrir espaço ao
conhecimento e à experiência profissional. É preciso compreender que, embora
excluir da escola os agressores extremos e recorrentes não constitua uma
solução definitiva, a política implementada não pode impedir o normal
funcionamento educacional e excluir à grande maioria do educando, negando-lhes
seu direito a um processo educativo de qualidade, que hoje não acontece. O que
de fato acontece na maioria das escolas é que uma minoria do educando (inferior
ao 5%) impede o normal funcionamento de toda a instituição, impondo a violência,
a impunidade e o não-limite como normas. Esta realidade constitui mais um sinal
perturbador e desestruturante para as crianças.
Ainda
que os estudos de caso analisados correspondam ao Brasil, parte das pesquisas
documentais (UNESCO) e das entrevistas com profissionais de outros países
permitem afirmar que as recomendações aqui apresentadas são aplicáveis também a
outros contextos educacionais. Num mundo onde a precarização das condições de
existência cresce rapidamente, resulta urgente reverter o processo de
deterioração da Educação. Embora esteja demonstrado que é possível prevenir a
violência escolar, os gestores devem entender que o avanço da violência tem uma
relação direta com a consistência das políticas públicas, com a efetividade dos
controles de gestão e com a competência dos profissionais.
Fonte:
Por Alejandro Vaillant Valdes, em Le Monde

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