Krenak:
“Não somos máquinas de fazer coisas”
O líder
indígena, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras Ailton Krenak faz
críticas ao modo como o conceito de progresso tem sido tratado no Brasil e no
mundo. Em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele aponta
que a crença generalizada de que a ciência e a tecnologia vão resolver os
problemas criados pelo próprio modelo de desenvolvimento é uma armadilha
perigosa.
“Me
incomoda um pouco essa quase que automática adesão de muitos grupos sociais a
uma ideia de participar do ‘show do progresso’, participar do ‘show do
sucesso’, participar desse evento que promete que nós vamos continuar tirando o
petróleo, que a gente vai continuar aquecendo a temperatura global e que a
gente vai escapar disso com tecnologia, com ciência e tecnologia”, diz.
Autor
dos livros Ideias para adiar o fim do mundo e de A vida não é útil, o pensador
alerta para o risco de os seres humanos se tornarem “máquinas de fazer coisas”,
condicionados à lógica produtivista.
“Se a
gente não conseguir distinguir o joio do trigo, vamos continuar incidindo sobre
o corpo da Terra com essa disposição cega de produzir coisas. Produzir,
produzir… Como uma máquina de fazer coisas. E nós não podemos ser uma máquina
de fazer coisas”, atesta.
Para o
escritor, a lógica da produção e do consumo se tornou uma armadilha que
aprisiona a humanidade em um ciclo de destruição. “Essa maquinaria toda vai
instituindo um consumo de tudo, inclusive o consumo de nós mesmos. Vamos nos
consumindo, uns aos outros”, projeta.
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Proteger a vida para adiar o fim do mundo
Krenak
vê com preocupação o avanço de medidas como o projeto em tramitação no
Congresso, chamado “PL da Devastação”, que enfraquece o licenciamento
ambiental, e a realização de leilões para exploração de petróleo, inclusive em
territórios sensíveis, como a Foz do Amazonas. “Eu convoco as pessoas que ainda
são capazes de se afetar com a ideia da vida no planeta para que nos voltemos
para proteger a vida e isso não se basta nessa ideia de progresso e
desenvolvimento”, diz.
Krenak
lembra que o título de seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo não foi
escolhido por acaso, mas também não deve ser interpretado como um desejo de
prolongar um mundo em colapso. “Se nós estamos perdendo a qualidade da vida no
planeta, adiar a experiência aqui implicaria em buscarmos outros paradigmas,
mudar a nossa própria ideia de que somos uma humanidade com ampla coincidência
de propósito”, afirma.
Ele
cita o alerta feito pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas
(ONU), António Guterres, durante a última Conferência do Clima, como sinal do
fracasso das atuais escolhas globais. “Se o secretário-geral da ONU diz que nós
estamos marchando seriamente para o inferno, não sou eu que vou querer adiar
essa experiência”, ressalta.
Na
entrevista, Krenak também aborda temas como crítica contracolonial, memória,
ancestralidade indígena, limites do atual governo e as formas de dominação que
ainda sustentam a exploração da natureza e dos corpos.
Abaixo,
confira trechos da conversa
• Quero trazer alguns episódios recentes
aqui no nosso território. Por exemplo, a ministra Marina Silva – uma voz
incontestável na luta ambiental – foi hostilizada no Congresso Nacional. O
mesmo Congresso que avançou com o chamado PL da Devastação, que acaba com o
licenciamento ambiental. Ainda falta ser aprovado, mas está indo em frente. E
além disso, tivemos mais um leilão oferecendo áreas para se explorar petróleo,
seja no mar ou também dentro do território. Frente a tudo isso, eu fico
pensando que parece que o nosso país leu o seu livro e fez uma nova edição, com
outro título: Ideias para adiantar o fim do mundo.
Ailton
Krenak: Quando eu e meu editor concordamos em deixar o título Ideias para adiar
o fim do mundo – que é uma frase extraída dos textos – pensamos no que essa
ideia poderia induzir. Poderia até sugerir que o autor acreditava que este
mundo está bom, tão bom que a gente quer adiar a duração desta experiência. Mas
quando você aproxima a lente, vê que, na verdade, o que estamos pensando é
restaurar alguns tecidos deste mundo, convocar quem ainda se afeta com a vida
no planeta para cuidar do corpo da Terra.
Cuidar
do corpo da Terra para além de consumir. Consumir, consumir, consumir o que se
chama de “recursos naturais”. Esse é um erro cultural que nos afeta não só no
Brasil, mas quase no mundo todo. Adiar o fim do mundo talvez seja pôr em
questão o progresso, e principalmente a partir da pandemia, pôr em questão a
utilidade de muitas coisas que nós investimos e fazemos, mas que só estão
erodindo a vida no planeta. Se nós estamos perdendo a qualidade da vida no
planeta, adiar a experiência aqui implicaria em a gente buscar outros
paradigmas. Mudar a ideia de que somos uma humanidade com ampla coincidência de
propósito, todos indo para o mesmo lugar.
Na
última conferência do clima, o secretário-geral da ONU, António Guterres –
arrasado com a ideia dos sheiks de continuar perfurando a Terra em busca de
petróleo até 2050, quando só então pretendem iniciar a transição – disse: “Se
seguirmos nessa batida, estamos caminhando celeremente para o inferno.” Ora, se
o secretário da ONU diz isso, não sou eu que vou querer adiar essa experiência.
Eu convoco as pessoas que ainda são capazes de se afetar com a ideia da vida no
planeta a proteger a vida e dar um basta nessa ideia de progresso e
desenvolvimento.
Eu
confesso que me incomoda essa adesão automática de muitos grupos sociais a uma
ideia de participar do “show do progresso”, ao “show do sucesso”, como se fosse
um evento em que todo mundo vai continuar tirando petróleo, aquecendo a
temperatura global – e, no final, a gente escapa disso tudo com tecnologia,
ciência e inovação.
Estou
preocupado com o efeito quase místico que ciência e tecnologia estão imprimindo
no nosso modo de pensar o mundo.
Me
incomoda ver a produção da agricultura familiar – especialmente aquela mais
cara, feita com orgânicos – sendo colocada no balcão como se fosse commodity,
como se pudesse competir com o agronegócio. Se a gente tiver mais máquina da
China, se tiver mais tecnologia, também vamos performar de maneira
impressionante, também vamos ter progresso.
Eu
estou questionando o progresso em qualquer termo. Dentro da aldeia, no mercado
de commodities, no show de produções do agronegócio – eu questiono isso.
Tem
gente que aplaude o Brasil exportar grãos. Mas eu vejo como falta de
entendimento: estamos exportando água, solo e trabalho mal remunerado. Ou a
própria banalização do trabalho que produz alimento e bens que hoje se chamam
“do agro”, que saem de dentro desse repertório de maneira oportunista, a ponto
de dizerem que o guaraná dos Sateré-Mawé é pop, é o agro.
É tudo
capturado por uma agência de publicidade ilimitada, que transforma tudo em
produto. A produção dos quilombos, das aldeias, dos assentamentos rurais – vira
tudo agro.
Se a
gente não conseguir distinguir o joio do trigo, vamos continuar incidindo sobre
o corpo da Terra com essa disposição de produzir coisas, como uma máquina de
fazer coisas. E nós não podemos ser uma máquina de fazer coisas.
• Como diz sua outra obra, A vida não é
útil. Não é para isso que a gente tá aqui. Ailton, sobre essa ideia de
desenvolvimento, eu fico pensando que ela foi profundamente incrustada no nosso
país, especialmente no período da ditadura militar – sobretudo na região
amazônica, com mega projetos como a Transamazônica, que se multiplicaram,
embora muitos tenham fracassado ainda naquele período. Você acha que, desde a
redemocratização, algum governo conseguiu romper com essa lógica
desenvolvimentista, especialmente para a Amazônia?
Talvez
a gente precise olhar um pouco antes do golpe militar de 1964. Talvez seja
importante lembrar quando se instituiu uma dinâmica interna de modernização,
com a transferência da capital do Rio de Janeiro para o Cerrado, para o
Planalto Central do Brasil.
O
grande herói dessa travessia foi Juscelino Kubitschek. O Brasil, profundamente
incorporado à ideia dos Estados Unidos no esforço de reconstrução pós-guerra,
se alinhou ao propósito de se tornar um pátio para montadoras de automóveis. E
isso implicava fazer estrada.
É
aquela pergunta: quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Quando o Brasil se
alinhou com o propósito capitalista do império americano de reproduzir aqui no
nosso território as experiências “gringas”, a gente se abriu à siderurgia, à
indústria automobilística e à construção de estradas. O que a ditadura fez foi
apenas se apropriar desse repertório modernista.
Juscelino
escapou da crítica, porque muita gente o trata como uma espécie de “avatar”.
Mas ele foi o mordomo do capitalismo que abriu a porta para que arrombassem
nosso território, nossa economia, e introduzir aqui ideias modernistas, ideias
tão avançadas que deixam a gente no passado.
A
maneira de construir Brasília, aquele monumento impressionante, que deixava a
América Latina olhando para a gente pensando: “Nossa, esse país de língua
portuguesa é estranho mesmo, é todo moderno, é futurista. Ele vai deixar a
gente para trás, os Andes, a Colômbia, a Bolívia, a Argentina. Todos ficaram
com medo do “bafo jusceliniano”.
Só nós,
brasileiros – e muitos historiadores brasileiros – não viram isso. Continuamos
tratando Juscelino como se fosse insípido. Ele fez Brasília e não deixou
rastro. Mas foi naquele período que a gente começou a fazer crescer a nossa
dívida eterna, a nossa dívida externa, quando o Brasil começou a criar uma
dívida monumental, construindo uma capital totalmente planejada.
Brasília
empurrou povos como os Carajá e os Xavante para longe, e botou uma máquina de
fazer modernidade no Planalto. Os servidores públicos passaram a sair do Rio
para passar a semana em Brasília – até hoje temos essa farra de parlamentares e
autoridades públicas que trabalham quatro dias na capital e o resto do tempo
estão viajando por aí.
A gente
normatizou um modo de governança artificial, onde as pessoas do serviço público
estão acima da vida comum do cidadão. O cidadão é um pária, e os servidores se
constituem em uma espécie de casta, com juízes e ministros ganhando R$ 600 mil
ou R$ 1 milhão por mês.
Essa
perversão não nasceu com a ditadura militar. O que a junta militar fez foi
reunir todos esses elementos de “mau caráter” da transição agrícola brasileira
para virarmos um país industrial a serviço do império. E fizemos isso durante a
ditadura a rigor: arrebentamos com a Amazônia, enfiamos a Transamazônica e
matamos todo mundo que estava no caminho e produziu um efeito contínuo de
“progresso interno” à realidade do país.
O
Brasil virou um laboratório de experimentos estrangeiros. Tanto que foi aqui
que o uso de agrotóxicos se expandiu desde a década de 1970, ao ponto de hoje
sermos o maior importador de venenos do planeta – e também o que mais usa, em
volume aplicado por área.
Estamos
envenenando os corpos d’água de superfície, as nascentes, os mananciais. Há
quem diga que já estamos ameaçando até os aquíferos – bolsas subterrâneas de
água no corpo da Terra.
Se
estamos ameaçando até as águas subterrâneas com uma agricultura criminosa, eu
me pergunto: por que o Brasil, como instituição, e o Estado brasileiro, como
gestor do território, não pode interferir nesse processo, estabelecendo um
limite. Recebemos veneno, pagamos por ele e ainda isentamos esses produtos de
impostos.
• Ailton, tudo isso me leva à próxima
questão. É sobre a avaliação do atual governo, especialmente no que diz
respeito à pauta ambiental. Essa mesma dupla, Lula e Marina Silva, esteve à
frente no início dos anos 2000 e proporcionou resultados formidáveis no combate
ao desmatamento. Houve reduções impressionantes, louváveis, e de certa forma
isso se repetiu agora: também vimos números satisfatórios na redução do
desmatamento, inclusive no Cerrado, que sempre foi um desafio. Mas, ao mesmo
tempo, no ano passado, todo mundo ficou atônito com as fumaças e o fogo tomando
conta do país – em regiões que nunca haviam queimado antes, e de forma brutal.
Qual o desafio extra que essa mesma dupla – Marina e Lula – não está
conseguindo superar? Por que não conseguem frear essa destruição ambiental que
agora vem tomando outras proporções por meio do fogo, dos incêndios?
A gente
não pode ignorar dois eventos de enorme relevância que aconteceram “no meio do
caminho” – como dizia Drummond. Aliás, eu costumo dizer que Carlos Drummond de
Andrade é meu escudo invisível. Algumas observações dele sobre o Brasil e os
brasileiros funcionam como uma janela para enxergar certas questões.
A pedra
no meio do caminho entre o primeiro e o segundo mandato do Lula, um desses
eventos dramáticos, foi a pandemia.
A
pandemia foi desorganizadora das forças da sociedade brasileira, coincidindo
com o mandato de um grupo de pessoas que tomou o aparelho do Estado com o
propósito de usá-lo contra a população brasileira, contra o território, como
uma máquina de guerra.
Foi uma
máquina contra a nossa possibilidade de nos organizar como sociedade, cindindo
a sociedade entre bolsonaristas e petistas.
Outro
fenômeno social da maior relevância nesse período foi o enfraquecimento de
algumas práticas sociais que se organizavam em comunidades de base, herdeiros
de um engajamento amplo dos católicos com a questão social, e a entrada dos
evangélicos. É como se você tivesse duas bandas tocando. Saiu a banda que
historicamente era afetada pela CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil] da pastoral da terra, a pastoral indigenista, e entra uma trupe que é
Silas Malafaia na cabeça: os fazendeiros, aqueles caras de chapelão. É o
agronegócio incorporado em corpo e espírito, assaltando o poder político
descaradamente, instituindo a bancada da Bíblia, da bala e do boi.
Se
temos um assalto desse à vida brasileira e queremos que Marina e Lula possam
estar de novo num lugar de representação democrática da vida brasileira… só se
fôssemos muito ingênuos. Aquela gangue que passou antes destruiu o aparelho do
Estado e entregaram um buraco para o Lula. Ou seja, elegemos um presidente a
quem não é permitido governar.
Desde o
primeiro dia, quando o Lula subiu a rampa com o Raoni, com outras lideranças,
com aquela fé inabalável de que o Brasil ia dar certo – o “Brasil somos nós, os
brasileiros” – eu assisti aquilo tudo com um pouco de desconfiança do excesso
de otimismo. Otimismo demais faz mal à saúde. Deveria ter um aviso no pacote
dos otimistas: “Cuidado: otimismo demais pode causar danos.”
Naquele
caso, o festejo se estendeu até sermos surpreendidos por um assalto, um golpe,
com aqueles ratos predando o corpo do aparato estatal, como se estivessem
invadindo um país estrangeiro, com ódio, com raiva. Se pudessem, teriam
destruído a estátua da Justiça, que foi rabiscada. Mas o desejo era quebrar.
Assim como quebraram muitas outras estruturas simbólicas símbolos da República,
do Congresso, do STF – uma banalização da violência sem qualquer propósito.
Alguém
pode dizer que foi um caos. Outros dirão que foi uma reação popular. Mas agora,
com generais no banco dos réus e o próprio articulador do golpe – o sujeito que
ocupou o lugar de presidente da República – dizendo que “não viu, não estava
lá”, que não se chama Genésio…
Mas
essa podridão que tomou conta da vida política brasileira está impedindo o Lula
de governar. Por mais que ele consiga performar na política internacional,
quando aterrissa em Brasília, é sabotado. Sabotado por todo mundo, por toda
aquela escória de gente que foi assimilada pela máquina de governo, e que
muitos deles são bandidos. Os caras que estão à frente da Abin [Agência
Brasileira de Inteligência], a maioria é de bolsonaristas delinquentes,
criminosos. Eles ficaram lá, eles estão com emprego. Estão bem empregados para
dar golpe.
Temos
um gabinete da presidência da República que não consegue investigar os
funcionários do Estado que sabotam o governo. A gente só descobre depois.
Faço
uma defesa contraditória do mandato da Marina e do Lula. Elegemos os dois para
um mandato, mas foram bloqueados pela estrutura de poder para não governar. Por
isso, nem consigo cobrar além do que eles estão entregando.
Tenho o
maior respeito pela Marina. Sou solidário a ela diante de uma situação de
rendição em um governo majoritariamente formado por empresários oportunistas,
que transformaram tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado em aparelhos da
direita.
Fonte:Por Ailton Krenak em entrevista a Adele Robichez
e Lucas Salum, no Brasil de Fato

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