sábado, 28 de junho de 2025

“Estamos perigosamente perto do ponto sem retorno”: cientista do clima sobre o futuro da floresta amazônica

Há mais de três décadas, o climatologista brasileiro Carlos Nobre alerta que o desmatamento da Amazônia pode levar esse ecossistema de importância global a um ponto sem retorno . Trabalhando inicialmente no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e, mais recentemente, na Universidade de São Paulo, ele é uma autoridade global em florestas tropicais e como elas podem ser restauradas. Nesta entrevista, ele explica a tripla ameaça representada pela crise climática, pelo agronegócio e pelo crime organizado.

LEIA A ENTREVISTA:

•        Qual é a importância da Amazônia?

Além de sua beleza incrível, a maior floresta tropical do mundo é um dos pilares do sistema climático global, abrigando a maior biodiversidade terrestre do planeta, exercendo grande influência nos padrões regionais de monções e sendo essencial para a produção agrícola em grande parte da América do Sul.

•        Você foi o primeiro cientista a alertar que a situação poderia atingir um ponto crítico. O que isso significa?

É um limiar além do qual a floresta tropical passará por uma transformação irreversível em uma savana degradada, com escassa cobertura vegetal arbustiva e baixa biodiversidade. Essa mudança teria consequências terríveis para a população local, os padrões climáticos regionais e o clima global.

•        Em que nível a Amazônia atingirá um ponto crítico?

Estimamos que esse ponto crítico poderá ser alcançado se o desmatamento atingir 20-25% ou se o aquecimento global atingir 2,0-2,5°C [acima dos níveis pré-industriais].

•        Qual é a situação hoje?

É muito, muito grave. Hoje, 18% da Amazônia foi desmatada e o mundo aqueceu 1,5°C e está a caminho de atingir 2,0-2,5°C até 2050.

•        Como isso está sendo sentido agora?

A floresta tropical sofreu secas recordes em 2023 e 2024, quando muitos dos maiores rios do mundo estavam abaixo do nível mais baixo já registrado. Essa foi a quarta seca severa em duas décadas, quatro vezes mais do que seria esperado em um clima sem alterações.

A cada ano, a estação seca se torna mais longa e árida. Quarenta e cinco anos atrás, a estação seca anual no sul da Amazônia durava de três a quatro meses e, mesmo assim, chovia um pouco. Mas hoje, dura de quatro a cinco semanas a mais e chove 20% menos. Se essa tendência continuar, chegaremos a um ponto sem retorno em duas ou três décadas. Uma vez que a estação seca se estenda para seis meses, não há como evitar a autodegradação. Estamos perigosamente perto de um ponto sem retorno. Em algumas áreas, ele pode já ter sido ultrapassado. No sul do Pará e no norte do Mato Grosso, a precipitação mínima já é inferior a 40 mm por mês durante a estação seca.

•        Não são essas as áreas onde a maior parte da floresta foi desmatada para a criação de gado e plantações de soja?

Sim. O pastoreio de gado é uma forma de poluição ecológica. As áreas mais degradadas por pastagens estão em, ou muito perto de, um ponto crítico. Isso inclui toda a Amazônia meridional – mais de 2 milhões de quilômetros quadrados – desde o Atlântico até a Bolívia, Colômbia e Peru. Estudos científicos mostram que pastagens degradadas reciclam apenas um terço ou um quarto do vapor d'água de uma floresta durante a estação seca.

Há muita água no solo amazônico. Árvores com raízes profundas a extraem e a liberam no ar, principalmente por meio da transpiração das folhas. Dessa forma, as florestas reciclam de 4 a 4,5 litros de água por metro quadrado por dia durante a estação seca. Mas terras degradadas, como pastagens, reciclam apenas de 1 a 1,5 litro. Isso ajuda a explicar por que as estações secas aumentam em uma semana a cada década.

•        Por que uma savana amazônica não é uma boa ideia?

Seria menos úmida e mais vulnerável a incêndios. A floresta tropical geralmente tem 20-30% mais chuvas anuais do que as savanas tropicais na Venezuela, Colômbia, Bolívia e Brasil . A Amazônia também tem menos raios porque as nuvens são mais baixas do que na savana. Mas a diferença mais importante é o fato de que uma floresta tropical tem um dossel fechado, então apenas 4% da radiação solar atinge o solo da floresta. Isso significa que sempre há muito pouca energia irradiada para a evaporação da água, então a vegetação e o solo do solo da floresta são muito úmidos. Historicamente, isso significa que os raios só iniciam incêndios muito pequenos que matam apenas uma ou duas árvores, mas não se espalham. Em termos evolutivos, esta é uma das razões pelas quais há tanta biodiversidade na floresta tropical; ela é resiliente ao fogo. Mas uma vez que começa a secar e se degradar, é mais fácil queimar.

•        Como um ponto de inflexão na Amazônia afetaria o clima global?

A floresta no sudeste da Amazônia já se tornou uma fonte de carbono. Isso não se deve apenas às emissões de incêndios florestais ou ao desmatamento. É porque a mortalidade de árvores está aumentando tremendamente. Se a Amazônia atingir um ponto de inflexão, nossos cálculos mostram que perderemos de 50% a 70% da floresta. Isso liberaria entre 200 e 250 bilhões de toneladas de dióxido de carbono entre 2050 e 2100, tornando completamente impossível limitar o aquecimento global a 1,5°C.

•        O Brasil é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo. Como um ponto de inflexão afetaria a segurança alimentar global?

Quase 50% do vapor d'água que entra na região vindo do Atlântico através dos ventos alísios é exportado de volta para fora da Amazônia pelo que chamamos de "rios voadores". Fui o primeiro a calcular o enorme volume desses fluxos: 200.000 metros cúbicos de vapor d'água por segundo. Minha ex-aluna de doutorado, Profa. Marina Hirota, calculou que as florestas tropicais e os territórios indígenas são responsáveis por mais de 50% das chuvas na bacia do rio Paraná, no extremo sul do Brasil, que é uma importante área de cultivo de alimentos. Esses rios voadores também fornecem água para plantações no Cerrado, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraguai, Uruguai e toda a área agrícola do norte da Argentina. Portanto, se perdermos a Amazônia, vamos reduzir as chuvas lá em mais de 40%. Então, podemos esquecer a produção agrícola nos níveis atuais. E isso também contribuiria para converter partes da savana tropical ao sul da Amazônia em vegetação semiárida.

•        Quais seriam as consequências para a natureza e a saúde humana?

A devastação do bioma mais biodiverso do mundo também afetaria centenas de milhares de espécies e aumentaria os riscos de doenças zoonóticas que cruzassem a barreira das espécies. Pela primeira vez desde que os europeus chegaram às Américas , estamos enfrentando duas epidemias: a febre de Oropouche e a febre de Mayaro. No futuro, a degradação da floresta amazônica levará a mais epidemias e até mesmo pandemias.

•        Como evitar um ponto de inflexão na Amazônia?

Em 2019, [o ecologista americano] Tom Lovejoy e eu recomendamos soluções baseadas na natureza, como a restauração florestal em larga escala, o desmatamento zero, a eliminação de monoculturas e uma nova bioeconomia baseada na sociobiodiversidade. Argumentamos que é possível reconstruir uma margem de segurança por meio de um reflorestamento imediato e ambicioso, particularmente em áreas degradadas por fazendas de gado e terras agrícolas em grande parte abandonadas. Isso motivou muitas pesquisas e novas ideias.

•        O governo brasileiro está adotando essas ideias?

O progresso varia dependendo de quem está no poder. De agosto de 2003 a julho de 2004, tivemos cerca de 27.000 km² de desmatamento – um número enorme. Mas o primeiro governo Lula, com Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, reduziu o número e chegou a 4.600 km² em 2012. Mais tarde, durante o governo Bolsonaro, subiu para 14.000 km². E agora, com Lula e Marina de volta, felizmente está diminuindo novamente e há vários novos e belos projetos de reflorestamento. Isso é progresso, mas não o suficiente. Agora estou dizendo a Marina Silva: "Vamos chegar à Cop30 com o menor desmatamento da Amazônia de todos os tempos, menos de 4.000 km²". Quem sabe? Mas, de qualquer forma, o Brasil está trabalhando duro.

•        Você alertou que a atividade criminosa representa um novo e importante risco. Por quê?

No ano passado, tivemos um número recorde de incêndios florestais em todos os biomas da América do Sul tropical – de janeiro a novembro de 2024, a Amazônia teve mais de 150.000. Estudos do INPE (Agência Espacial Brasileira) mostram que algo muito, muito sério está acontecendo. Mais de 98% dos incêndios florestais foram provocados pelo homem. Não foram raios. Isso é muito preocupante. Porque mesmo quando estamos reduzindo o desmatamento, o crime organizado está piorando a situação. Na minha opinião, mais de 50% dos incêndios florestais foram criminosos.

Todos os países amazônicos estão tentando reduzir o desmatamento. Isso é ótimo, mas o que fazer para combater o crime organizado? Eles controlam um negócio de US$ 280 bilhões – tráfico de drogas, tráfico de animais selvagens, tráfico de pessoas, extração ilegal de madeira, mineração ilegal de ouro, grilagem de terras. Tudo está conectado. E essas gangues estão em guerra com os governos. Esse é um dos principais motivos da minha preocupação, porque sei que reduzir o desmatamento é possível, assim como a restauração florestal. Mas como combater o crime organizado?

•        Como seus sentimentos sobre esse problema mudaram?

Preocupa-me que não estejamos agindo com a urgência necessária. Trinta e cinco anos atrás, eu achava que tínhamos tempo de sobra para chegar a zero desmatamento e combater o problema climático. Naquela época, o desmatamento era de 7% e o aquecimento global estava um pouco acima de 0,5°C. Eu não estava pessimista porque sentia que poderíamos encontrar soluções. Na Cúpula da Terra do Rio, em 1992, muitas pessoas diziam que o mundo deveria ter como meta zero emissões até o ano 2000. Infelizmente, ninguém se mexeu. As emissões continuaram a aumentar e atingiram outro recorde no ano passado. Agora enfrentamos uma emergência climática. Estou muito, muito preocupado.

•        Negociações climáticas da ONU terminam com poucos avanços em Bonn e aumentam pressão sobre COP30 em Belém

Após duas semanas de reuniões, as negociações do clima da ONU realizadas em Bonn, na Alemanha, encontro preparatório para a COP em Belém, terminaram nesta quinta-feira (26) sem sinais de urgência ou avanços significativos. A pouco mais de quatro meses da conferência climática no Brasil, o sentimento predominante entre organizações da sociedade civil e especialistas é de apreensão e altas expectativas sobre a COP30.

Apesar de manter o compromisso com a transição justa e o fim dos combustíveis fósseis, as negociações na Alemanha não avançaram na ampliação das metas de financiamento, tema central para adaptação dos países aos efeitos extremos de uma clima em mudança. Países em desenvolvimento criticaram a meta considerada insuficiente definida na COP29, e segundo observadores, o tema acabou sendo usado como moeda de troca para reduzir a ambição das metas climáticas.

"Vimos que o tema foi usado em Bonn como moeda de troca pela diminuição de ambição dos países", afirma a especialista em política climática do Greenpeace Brasil, Anna Cárcamo. Para ela, a COP30, em Belém, precisará retomar discussões essenciais, como o alinhamento dos fluxos financeiros a uma economia de baixo carbono e o fortalecimento do financiamento público. “Sem financiamento climático, não há ambição nem implementação”, alerta, reforçando a importância de mobilizar os US$ 1,3 trilhão anuais necessários para viabilizar ações de mitigação, adaptação e compensações por perdas e danos.

O financiamento para a adaptação segue sendo o elo mais frágil da arquitetura climática, reforçou Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa. Segundo ela, o texto atual não oferece clareza sobre como a Meta Global de Adaptação (GGA, na sigla em inglês) -- compromisso para fortalecer a capacidade de adaptação, aumentar a resiliência e reduzir a vulnerabilidade dos países -- se conectará à Nova Meta Coletiva Quantificada (NCQG), referente ao financiamento climático que visa apoiar os países em desenvolvimento nessa adaptação, nem à rota de Baku a Belém, iniciativa brasileira que objetiva mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

“É hora de estabelecer uma nova meta de financiamento para a adaptação que seja mobilizadora, suficiente e acessível para quem mais precisa. Essa é a linha vermelha para a justiça climática em Belém”, afirma.

Ainda no campo das finanças, outro ponto de tensão foi o acesso aos recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), um dos maiores financiadores de projetos ambientais no mundo. “Os países em desenvolvimento têm defendido a necessidade de diretrizes mais claras para o acesso ao fundo" , diz Maria Gabriella de Souza, analista de política climática do Instituto LACLIMA.

<><> Avanços tímidos

Para Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, há uma relevância crescente da agenda de adaptação climática nas negociações de Bonn, especialmente no que diz respeito à definição de metas. "Essa agenda ganhou força e será central na COP30", diz. Ela explica que especialistas já elaboraram mais de 500 indicadores, dos quais 100 foram selecionados para embasar a construção de uma meta global de adaptação. "Ainda é um processo em construção, que deve se estender até Belém, mas com grande potencial de impacto", avalia.

Ficou para a COP30 temas centrais a serem resolvidos, como os meios de implementação, o Baku Adaptation Roadmap e a adaptação transformacional, que inclui mudanças sistêmicas em direção a sociedades resilientes ao clima. A América Latina e o Caribe defendem uma agenda de adaptação centrada nas pessoas, nos ecossistemas e em financiamento adequado.

“Não podemos aceitar uma lista de indicadores que se torne um exercício tecnocrático desconectado das pessoas e dos ecossistemas mais vulneráveis. [...] Adaptação se mede com justiça, com contexto e com meios de implementação à altura do desafio”, pondera Luz Falivene, da Fundación Argentina 1.5.

Apesar das resistências de alguns países a pautas de justiça de gênero e interseccionalidade, houve sinais de cooperação na construção de um novo Plano de Ação de Gênero, com propostas voltadas à proteção de defensoras dos direitos ambientais. Também houve consenso em outros temas-chave, como Programa de Trabalho para uma Transição Justa (JTWP). Apesar de ainda haver três propostas de textos em debate, as discussões em Bonn indicaram que uma transição para uma economia de baixo carbono com equidade e justiça social é possível, principalmente considerando que a COP 29, no Azerbaijão, sequer conseguiu chegar a um consenso sobre transição justa.

A agenda de transparência, considerada um dos pilares do regime climático internacional, foi um dos temas centrais nas negociações em Bonn. Ela garante o monitoramento e a avaliação dos compromissos assumidos pelos países — como metas de emissões, financiamento e adaptação — de forma justa e comparável. Mais do que técnica, a transparência é também uma ferramenta política fundamental, especialmente para os países em desenvolvimento.

"Muitos dependem da transparência para pressionar os países desenvolvidos a cumprirem suas promessas, principalmente sobre financiamento climático e apoio para adaptação", diz Maria Gabriella, do LACLIMA. Para ela, a transparência também “tem o poder de fortalecer o multilateralismo, ao criar confiança entre os países”.

O Greenpeace ressaltou ainda como ponto positivo das negociações em Bonn o avanço no reconhecimento da sinergia entre as agendas de clima e biodiversidade, o que pode fortalecer a proteção das florestas. Para a organização, essa articulação abre caminho para discutir a meta global de zerar o desmatamento até 2030.

“Abordar a sinergia entre essas agendas abre espaço para começar discussões sobre a meta global pelo fim do desmatamento até 2030, essencial para que o Acordo de Paris tenha sucesso”, avalia Cárcamo, representante do Greenpeace.

Outro destaque foi a proposta de incluir na agenda de mitigação as recomendações do Diálogo de Florestas da Conferência do Panamá, ocorrido em maio, que tratou da restauração de ecossistemas, proteção de terras indígenas, manejo do fogo e reconhecimento das florestas para além do estoque de carbono, valorizando também sua biodiversidade e outros serviços ecossistêmicos. “Na COP30, o Brasil tem uma grande oportunidade de explorar estes caminhos e trabalhar para materializar a meta global pelo fim do desmatamento até 2030 e deixar um legado para as florestas do mundo todo”, concluiu.

<><> Reunião em clima de tensão

As discussões ocorreram em meio a uma série de tensões globais, incluindo a escalada de violações de direitos humanos, ataques à democracia e, claro, a crise climática em si. A contradição entre o papel da Alemanha como anfitriã das negociações de Bonn e sua 'conivência' com abusos em Gaza — além da repressão a protestos pacíficos que ocorreram no local — também gerou críticas quanto à legitimidade do processo.

O Centro de Direito Ambiental Internacional (CIEL, na sigla em inglês), que esteve presente nas reuniões, emitiu um comunicado crítico cobrando a reforma do sistema internacional de negociações climáticas. "Trinta anos de negociações climáticas sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) resultaram em poucos progressos reais. É hora de reformar profundamente esse sistema", afirmou o centro em nota.

Além da censura, participantes também criticaram questões logísticas, como acesso a vistos e preços de hospedagem em Belém, ponto que até está virando um imbróglio diplomático, com países pensando em reduzir suas delegações pela metade. Um avanço positivo, segundo o CIEL, foi a decisão de tornar público o acordo entre a ONU e o país-sede da COP que inclui salvaguardas de direitos humanos. Organizações pedem que o Brasil publique esse documento o quanto antes.

 

Fonte: The Guardian/Um só Planeta

 

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