O
"príncipe" que ajudou a difundir religiões afro a gaúchos
Os três
maiores jornais de Porto Alegre deixaram de lado anos de rivalidade ao
publicarem, em maio de 1935, obituários que pareciam saídos da pena do mesmo
redator.
"Morreu
nesta capital, com 104 anos, um príncipe africano", informou o Diário de
Notícias. "Custódio Joaquim de Almeida, o 'Príncipe' de São João da Ajudá,
na África, que desde 1901 vivia em Porto Alegre, à rua Lopo Gonçalves n. 498,
vem de falecer, com a idade de 104 anos de idade", noticiou o Correio do
Povo. "Todos choram a morte do Príncipe de Ajudá. O 'príncipe'
morreu", lamentou A Federação.
Apesar
do título nobre, o morto não cumpria os critérios de respeitabilidade vigentes
à época. Negro retinto de estatura elevada (teria até dois metros de altura,
segundo a tradição oral), tinha passagem pela polícia e ganhara a vida como
artesão e tratador de cavalos.
Além
disso, era babalorixá (pai-de-santo) nas comunidades locais de batuque, como é
chamada a mais antiga vertente das religiões afro-brasileiras no Rio Grande do
Sul.
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Recebido pela elite local
Para os
porto-alegrenses bem-nascidos, mais do que exótico, Custódio era marginal e até
perigoso. Ainda assim, abriu caminho até o panteão dos homens célebres locais.
Custódio
chegou a ser próximo dos altos círculos da sociedade rio-grandense de seu
tempo. Pelo menos um contemporâneo afirma ter visto o todo-poderoso presidente
do estado (equivalente ao cargo de governador à época) Antônio Augusto Borges
de Medeiros visitar sua casa na Cidade Baixa.
A
Custódio é atribuído o assentamento de ocutás (objetos religiosos) em vários
pontos de Porto Alegre. O mais famoso é o chamado Bará do Mercado, no coração
do Mercado Público. Haveria outros, inclusive no Palácio Piratini, sede do
governo gaúcho.
Esse
percurso incomum levou a escola de samba carioca Portela a escolhê-lo como tema
de seu enredo para o Carnaval de 2026, intitulado O Mistério do Príncipe do
Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do
Rio Grande.
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Biografia sob disputa
Há
décadas, antropólogos, historiadores, teólogos, jornalistas e religiosos buscam
vestígios de sua vida. O resultado é um painel multifacetado e, muitas vezes,
contraditório.
Um dos
obituários de 1935 sustenta que Custódio chegou à capital gaúcha em 1901. Mas
essa versão é contestada pelo historiador Rodrigo de Azevedo Weimer, professor
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Ele
descobriu que, em uma briga de bar no centro da cidade entre um negro e um
branco que resultara em processo criminal em 1885, um dos protagonistas,
identificado pela polícia como Custódio Joaquim de Almeida, era o
"príncipe".
"Ele
foi xingado por um branco que frequentava a bodega e defendeu-se usando um
chicote para fustigar o agressor", explica Weimer. "Era tratador de
cavalos, e o chicote servia-lhe como instrumento de trabalho."
Outra
polêmica envolve o suposto pertencimento à realeza. Segundo uma versão
corrente, Custódio teria nascido Osuanlele Okzi Erupê em uma linhagem real do
antigo Reino do Benin (1180-1897), na atual Nigéria.
Esse
reino não deve ser confundido com a atual República do Benin, que corresponde
ao Reino do Daomé (1600-1904). Porém, é neste último que fica a cidade de
Ajudá, onde o próprio Custódio afirmava ter nascido.
Ajudá é
berço de um grupo de africanos escravizados que conseguiram obter alforria no
Brasil e retornaram à África. Conhecidos como agudás, esses ex-cativos
desfrutavam de status especial pelo conhecimento da língua portuguesa. Alguns
envolveram-se no tráfico atlântico de escravos.
"Os
agudás faziam o papel de intermediários entre portugueses e africanos em Ajudá.
Eram muito procurados por sua capacidade de organização", afirma o
historiador Jovani Scherer, co-autor, com Weimer, do livro No refluxo dos
retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegre.
Quando
se trata de supostos vínculos de Custódio com a realeza, a pesquisadora da
diáspora africana Lisa Earl Castillo, doutora em letras pela Universidade
Federal da Bahia, recomenda cautela. Os antigos reinos africanos, explica, eram
diminutos e tinham várias linhagens reais. Os reis tinham dezenas de esposas,
cada uma com vários filhos.
"Um
número grande de pessoas podia reivindicar realeza, com razão ou não", diz
Castillo. "No caso de Custódio, não há documentos que esclareçam por que
usava o título de príncipe."
Para o
babalorixá Hendrix Silveira, historiador e doutor em teologia, em uma sociedade
escravocrata, Custódio pode ter usado a identidade de príncipe como estratégia
de sobrevivência. "Com esse título, ele ganha um status não apenas entre
os pretos, mas também entre os brancos", reflete.
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Religiões de matriz africana em alta no Rio Grande do Sul
Em
1935, os jornais chamaram Custódio de líder da "seita africana".
Hoje, ele é visto por seus irmãos de crença como um pioneiro.
"O
'príncipe' fortaleceu muito a nação jêje (um dos ramos do batuque) no Rio
Grande do Sul. Ele cuidava das pessoas", afirma Baba Diba de Iemanjá, que
preside o Conselho Estadual de Povos de Terreiro e é uma das principais vozes
do campo das religiões afro-brasileiras no estado.
A
semente que Custódio ajudou a cultivar resultou em uma supersafra. Segundo o
Censo de 2022, o Rio Grande do Sul é o estado com o maior percentual de adeptos
de religiões de matriz africana no país, com 3,2%, ante uma média nacional de
1,05%. No censo anterior, de 2010, o estado já ocupava a primeira posição, com
1,48%.
Em Rio
Grande, onde os adeptos de religiões afro-brasileiras somam 9,28%, ou o
equivalente a mais de 15 mil pessoas, é realizada anualmente no dia 2 de
fevereiro a festa em louvor a Iemanjá. Neste ano, a manifestação reuniu 150 mil
pessoas.
E nem
só de afrodescendentes são feitos o batuque e seus congêneres. Em meados da
década de 1990, Baba Diba foi convidado a participar de um encontro
afrorreligioso em Três Passos, no noroeste do estado, região de expressiva
colonização europeia.
Foi
recebido em um terreiro de umbanda pelo casal de pais-de-santo do local.
"Ele era sarará, não era bem branco. E ela era branca", rememora. A
mãe-de-santo disse-lhe: "Olha, Baba, aqui somos 20 terreiros, e não há
negros".
Depois
do seminário, o pai-de-santo foi convidado para uma mesa de caboclo (rito de
umbanda). "Vi manifestações religiosas legítimas de pessoas loiras, de
olhos verdes e azuis", afirma o religioso. "A única diferença era que
eles ficavam muito vermelhos na hora de incorporar."
De
acordo com Baba Diba, esses traços aparentemente paradoxais fazem parte da
formação do estado. "O batuque está 'empretecendo' os gaúchos brancos. Há
muita gente se convertendo e pautando sua vida a partir do perfil civilizatório
africano", reflete.
Em seu
terreiro, na zona leste da capital gaúcha, Baba Diba exibe com orgulho uma
imponente palmeira-de-dendê. Espécie nativa da África Ocidental e reverenciada
pelas religiões de matriz africana, a planta dificilmente sobrevive a
temperaturas inferiores a 19°C – neste inverno, essa tem sido a marca máxima
registrada pelos termômetros em Porto Alegre.
Fonte:
DW Brasil

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