Gilberto
Menezes Côrtes: Se não é bom pros EUA, por que serve ao Brasil?
Imagina
se fosse o presidente Lula que dissesse essa frase: "Estamos pagando 900
bilhões a mais por ano [de juros] por causa desse cara. Acho ele estúpido. Ele
é uma pessoa mentalmente muito mediana", disparou o presidente. Lula
esteve perto de dizer coisas desse tipo para o ex-presidente do Banco Central,
Roberto Campos Neto. O setor público brasileiro pagou R$ 950,4 bilhões em juros
no ano passado, o último da gestão Campos Neto. Lula recebia pedradas do
mercado financeiro quando só criticava a demora do Banco Central em baixar os
juros para animar o consumo e a economia. Jamais cogitou de abreviar o mandato
do neto do ex-ministro do Planejamento Roberto de Oliveira Campos, nem mexer na
independência do banco. Quando o mandato expirou em 31 de dezembro de 2024, o
ex-diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo, indicado por Lula, foi
escolhido para suceder a Campos Neto, em 1º de janeiro, com seu nome aprovado
pelo Senado Federal. [Dia 30 acaba a quarentena (bancada pelo Tesouro) e Campos
Neto já pode assumir um alto cargo no Nubank, que não é banco e deve perder o
nome fantasia e adotar só o "Nu", mas com um ex-presidente do BC na
diretoria].
Mas
quem disse essa frase, como afronta ao Federal Reserve Bank, e em ameaça ao
cumprimento do mandato de seu presidente, Jerome Powell, foi o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump.
Os EUA
estão com uma dívida pública de US$ 36 bilhões e os juros da dívida (4,25% a
4,50% ao ano) custam US$ 900 bilhões anualmente. Mas se houve estranhamento em
Wall Street contra a interferência de Trump nas decisões do Fed e em abreviar o
mandato de Jerome Powell, que vence em maio de 2026, nada se ouviu na Faria
Lima, sempre diligente em defender a ortodoxia dos bancos centrais, e que se
insurgiu contra a cobrança de IOF para compensar os ônus ao Tesouro Nacional
causado pela escalada de juros concentradora de renda.
Com a
Selic em 15% ao ano, para uma dívida pública líquida em títulos de R$ 7,361
trilhões em abril (os dados de maio sairão dia 30), cada aumento de um ponto na
Selic custa R$ 55,6 bilhões ao fim de 12 meses. Desde junho de 2024, a Selic
subiu de 10,50% para 15%, com uma transferência de renda contratada de mais de
R$ 230 bilhões para o sistema financeiro e os rentistas. Em maio, os bancos e
instituições financeiras, incluindo “fintechs”, detinham 30,14% dos papéis da
dívida, os fundos de pensão e de previdência privada controlavam 23,60% da
dívida, os fundos de investimentos tinham 22,40%, atendendo aos rentistas, e os
não residentes (estrangeiros e brasileiros com “off-shore” em paraísos fiscais)
bancavam 9,88% da dívida. Por isso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
quer buscar uma parte do ganho extra com IOF e IR sobre papéis até aqui isentos
(Letras de Crédito Agropecuário e Letras de Crédito Imobiliário). E o governo
resolveu recorrer ao Supremo Tribunal Federal para manter a medida derrubada pelo
Congresso.
Nos EUA, Trump, além do seu interesse particular em baixar os juros para
reativar seu patrimônio imobiliário, a bazuca contra Jerome Powell visa tirar
de suas costas, pelo impacto do tarifaço nas importações (tantas vezes
recuado), a responsabilidade pela forte desaceleração da economia americana.
Assim como despejou superbombas sobre as instalações nucleares do Irã, Trump
mirou seu arsenal verborrágico contra Powell. O mandato de cada presidente do
Fed é de quatro anos, mas essa função é exercida dentro de um cargo maior: o de
membro do Conselho de governadores do Fed, cuja duração é de 14 anos. Jerome
Powell foi nomeado membro do Conselho em 2012, por Barack Obama, e depois
promovido a presidente do Fed por Trump em 2017. Em 2022, foi reconduzido ao
cargo por Joe Biden. Seu mandato presidencial termina em maio de 2026, mas ele
poderia continuar no Conselho até 2028, salvo renúncia ou remoção por justa
causa.
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O que é bom para os EUA...
Ficou
famosa no primeiro governo militar (marechal Castelo Branco) a frase do então
embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Juracy Magalhães, que viria a ser
nomeado ministro das Relações Exteriores: “O que é bom para os Estados Unidos é
bom para o Brasil”. Foi largamente explorada pelos nacionalistas e opositores
do regime militar como o máximo do servilismo entreguista. Mas a frase é uma
cópia do que disse, em meados dos anos 50, o ex-presidente da General Motors
(GM), Charles Wilson, ao ser nomeado pelo presidente Eisenhower como secretário
da Defesa. Disse Wilson: "O que é bom para a América é bom para a General
Motors e vice-versa". Na época, a GM era a maior empresa americana e a
maior fabricante mundial de automóveis.
Na
guerra de nervos contra Jerome Powell, que tem adotado um tom cauteloso à
frente do Fed, justamente devido às incertezas causadas pelo tarifaço no
aumento da inflação doméstica, Trump já teria nomes ventilados para o cargo,
segundo o “Wall Street Journal”. O secretário do Tesouro, Scott Benset,
encabeça a lista. Outro nome seria o do diretor do Fed, Christopher Waller, da
ala mais moderada do banco central americano. Semana passada, Waller defendeu a
possibilidade de o Fed já discutir a redução das taxas de juros na reunião de
30 de julho. Outra possível indicação seria de Kevin Hassett, diretor do
Conselho Econômico Nacional. Corre por fora, segundo a agência Dow Jones, o
ex-governador do Fed e membro da Hoover Institution, Kevin Warsh.
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Os paradoxos da Câmara dos deputados
Tão
diligentes e servis na defesa da austeridade fiscal, que veta qualquer aumento
de impostos mesmo concentrado nos ganhadores da alta dos juros da dívida
pública e dos papéis privados – os bancos e fundos de investimentos das
instituições financeiras representam mais de 52,5% dos rentistas –, e
insistentes em cortes de programas sociais do governo (o Orçamento Secreto e as
verbas parlamentares são intocáveis), na mesma semana em que infligiram uma
dura derrota ao governo - 383 votos a 98 contra os aumentos de impostos sobre
operações financeiras -, os (as) senhores (as) parlamentares aprovaram o
aumento do número de assentos na Câmara dos Deputados dos atuais 513 para 531,
a partir de 2027. Na eleição de outubro de 2026, serão criados mais 18 cargos
de deputados com todas as mordomias já conhecidas: casa, verbas para gasolina
dos carros oficiais e passagens aéreas à vontade para ida aos estados, além de
cotas para nomear mais de uma dúzia de assessores parlamentares. Alguns deles,
a exemplo dos chefes, nem batem ponto.
Quando
votaram a maior derrota do governo Lula, já de olho nas eleições de 2026, com a
tática mais comum da política – a tocaia - mais da metade dos 398 deputados que
aprovaram o Projeto de Lei do Legislativo para derrubar o IOF e outras
propostas de taxação (IR de 5% para 2026 sobre LCAs e LCIs) nem estava no
plenário ou até mesmo em Brasília. Desde que, na pandemia da Covid-19, o então
presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), reeleito em 2023 para
mais dois anos até 1ºde fevereiro de 2025, quando foi sucedido por Hugo Motta
(Republicanos-PB), adotou a aprovação de matérias pelo Sistema Remoto de
Votação, passada a pandemia o hábito fez o monge. Em vez do voto declarado e
assumido no plenário ou nas mesas e cabines de votação da Câmara (que impedia
que terceiros votassem pelo parlamentar), agora é possível votar remotamente
pelo telefone celular até de locais menos ortodoxos. Na semana de São João, a
maioria dos parlamentares estava em campanha nas festas juninas em seus
estados. Um assessor pode, perfeitamente, ter votado pelo chefe. Circula no
plenário, em forma de piada, a informação de que alguns votos contrariaram a
orientação da bancada porque o parlamentar (ou seu assessor) abusou do quentão
durante o forró.
Mas a
questão é que o mesmo Congresso Nacional que barra impostos sobre os
rendimentos dos ricos ou reluta em cortar parte dos R$ 800 bilhões em subsídios
e incentivos fiscais que causam um rombo no Tesouro Nacional, não mostra
coerência quando aprova (na Câmara e no Senado) o aumento das bancadas federais
dos estados, de acordo com o crescimento da população apontado pelo IBGE no
Censo 2022. O aumento de 18 vagas vai implicar, de imediato, gastos anuais de
mais R$ 64,6 milhões. A Câmara jura que ficará só nisso. Você acredita, caro
leitor?
Desde a
Constituição de 1988 as bancadas não aumentavam: o teto é dos 70 representantes
de São Paulo (estado mais populoso). Minas Gerais vai aumentar de 53 para 54
deputados. Pará e Santa Catarina ganharão mais quatro cadeiras. Aumentam duas
Amazonas, Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Ganham uma cadeira, Ceará, Goiás e
Paraná, cuja população supera a do Rio Grande do Sul e agora os dois estados
terão 31 representantes. O RS estava, ao lado de Alagoas (9) e do Rio de
Janeiro (46), entre os três estados que perderam população. Mas o Congresso só
quer saber de salvar a própria pele (alguns estão sendo presos por falcatruas
na distribuição de verbas do Orçamento Secreto) e de propor cortes nos
programas sociais. Imagina fazer na própria carne? A bancada mínima é de 8
deputados. O Senado manterá as 81 vagas, mas o Congresso incha de 594 para 612
parlamentares com as suas mordomias. Aliás, 65 anos após a criação de Brasília,
com a capital federal sendo a terceira metrópole do país, faz sentido sustentar
as idas e vindas semanais dos parlamentares a seus estados e o expediente de
três dias no Congresso (terça, quarta e quinta-feira)? Nos EUA e Europa não há
isso.
¨
Há muito de Maria Antonieta no Congresso. Por Adhemar
Bahadian
O
jabuti, como a jaboticaba, são particularidades nossas. Tente explicar a um
suíço que uma lei brasileira foi vetada pelo presidente da República porque o
Congresso enfiou nela na última hora uma jaboticaba ou um jabuti.
Talvez
o suíço até compreenderia se explicássemos que o jabuti é uma espécie de “mão
de gato”, imagem com alguma quilometragem e passaporte carimbado.
Mas,
nós sabemos como ninguém que o jabuti é bem mais astuto e audacioso que uma
felpuda mão de gato. Mais temível. Mais ardiloso. Às vezes, o jabuti é enviado
como um míssil com o objetivo claro e insofismável de implodir um projeto de
lei que teria levado meses para ser negociado e na última hora surge, como nas
noites do Oriente Médio, um clarão que a tudo destrói e a tudo dizima. Tristes
tempos.
Mas há
jabutis e associados. Há o jabuti-preguiça, que se instala cedo nas negociações
e fica ali pendendo ameaçador enquanto não vê satisfeitas alguma esmolinha ali
outra aqui. Há o jabuti-pátria-amada que se reveste de verde-amarelo como se
fosse de imperiosa necessidade para a sorte da nação, e não passa de um reles
busca-pé, geralmente lançado pela indústria armamentista revestida de princesa
Isabel.
E há os
grandes jabutis, gigantes pela própria natureza, arquitetados nos porões
sinistros da cobiça, fervidos nos panelões da astúcia libidinosamente
monetária, mas recobertos de uma cínica música de fundo patriótica.
Esses,
é bom que se diga, muito se beneficiam da assessoria qualificada de luminares
da pirataria e pululam em textos internacionais muito “respeitados”.
Um bom
exemplo, sempre recordo, é o Acordo TRIPS na OMC, reverenciado marco do
comércio livre, e não passa de um desaforado instrumento de proteção da
Big-Pharma, com uma abusiva regulamentação sobre as patentes farmacêuticas.
O
impacto de TRIPS na pandemia do COVID é mais do que sabido. Vergonhoso.
Desumano na exploração dos países pobres sem recursos para pagar os “royalties”
de vacinas e outros medicamentos.
Mas o
que impressiona é a arquitetura de mentiras e falsidades que fazem de TRIPS uma
conquista dos séculos, ainda que tornando mais rígido e discriminatório o
comércio internacional.
Para
melhor compreender este fenômeno teríamos que levantar o tapete dos salões dos
passos perdidos, onde se acumula o lixo não digerido da ordem internacional
predatória a fazer água nos dias que correm, quando as locomotivas das ilusões
perdidas descarrilam nas curvas do neoliberalismo antropofágico.
E os
índices de desníveis sociais empurram as massas e as elites na mesma conversa
fiada de extremismo autoritário, rebento bastardo do nazismo, e sua apologia do
nacionalismo trumpista que, dentre outras coisas mais, empurra os Estados
Unidos da América para a categoria de um Estado-Pária.
Temido por sua cegueira diante dos males que salpica diariamente nas vidas dos
cidadãos deste planeta, principalmente dos que se dedicam a aprender e a
ensinar o caminho da liberdade e da real autonomia humana.
Nunca
jamais em tempo algum, talvez só nos miseráveis tempos da Inquisição religiosa
medieval, se viu tantos ataques à ciência e às universidades como agora se
constata nas melhores cidades dos Estados Unidos.
Mas
esta digressão não deve nos afastar do tema central desta nossa conversa de
hoje neste Brasil que recebe um respiro de alívio com o sucesso de nossos
clubes diante dos Europeus. Fazia muito que não via o Botafogo com tanta garra.
Pareceu que Newton Santos e Didi baixaram no campo. Um refrigério.
Mas
nada nos deve desviar a atenção do jabuti-caviar que se instalou no Congresso
Nacional. O fenômeno se assemelha, pela forma e pelo conteúdo, com o acordo
TRIPS que acima recordei. Com um agravante: nenhum Congresso de país algum do
mundo tem a percentagem equivalente do Orçamento Nacional para distribuição
enigmática e não-transparente. É jabuti-caviar na veia.
Hoje as
emendas parlamentares chegam a 50 bilhões de reais anuais e se pretende ir
além.
As
perguntas que nós fazemos todos a deputados e senadores são simples e diretas?
Por que essas emendas são na sua maioria secretas?
Por que
tanta relutância em permitir o acesso do eleitorado ao quadro geral das
distribuições das emendas?
Estarão
elas escondendo algo de antidemocrático quanto parece? Por que elas são
intocáveis no esforço do equilíbrio fiscal?
O maior
equívoco que existe neste episódio todo é a atitude do Congresso de
abespinhar-se com as mais do que pertinentes explicações que legitimamente
fazemos.
Ou será
que nós, eleitores, estamos errados?
Há
muito de Maria Antonieta e “se não tem pão comam brioches” nesta atitude do
Congresso. Sabemos o fim de Maria Antonieta. Não é o que o povo brasileiro
deseja imitar.
A
Democracia é transparente e o voto é o único instrumento de defesa da
sociedade. O resto é maquiavelismo de botequim. Milagre de São Balalão.
Fonte:
JB

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