quinta-feira, 26 de junho de 2025

Nina Lemos: Mounjaro e a volta do emagrecimento a todo custo

Quando era criança, lembro de ouvir tias conversando sobre "remédios milagrosos" de emagrecimento. Depois de adulta, entendi que as tais "fórmulas" continham anfetaminas, uma droga perigosa, que vicia. Por um tempo, achamos que tudo isso tinha melhorado e que as mulheres tinham começado a ficar mais tranquilas com os seus corpos. Mas, de um tempo para cá, esse avanço foi por água abaixo. Ou será que essa percepção positiva foi uma ilusão?

No noticiário de celebridades, há algum tempo, passamos a ler sobre vários famosos que emagreceram "milagrosamente" com o Ozempic. E, mais recentemente, com o Mounjaro, o novo remédio queridinho, que chegou às farmácias brasileiras em maio, inicialmente com indicação só para tratamento da diabetes. Desde o dia 9 de junho, ele passou a ser indicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também para tratamento de obesidade se a doença estiver relacionada a pelo menos uma comorbidade.

<><> Febre no TikTok

O remédio já era vendido no mercado paralelo e importado e é uma febre nas redes sociais, principalmente no TikTok, onde há milhares de vídeos de mulheres contando suas experiências com a "canetinha" e se injetando.

O Mounjaro e o Ozempic são remédios similares. Os dois são apresentados em forma de uma "caneta" para aplicar a dose no corpo. Inicialmente, as drogas foram lançadas como remédios para tratamento da diabetes. Como efeito, elas também reduzem o apetite.

Em 2023, a Anvisa aprovou o uso da semaglutida, princípio ativo do Wegovy e Ozempic, para o tratamento da obesidade no Brasil. Os medicamentos eram então vendidos sem receita. A partir dessa semana, depois de inúmeros apelos de médicos e entidades, as "canetas emagrecedoras" passam a ser vendidas somente com a receita, que fica retida na farmácia. Ainda bem. Ao mesmo tempo, duvido que as drogas vão parar de ser vendidas em "mercados paralelos".

É óbvio, mas vale repetir: nenhum remédio deveria virar moda. Medicamentos precisam ser indicados por médicos para pessoas que realmente precisam deles. E com responsabilidade.

Mas parece que já é tarde demais. O Mounjaro é o novo "hype", uma "moda" que parece mais forte do que a das anfetaminas nos anos 1990 e 2000. Nas redes sociais, principalmente no TikTok, há milhares de mulheres de todas as idades se picando com a caneta e falando sobre os seus benefícios. Famosos de todas as gerações anunciam usar a droga.

A loucura é tão grande que reportagens de jornais americanos afirmam que restaurantes de cidades como Nova York estão diminuindo o tamanho das porções de comida por causa das drogas que reduzem o apetite. Surreal.

<><> Perigo no TikTok

Na época em que as pessoas tomavam cápsulas milagrosas para emagrecer, pelo menos não existia rede social com pessoas espalhando "dicas" de como tomar a droga. Em tempos de TikTok, tudo pode piorar.

Uma das tendências mais preocupantes sobre o uso do Mounjaro é a "golden dose" (dose de ouro). Trata-se de, com malabarismo extrair uma dose extra da canetinha, que tem doses para uma semana, e aplicar a "dose extra" para, supostamente, emagrecer mais rápido. Segundo médicos, fazer isso pode até matar. Mas, nas redes sociais, o "truque" é exibido como se se tratasse de uma dica de rotina de beleza.

A loucura não para por aí. Sites internacionais começaram a falar recentemente sobre o "Brazilian Natural Mounjaro". Sim, o país campeão em pressão estética, que já é conhecido pela "Brazilian Butt Lift" (lift da bunda brasileira) agora exporta o "mounjaro natural". A receita da " bebida milagrosa", que mistura vinagre de maçã e outros ingredientes, viralizou no TikTok.

No meio desse surto, uma coisa muito importante parece estar sendo esquecida: os remédios de "canetinha" são indicados apenas para pessoas com obesidade e sobrepeso que prejudicam a saúde, mas, na verdade, estão sendo usados por pessoas que querem apenas perder uns quilinhos.

Outro dia, conversando com uma amiga que mora no Brasil, ela me disse que vários amigos nossos estão usando o Mounjaro. Nenhum deles é obeso ou tem problemas sérios de saúde causados pela obesidade.

Quando falamos de uma tendência dessas, o mais preocupante é, claro, a parte da saúde. Esse é um remédio novo. Quais são os riscos do abuso e do uso a longo prazo? Mas outra coisa também me preocupa: voltamos a contar calorias, a nos achar piores porque não cabemos mais em um jeans de quando tínhamos 20 anos? Estamos dispostas a tomar drogas injetáveis caríssimas como o Mounjaro (os tratamentos custam mais de R$ 1,5 mil por mês) só para perder uns quilinhos rapidamente? Maldita pressão estética.

A crítica não vale, claro, para quem tem comorbidades causadas pela obesidade e tem indicação médica para o uso do medicamento...

•        Bactérias transformam plástico em paracetamol

Uma equipe de cientistas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, desenvolveu uma técnica pioneira para transformar resíduos plásticos em paracetamol usando bactérias geneticamente modificadas. A descoberta, publicada nesta segunda-feira (23/06) na revista científica Nature Chemistry, pode revolucionar tanto a gestão de resíduos quanto a produção sustentável de medicamentos.

A pesquisa mostra que a bactéria Escherichia coli (E. coli), comumente usada em biotecnologia, pode transformar o ácido tereftálico – uma molécula presente em garrafas e recipientes plásticos de politereftatalato de etileno (pet) – no ingrediente ativo do popular analgésico e antitérmico.

"Utilizando micróbios vivos, realizamos transformações químicas sofisticadas que podem abrir novas formas mais ecológicos e sustentáveis para produzir materiais valiosos, como medicamentos, a partir de resíduos", afirmou Stephen Wallace, autor do estudo, citado pelo jornal espanhol El País.

Através de um processo de fermentação semelhante ao da cerveja, os pesquisadores conseguiram concluir o processo de transformação do plástico em paracetamol em menos de 24 horas, com eficiência de 90%, ou de até 92% em condições otimizadas.

O procedimento é realizado em temperatura ambiente e gera emissões mínimas de carbono, ao contrário do método industrial comum, que depende do petróleo e contribui significativamente para as mudanças climáticas.

"Este trabalho demonstra que o plástico pet não é apenas um resíduo ou um material destinado a se tornar mais plástico. Microrganismos podem transformá-lo em produtos valiosos, incluindo medicamentos", explicou Wallace, que também é professor de biotecnologia química na Universidade de Edimburgo.

<><> "Supraciclagem" química

Mais de 350 milhões de toneladas de resíduos plásticos são geradas a cada ano, grande parte proveniente de pet, como garrafas de água e recipientes de alimentos. De fato, embora existam métodos de reciclagem mecânica e química, muitos produzem novos plásticos ou materiais de baixo valor, com altos custos energéticos e ambientais.

Essa nova abordagem, porém, representa um salto em direção à chamada "supraciclagem" química, ou seja, a conversão de resíduos em compostos farmacêuticos, com menor pegada de carbono e maior valor agregado.

Embora a técnica ainda não esteja pronta para aplicação industrial, os pesquisadores acreditam que ela marca o início de uma nova era na produção sustentável de medicamentos. Eles acreditam que o método pode ser adaptado a outros resíduos plásticos e à síntese de diversos medicamentos.

A equipe utilizou uma reação química conhecida como reordenamento de Lossen, que até então não havia sido induzida em células vivas. A enzima foi ativada por compostos naturalmente presentes no interior das bactérias.

"A engenharia biológica tem enorme potencial para reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis, promover uma economia circular e gerar produtos sustentáveis", disse Ian Hatch, diretor de consultoria da Edinburgh Innovations, que apoiou a pesquisa, juntamente com a agência britânica EPSRC e a farmacêutica AstraZeneca.

 

Fonte: DW Brasil

 

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