sexta-feira, 27 de junho de 2025

Envelhecer com autonomia: um desafio que o Brasil precisa enfrentar agora

Projeções indicam que o Brasil terá mais idosos do que jovens já nas próximas décadas. Isso nos impõe uma escolha: continuar enxergando a velhice como um problema ou assumi-la como uma responsabilidade coletiva e um valor social. O envelhecimento da população brasileira, segundo dados conduzidos pelo IBGE, revela que a população atingiu 203,1 milhões de habitantes, dos quais 32,1 milhões (15,6%) têm 60 anos ou mais, representando um aumento de 56% em relação ao ano de 2010.

Esse fenômeno reflete uma inversão na pirâmide etária brasileira, evidenciada pelo aumento da idade mediana da população de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022. As projeções do IBGE indicam que até 2070, cerca de 37,8% da população brasileira será composta por pessoas com 60 anos ou mais, totalizando aproximadamente 75,3 milhões de indivíduos.

O cenário reforça a necessidade de um planejamento estratégico que assegure qualidade de vida e autonomia para as futuras gerações de idosos.

Apesar do aumento na longevidade, muitos idosos enfrentam barreiras significativas para viver com autonomia. O envelhecimento é frequentemente associado a doenças crônicas, limitações físicas e cognitivas, além de fatores sociais como isolamento e vulnerabilidade econômica. Esses desafios exigem uma abordagem integrada que considere não apenas a saúde, mas também o acesso a serviços, transporte, moradia adequada e participação social.

<><> Políticas públicas: a lacuna entre o ideal e o real

Apesar do crescimento expressivo da população idosa no Brasil, a estrutura de políticas públicas voltadas para essa faixa etária permanece fragmentada, insuficiente e muitas vezes ineficaz. Essa lacuna coloca em risco não apenas a qualidade de vida na velhice, mas a própria autonomia funcional e social dos idosos. O crescimento da população idosa expõe a urgência de políticas públicas eficazes. É imperativo que o Estado invista em infraestrutura acessível, serviços de saúde adaptados às necessidades dos idosos e programas que promovam a inclusão social e a educação continuada.

De acordo com o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), o envelhecimento deve ser assegurado com dignidade, liberdade e participação. Na prática, no entanto, a ausência de políticas públicas integradas e sustentáveis tem comprometido a materialização desses direitos. Muitos municípios, por exemplo, ainda não implementaram Conselhos Municipais do Idoso, nem executam planos locais de atenção integral à população idosa.

A falta de investimentos em cuidados continuados, habitação adaptada, acessibilidade urbana, transporte público inclusivo e centros de convivência compromete diretamente a capacidade dos idosos de manterem sua independência física e emocional. Além disso, a atenção primária em saúde, porta de entrada do SUS, muitas vezes não está equipada para lidar com as complexidades do envelhecimento — como doenças crônicas múltiplas, fragilidade e demência.

O resultado disso é um ciclo de vulnerabilidade: idosos que poderiam manter-se ativos e autônomos acabam precocemente institucionalizados, hospitalizados com frequência ou submetidos a cuidados informais precários, geralmente oferecidos por familiares também sobrecarregados e sem suporte do Estado. Ou seja, o país caminha para uma realidade em que a maior parte da população envelhecerá em um sistema social que ainda não se preparou adequadamente para acolhê-la.

<><> A autonomia como expressão da cidadania

Envelhecer com autonomia vai muito além de conseguir realizar atividades do dia a dia sem ajuda. Significa ter o direito de decidir sobre a própria vida, manter-se ativo socialmente, acessar serviços essenciais com dignidade e participar plenamente da comunidade. É, acima de tudo, uma expressão da cidadania.

É urgente implementar políticas de longo prazo que transcendam gestões governamentais e considerem o envelhecimento como uma pauta central de desenvolvimento nacional. Políticas urbanas inclusivas são indispensáveis. Hoje, grande parte das políticas e práticas voltadas à velhice são reativas — focadas em tratar consequências, e não em prevenir perdas de autonomia. O direito à saúde inclui mais do que consultas e medicamentos. Envolve acesso contínuo, integral e humanizado, com profissionais capacitados em geriatria e gerontologia, programas de prevenção de quedas, estímulo à atividade física e atenção à saúde mental. Um sistema de saúde que reconhece a singularidade da velhice é essencial para garantir autonomia.

Entre as ações prioritárias, destacam-se: fortalecimento da rede de atenção primária com foco na geriatria e gerontologia; implementação de políticas de “cidades amigáveis para idosos”; incentivo à formação de cuidadores e suporte a familiares; ampliação do acesso à tecnologia e educação digital para idosos, sendo uma estratégia poderosa contra o isolamento.

Em pleno século XXI, a velhice ainda é frequentemente associada à decadência, inutilidade e invisibilidade. Esse olhar reducionista não só desrespeita a trajetória de vida de milhões de pessoas, como também alimenta um sistema que marginaliza os idosos e naturaliza a exclusão social na velhice. Essa visão compromete diretamente a construção de uma cultura de dignidade, inclusão e prevenção da dependência.

Envelhecer não é sinônimo de adoecer ou de perder valor social. Ao contrário: o envelhecimento é uma conquista histórica da humanidade. Nunca se viveu tanto, e isso deveria ser motivo de celebração e planejamento coletivo.

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que exige respostas adequadas e eficazes. No Brasil, é fundamental que profissionais da saúde, gestores públicos e a sociedade civil trabalhem juntos para criar um ambiente que permita aos idosos envelhecer com dignidade, saúde e autonomia.

Sem esse esforço, o Brasil corre o risco de se tornar uma sociedade onde o envelhecimento, ao invés de ser celebrado como conquista da longevidade, será vivido como abandono social. Uma sociedade que valoriza seus idosos, que investe na prevenção da dependência e que combate o preconceito etário, é uma sociedade que cuida melhor de todos.

Porque, no fim das contas, todos nós estamos envelhecendo. E o futuro de cada um depende das escolhas que fazemos agora.

•        21 milhões de pessoas poderão perder a visão ao envelhecer até 2050

O número de pessoas que sofrerão de perda de visão devido à degeneração macular relacionada à idade (DMRI) quase triplicará de 8,1 milhões, em 2021, para 21,3 milhões até 2050. É o que aponta um novo estudo publicado nesta quarta-feira (25) na revista científica The Lancet Global Health.

No entanto, embora o número de pessoas com DMRI esteja aumentando, o estudo descobriu que a taxa da doença padronizada por idade (uma técnica estatística usada para explicar as mudanças na estrutura populacional ao longo do tempo) na população diminuiu 5,53% entre 1990 e 2021 -- de 99,5 casos por 100 mil pessoas em 1990, para 94 por 100 mil pessoas em 2021). Isso sugere que o aumento dos casos pode estar relacionado ao envelhecimento e crescimento da população.

A degeneração macular é uma doença degenerativa que afeta a mácula, a região do olho responsável pela visão central. Os principais fatores de risco são a idade (a partir de 50 anos) e predisposição genética ou história familiar.

Segundo Mauro Goldbaum, diretor da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV) e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), essa é a principal causa de perda de visão na população com mais de 50 anos em países desenvolvidos.

Existem dois tipos de DMRI: a seca e a úmida. "A doença começa com a forma seca, que é menos agressiva, mas aproximadamente 10% dos pacientes vão converter para a forma úmida, onde há o crescimento de vasos anômalos e vazamento de parte do sangue para a mácula", explica Goldbaum em matéria publicada anteriormente na CNN. Ele não esteve envolvido no estudo. "Na forma úmida, há uma degeneração da mácula mais rápida e intensa com diminuição súbita da visão central", completa.

Para realizar o estudo, os pesquisadores usaram dados do estudo Global Burden of Diseases, Injuries and Risk Factores (GBD 2021) -- "carga global de doenças, lesões e fatores de risco", em tradução livre para o português. O objetivo era fornecer a estimativa mais atualizada da prevalência global de deficiência visual devido à DMRI.

O estudo sugere que a diminuição na taxa padronizada por idade de DMRI de 1990 a 2021 pode ser parcialmente devido à redução do uso global de tabaco, potencialmente devido em parte à implementação da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde (OMS) para Controle do Tabaco.

Os autores explicam que, embora o trabalho demonstre que a deficiência visual relacionada à DMRI continua sendo um problema de saúde global significativo, ele destaca o importante papel da melhoria do acesso à saúde e da redução do impacto do tabaco, que contribuíram para a redução das taxas de pessoas com a doença entre 1990 e 2021.

Os pesquisadores sugerem que a introdução de tratamentos e diagnósticos econômicos, especialmente em países de baixa e média renda, juntamente com a regulamentação do tabaco, pode reduzir significativamente a carga global de deficiência visual relacionada à DMRI.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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