Envelhecer
com autonomia: um desafio que o Brasil precisa enfrentar agora
Projeções
indicam que o Brasil terá mais idosos do que jovens já nas próximas décadas.
Isso nos impõe uma escolha: continuar enxergando a velhice como um problema ou
assumi-la como uma responsabilidade coletiva e um valor social. O
envelhecimento da população brasileira, segundo dados conduzidos pelo IBGE,
revela que a população atingiu 203,1 milhões de habitantes, dos quais 32,1
milhões (15,6%) têm 60 anos ou mais, representando um aumento de 56% em relação
ao ano de 2010.
Esse
fenômeno reflete uma inversão na pirâmide etária brasileira, evidenciada pelo
aumento da idade mediana da população de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022.
As projeções do IBGE indicam que até 2070, cerca de 37,8% da população
brasileira será composta por pessoas com 60 anos ou mais, totalizando
aproximadamente 75,3 milhões de indivíduos.
O
cenário reforça a necessidade de um planejamento estratégico que assegure
qualidade de vida e autonomia para as futuras gerações de idosos.
Apesar
do aumento na longevidade, muitos idosos enfrentam barreiras significativas
para viver com autonomia. O envelhecimento é frequentemente associado a doenças
crônicas, limitações físicas e cognitivas, além de fatores sociais como
isolamento e vulnerabilidade econômica. Esses desafios exigem uma abordagem
integrada que considere não apenas a saúde, mas também o acesso a serviços,
transporte, moradia adequada e participação social.
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Políticas públicas: a lacuna entre o ideal e o real
Apesar
do crescimento expressivo da população idosa no Brasil, a estrutura de
políticas públicas voltadas para essa faixa etária permanece fragmentada,
insuficiente e muitas vezes ineficaz. Essa lacuna coloca em risco não apenas a
qualidade de vida na velhice, mas a própria autonomia funcional e social dos
idosos. O crescimento da população idosa expõe a urgência de políticas públicas
eficazes. É imperativo que o Estado invista em infraestrutura acessível,
serviços de saúde adaptados às necessidades dos idosos e programas que promovam
a inclusão social e a educação continuada.
De
acordo com o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), o envelhecimento deve ser
assegurado com dignidade, liberdade e participação. Na prática, no entanto, a
ausência de políticas públicas integradas e sustentáveis tem comprometido a
materialização desses direitos. Muitos municípios, por exemplo, ainda não
implementaram Conselhos Municipais do Idoso, nem executam planos locais de
atenção integral à população idosa.
A falta
de investimentos em cuidados continuados, habitação adaptada, acessibilidade
urbana, transporte público inclusivo e centros de convivência compromete
diretamente a capacidade dos idosos de manterem sua independência física e
emocional. Além disso, a atenção primária em saúde, porta de entrada do SUS,
muitas vezes não está equipada para lidar com as complexidades do
envelhecimento — como doenças crônicas múltiplas, fragilidade e demência.
O
resultado disso é um ciclo de vulnerabilidade: idosos que poderiam manter-se
ativos e autônomos acabam precocemente institucionalizados, hospitalizados com
frequência ou submetidos a cuidados informais precários, geralmente oferecidos
por familiares também sobrecarregados e sem suporte do Estado. Ou seja, o país
caminha para uma realidade em que a maior parte da população envelhecerá em um
sistema social que ainda não se preparou adequadamente para acolhê-la.
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A autonomia como expressão da cidadania
Envelhecer
com autonomia vai muito além de conseguir realizar atividades do dia a dia sem
ajuda. Significa ter o direito de decidir sobre a própria vida, manter-se ativo
socialmente, acessar serviços essenciais com dignidade e participar plenamente
da comunidade. É, acima de tudo, uma expressão da cidadania.
É
urgente implementar políticas de longo prazo que transcendam gestões
governamentais e considerem o envelhecimento como uma pauta central de
desenvolvimento nacional. Políticas urbanas inclusivas são indispensáveis.
Hoje, grande parte das políticas e práticas voltadas à velhice são reativas —
focadas em tratar consequências, e não em prevenir perdas de autonomia. O
direito à saúde inclui mais do que consultas e medicamentos. Envolve acesso
contínuo, integral e humanizado, com profissionais capacitados em geriatria e
gerontologia, programas de prevenção de quedas, estímulo à atividade física e
atenção à saúde mental. Um sistema de saúde que reconhece a singularidade da
velhice é essencial para garantir autonomia.
Entre
as ações prioritárias, destacam-se: fortalecimento da rede de atenção primária
com foco na geriatria e gerontologia; implementação de políticas de “cidades
amigáveis para idosos”; incentivo à formação de cuidadores e suporte a
familiares; ampliação do acesso à tecnologia e educação digital para idosos,
sendo uma estratégia poderosa contra o isolamento.
Em
pleno século XXI, a velhice ainda é frequentemente associada à decadência,
inutilidade e invisibilidade. Esse olhar reducionista não só desrespeita a
trajetória de vida de milhões de pessoas, como também alimenta um sistema que
marginaliza os idosos e naturaliza a exclusão social na velhice. Essa visão
compromete diretamente a construção de uma cultura de dignidade, inclusão e
prevenção da dependência.
Envelhecer
não é sinônimo de adoecer ou de perder valor social. Ao contrário: o
envelhecimento é uma conquista histórica da humanidade. Nunca se viveu tanto, e
isso deveria ser motivo de celebração e planejamento coletivo.
O
envelhecimento populacional é um fenômeno global que exige respostas adequadas
e eficazes. No Brasil, é fundamental que profissionais da saúde, gestores
públicos e a sociedade civil trabalhem juntos para criar um ambiente que
permita aos idosos envelhecer com dignidade, saúde e autonomia.
Sem
esse esforço, o Brasil corre o risco de se tornar uma sociedade onde o
envelhecimento, ao invés de ser celebrado como conquista da longevidade, será
vivido como abandono social. Uma sociedade que valoriza seus idosos, que
investe na prevenção da dependência e que combate o preconceito etário, é uma
sociedade que cuida melhor de todos.
Porque,
no fim das contas, todos nós estamos envelhecendo. E o futuro de cada um
depende das escolhas que fazemos agora.
• 21 milhões de pessoas poderão perder a
visão ao envelhecer até 2050
O
número de pessoas que sofrerão de perda de visão devido à degeneração macular
relacionada à idade (DMRI) quase triplicará de 8,1 milhões, em 2021, para 21,3
milhões até 2050. É o que aponta um novo estudo publicado nesta quarta-feira
(25) na revista científica The Lancet Global Health.
No
entanto, embora o número de pessoas com DMRI esteja aumentando, o estudo
descobriu que a taxa da doença padronizada por idade (uma técnica estatística
usada para explicar as mudanças na estrutura populacional ao longo do tempo) na
população diminuiu 5,53% entre 1990 e 2021 -- de 99,5 casos por 100 mil pessoas
em 1990, para 94 por 100 mil pessoas em 2021). Isso sugere que o aumento dos
casos pode estar relacionado ao envelhecimento e crescimento da população.
A
degeneração macular é uma doença degenerativa que afeta a mácula, a região do
olho responsável pela visão central. Os principais fatores de risco são a idade
(a partir de 50 anos) e predisposição genética ou história familiar.
Segundo
Mauro Goldbaum, diretor da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV) e do
Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), essa é a principal causa de perda de
visão na população com mais de 50 anos em países desenvolvidos.
Existem
dois tipos de DMRI: a seca e a úmida. "A doença começa com a forma seca,
que é menos agressiva, mas aproximadamente 10% dos pacientes vão converter para
a forma úmida, onde há o crescimento de vasos anômalos e vazamento de parte do
sangue para a mácula", explica Goldbaum em matéria publicada anteriormente
na CNN. Ele não esteve envolvido no estudo. "Na forma úmida, há uma
degeneração da mácula mais rápida e intensa com diminuição súbita da visão
central", completa.
Para
realizar o estudo, os pesquisadores usaram dados do estudo Global Burden of
Diseases, Injuries and Risk Factores (GBD 2021) -- "carga global de
doenças, lesões e fatores de risco", em tradução livre para o português. O
objetivo era fornecer a estimativa mais atualizada da prevalência global de
deficiência visual devido à DMRI.
O
estudo sugere que a diminuição na taxa padronizada por idade de DMRI de 1990 a
2021 pode ser parcialmente devido à redução do uso global de tabaco,
potencialmente devido em parte à implementação da Convenção-Quadro da
Organização Mundial da Saúde (OMS) para Controle do Tabaco.
Os
autores explicam que, embora o trabalho demonstre que a deficiência visual
relacionada à DMRI continua sendo um problema de saúde global significativo,
ele destaca o importante papel da melhoria do acesso à saúde e da redução do
impacto do tabaco, que contribuíram para a redução das taxas de pessoas com a
doença entre 1990 e 2021.
Os
pesquisadores sugerem que a introdução de tratamentos e diagnósticos
econômicos, especialmente em países de baixa e média renda, juntamente com a
regulamentação do tabaco, pode reduzir significativamente a carga global de
deficiência visual relacionada à DMRI.
Fonte:
CNN Brasil

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