Professor
desprestigiado, salários indignos e a imprensa que erra o foco da crítica
É fácil
apontar o atraso educacional do Brasil. Difícil é dizer com todas as letras que
a crise tem nome, rosto e contracheque: professores desvalorizados em um país
que finge não ver.
A
chamada do editorial publicado por O Globo em 24 de junho diz muito: “Brasil
decepciona com avanço lento do ensino”. De fato, decepciona — mas não por falta
de diagnósticos.
O
problema é que o editorial identifica os sintomas, mas evita a causa
estruturante. Os dados do IBGE são claros, o título é correto, mas o texto é
exíguo diante do essencial.
O Globo
menciona que “em 2024, a proporção de jovens no ensino médio na série correta
foi de 76%, ante 68,2% em 2016”, e trata isso como insuficiente. Está certo.
Mas quem sustenta esse avanço?
Professores
adoecidos, mal pagos, sobrecarregados e cada vez mais pressionados por uma
lógica de desempenho que ignora as condições materiais da docência. Sem salário
digno, a Educação básica brasileira continuará colapsada.
Em
artigo publicado aqui ICL Notícias, em 7 de maio de 2024 — Sem rodeios: os
professores ganham muito mal — deixei claro que o nó da questão educacional
está nos baixos salários da categoria.
A
constatação de que o Brasil levará “20 anos para alcançar o patamar da OCDE na
escolaridade dos adultos” não deveria espantar tanto. Com professores
desvalorizados, a marcha será sempre lenta.
Trata-se
de um sistema que se recusa a enfrentar o óbvio: educação é um processo de
relações humanas e sociais, e não apenas uma cadeia de resultados em avaliações
padronizadas.
É
necessário dizer: nenhuma reforma curricular, plataforma digital ou plano
estratégico resolverá a crise se os profissionais da base da pirâmide seguirem
sendo tratados como descartáveis.
A
precarização da carreira docente virou política de Estado. Os professores,
especialmente do ensino básico, ganham mal, enfrentam jornadas exaustivas e
ainda carregam a culpa pelos números negativos que o sistema político lhe
impõe.
O Globo
escreve que “a frustração se estende também aos adultos” e menciona taxas de
escolaridade negativas. A frustração maior é saber que os profissionais da
Educação, muitas das vezes responsabilizados por essa formação ineficiente, são
os mais desamparados por aqueles que deveriam cuidar do efetivo processo
educativo.
Não é
por acaso que o Brasil é um dos países em que mais se adoece na profissão
docente. Há assédio moral, desrespeito, sobrecarga e uma política que o
culpabiliza sem o devido suporte.
Enquanto
isso, “a elite” política e empresarial que produz relatórios sobre “excelência
educacional” vive à margem da escola real. Não pisa no “chão de fábrica”, as
salas de aula, mas dita suas regras.
Na
base, temos Paulo Freire, do qual tiramos a nossa resistência para
conscientizar a galera discente. Sua “Pedagogia do Oprimido” virou trincheira
simbólica num cenário em que a opressão se atualiza sob novos disfarces
tecnocráticos — prejudicando tanto quem tenta ensinar quanto aqueles que tentam
aprender.
Quem
avalia os poderosos avaliadores do nosso trabalho? Quem cobra dos governos o
compromisso com o piso salarial? Quem fiscaliza as verbas da educação pública
que escorrem em parcerias com empresas de “inovação”?
O
jornalismo que se propõe sério deveria responder a isso. Mas O Globo, ao
silenciar sobre os salários dos professores, contribui para a manutenção de uma
estrutura que sabota a própria escola.
É
preciso ir à raiz. O problema da educação brasileira não está apenas na
“preguiça” dos estudantes ou na pandemia, como parece sugerir o editorial. Está
na miséria institucionalizada da profissão docente.
Falar
em metas de escolaridade sem discutir a humilhação salarial de quem ensina é
fazer malabarismo retórico. E nisso, O Globo, infelizmente, é especialista.
A
imprensa que se diz comprometida com a educação deveria começar reconhecendo:
sem salário digno, sem valorização humana e profissional, não haverá futuro
educacional que se sustente.
• Massimo Recalcati: O verdadeiro legado
dos mestres
“Chega
de mestres!” é um slogan que remonta ao grande protesto estudantil de 1968 e
que parece ressoar em uníssono com outro semelhante: "Chega de
pais!". Seu conteúdo ideológico implícito é que toda educação autêntica
deve ser, antes de tudo, uma autoformação: nenhuma origem, nenhuma dependência,
nenhuma dívida simbólica. Trata-se, em vez disso, de construir por si só o
próprio nome. O princípio liberalista do self-made man funda-se, assim, no
princípio anarquista de uma liberdade sem vínculos. Mas a ilusão da
autoformação aos olhos da psicanálise sempre se revela fundamentalmente
perversa, pois afirma uma autonomia do sujeito que gostaria de prescindir
completamente de qualquer vínculo. Pelo contrário, todo processo de formação se
desenrola necessariamente passando pela mediação do outro. É uma tese reiterada
por Lacan: para poder prescindir da dependência do outro, é preciso
reconhecê-la e saber fazer uso positivo dela. Toda formação é, nesse sentido,
sempre uma heteroformação.
A
experiência da Escola, apesar de sua tendência contemporânea à tecnologização e
à digitalização, confirma a evidência desta verdade: não existe didática sem
relação entre o sujeito e o outro. Mas que outro? Um professor-educador que
afirma conhecer o bem ou o caminho certo para seus alunos? Um professor-dono,
proprietário de um saber objetivo e codificado de uma vez por todas? Nesse
caso, o professor (educador ou dono), em sua exemplaridade idealizada ou em seu
exercício de maestria, prolongaria fatalmente uma dependência que entregaria o
aluno a uma condição de menoridade crônica. Mas o encontro necessário com a
pessoa e o saber do professor não implica de forma alguma sua idealização. O
professor não é de modo algum obrigado a encarnar um saber sem falha, compacto,
exemplar de fato, mas a se oferecer justamente em sua falta, testemunhando em
primeira pessoa que nunca se pode conhecer todo o saber. Ao contrário, os
professores que se apresentam como exemplares tornam-se, em vez disso, como
fatalmente também acontece com os pais que cometem o mesmo erro com seus
filhos, pesadelos atrozes para seus alunos.
Por
serem ideais inatingíveis, eles apenas geram medo e inibição. Nesse sentido, um
professor sempre trabalha contra si mesmo e contra os processos de idealização
que inevitavelmente tendem a investi-lo. Por isso, o verdadeiro legado de um
mestre nunca consiste na monumentalização idólatra de seu ensinamento, mas em
um resto que resiste, em um pequeno traço, em algo que não podemos esquecer
porque deixou em nós uma marca indelével. O ensino, de fato, carrega em sua
própria etimologia a experiência de uma marca que permanece, que não se apaga:
quem ensina é aquele que soube deixar uma marca.
Por
exemplo, a de um simples pó de giz. Foi o que me contou certa vez um professor
do ensino médio, professor de física. Ele havia identificado o nascimento de
sua paixão pelos estudos científicos a partir da impressão que as aulas de seu
antigo professor de física lhe deixaram, tão imerso em suas explicações no
quadro-negro que todas as vezes saía da sala de aula coberto de giz branco. Mas
de que era sinal aquele pó de giz que permanecia na jaqueta do idoso professor?
Certamente não de um conhecimento anônimo e objetivamente completo, mas sim de
uma materialização do desejo singular do próprio mestre, de sua vocação mais
profunda.
Quando
o jovem professor percebeu que a mesma coisa acontecia toda vez que terminava
suas aulas, compreendeu que naquele pó de giz estava tudo o que havia herdado
de seu mestre.
Eis um
exemplo simples de como o desejo de saber é transmitido de uma geração para a outra.
Eis um exemplo do que deveria ser a vida escolar. Mais do que a transmissão de
um conhecimento consolidado, o que está em jogo é um resto que se torna o traço
indelével do desejo vivo de saber próprio do professor: o pó de giz que antes
estava na jaqueta do idoso professor agora se encontra naquela de seu aluno.
Trata-se
de um exemplo luminosos do movimento mais típico da herança. Toda verdadeira
herança é, na verdade, composta de quase nada. Não de bens, genes, propriedades
ou rendas. De fato, nada se herda, exceto o próprio ato que nos constitui como
herdeiros. Como também acontece com Philip Roth em Patrimônio: o que resta do
pai é sua merda, o resíduo muito humano e indelével de sua presença no mundo. É
aquele resto carbonizado que, como afirma o profeta Isaías, é tarefa dos
verdadeiros herdeiros transformar em uma “semente santa”. A ironia benevolente
que o idoso professor provocava em seus alunos ao sair da sala de aula
embranquecido pelo pó de giz é a mesma que o jovem professor provoca agora ao
final de suas aulas.
Algo se
repete em uma diferença. É a diferença e o resto que qualificam todo legado e
que, como tais, nos lembram que nossas origens jamais podem ser apagadas, que
ninguém pode moldar a própria vida sem passar pelo encontro com o outro, que
ninguém pode pretender construir um nome sozinho.
• Umberto Galimberti: Que tipo de
maturidade esperar se a escola não educa mais
Na
Itália, estão sendo realizados os exames de maturidade, que desde 1997, com a
reforma escolar implementada pelo Ministro Luigi Berlinguer, passaram a ser
chamados de exames de Estado. Nesse caso, não se trata apenas de uma mudança
inofensiva de nome, mas de uma limitação precisa da tarefa da escola unicamente
à instrução. O que fica de fora, e que a palavra maturidade incluía, é a
educação.
A
mudança de nome foi oportuna porque a escola italiana instrui, mas não educa.
Digo isso porque a instrução é uma transmissão de conteúdos culturais e
científicos de quem os possui (os professores) para quem não os possui (os
alunos); e educação, ao contrário, acompanha os estudantes, naquela época
incerta chamada adolescência, em sua trajetória de evolução psicológica, nunca
tão problemática e turbulenta como naquela idade, já que a racionalidade entra
em pleno funcionamento entre os 18 e os 20 anos, quando os lobos frontais
atingem a plena "maturidade". É comum pensar que a educação nada mais
é do que um derivado da instrução. Mas as coisas não são assim. Em vez disso, a
instrução é um evento que só pode ser realizado durante a educação, porque,
como dizia Platão, "a mente não se abre se não se abrir primeiro o
coração". Mas quantos professores abrem o coração? E quantos se limitam a
realizar os programas ministeriais sem qualquer empatia por seus alunos?
A
educação é essencial porque, diferentemente dos animais, os humanos não têm
instintos, que são respostas rígidas a um estímulo, mas apenas impulsos com um
objetivo indeterminado, de modo que, por exemplo, um impulso agressivo pode se
expressar em violência, mas, se educado, pode se traduzir em uma séria tomada
de posição.
A falta
de educação dos impulsos confina as crianças a se expressarem apenas com gestos
violentos, em vez de com palavras e raciocínios. Esse é o caso do bullying em
que se cometem atos reprováveis sem a menor consciência da gravidade das ações.
Como nossa escola se comporta com os agressores? Recebem uma suspensão da
escola, privando-os da única oportunidade que têm naqueles anos de passar do
nível pulsional para o nível emocional.
Por
emoção, quero dizer, nesse contexto, a ressonância emocional dos próprios
comportamento. Kant dizia que “talvez nem sequer definamos a diferença entre o
bem e o mal, porque cada pessoa a sente (fühlen) naturalmente por si só”. Hoje,
não é mais verdade que todas as crianças sentem a diferença entre falar mal de
um professor, talvez não em sua presença, ou chutá-lo (agora até os pais tentam
isso), entre cortejar uma garota ou estuprá-la. Prova disso são as respostas
que esses garotos dão aos magistrados que os interrogam: “Mas o que fizemos?”.
Eles não têm aquela ressonância emocional imediata que geralmente acompanha os
nossos comportamentos.
Não
temos sentimentos por natureza, mas por cultura. Os sentimentos são aprendidos.
Desde o início dos tempos, as primeiras comunidades, por meio de narrativas,
mitos e ritos, ensinavam a diferença entre puro e impuro, entre sagrado e
profano, entre totem e tabu, a fim de orientar os membros da comunidade em seus
comportamentos. Os antigos gregos representavam todos os sentimentos, paixões e
virtudes humanas no Olimpo. Zeus era o poder, Atena a inteligência, Afrodite a
sexualidade, Ares a agressividade, Apolo a beleza, Dionísio a loucura.
Hoje
não podemos retornar aos mitos, mas temos aquele grande repertório que é a
literatura, que nos ensina o que é a dor em todas as suas nuances, o que é o
amor em todas as suas manifestações, o que são alegria, tristeza, tédio,
entusiasmo, esperança, desespero, melancolia, exaltação.
E,
portanto, vamos parar de encher a escola de computadores (a digitalização da
escola), e voltar à literatura que, por exemplo, na presença da dor, nos pode
indicar, se não as saídas, pelo menos as maneiras de lidar com ela.
Compreendemos então por que Ésquilo, no século V a.C., dizia: "Só o
conhecimento tem poder sobre a dor". Se a escola italiana instrui, mas não
educa, as razões são em parte objetivas e em parte subjetivas.
Para
educar, é necessário compor turmas de 12 ou, no máximo, 15 alunos. Se, no
entanto, as turmas são de 30 alunos, então foi decidido a priori que a educação
não está incluída entre as funções da escola. Numa escola onde o objetivo é o
conhecimento e o aproveitamento é o parâmetro para medi-lo, independentemente
das condições de existência com que as diferentes vidas dos alunos conseguiram
se expressar, para aqueles que não obtêm sucesso, não basta invocar a boa
vontade.
Essas
são as razões que levam muitos alunos a abandonar a escola, quando não
extinguem a autoestima em jovens vidas, fundamental para o crescimento e para
evitar desmotivações e depressões.
Fiquei
sabendo de um diretor milanês que disse a uma professora que havia dado zero ao
trabalho de um aluno: "Zero não é uma nota, é uma humilhação. É possível
avaliar a insuficiência de um trabalho também com um quatro, no lugar de um
zero".
Se nas
nossas escolas está prevista apenas a instrução e não a educação, considero
oportuno, mas também mortificante, que o exame final não seja mais chamado de
"maturidade", mas sim de "exame final de Estado do curso de
estudo de instrução secundária superior". É triste, não é? Mas pelo menos
essa formulação diz a verdade sobre a nossa escola.
Fonte:
ICL Notícias/La Repubblica

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