sexta-feira, 27 de junho de 2025

Moisés Mendes: O fim da coalizão amarrada com arame farpado

Pararam de dizer que Flávio Dino, o caçador de emendas, daria um jeito nas facções que chantageiam o governo. Agora, dizem que Alexandre de Moraes pode salvar o decreto do IOF. O Supremo continuaria fazendo o que a política é incapaz de fazer.

Dino sozinho não irá conter a fome do centrão e do fascismo por dinheiro. Assim como o STF todo, e não só Moraes, talvez não tenha mais bambu para uma guerra que era de flechas, mas agora é de drones.

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Hoje, com o que está aí, parece que não há mais o que fazer. Até o estagiário do gabinete de Hugo Motta sabe que o conflito é mais do que pontual. Direita e extrema direita, as velhas e as novas, andavam de mãos dadas. Agora andam abraçadas.

Moraes vai levar o processo até o desfecho das condenações dos chefes militares golpistas. Mas não há como, hoje, nesse momento e nesse ambiente, conter pela política a caminhada dos civis que os sustentaram, desta vez na direção de outro golpe, pelo voto.

E o que pode existir de surpresa nessa caminhada? Nada. Zero de surpresa. As facções seguem o rumo ditado por seus corações. O Congresso é dominado por dois terços de direita e extrema direita, sem que se saiba o que pode ter restado do que era o centro. Até o PSB vota contra o governo.

Esses dois terços se reproduzem nas composições das Assembleias Legislativas. E são os mesmos dois terços que controlam as Câmaras de Vereadores, de Barbacena a Alegrete, com exceções cada vez mais excepcionais.

Lula no poder é uma distorção dessa realidade. Por ser desde sempre maior do que os partidos de esquerda somados e porque sinalizava com a perspectiva de poder à direita que a ele se agregou pela terceira vez, mesmo que com novas feições.

O brasileiro comum não sabe, e talvez nem esteja interessado em saber, que dos 38 ministérios de Lula só 12 são do PT. Que nove dos ministros não têm vínculos formais com partidos, como é o caso de Ricardo Lewandowski na Justiça.

E que a maioria dos outros 17 ministérios está nas mãos da velha direita e da nova direita com conexões com a extrema direita. O Republicanos, que está no governo, é o partido de Tarcísio de Freitas, Hugo Motta e Hamilton Mourão.

O União Brasil, que também tem gente no governo, é o partido de Ronaldo Caiado. Em algum momento – a maioria talvez esperasse que fosse mais adiante –, eles iriam transformar as mãos dadas em abraços e beijos, andando na direção de 2026.

O que tivemos nos dois primeiros governos de Lula e nos dois governos incompletos de Dilma não existe mais. Porque a direita das emendas governa via Congresso, sem depender só da partilha de poder do governo.

Governa com emendas, com fundo partidário e com tudo o que dessa dinheirama vai para desvios e manobras dos poderes paroquiais dessa gente. Flávio Dino vem tentando conter os seres desse mundo. Governar no atacado, e no varejo que importa, não significa mais, há muito tempo, estar dentro do governo.

Governar é exercer o poder cotidiano, sempre na perspectiva do ganho eleitoral. E as sondagens eleitorais indicam hoje que é possível fragilizar ainda mais o governo e começar a construção do projeto para 2026, depois das derrotas na eleição e no golpe.

Parece complexo, mas é simples. O suporte de sustentação do governo sempre foi arrendado, pela possibilidade de trocas. Você me dá ministérios, poder, verbas e cargos subalternos e nós vamos gerindo do jeito que dá suas demandas no Congresso. Mas só enquanto você estiver forte.

O sistema de trocas das coalizões anuncia seu esgotamento, no terceiro governo Lula, antes do tempo. Porque a direita se convenceu de que existem ambiente, humores e nomes capazes de enfrentar Lula em 2026, usando o que foi reciclado do bolsonarismo.

Ir em frente significa fazer Lula sangrar, mesmo que com algumas concessões eventuais. A direita pode ter estabelecido neste inverno os limites de ação do governo e do Supremo. Daqui vocês não passam mais, porque estamos no comando.

Chegamos às vésperas de uma situação esdrúxula. Os chefes do golpe estarão presos, inclusive os militares, e seus subalternos, aspirantes e ajudantes civis estarão a caminho da reconquista do poder. Não mais necessariamente via conquista do Planalto, mas pelo Congresso.

Outro cenário esquisito não pode ser desprezado. Os eventuais derrotados em 2026 à Presidência, mas donos do Congresso, poderão ser chamados de novo para ajudar Lula a governar a partir de 2027.

Teremos uma coalizão com derrotados, amarrada com os arames farpados que sobrarem do terceiro governo. Voltar a conversar com o povo poderia nos salvar, mas o povo do século 21 não quer saber das conversas do século 20.

•        Sabotagem do Congresso implode frenteamplismo e exige de Lula mobilizar o povo. Por Tiago Barbosa

A sabotagem parlamentar hedionda contra o povo implode o frenteamplismo e exige a adoção de novas forças de pressão social.

A governança sobre uma base movediça, instável e oportunista fracassou na geleia ideológica de um congresso inescrupuloso.

Deputados e senadores se locupletam na ganância pra sugar o orçamento enquanto minguam recursos - e o futuro - do país.

Representam um mercado sem limites ou freios na sanha insaciável por dividendos transbordados da desigualdade incurável.

Agem sob endosso de uma mídia amoral, acrítica e servil ao eterno projeto falido de vencer Lula e enterrar a pauta popular.

Sob um sistema de desinformação eficaz em gerar falsas leituras da realidade para induzir desalento e ódio - a matéria-prima do recrutamento alienado do extremismo.

Esse cenário emoldurado por agentes do atraso - âncoras de um Brasil assediado por grilhões da escravidão - entrava toda forma habitual de composição política.

O noticiário distorcido e as redes invadidas por mentiras e violência ilustram o cárcere coletivo na irracionalidade - o país vaga preso, cego e mudo de consciência.

Incapaz de enxergar injustiça e opressões de classe para se mobilizar por reações de equiparação de direitos e privilégios.

A governança ruiu - e só a entrada de novos atores no tabuleiro político reequilibra minimamente a disputa pelo Brasil.

É hora de envolver o povo, radicalizar a pauta em defesa do trabalhador e entender a dinâmica de percepção comunicativa das redes - pautar, dominar e convencer.

Não faltam canais e recursos - o primeiro passo é coragem.

•        "Lula deveria desmontar todo o ministério desta coesão inexistente", diz Hildegard Angel

A colunista Hildegard Angel, do Brasil 247, foi às redes sociais nesta quinta-feira (26) e defendeu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “desmonte” ministérios cedidos ao centrão em nome de uma coesão que, hoje, se revela "inexistente”. A reação ocorre poucas horas depois de o Congresso derrubar o decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), impondo a Lula uma grande derrota fiscal.

“Lula deveria desmontar esse ministério de uma coesão inexistente, enviar para o Congresso todas as reformas necessárias, sem suavizar nada, sem contemporizar, e o Congresso que faça o habitual serviço sujo e fique ainda mais desmoralizado. O que estão fazendo com Lula chama-se ‘fritura’ no jargão político. Quando o óleo estiver a 180°, eles aprontam um impeachment cabuloso”, escreveu Hildegard.

Hildegard defende que Lula encaminhe um pacote de reformas estruturais – política, tributária e administrativa, por exemplo – e deixe que deputados e senadores arquem com o desgaste de possíveis cortes ou ajustes.

O revés no IOF foi retumbante: a Câmara aprovou o Projeto de Decreto Legislativo por 383 votos a 98, e o Senado confirmou a anulação em votação simbólica. Segundo levantamento da CNN Brasil, 63% dos votos pela derrubada vieram de partidos que ocupam ministérios, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, sinalizando o esfacelamento da base aliada. Apenas Psol, PCdoB e Rede votaram integralmente com o governo.

O detalhamento do painel eletrônico expôs a dimensão da debandada. No MDB, 41 deputados votaram contra o Palácio do Planalto, enquanto no PP todos os 49 presentes apoiaram a derrubada. Até no PT houve um voto favorável – depois atribuído a erro técnico pelo deputado Rui Falcão.

A derrota compromete o plano do Ministério da Fazenda de reforçar a arrecadação em 2025 – a equipe econômica calculava levantar até R$ 10 bilhões com a alta do IOF. Agora, o governo estuda alternativas para tapar o rombo sem prejudicar a meta fiscal.

Nos bastidores, líderes governistas reconhecem que a estratégia de distribuir ministérios em troca de votos não garantiu fidelidade. A avaliação é que o governo terá de reorganizar o núcleo político, estabelecendo prioridades claras e mobilizando militância e opinião pública para pressionar o Parlamento – exatamente o que Hildegard sugere ao defender “desmontar” a atual configuração de poder.

<><> Motta desrespeita o governo Lula e deixa de atender Haddad e Gleisi

A tensão entre o Palácio do Planalto e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), atingiu um nível inédito. Motta liderou, na noite de quarta-feira (25), a articulação que derrubou, por ampla maioria, o decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que reajustava a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Segundo Renata Agostini, do jornal O Globo, antes mesmo de pavimentar a derrota do governo no plenário, Motta passou a ignorar telefonemas da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), responsável pela articulação política do Planalto. A ministra tentou, em vão, abrir um canal de diálogo horas antes da votação decisiva. O mesmo 'gelo' foi dado ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), que enviou mensagens pedindo uma conversa de última hora e sequer recebeu confirmação de leitura.

Interlocutores relatam que Motta acusa o chefe da equipe econômica de agir com “deslealdade” ao criticar publicamente pautas aprovadas pelo Congresso. Para o deputado, o governo aposta na retórica do “nós contra eles” para colar no Legislativo a pecha de defensor dos “lobbies” e do “andar de cima”. Irritado, ele afirma que não está disposto a “fazer o jogo do governo” e que precisa salvaguardar os interesses da Câmara.

Motta se sentiu ainda mais obrigado a desafiar Lula no caso do IOF depois de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), conduzir uma sessão do Congresso que derrubou uma série de vetos presidenciais. A Câmara não podia ficar para trás, avaliam interlocutores de Morra.

No Planalto, a leitura é oposta. Assessores de Lula enxergam na postura do presidente da Câmara a tentativa de antecipar o tabuleiro eleitoral de 2026. Motta chegou ao comando da Casa chancelado por líderes do centrão interessados em apoiar um nome da direita na próxima disputa presidencial. Para esses auxiliares, a escalada de confrontos serve para consolidar o deputado como fiador dos interesses de grandes bancos e gestoras — nichos duramente atingidos pelo decreto do IOF.

Mesmo antes da votação, porém, havia sinais de indisposição. Pela manhã, Motta reclamou a colegas da “ingratidão” de Haddad, que, nas suas palavras, teria recebido apoio da Câmara para avançar com a reforma tributária, mas agora demonstraria “falta de reconhecimento”. Paralelamente, fez chegar ao Planalto o recado de que só voltará à mesa de negociação “quando houver coordenação de verdade”.

Para parlamentares governistas, o impasse expõe os limites da base aliada. Eles lembram que Lula entregou cargos e emendas a partidos do bloco de centro, mas não recebeu fidelidade em votações de alto impacto fiscal. Já na avaliação de integrantes do núcleo político do Republicanos, o episódio comprova que o governo “errou o alvo” ao atacar o Congresso.

Num ambiente de desconfiança mútua, o cronograma de pautas econômicas corre risco. Propostas como a regulamentação da nova fase da reforma tributária e a votação do Orçamento de 2026 podem se tornar reféns de disputas internas enquanto Motta — fortalecido após a derrota do IOF — se move para manter o Executivo sob pressão.

•        Após derrubada do aumento do IOF pela Câmara, Lula diz que governo busca "justiça fiscal"

Diante da ampla derrota na Câmara dos Deputados, que derrubou o decreto de aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender mudanças tributárias com foco na equidade. Em publicação nas redes sociais nesta quinta-feira (26), Lula reafirmou que a meta do governo é combater desigualdades no sistema fiscal e garantir que os mais ricos contribuam proporcionalmente com a arrecadação.

A manifestação do presidente ocorre em um momento de tensão entre o Executivo e o Congresso, após 383 deputados votarem contra o decreto de aumento do IOF. Apenas 98 foram favoráveis. A medida, considerada essencial pela equipe econômica para manter o equilíbrio fiscal, foi rejeitada inclusive por partidos com ministérios no governo, o que acentuou a percepção de fragilidade da articulação política do Planalto.

“Muita gente está falando em imposto no Brasil nos últimos dias. É importante entender o que de fato está sendo proposto”, escreveu Lula na legenda de uma tirinha publicada em seu perfil no Instagram. “O governo quer fazer mudanças tributárias combatendo privilégios e injustiças. É tornar o sistema mais justo".

Na sequência, o presidente explicou, de forma didática, o princípio que orienta a proposta de justiça fiscal defendida pelo governo:

“É simples: quem tem mais, paga — proporcionalmente — mais. Quem tem menos, paga menos. Assim, corrigimos uma injustiça histórica, equilibramos o sistema e garantimos que os super-ricos contribuam de forma mais justa com o país".

 “Justiça fiscal é isso. Essa é a mudança que queremos construir”, concluiu.

Nos bastidores, o governo avalia possíveis respostas à derrota, que vão desde a reedição do decreto em nova versão até uma eventual judicialização no Supremo Tribunal Federal. No entanto, interlocutores reconhecem que há risco de agravamento da crise institucional se o STF for acionado para questionar a decisão do Congresso.

Em paralelo, a mobilização nas redes sociais aparece como estratégia prioritária para disputar corações e mentes da sociedade sobre os rumos da política fiscal.

 

Fonte: Brasil 247

 

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