Moisés
Mendes: O fim da coalizão amarrada com arame farpado
Pararam
de dizer que Flávio Dino, o caçador de emendas, daria um jeito nas facções que
chantageiam o governo. Agora, dizem que Alexandre de Moraes pode salvar o
decreto do IOF. O Supremo continuaria fazendo o que a política é incapaz de
fazer.
Dino
sozinho não irá conter a fome do centrão e do fascismo por dinheiro. Assim como
o STF todo, e não só Moraes, talvez não tenha mais bambu para uma guerra que
era de flechas, mas agora é de drones.
Play
Video
Hoje,
com o que está aí, parece que não há mais o que fazer. Até o estagiário do
gabinete de Hugo Motta sabe que o conflito é mais do que pontual. Direita e
extrema direita, as velhas e as novas, andavam de mãos dadas. Agora andam
abraçadas.
Moraes
vai levar o processo até o desfecho das condenações dos chefes militares
golpistas. Mas não há como, hoje, nesse momento e nesse ambiente, conter pela
política a caminhada dos civis que os sustentaram, desta vez na direção de
outro golpe, pelo voto.
E o que
pode existir de surpresa nessa caminhada? Nada. Zero de surpresa. As facções
seguem o rumo ditado por seus corações. O Congresso é dominado por dois terços
de direita e extrema direita, sem que se saiba o que pode ter restado do que
era o centro. Até o PSB vota contra o governo.
Esses
dois terços se reproduzem nas composições das Assembleias Legislativas. E são
os mesmos dois terços que controlam as Câmaras de Vereadores, de Barbacena a
Alegrete, com exceções cada vez mais excepcionais.
Lula no
poder é uma distorção dessa realidade. Por ser desde sempre maior do que os
partidos de esquerda somados e porque sinalizava com a perspectiva de poder à
direita que a ele se agregou pela terceira vez, mesmo que com novas feições.
O
brasileiro comum não sabe, e talvez nem esteja interessado em saber, que dos 38
ministérios de Lula só 12 são do PT. Que nove dos ministros não têm vínculos
formais com partidos, como é o caso de Ricardo Lewandowski na Justiça.
E que a
maioria dos outros 17 ministérios está nas mãos da velha direita e da nova
direita com conexões com a extrema direita. O Republicanos, que está no
governo, é o partido de Tarcísio de Freitas, Hugo Motta e Hamilton Mourão.
O União
Brasil, que também tem gente no governo, é o partido de Ronaldo Caiado. Em
algum momento – a maioria talvez esperasse que fosse mais adiante –, eles iriam
transformar as mãos dadas em abraços e beijos, andando na direção de 2026.
O que
tivemos nos dois primeiros governos de Lula e nos dois governos incompletos de
Dilma não existe mais. Porque a direita das emendas governa via Congresso, sem
depender só da partilha de poder do governo.
Governa
com emendas, com fundo partidário e com tudo o que dessa dinheirama vai para
desvios e manobras dos poderes paroquiais dessa gente. Flávio Dino vem tentando
conter os seres desse mundo. Governar no atacado, e no varejo que importa, não
significa mais, há muito tempo, estar dentro do governo.
Governar
é exercer o poder cotidiano, sempre na perspectiva do ganho eleitoral. E as
sondagens eleitorais indicam hoje que é possível fragilizar ainda mais o
governo e começar a construção do projeto para 2026, depois das derrotas na
eleição e no golpe.
Parece
complexo, mas é simples. O suporte de sustentação do governo sempre foi
arrendado, pela possibilidade de trocas. Você me dá ministérios, poder, verbas
e cargos subalternos e nós vamos gerindo do jeito que dá suas demandas no
Congresso. Mas só enquanto você estiver forte.
O
sistema de trocas das coalizões anuncia seu esgotamento, no terceiro governo
Lula, antes do tempo. Porque a direita se convenceu de que existem ambiente,
humores e nomes capazes de enfrentar Lula em 2026, usando o que foi reciclado
do bolsonarismo.
Ir em
frente significa fazer Lula sangrar, mesmo que com algumas concessões
eventuais. A direita pode ter estabelecido neste inverno os limites de ação do
governo e do Supremo. Daqui vocês não passam mais, porque estamos no comando.
Chegamos
às vésperas de uma situação esdrúxula. Os chefes do golpe estarão presos,
inclusive os militares, e seus subalternos, aspirantes e ajudantes civis
estarão a caminho da reconquista do poder. Não mais necessariamente via
conquista do Planalto, mas pelo Congresso.
Outro
cenário esquisito não pode ser desprezado. Os eventuais derrotados em 2026 à
Presidência, mas donos do Congresso, poderão ser chamados de novo para ajudar
Lula a governar a partir de 2027.
Teremos
uma coalizão com derrotados, amarrada com os arames farpados que sobrarem do
terceiro governo. Voltar a conversar com o povo poderia nos salvar, mas o povo
do século 21 não quer saber das conversas do século 20.
• Sabotagem do Congresso implode
frenteamplismo e exige de Lula mobilizar o povo. Por Tiago Barbosa
A
sabotagem parlamentar hedionda contra o povo implode o frenteamplismo e exige a
adoção de novas forças de pressão social.
A
governança sobre uma base movediça, instável e oportunista fracassou na geleia
ideológica de um congresso inescrupuloso.
Deputados
e senadores se locupletam na ganância pra sugar o orçamento enquanto minguam
recursos - e o futuro - do país.
Representam
um mercado sem limites ou freios na sanha insaciável por dividendos
transbordados da desigualdade incurável.
Agem
sob endosso de uma mídia amoral, acrítica e servil ao eterno projeto falido de
vencer Lula e enterrar a pauta popular.
Sob um
sistema de desinformação eficaz em gerar falsas leituras da realidade para
induzir desalento e ódio - a matéria-prima do recrutamento alienado do
extremismo.
Esse
cenário emoldurado por agentes do atraso - âncoras de um Brasil assediado por
grilhões da escravidão - entrava toda forma habitual de composição política.
O
noticiário distorcido e as redes invadidas por mentiras e violência ilustram o
cárcere coletivo na irracionalidade - o país vaga preso, cego e mudo de
consciência.
Incapaz
de enxergar injustiça e opressões de classe para se mobilizar por reações de
equiparação de direitos e privilégios.
A
governança ruiu - e só a entrada de novos atores no tabuleiro político
reequilibra minimamente a disputa pelo Brasil.
É hora
de envolver o povo, radicalizar a pauta em defesa do trabalhador e entender a
dinâmica de percepção comunicativa das redes - pautar, dominar e convencer.
Não
faltam canais e recursos - o primeiro passo é coragem.
• "Lula deveria desmontar todo o
ministério desta coesão inexistente", diz Hildegard Angel
A
colunista Hildegard Angel, do Brasil 247, foi às redes sociais nesta
quinta-feira (26) e defendeu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
“desmonte” ministérios cedidos ao centrão em nome de uma coesão que, hoje, se
revela "inexistente”. A reação ocorre poucas horas depois de o Congresso
derrubar o decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF),
impondo a Lula uma grande derrota fiscal.
“Lula
deveria desmontar esse ministério de uma coesão inexistente, enviar para o
Congresso todas as reformas necessárias, sem suavizar nada, sem contemporizar,
e o Congresso que faça o habitual serviço sujo e fique ainda mais
desmoralizado. O que estão fazendo com Lula chama-se ‘fritura’ no jargão
político. Quando o óleo estiver a 180°, eles aprontam um impeachment cabuloso”,
escreveu Hildegard.
Hildegard
defende que Lula encaminhe um pacote de reformas estruturais – política,
tributária e administrativa, por exemplo – e deixe que deputados e senadores
arquem com o desgaste de possíveis cortes ou ajustes.
O revés
no IOF foi retumbante: a Câmara aprovou o Projeto de Decreto Legislativo por
383 votos a 98, e o Senado confirmou a anulação em votação simbólica. Segundo
levantamento da CNN Brasil, 63% dos votos pela derrubada vieram de partidos que
ocupam ministérios, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, sinalizando
o esfacelamento da base aliada. Apenas Psol, PCdoB e Rede votaram integralmente
com o governo.
O
detalhamento do painel eletrônico expôs a dimensão da debandada. No MDB, 41
deputados votaram contra o Palácio do Planalto, enquanto no PP todos os 49
presentes apoiaram a derrubada. Até no PT houve um voto favorável – depois
atribuído a erro técnico pelo deputado Rui Falcão.
A
derrota compromete o plano do Ministério da Fazenda de reforçar a arrecadação
em 2025 – a equipe econômica calculava levantar até R$ 10 bilhões com a alta do
IOF. Agora, o governo estuda alternativas para tapar o rombo sem prejudicar a
meta fiscal.
Nos
bastidores, líderes governistas reconhecem que a estratégia de distribuir
ministérios em troca de votos não garantiu fidelidade. A avaliação é que o
governo terá de reorganizar o núcleo político, estabelecendo prioridades claras
e mobilizando militância e opinião pública para pressionar o Parlamento –
exatamente o que Hildegard sugere ao defender “desmontar” a atual configuração
de poder.
<><>
Motta desrespeita o governo Lula e deixa de atender Haddad e Gleisi
A
tensão entre o Palácio do Planalto e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo
Motta (Republicanos-PB), atingiu um nível inédito. Motta liderou, na noite de
quarta-feira (25), a articulação que derrubou, por ampla maioria, o decreto do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que reajustava a alíquota do Imposto
sobre Operações Financeiras (IOF).
Segundo
Renata Agostini, do jornal O Globo, antes mesmo de pavimentar a derrota do
governo no plenário, Motta passou a ignorar telefonemas da ministra da
Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), responsável pela
articulação política do Planalto. A ministra tentou, em vão, abrir um canal de
diálogo horas antes da votação decisiva. O mesmo 'gelo' foi dado ao ministro da
Fazenda, Fernando Haddad (PT), que enviou mensagens pedindo uma conversa de
última hora e sequer recebeu confirmação de leitura.
Interlocutores
relatam que Motta acusa o chefe da equipe econômica de agir com “deslealdade”
ao criticar publicamente pautas aprovadas pelo Congresso. Para o deputado, o
governo aposta na retórica do “nós contra eles” para colar no Legislativo a
pecha de defensor dos “lobbies” e do “andar de cima”. Irritado, ele afirma que
não está disposto a “fazer o jogo do governo” e que precisa salvaguardar os
interesses da Câmara.
Motta
se sentiu ainda mais obrigado a desafiar Lula no caso do IOF depois de o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), conduzir uma sessão do
Congresso que derrubou uma série de vetos presidenciais. A Câmara não podia
ficar para trás, avaliam interlocutores de Morra.
No
Planalto, a leitura é oposta. Assessores de Lula enxergam na postura do
presidente da Câmara a tentativa de antecipar o tabuleiro eleitoral de 2026.
Motta chegou ao comando da Casa chancelado por líderes do centrão interessados
em apoiar um nome da direita na próxima disputa presidencial. Para esses
auxiliares, a escalada de confrontos serve para consolidar o deputado como
fiador dos interesses de grandes bancos e gestoras — nichos duramente atingidos
pelo decreto do IOF.
Mesmo
antes da votação, porém, havia sinais de indisposição. Pela manhã, Motta
reclamou a colegas da “ingratidão” de Haddad, que, nas suas palavras, teria
recebido apoio da Câmara para avançar com a reforma tributária, mas agora
demonstraria “falta de reconhecimento”. Paralelamente, fez chegar ao Planalto o
recado de que só voltará à mesa de negociação “quando houver coordenação de
verdade”.
Para
parlamentares governistas, o impasse expõe os limites da base aliada. Eles
lembram que Lula entregou cargos e emendas a partidos do bloco de centro, mas
não recebeu fidelidade em votações de alto impacto fiscal. Já na avaliação de
integrantes do núcleo político do Republicanos, o episódio comprova que o
governo “errou o alvo” ao atacar o Congresso.
Num
ambiente de desconfiança mútua, o cronograma de pautas econômicas corre risco.
Propostas como a regulamentação da nova fase da reforma tributária e a votação
do Orçamento de 2026 podem se tornar reféns de disputas internas enquanto Motta
— fortalecido após a derrota do IOF — se move para manter o Executivo sob
pressão.
• Após derrubada do aumento do IOF pela
Câmara, Lula diz que governo busca "justiça fiscal"
Diante
da ampla derrota na Câmara dos Deputados, que derrubou o decreto de aumento do
IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) voltou a defender mudanças tributárias com foco na equidade. Em
publicação nas redes sociais nesta quinta-feira (26), Lula reafirmou que a meta
do governo é combater desigualdades no sistema fiscal e garantir que os mais
ricos contribuam proporcionalmente com a arrecadação.
A
manifestação do presidente ocorre em um momento de tensão entre o Executivo e o
Congresso, após 383 deputados votarem contra o decreto de aumento do IOF.
Apenas 98 foram favoráveis. A medida, considerada essencial pela equipe
econômica para manter o equilíbrio fiscal, foi rejeitada inclusive por partidos
com ministérios no governo, o que acentuou a percepção de fragilidade da
articulação política do Planalto.
“Muita
gente está falando em imposto no Brasil nos últimos dias. É importante entender
o que de fato está sendo proposto”, escreveu Lula na legenda de uma tirinha
publicada em seu perfil no Instagram. “O governo quer fazer mudanças
tributárias combatendo privilégios e injustiças. É tornar o sistema mais
justo".
Na
sequência, o presidente explicou, de forma didática, o princípio que orienta a
proposta de justiça fiscal defendida pelo governo:
“É
simples: quem tem mais, paga — proporcionalmente — mais. Quem tem menos, paga
menos. Assim, corrigimos uma injustiça histórica, equilibramos o sistema e
garantimos que os super-ricos contribuam de forma mais justa com o país".
“Justiça fiscal é isso. Essa é a mudança que
queremos construir”, concluiu.
Nos
bastidores, o governo avalia possíveis respostas à derrota, que vão desde a
reedição do decreto em nova versão até uma eventual judicialização no Supremo
Tribunal Federal. No entanto, interlocutores reconhecem que há risco de
agravamento da crise institucional se o STF for acionado para questionar a
decisão do Congresso.
Em
paralelo, a mobilização nas redes sociais aparece como estratégia prioritária
para disputar corações e mentes da sociedade sobre os rumos da política fiscal.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário