Entenda
como o "milagre econômico boliviano" acabou levando o país para uma
grave crise
Nos
últimos dois anos, a economia boliviana tem se
deteriorado gradualmente. A queda nas exportações de gás gerou uma escassez de
dólares no país, o que resultou em dificuldades para importar combustível e,
sobretudo, em uma forte inflação. O custo de vida aumentou significativamente
nos últimos meses na Bolívia. Em maio, a inflação anual chegou a 18,4%, o
nível mais alto em pelo menos 17 anos.
Em La
Paz, o clima é de desânimo nos mercados municipais. Vendedores e clientes
sentem os efeitos da alta nos preços. “Para alguns produtos, como o óleo,
precisamos aumentar quase todos os dias. Um boliviano (equivalente a R$ 0,40)
aqui, outro ali”, lamenta Magali, vendedora no mercado de Sopocachi, no
centro da capital administrativa. Como consequência, “os clientes não vêm tanto
quanto antes e compram quantidades menores, porque o dinheiro deles não dá
mais”.
Em maio
de 2025, a inflação mensal na Bolívia foi de 3,65%, a maior em 40 anos. Desde
janeiro, o índice de preços ao consumidor subiu 9,81%, segundo o Instituto
Nacional de Estatística. Mas para Silvia, vendedora de verduras, alguns preços
simplesmente dobraram. “É o caso dos brócolis e das ervilhas, e ainda assim, eu
vendo com margem mínima”, conta ela diante de uma pilha de batatas, tomates e
cebolas.
A inflação é
apenas um dos sintomas da crise econômica. O país também sofre
com recorrentes faltas de combustível, que obrigam a população de várias
cidades a enfrentar longas filas nos postos de gasolina.
Ambos
os problemas têm a mesma raiz: a falta de dólares na Bolívia. “A empresa
estatal de petróleo, YPFB, admitiu que não tem mais liquidez – ou seja,
dólares – para importar combustível suficiente”, explica o economista Luis
Fernando Romero, do Colégio Departamental de Economistas de Tarija. “Da
mesma forma, todas as importações ficam mais caras por causa dessa escassez de
dólares, o que explica o aumento nos preços.”
Na Bolívia,
o Banco Central fixa a taxa de câmbio boliviano/dólar desde 2011 em 6,96
bolivianos por dólar. No entanto, no mercado paralelo, a moeda americana está
sendo vendida por 15 a 16 bolivianos. Ou seja, os bolivianos estão dispostos a
pagar muito mais caro para obter dólares e importar produtos. “Isso fez os
custos dos importadores explodirem, e eles repassaram isso aos preços de
venda”, diz Jorge Akamine, presidente do Colégio de Economistas da Bolívia.
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Degringolada da economia
Mas
como a Bolívia chegou a esse ponto, sendo que há poucos anos sua estabilidade
econômica era elogiada? O chamado “milagre
econômico boliviano” era
visto como exemplo da gestão eficaz de um governo de esquerda, com um dos
maiores crescimentos da América Latina, inflação baixa e a pobreza caindo
de 60% da população em 2006 para 40% em 2016.
“Em
2006, Evo Morales e
o Movimento ao Socialismo (MAS) chegam ao poder e nacionalizam os
recursos de hidrocarbonetos. Essa riqueza vai ser a base de sua política
econômica”, lembra Romero.
O Estado
boliviano passou a redistribuir grande parte dessa renda por meio de
benefícios econômicos, subsídios (sobretudo ao combustível), comprando parte da
produção agrícola por preços altos e revendendo a preços baixos. Foram
construídos hospitais, estradas, escolas, além de fábricas de açúcar, óleo e
fertilizantes, financiadas pelo Estado.
No
entanto, a exploração e prospecção de gás foram negligenciadas, segundo o atual
presidente Luis Arce, que foi ministro da Economia entre 2006-2017 e em
2019. Como resultado, as exportações de gás começaram a diminuir.
“Desde
2018, alertamos sobre os riscos econômicos causados pela queda
das reservas de gás. Sem essa renda, o modelo do MAS se tornava
insustentável”, afirma Akamine. Mas não houve corte nos gastos públicos.
Para manter o modelo de redistribuição, o governo passou a usar as reservas
internacionais do Banco Central. Em 2014, essas reservas eram de quase US$ 15
bilhões (R$ 81 bilhões), mas caíram para menos de US$ 1,6 bilhão (R$ 8,64
bilhões) em fevereiro de 2023, o que levou a população a correr atrás de
dólares.
Desde
então, o Banco Central reconstituiu ligeiramente suas reservas, principalmente
comprando ouro de cooperativas mineiras, mas a escassez de dólares persiste.
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População revoltada
A
população já saiu às ruas várias vezes exigindo soluções ou até mesmo a
renúncia do presidente Luis Arce, como aconteceu no
início de junho. “O governo só adota medidas paliativas, para tentar chegar
às eleições gerais (presidenciais, legislativas e senatoriais) sem
maiores problemas”, analisa Romero. Mas o próximo governo terá de lidar com a
crise.
Segundo
Akamine, isso levará vários anos e exigirá medidas impopulares, como cortar
total ou parcialmente o subsídio aos combustíveis, que custa mais de US$ 3
bilhões (R$ 16,2 bilhões) por ano aos cofres públicos; e reduzir o tamanho
do Estado, algo que não se faz da noite para o dia.
Para os
dois economistas, a governabilidade será essencial para superar a
crise. “Desde o ano passado, cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 8,64 bilhões) em
créditos estão bloqueados no Parlamento por falta de maioria”, diz Romero. “Se
essa situação continuar após as eleições, o novo governo terá enorme
dificuldade para reformar o modelo econômico e resolver a crise.” Além disso,
manifestações e bloqueios de estradas são esperados caso medidas
de austeridade sejam tomadas. A tarefa do próximo governo promete ser
extremamente desafiadora.
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Petro sanciona reforma trabalhista durante ato público em
Bogotá
O
presidente da Colômbia, Gustavo Petro, assinou nesta quarta-feira (25/06) o
documento que sanciona a reforma trabalhista, cujo trâmite no Congresso foi finalizado
na última sexta-feira (20/06).
A firma
da nova legislação foi oficializada em um ato público realizado em frente ao
Museu da Quinta de Bolívar, em Bogotá, diante de um público de mais de 15 mil
pessoas – segundo informações do canal TeleSur.
Durante
o evento, Petro disse que este dia “neste dia histórico, nós deixamos para trás
uma legislação que castigou o povo trabalhador da Colômbia por mais de 30 anos,
e demos lugar a um marco legal que entende as dinâmicas do trabalho dos tempos
atuais, e que pode se manter vigente por muitos anos”.
“Conquistas
como esta nos permitem dizer ao povo colombiano que nós como Pacto Histórico
(nome da coalizão governista) estamos cumprindo com o mandato que nos foi dado
pelo povo quando ganhamos as eleições”, completou o presidente, ao levantar um
livro com as leis estabelecidas pela reforma trabalhista, o qual tinha escrito
em sua capa a frase “cumprimos (a promessa) ao país”.
Antes
da assinatura da lei, o mandatário colombiano publicou em suas redes sociais
que a nova legislação “dá início a um novo modelo, que restaura direitos e
reconhece a dignidade dos trabalhadores”.
“Ela
deve ser aplicada a todas as empresas públicas ou privadas, da mídia às
fábricas, do campo aos bairros populares. Ignorar esta lei é atuar pelo
desmantelamento da democracia”, acrescentou o chefe de Estado.
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Mudanças
Entre
os benefícios mais importantes
implementados pela reforma trabalhista está o aumento do adicional pago aos
domingos e feriados – esse aumento seria gradual, mas até 2027 será de o dobro
da remuneração de um dia comum de segunda a sábado.
Também
serão eliminados os contratos de trabalho por hora e se reforçará a legislação
dos chamados “aprendizes” (como são chamados os estagiários na Colômbia), a
partir de um maior controle por parte do Serviço Nacional de Aprendizagem
(SENA).
Além
disso, a lei briga as empresas a apresentarem publicamente seus regulamentos de
trabalho, especificando quais empregos exigem a presença física e quais serão
feitos de forma remota, com um parágrafo especial para os serviços prestados
através de plataformas digitais.
Outro
parágrafo aprovado fala na obrigação de o empregador de um “trabalhador
digital” de comunicar com antecedência qualquer modificação substancial nos
contratos desses prestadores de serviço.
O termo
“trabalhador digital” em si é uma das novidades da reforma, que cria essa
figura para definir casos como entregadores e motoristas de aplicativo, entre
outros servidores de plataformas digitais.
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Plebiscito derrogado
Além de
sancionar a reforma trabalhista, o presidente anunciou a derrogação do decreto
pelo qual foi convocado um plebiscito sobre a reforma.
A
medida, que estabelecia uma consulta popular marcada para o próximo mês de
agosto, tinha sido tomada em um momento em que a oposição havia bloqueado o
trâmite da reforma. Ao anunciar a derrogação, Petro disse que o plebiscito “não
é mais necessário”.
¨ Haiti admite
contratar mercenários estrangeiros para lutar contra gangues que atuam no país
As
autoridades admitiram usar os serviços de mercenários estrangeiros para lutar
contra a ação das gangues que aterrorizam o país. A confirmação preocupa as
organizações de defesa dos direitos humanos, que temem o impacto da presença
desses justiceiros no território nacional.
O
Conselho Presidencial de Transição (CPT), que dirige atualmente o Haiti,
finalmente rompeu seu silêncio sobre uma assunto tabu: a presença de
mercenários estrangeiros envolvidos na guerra contra as gangues no país. O
coordenador do CPT, Fritz Alphonse Jean, confirmou o fato em uma
entrevista com um grupo de jornalistas haitianos no fim de semana.
O
presidente da CPT não forneceu nenhum detalhe sobre os valores
envolvidos ou os termos do contrato com a empresa de segurança contratada. No
entanto, a informação confirma as suspeitas sobre a presença de mercenários
atuando neste país caribenho dominado por gangues fortemente armadas que
controlam grande parte do território, inclusive a capital Porto Príncipe.
No fim
de maio, uma investigação do jornal The New York Times afirmou que o
americano Erik Prince, fundador da empresa militar Blackwater, tem
fornecido drones de ataque para lançar explosivos em bairros controlados por
gangues no Haiti desde março. Segundo o diário, o contrato assinado
com as autoridades haitianas também envolveria o envio de 150 mercenários este
ano, em uma tentativa de retomar territórios estratégicos. Até o momento, cerca
de 200 pessoas teriam sido abatidas durante as ações da empresa no Haiti, mas
nenhum líder de gangue estaria entre as vítimas fatais.
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Risco para os direitos humanos no Haiti
A
ausência de controle direto do Estado na segurança do país gera temores de
violações dos direitos humanos. Várias estruturas da sociedade civil, em
especial organizações como a Ordem dos Defensores dos Direitos Humanos
(ORDEDH), alertam para os riscos dessa intervenção de grupos externos na
segurança local.
"A
chegada de mercenários ao Haiti é uma faca de dois gumes e um risco
inaceitável”, aponta o coordenador geral da ORDEDH, Darbensky Gilber.
“Essa perspectiva, embora apresentada por alguns como um meio rápido de
restaurar a ordem, é vista pelo ORDEDH com grande preocupação", afirma.
A
organização Fondasyon Je Klere, sediada em Porto Príncipe, também
expressa seu medo de abusos cometidos por mercenários. A entidade exige
transparência, principalmente com relação às obrigações desses agentes
estrangeiros e aos riscos de danos colaterais à população.
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Mercenários atuaram no Iraque, nos Emirados e no continente africano
A Blackwater chegou
a atuar para o governo americano durante anos. Entre 2001 e 2009, a empresa
recebeu mais de US$ 1,6 bilhão em contratos federais, sem incluir um número
desconhecido de missões confidenciais para a CIA. No entanto, sua ação foi
frequentemente marcada por acusações de uso excessivo de força. Em 2007, seus
funcionários abriram fogo em um cruzamento de Bagdá, no Iraque, matando 14
civis.
Em
2011, a imprensa americana revelou que Erik Prince, frequentemente
descrito como um “aproveitador de guerras”, havia assinado um contrato de US$
529 milhões para montar um exército secreto de 800 mercenários para
os Emirados Árabes. O grupo também é acusado de estar reconstruindo uma
rede de empresas de fachada que operam junto a organizações contestadas pelo
direito internacional. Esse é o caso da Frontier Services
Group (FSG), uma empresa sino-africana que protege infraestruturas
estratégicas e mineração na África e fornece apoio militar sob o pretexto de
segurança.
Fonte:
RFI/Opera Mundi

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