sexta-feira, 27 de junho de 2025

Entenda como o "milagre econômico boliviano" acabou levando o país para uma grave crise

Nos últimos dois anos, a economia boliviana tem se deteriorado gradualmente. A queda nas exportações de gás gerou uma escassez de dólares no país, o que resultou em dificuldades para importar combustível e, sobretudo, em uma forte inflação. O custo de vida aumentou significativamente nos últimos meses na Bolívia. Em maio, a inflação anual chegou a 18,4%, o nível mais alto em pelo menos 17 anos.

Em La Paz, o clima é de desânimo nos mercados municipais. Vendedores e clientes sentem os efeitos da alta nos preços. “Para alguns produtos, como o óleo, precisamos aumentar quase todos os dias. Um boliviano (equivalente a R$ 0,40) aqui, outro ali”, lamenta Magali, vendedora no mercado de Sopocachi, no centro da capital administrativa. Como consequência, “os clientes não vêm tanto quanto antes e compram quantidades menores, porque o dinheiro deles não dá mais”.

Em maio de 2025, a inflação mensal na Bolívia foi de 3,65%, a maior em 40 anos. Desde janeiro, o índice de preços ao consumidor subiu 9,81%, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Mas para Silvia, vendedora de verduras, alguns preços simplesmente dobraram. “É o caso dos brócolis e das ervilhas, e ainda assim, eu vendo com margem mínima”, conta ela diante de uma pilha de batatas, tomates e cebolas.

A inflação é apenas um dos sintomas da crise econômica. O país também sofre com recorrentes faltas de combustível, que obrigam a população de várias cidades a enfrentar longas filas nos postos de gasolina.

Ambos os problemas têm a mesma raiz: a falta de dólares na Bolívia. “A empresa estatal de petróleo, YPFB, admitiu que não tem mais liquidez – ou seja, dólares – para importar combustível suficiente”, explica o economista Luis Fernando Romero, do Colégio Departamental de Economistas de Tarija. “Da mesma forma, todas as importações ficam mais caras por causa dessa escassez de dólares, o que explica o aumento nos preços.”

Na Bolívia, o Banco Central fixa a taxa de câmbio boliviano/dólar desde 2011 em 6,96 bolivianos por dólar. No entanto, no mercado paralelo, a moeda americana está sendo vendida por 15 a 16 bolivianos. Ou seja, os bolivianos estão dispostos a pagar muito mais caro para obter dólares e importar produtos. “Isso fez os custos dos importadores explodirem, e eles repassaram isso aos preços de venda”, diz Jorge Akamine, presidente do Colégio de Economistas da Bolívia.

<><> Degringolada da economia

Mas como a Bolívia chegou a esse ponto, sendo que há poucos anos sua estabilidade econômica era elogiada? O chamado “milagre econômico boliviano” era visto como exemplo da gestão eficaz de um governo de esquerda, com um dos maiores crescimentos da América Latina, inflação baixa e a pobreza caindo de 60% da população em 2006 para 40% em 2016.

“Em 2006, Evo Morales e o Movimento ao Socialismo (MAS) chegam ao poder e nacionalizam os recursos de hidrocarbonetos. Essa riqueza vai ser a base de sua política econômica”, lembra Romero.

O Estado boliviano passou a redistribuir grande parte dessa renda por meio de benefícios econômicos, subsídios (sobretudo ao combustível), comprando parte da produção agrícola por preços altos e revendendo a preços baixos. Foram construídos hospitais, estradas, escolas, além de fábricas de açúcar, óleo e fertilizantes, financiadas pelo Estado.

No entanto, a exploração e prospecção de gás foram negligenciadas, segundo o atual presidente Luis Arce, que foi ministro da Economia entre 2006-2017 e em 2019. Como resultado, as exportações de gás começaram a diminuir.

“Desde 2018, alertamos sobre os riscos econômicos causados pela queda das reservas de gás. Sem essa renda, o modelo do MAS se tornava insustentável”, afirma Akamine. Mas não houve corte nos gastos públicos. Para manter o modelo de redistribuição, o governo passou a usar as reservas internacionais do Banco Central. Em 2014, essas reservas eram de quase US$ 15 bilhões (R$ 81 bilhões), mas caíram para menos de US$ 1,6 bilhão (R$ 8,64 bilhões) em fevereiro de 2023, o que levou a população a correr atrás de dólares.

Desde então, o Banco Central reconstituiu ligeiramente suas reservas, principalmente comprando ouro de cooperativas mineiras, mas a escassez de dólares persiste.

<><> População revoltada

A população já saiu às ruas várias vezes exigindo soluções ou até mesmo a renúncia do presidente Luis Arce, como aconteceu no início de junho. “O governo só adota medidas paliativas, para tentar chegar às eleições gerais (presidenciais, legislativas e senatoriais) sem maiores problemas”, analisa Romero. Mas o próximo governo terá de lidar com a crise.

Segundo Akamine, isso levará vários anos e exigirá medidas impopulares, como cortar total ou parcialmente o subsídio aos combustíveis, que custa mais de US$ 3 bilhões (R$ 16,2 bilhões) por ano aos cofres públicos; e reduzir o tamanho do Estado, algo que não se faz da noite para o dia.

Para os dois economistas, a governabilidade será essencial para superar a crise. “Desde o ano passado, cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 8,64 bilhões) em créditos estão bloqueados no Parlamento por falta de maioria”, diz Romero. “Se essa situação continuar após as eleições, o novo governo terá enorme dificuldade para reformar o modelo econômico e resolver a crise.” Além disso, manifestações e bloqueios de estradas são esperados caso medidas de austeridade sejam tomadas. A tarefa do próximo governo promete ser extremamente desafiadora.

¨      Petro sanciona reforma trabalhista durante ato público em Bogotá

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, assinou nesta quarta-feira (25/06) o documento que sanciona a reforma trabalhista, cujo trâmite no Congresso foi finalizado na última sexta-feira (20/06).

A firma da nova legislação foi oficializada em um ato público realizado em frente ao Museu da Quinta de Bolívar, em Bogotá, diante de um público de mais de 15 mil pessoas – segundo informações do canal TeleSur.

Durante o evento, Petro disse que este dia “neste dia histórico, nós deixamos para trás uma legislação que castigou o povo trabalhador da Colômbia por mais de 30 anos, e demos lugar a um marco legal que entende as dinâmicas do trabalho dos tempos atuais, e que pode se manter vigente por muitos anos”.

“Conquistas como esta nos permitem dizer ao povo colombiano que nós como Pacto Histórico (nome da coalizão governista) estamos cumprindo com o mandato que nos foi dado pelo povo quando ganhamos as eleições”, completou o presidente, ao levantar um livro com as leis estabelecidas pela reforma trabalhista, o qual tinha escrito em sua capa a frase “cumprimos (a promessa) ao país”.

Antes da assinatura da lei, o mandatário colombiano publicou em suas redes sociais que a nova legislação “dá início a um novo modelo, que restaura direitos e reconhece a dignidade dos trabalhadores”.

“Ela deve ser aplicada a todas as empresas públicas ou privadas, da mídia às fábricas, do campo aos bairros populares. Ignorar esta lei é atuar pelo desmantelamento da democracia”, acrescentou o chefe de Estado.

<><> Mudanças

Entre os benefícios mais importantes implementados pela reforma trabalhista está o aumento do adicional pago aos domingos e feriados – esse aumento seria gradual, mas até 2027 será de o dobro da remuneração de um dia comum de segunda a sábado.

Também serão eliminados os contratos de trabalho por hora e se reforçará a legislação dos chamados “aprendizes” (como são chamados os estagiários na Colômbia), a partir de um maior controle por parte do Serviço Nacional de Aprendizagem (SENA).

Além disso, a lei briga as empresas a apresentarem publicamente seus regulamentos de trabalho, especificando quais empregos exigem a presença física e quais serão feitos de forma remota, com um parágrafo especial para os serviços prestados através de plataformas digitais.

Outro parágrafo aprovado fala na obrigação de o empregador de um “trabalhador digital” de comunicar com antecedência qualquer modificação substancial nos contratos desses prestadores de serviço.

O termo “trabalhador digital” em si é uma das novidades da reforma, que cria essa figura para definir casos como entregadores e motoristas de aplicativo, entre outros servidores de plataformas digitais.

<><> Plebiscito derrogado

Além de sancionar a reforma trabalhista, o presidente anunciou a derrogação do decreto pelo qual foi convocado um plebiscito sobre a reforma.

A medida, que estabelecia uma consulta popular marcada para o próximo mês de agosto, tinha sido tomada em um momento em que a oposição havia bloqueado o trâmite da reforma. Ao anunciar a derrogação, Petro disse que o plebiscito “não é mais necessário”.

¨      Haiti admite contratar mercenários estrangeiros para lutar contra gangues que atuam no país

As autoridades admitiram usar os serviços de mercenários estrangeiros para lutar contra a ação das gangues que aterrorizam o país. A confirmação preocupa as organizações de defesa dos direitos humanos, que temem o impacto da presença desses justiceiros no território nacional.

O Conselho Presidencial de Transição (CPT), que dirige atualmente o Haiti, finalmente rompeu seu silêncio sobre uma assunto tabu: a presença de mercenários estrangeiros envolvidos na guerra contra as gangues no país. O coordenador do CPT, Fritz Alphonse Jean, confirmou o fato em uma entrevista com um grupo de jornalistas haitianos no fim de semana.

O presidente da CPT não forneceu nenhum detalhe sobre os valores envolvidos ou os termos do contrato com a empresa de segurança contratada. No entanto, a informação confirma as suspeitas sobre a presença de mercenários atuando neste país caribenho dominado por gangues fortemente armadas que controlam grande parte do território, inclusive a capital Porto Príncipe.

No fim de maio, uma investigação do jornal The New York Times afirmou que o americano Erik Prince, fundador da empresa militar Blackwater, tem fornecido drones de ataque para lançar explosivos em bairros controlados por gangues no Haiti desde março. Segundo o diário, o contrato assinado com as autoridades haitianas também envolveria o envio de 150 mercenários este ano, em uma tentativa de retomar territórios estratégicos. Até o momento, cerca de 200 pessoas teriam sido abatidas durante as ações da empresa no Haiti, mas nenhum líder de gangue estaria entre as vítimas fatais.

<><> Risco para os direitos humanos no Haiti

A ausência de controle direto do Estado na segurança do país gera temores de violações dos direitos humanos. Várias estruturas da sociedade civil, em especial organizações como a Ordem dos Defensores dos Direitos Humanos (ORDEDH), alertam para os riscos dessa intervenção de grupos externos na segurança local.

"A chegada de mercenários ao Haiti é uma faca de dois gumes e um risco inaceitável”, aponta o coordenador geral da ORDEDH, Darbensky Gilber. “Essa perspectiva, embora apresentada por alguns como um meio rápido de restaurar a ordem, é vista pelo ORDEDH com grande preocupação", afirma.

A organização Fondasyon Je Klere, sediada em Porto Príncipe, também expressa seu medo de abusos cometidos por mercenários. A entidade exige transparência, principalmente com relação às obrigações desses agentes estrangeiros e aos riscos de danos colaterais à população.

<><> Mercenários atuaram no Iraque, nos Emirados e no continente africano

A Blackwater chegou a atuar para o governo americano durante anos. Entre 2001 e 2009, a empresa recebeu mais de US$ 1,6 bilhão em contratos federais, sem incluir um número desconhecido de missões confidenciais para a CIA. No entanto, sua ação foi frequentemente marcada por acusações de uso excessivo de força. Em 2007, seus funcionários abriram fogo em um cruzamento de Bagdá, no Iraque, matando 14 civis.

Em 2011, a imprensa americana revelou que Erik Prince, frequentemente descrito como um “aproveitador de guerras”, havia assinado um contrato de US$ 529 milhões para montar um exército secreto de 800 mercenários para os Emirados Árabes. O grupo também é acusado de estar reconstruindo uma rede de empresas de fachada que operam junto a organizações contestadas pelo direito internacional. Esse é o caso da Frontier Services Group (FSG), uma empresa sino-africana que protege infraestruturas estratégicas e mineração na África e fornece apoio militar sob o pretexto de segurança.

 

Fonte: RFI/Opera Mundi

 

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