sexta-feira, 27 de junho de 2025

Leandro Basegio: Por que cresceu o número de casos de violência nas escolas

A violência nas escolas não é um fenômeno recente e remonta ao surgimento da própria instituição escolar. No entanto, em anos recentes tem chamado a atenção a escalada no número de casos, agravados por episódios de violência extrema, tais como os massacres de Realengo (2011) e de Suzano (2019), para citarmos os de maior repercussão.

O MEC considera, em sentido lato, que quatro tipos de violências afligem as comunidades escolares:

i)        as agressões extremas, que resultam em ataques letais;

ii)       as violências interpessoais, caracterizadas pelas hostilidades entre alunos e entre esses e seus professores;

iii)      o bullying, definido como agressões físicas ou morais – estas últimas também através de redes sociais, o cyberbullying – recorrentes e prolongadas; e,

iv)      a violência institucional, que envolve as práticas excludentes promovidas pela própria escola, quando, por exemplo, utiliza materiais didáticos que não levam em conta questões como a diversidade cultural, de gênero e de raça.

Os números são alarmantes para todos esses tipos de violência. De acordo com o Sistema de Informações de Agravos e Notificações (Sinan/SUS), que registra em todo o país os casos de violência atendidos pelos serviços de saúde, públicos ou privados, entre 2013 e 2023, houve 60.985 vítimas de violência interpessoal em escolas. Em 11 anos, a variação foi de 247,8%. Considerando apenas os casos de violência autoprovocada, no mesmo recorte temporal, a variação positiva foi 954,5%.

Quanto aos episódios de violência extrema, o relatório Ataques de violência extrema em escolas no Brasil (2025) indica que, entre 2001 e 2024, foram realizados 42 ataques desse tipo no país. Impressiona o fato que 64% desses episódios ocorreram somente entre os anos de 2022 e 2024.

Diante desses dados, não há como não questionarmos sobre as causas dessa aceleração nos índices de violência escolar. Algumas hipóteses podem ser colocadas e todas merecem alguma discussão.

É possível pensar que houve uma melhoria na coleta dos dados, uma vez que admitimos que a violência escolar é um fenômeno histórico. Contudo, parece pouco provável que apenas ajustes metodológicos produziriam um salto tão drástico nos números.

É preciso levar em conta o ambiente social que estamos experimentando nesta última década para ver se a partir dele encontramos algumas respostas satisfatórias. A radicalização dos debates público e político, marcada pelo avanço dos discursos de ódio e de banalização da violência contra minorias (mulheres, negros e grupos LGBTQIA+), certamente joga um papel importante no aumento da violência dentro das escolas.

O chamado bullying, conceito criado para caracterizar o tipo de violência que ocorre entre estudantes e nas escolas, muitas vezes tem como substrato preconceitos já cristalizados na sociedade brasileira. Ora, não é por acaso que das 13.117 agressões interpessoais registradas nas escolas brasileiras, apenas no ano de 2023, 60,6% das vítimas foram mulheres e 52,6% pessoas que se declaram como pretas ou pardas. Em 2024, 90% dos estudantes LGBTI+ afirmaram terem sido vítimas de agressões verbais e 35% de agressões físicas dentro do ambiente escolar.

A banalização dos discursos violentos e de ódio faz com que essas agressões passem quase desapercebidas nas escolas. Quando notadas, muitas vezes são qualificadas simplesmente como bullying – o que também acaba barateando esse conceito – e se buscam soluções como a mediação entre agressores e vítimas, nem sempre eficazes para enfrentar problemas que têm raízes sociais bem mais profundas. Tampouco medidas repressivas ou a militarização das escolas adiantam (três escolas militarizadas sofreram ataques extremos, em todas houve uma morte), a não ser como panaceia para os discursos políticos que têm contribuído para a aumentar a conflitualidade em todos os ambientes sociais, o que reflete diretamente nas escolas. Os números têm mostrado isso.

O fato é que temos problemas que se interseccionam e que não têm soluções fáceis nem rápidas. A contribuição que as escolas podem dar para que o ambiente escolar se torne mais seguro e menos tolerante às agressões é discutir abertamente sobre as diferentes formas de violência escolar e seus condicionantes sociais. Por fim, trata-se de dar visibilidade a essas violências e de analisar suas raízes, tal como ampliar os espaços democráticos, onde os estudantes, os pais, os funcionários e os professores possam expressar como sentem essas violências e possam debater medidas viáveis para amenizar esses episódios no cotidiano escolar.

•        A crueldade presente nas escolas: entre a crise de sentido e a banalização do mal. Por Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves

Nos corredores da escola, palco de sonhos e aprendizados, um drama silencioso se desenrola: a crueldade humana assume formas brutais, falta de respeito e dificuldade em impor limites a jovens e adolescentes, tem comprometido a vida de muitos.

Hannah Arendt, em sua obra "Eichmann em Jerusalém", introduziu o conceito da "banalidade do mal". Segundo Arendt, o mal pode ser cometido por indivíduos comuns, que não necessariamente possuem uma natureza malévola, mas que agem de maneira insensível e irrefletida, seguindo ordens ou normas sociais sem questioná-las. No contexto escolar, essa teoria pode ser observada no comportamento dos estudantes que praticam crueldade contra seus colegas. Muitas vezes, os atos de bullying e exclusão não são perpetrados por jovens intrinsecamente maldosos, mas por aqueles que seguem a dinâmica do grupo, sem refletir sobre as consequências de suas ações.

A banalidade do mal se manifesta na conformidade social e na falta de empatia. Estudantes podem participar de atos cruéis não por uma intenção deliberada de causar sofrimento, mas porque essas ações são normalizadas dentro do ambiente escolar. A pressão para se adequar ao grupo e a necessidade de afirmação social podem levar jovens a cometerem crueldades, sem considerar a gravidade de seus atos.

A crueldade humana na escola é um fenômeno complexo que se manifesta de diversas formas, desde bullying verbal e físico até a exclusão social, discursos de discriminação socioeconômicos e o cyberbullying. Para entender essa problemática, é fundamental considerar os conceitos de Hannah Arendt e Viktor Frankl, cujas reflexões filosóficas e psicológicas proporcionam uma compreensão mais profunda das dinâmicas envolvidas.

Arendt argumentou que o mal muitas vezes não surge de intenções malignas ou fanatismo extremo, mas sim da falta de pensamento crítico e reflexão. A “banalidade do mal” ocorre quando pessoas comuns se tornam cúmplices de atrocidades, agindo de forma mecânica e desprovida de empatia. Essa ausência de questionamento e reflexão leva à privação de responsabilidade e à perpetuação do mal.

<><> A Crise de Sentido de Viktor Frankl

Viktor Frankl, em sua obra "Em Busca de Sentido", explora a ideia de que o ser humano tem uma necessidade intrínseca de encontrar sentido em sua vida. Frankl argumenta que a falta de sentido pode levar ao vazio existencial e ao comportamento destrutivo. No ambiente escolar, essa crise de sentido pode se manifestar de diversas formas, incluindo a crueldade contra os outros.

Os estudantes que sofrem de uma crise de sentido podem sentir um profundo vazio interior, que tentam preencher através de comportamentos agressivos ou de exclusão. A crueldade, nesse caso, pode ser vista como uma tentativa disfuncional de lidar com a própria falta de propósito e significado. Ao infligir sofrimento nos outros, esses jovens podem estar tentando afirmar sua própria existência e buscar uma sensação de controle e poder em um ambiente onde se sentem impotentes e desorientados.

Além disso, a falta de sentido pode ser exacerbada pela ausência de valores e de orientação moral no ambiente escolar. Quando os estudantes não encontram apoio emocional e não são incentivados a refletir sobre questões éticas e de propósito, tornam-se mais suscetíveis a comportamentos cruéis. A crise de sentido, portanto, não apenas contribui para a crueldade na escola, mas também é alimentada por ela, criando um ciclo vicioso difícil de romper.

Com o avanço de algumas realidades, um fator determinante deve ser observado: a crise de sentido. Sendo assim é necessário explorar como essa ideia se relaciona com a conduta dos estudantes nas escolas e a crise de sentido proposta por Viktor Frankl. Sob a ótica de Frankl, a crise de sentido emerge como um pano de fundo inquietante. O ser humano imerso em um mundo fragmentado, desprovido de valores e propósito, busca na dor do outro uma falsa sensação de poder e significado.

Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, argumentou que a busca por sentido é fundamental para a saúde mental e emocional. Quando os estudantes enfrentam uma crise de sentido, como a falta de propósito ou conexão com os outros, podem se tornar vulneráveis à crueldade. A ausência de significado em suas vidas pode levá-los a agir de forma insensível e prejudicial.

Em resumo, a crueldade humana muitas vezes surge da falta de reflexão e empatia. É essencial promover a conscientização e a educação para combater essa banalidade do mal e criar ambientes mais compassivos e solidários.

A integração das perspectivas de Arendt e Frankl oferece uma compreensão abrangente da crueldade humana. A banalidade do mal nos alerta para a importância da reflexão crítica e da resistência à conformidade social, enquanto a crise de sentido nos lembra da necessidade de oferecer aos jovens um propósito e uma orientação moral clara.

Para combater a crueldade nas escolas, é crucial fomentar um ambiente onde a empatia, a reflexão crítica e a busca por sentido sejam valorizadas e incentivadas. Isso pode ser feito através de programas de educação emocional e ética, que ajudem os estudantes a desenvolver habilidades de pensamento crítico e a encontrar um propósito em suas vidas. Ao abordar tanto a banalidade do mal quanto a crise de sentido, podemos trabalhar para criar um ambiente escolar mais humano e compassivo, onde a crueldade seja a exceção, e não a regra.

•        Estratégias para promover o foco ajudam a enfrentar a crise de atenção dos jovens. Por Adriessa Santos e Patrícia Leite

Nunca, na história da civilização, nossa atenção foi tão disputada. Redes sociais, aplicativos e empresas de tecnologia competem para nos manter conectados usando sistemas que capturam nosso tempo para gerar lucro. Essa sobrecarga afeta a memória, a aprendizagem e a saúde mental.

A crise de atenção, muitas vezes confundida com lapsos de memória, revela um modelo de vida exaustivo, com estímulos constantes e sem pausas. Enfrentá-la exige intenção e ambientes que favoreçam o foco, o silêncio e o pensamento crítico. Em tempos de dispersão, refletir sobre o papel da atenção no cotidiano e na aprendizagem é essencial para recuperar a concentração, o bem-estar e a capacidade de aprender de maneira significativa. A hiperconexão acelerou nosso ritmo, causando ansiedade e adoecimento. O filósofo e urbanista francês Paul Virilio (1932-2018) chamou essa urgência de “Dromologia”, ou o impacto da velocidade nas nossas vidas. Virilio é autor de diversos livros sobre as tecnologias da comunicação.

Crianças e adolescentes estão cada vez mais cansados, dormem mal e se sentem sozinhos. Em seu best-seller “A Geração Ansiosa” (Ed. Companhia das Letras), o filósofo e psicólogo social Jonathan Haidt revela que a “infância baseada no celular” rouba tempo livre, imaginação e o brincar. Meninas enfrentam pressão por validação; meninos buscam refúgio em videogames e pornografia. O resultado é uma geração fragilizada, que precisa de cuidado, calma e foco.

Em seus estudos, Haidt aponta que, entre 2010 e 2015, com a popularização dos smartphones, a depressão entre meninas nos Estados Unidos dobrou e a automutilação quase triplicou. Adolescentes que passam mais de três horas diárias nas redes têm o dobro do risco de ansiedade e depressão, agravado pelo uso precoce, que expõe o cérebro vulnerável à dependência da validação social.

A minissérie Adolescência (Netflix)  também mostra essa realidade: Jamie, 13 anos, sofre bullying e cyberbullying, tem o sono interrompido por notificações e vive disperso, isolado mesmo em família. Isso evidencia a urgência de resgatar espaços de calma, escuta e presença, para evitar perder tempo de qualidade, capacidade de sonhar e vínculos verdadeiros. A lógica dos feeds infinitos e das microrecompensas bloqueia o foco profundo, a reflexão e o pensamento crítico. O cérebro fragmentado fica mais suscetível à manipulação e menos capaz de análises complexas.

Em síntese, expostos à vulnerabilidade das comparações digitais e sujeitos à captura contínua da atenção pelos dispositivos eletrônicos, crianças e jovens estão ansiosos e acelerados, em uma sobrecarga que nenhum cérebro aguenta.

<><> Porta de entrada da aprendizagem

A atenção vai além da simples concentração; é cuidado, respeito e presença, um gesto de afeto e zelo. A palavra vem do latim attendere, que significa “estar presente”, e está historicamente ligada ao foco em algo importante, como o conhecimento ou Deus. Já no século XIX, para o filósofo e psicólogo americano William James, “focalização, concentração da consciência são sua essência”. Implica o afastamento de algumas coisas para ocupar-se efetivamente de outras; uma seleção crucial para o aprendizado, porque sem atenção o cérebro não filtra estímulos nem cria memórias duradouras.

Em 1971, o economista Herbert Simon alertou que “uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”. O excesso de dados disputa nossa limitada capacidade de foco, tornando vital saber para onde direcioná-la. De fato, ela pode ser guiada por professores, contextos ou perguntas instigantes, ativando os processos cerebrais que consolidam novas conexões.  Héctor Ruiz Martín, psicólogo cognitivo, reforça que a atenção ativa fortalece as conexões cerebrais e facilita a memória de longo prazo. Assim, a qualidade do nosso foco é preponderante para o quanto aprendemos e aplicamos.

<><> Ambientes propícios

Cultivar a atenção, portanto, é a porta de entrada para qualquer processo de aprendizagem. E isso exige cuidado, intencionalidade e escolhas pedagógicas. A médica, educadora e cientista italiana, Maria Montessori, pioneira na pedagogia moderna, já compreendia esse princípio quando criou os “ambientes preparados”: espaços organizados com materiais sensoriais e mobiliário acessível, que convidam à exploração livre e favorecem o foco sustentado. Nesse cenário, a criança desenvolve os circuitos neurais responsáveis pelo controle atencional, aprendendo a dirigir sua própria curiosidade com a mediação sensível do educador.

Não por acaso, para o neurocientista francês Stanislas Dehaene, atenção é o primeiro dos quatro pilares da aprendizagem, a porta de entrada do conhecimento que determina o que será processado profundamente. Ela se soma ao engajamento ativo, o feedback de erros e a consolidação. Esses pilares operam de forma interdependente. Sem atenção, nada é registrado. É ela que abre para o engajamento, que transforma o ato de aprender em uma construção ativa. O feedback de erros, por sua vez, fortalece as conexões quando há retorno da aprendizagem durante o próprio processo. E tudo isso só se consolida quando o cérebro descansa, no sono ou em pausas, fixando o que foi construído.

Como afirmou Haidt no best-seller já mencionado, o mundo digital vem comprometendo seriamente esse ciclo. Notificações constantes rompem o foco, substituem o engajamento profundo por respostas rápidas e superficiais, e ainda prejudicam o sono, etapa essencial para consolidar qualquer aprendizagem. O resultado é um cérebro hiperestimulado, mas desconectado dos processos que sustentam o aprendizado.

Transformar esse cenário é urgente. Pensadores importantes para a educação, como Paulo Freire e John Dewey, reforçam que o interesse do estudante é o motor para a construção de conhecimento, o que passa por redesenhar o cotidiano escolar e criar ambientes que promovam o diálogo, pilar estruturante da obra freireana.

Além disso, podemos considerar as pausas para respiração consciente, estações com materiais manipuláveis, interações com feedback imediato e, sobretudo, espaços sem telas, com descanso e integração e trocas do que foi vivido como práticas que contribuem para o processo atencional.

O cérebro é plástico. Ele se adapta ao ambiente que encontra. Nesse sentido, contextos que equilibram liberdade e estrutura, ação e pausa, concentração e descanso, oferecem o terreno fértil para que a curiosidade se transforme em reflexão e a reflexão, em aprendizagem relevante.

<><> Como favorecer a atenção e o foco

Apesar dos avanços da neurociência, faltam pesquisas que relacionem diretamente atenção e aprendizagem em contextos diversos do Brasil. Ainda assim, professores criam, na prática, pequenos laboratórios em sala de aula, onde observam, testam e revisitam estratégias que alimentam seu saber e melhoram a atenção dos alunos.

A atenção é uma habilidade aprendida, construída nas relações e no sentido de pertencimento que a escola oferece. Fanny Sznelwar Minerbo, especialista em Desenvolvimento de Metodologias e Projetos, e Beatriz Peres Rios, professora de Projetos de Humanidades, ambas da Educação Básica, defendem que desenvolver o foco exige práticas intencionais: rotina clara, ambientes organizados, materiais acessíveis e estratégias que acolhem diferentes perfis, como o uso de mensagens (postits) para reforçar etapas. Propõem também preparar o cérebro com respiração guiada, música calma, pausas e utilização de blocos de atenção, a exemplo do método Pomodoro. E valorizam Rotinas do Pensamento (Project Zero – Harvard) como práticas que ajudam a organizar o raciocínio, aprofundar a atenção e favorecer a construção do pensamento crítico.

A atenção não surge do comando, mas de um ciclo que envolve organização, relações, regulação emocional e construção de sentido. Portanto, promover a atenção é criar experiências que combinem vínculo, participação e sentido, fundamentos indispensáveis para uma aprendizagem viva e significativa.

 

Fonte: Extra Classe/IHU/The Conversation

 

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