Leandro
Basegio: Por que cresceu o número de casos de violência nas escolas
A
violência nas escolas não é um fenômeno recente e remonta ao surgimento da
própria instituição escolar. No entanto, em anos recentes tem chamado a atenção
a escalada no número de casos, agravados por episódios de violência extrema,
tais como os massacres de Realengo (2011) e de Suzano (2019), para citarmos os
de maior repercussão.
O MEC
considera, em sentido lato, que quatro tipos de violências afligem as
comunidades escolares:
i) as agressões extremas, que resultam em
ataques letais;
ii) as violências interpessoais,
caracterizadas pelas hostilidades entre alunos e entre esses e seus
professores;
iii) o bullying, definido como agressões
físicas ou morais – estas últimas também através de redes sociais, o
cyberbullying – recorrentes e prolongadas; e,
iv) a violência institucional, que envolve as
práticas excludentes promovidas pela própria escola, quando, por exemplo,
utiliza materiais didáticos que não levam em conta questões como a diversidade
cultural, de gênero e de raça.
Os
números são alarmantes para todos esses tipos de violência. De acordo com o
Sistema de Informações de Agravos e Notificações (Sinan/SUS), que registra em
todo o país os casos de violência atendidos pelos serviços de saúde, públicos
ou privados, entre 2013 e 2023, houve 60.985 vítimas de violência interpessoal
em escolas. Em 11 anos, a variação foi de 247,8%. Considerando apenas os casos
de violência autoprovocada, no mesmo recorte temporal, a variação positiva foi
954,5%.
Quanto
aos episódios de violência extrema, o relatório Ataques de violência extrema em
escolas no Brasil (2025) indica que, entre 2001 e 2024, foram realizados 42
ataques desse tipo no país. Impressiona o fato que 64% desses episódios
ocorreram somente entre os anos de 2022 e 2024.
Diante
desses dados, não há como não questionarmos sobre as causas dessa aceleração
nos índices de violência escolar. Algumas hipóteses podem ser colocadas e todas
merecem alguma discussão.
É
possível pensar que houve uma melhoria na coleta dos dados, uma vez que
admitimos que a violência escolar é um fenômeno histórico. Contudo, parece
pouco provável que apenas ajustes metodológicos produziriam um salto tão
drástico nos números.
É
preciso levar em conta o ambiente social que estamos experimentando nesta
última década para ver se a partir dele encontramos algumas respostas
satisfatórias. A radicalização dos debates público e político, marcada pelo
avanço dos discursos de ódio e de banalização da violência contra minorias
(mulheres, negros e grupos LGBTQIA+), certamente joga um papel importante no
aumento da violência dentro das escolas.
O
chamado bullying, conceito criado para caracterizar o tipo de violência que
ocorre entre estudantes e nas escolas, muitas vezes tem como substrato
preconceitos já cristalizados na sociedade brasileira. Ora, não é por acaso que
das 13.117 agressões interpessoais registradas nas escolas brasileiras, apenas
no ano de 2023, 60,6% das vítimas foram mulheres e 52,6% pessoas que se
declaram como pretas ou pardas. Em 2024, 90% dos estudantes LGBTI+ afirmaram
terem sido vítimas de agressões verbais e 35% de agressões físicas dentro do
ambiente escolar.
A
banalização dos discursos violentos e de ódio faz com que essas agressões
passem quase desapercebidas nas escolas. Quando notadas, muitas vezes são
qualificadas simplesmente como bullying – o que também acaba barateando esse
conceito – e se buscam soluções como a mediação entre agressores e vítimas, nem
sempre eficazes para enfrentar problemas que têm raízes sociais bem mais
profundas. Tampouco medidas repressivas ou a militarização das escolas adiantam
(três escolas militarizadas sofreram ataques extremos, em todas houve uma
morte), a não ser como panaceia para os discursos políticos que têm contribuído
para a aumentar a conflitualidade em todos os ambientes sociais, o que reflete
diretamente nas escolas. Os números têm mostrado isso.
O fato
é que temos problemas que se interseccionam e que não têm soluções fáceis nem
rápidas. A contribuição que as escolas podem dar para que o ambiente escolar se
torne mais seguro e menos tolerante às agressões é discutir abertamente sobre
as diferentes formas de violência escolar e seus condicionantes sociais. Por
fim, trata-se de dar visibilidade a essas violências e de analisar suas raízes,
tal como ampliar os espaços democráticos, onde os estudantes, os pais, os
funcionários e os professores possam expressar como sentem essas violências e
possam debater medidas viáveis para amenizar esses episódios no cotidiano
escolar.
• A crueldade presente nas escolas: entre
a crise de sentido e a banalização do mal. Por Robson Ribeiro de Oliveira
Castro Chaves
Nos
corredores da escola, palco de sonhos e aprendizados, um drama silencioso se
desenrola: a crueldade humana assume formas brutais, falta de respeito e
dificuldade em impor limites a jovens e adolescentes, tem comprometido a vida
de muitos.
Hannah
Arendt, em sua obra "Eichmann em Jerusalém", introduziu o conceito da
"banalidade do mal". Segundo Arendt, o mal pode ser cometido por
indivíduos comuns, que não necessariamente possuem uma natureza malévola, mas
que agem de maneira insensível e irrefletida, seguindo ordens ou normas sociais
sem questioná-las. No contexto escolar, essa teoria pode ser observada no
comportamento dos estudantes que praticam crueldade contra seus colegas. Muitas
vezes, os atos de bullying e exclusão não são perpetrados por jovens
intrinsecamente maldosos, mas por aqueles que seguem a dinâmica do grupo, sem
refletir sobre as consequências de suas ações.
A
banalidade do mal se manifesta na conformidade social e na falta de empatia.
Estudantes podem participar de atos cruéis não por uma intenção deliberada de
causar sofrimento, mas porque essas ações são normalizadas dentro do ambiente
escolar. A pressão para se adequar ao grupo e a necessidade de afirmação social
podem levar jovens a cometerem crueldades, sem considerar a gravidade de seus
atos.
A
crueldade humana na escola é um fenômeno complexo que se manifesta de diversas
formas, desde bullying verbal e físico até a exclusão social, discursos de
discriminação socioeconômicos e o cyberbullying. Para entender essa
problemática, é fundamental considerar os conceitos de Hannah Arendt e Viktor
Frankl, cujas reflexões filosóficas e psicológicas proporcionam uma compreensão
mais profunda das dinâmicas envolvidas.
Arendt
argumentou que o mal muitas vezes não surge de intenções malignas ou fanatismo
extremo, mas sim da falta de pensamento crítico e reflexão. A “banalidade do
mal” ocorre quando pessoas comuns se tornam cúmplices de atrocidades, agindo de
forma mecânica e desprovida de empatia. Essa ausência de questionamento e
reflexão leva à privação de responsabilidade e à perpetuação do mal.
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A Crise de Sentido de Viktor Frankl
Viktor
Frankl, em sua obra "Em Busca de Sentido", explora a ideia de que o
ser humano tem uma necessidade intrínseca de encontrar sentido em sua vida.
Frankl argumenta que a falta de sentido pode levar ao vazio existencial e ao
comportamento destrutivo. No ambiente escolar, essa crise de sentido pode se
manifestar de diversas formas, incluindo a crueldade contra os outros.
Os
estudantes que sofrem de uma crise de sentido podem sentir um profundo vazio
interior, que tentam preencher através de comportamentos agressivos ou de
exclusão. A crueldade, nesse caso, pode ser vista como uma tentativa
disfuncional de lidar com a própria falta de propósito e significado. Ao
infligir sofrimento nos outros, esses jovens podem estar tentando afirmar sua
própria existência e buscar uma sensação de controle e poder em um ambiente
onde se sentem impotentes e desorientados.
Além
disso, a falta de sentido pode ser exacerbada pela ausência de valores e de
orientação moral no ambiente escolar. Quando os estudantes não encontram apoio
emocional e não são incentivados a refletir sobre questões éticas e de
propósito, tornam-se mais suscetíveis a comportamentos cruéis. A crise de
sentido, portanto, não apenas contribui para a crueldade na escola, mas também
é alimentada por ela, criando um ciclo vicioso difícil de romper.
Com o
avanço de algumas realidades, um fator determinante deve ser observado: a crise
de sentido. Sendo assim é necessário explorar como essa ideia se relaciona com
a conduta dos estudantes nas escolas e a crise de sentido proposta por Viktor
Frankl. Sob a ótica de Frankl, a crise de sentido emerge como um pano de fundo
inquietante. O ser humano imerso em um mundo fragmentado, desprovido de valores
e propósito, busca na dor do outro uma falsa sensação de poder e significado.
Viktor
Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, argumentou que a busca por
sentido é fundamental para a saúde mental e emocional. Quando os estudantes
enfrentam uma crise de sentido, como a falta de propósito ou conexão com os
outros, podem se tornar vulneráveis à crueldade. A ausência de significado em
suas vidas pode levá-los a agir de forma insensível e prejudicial.
Em
resumo, a crueldade humana muitas vezes surge da falta de reflexão e empatia. É
essencial promover a conscientização e a educação para combater essa banalidade
do mal e criar ambientes mais compassivos e solidários.
A
integração das perspectivas de Arendt e Frankl oferece uma compreensão
abrangente da crueldade humana. A banalidade do mal nos alerta para a
importância da reflexão crítica e da resistência à conformidade social,
enquanto a crise de sentido nos lembra da necessidade de oferecer aos jovens um
propósito e uma orientação moral clara.
Para
combater a crueldade nas escolas, é crucial fomentar um ambiente onde a
empatia, a reflexão crítica e a busca por sentido sejam valorizadas e
incentivadas. Isso pode ser feito através de programas de educação emocional e
ética, que ajudem os estudantes a desenvolver habilidades de pensamento crítico
e a encontrar um propósito em suas vidas. Ao abordar tanto a banalidade do mal
quanto a crise de sentido, podemos trabalhar para criar um ambiente escolar
mais humano e compassivo, onde a crueldade seja a exceção, e não a regra.
• Estratégias para promover o foco ajudam
a enfrentar a crise de atenção dos jovens. Por Adriessa Santos e Patrícia Leite
Nunca,
na história da civilização, nossa atenção foi tão disputada. Redes sociais,
aplicativos e empresas de tecnologia competem para nos manter conectados usando
sistemas que capturam nosso tempo para gerar lucro. Essa sobrecarga afeta a
memória, a aprendizagem e a saúde mental.
A crise
de atenção, muitas vezes confundida com lapsos de memória, revela um modelo de
vida exaustivo, com estímulos constantes e sem pausas. Enfrentá-la exige
intenção e ambientes que favoreçam o foco, o silêncio e o pensamento crítico.
Em tempos de dispersão, refletir sobre o papel da atenção no cotidiano e na
aprendizagem é essencial para recuperar a concentração, o bem-estar e a
capacidade de aprender de maneira significativa. A hiperconexão acelerou nosso
ritmo, causando ansiedade e adoecimento. O filósofo e urbanista francês Paul
Virilio (1932-2018) chamou essa urgência de “Dromologia”, ou o impacto da
velocidade nas nossas vidas. Virilio é autor de diversos livros sobre as
tecnologias da comunicação.
Crianças
e adolescentes estão cada vez mais cansados, dormem mal e se sentem sozinhos.
Em seu best-seller “A Geração Ansiosa” (Ed. Companhia das Letras), o filósofo e
psicólogo social Jonathan Haidt revela que a “infância baseada no celular”
rouba tempo livre, imaginação e o brincar. Meninas enfrentam pressão por
validação; meninos buscam refúgio em videogames e pornografia. O resultado é
uma geração fragilizada, que precisa de cuidado, calma e foco.
Em seus
estudos, Haidt aponta que, entre 2010 e 2015, com a popularização dos
smartphones, a depressão entre meninas nos Estados Unidos dobrou e a
automutilação quase triplicou. Adolescentes que passam mais de três horas
diárias nas redes têm o dobro do risco de ansiedade e depressão, agravado pelo
uso precoce, que expõe o cérebro vulnerável à dependência da validação social.
A
minissérie Adolescência (Netflix) também
mostra essa realidade: Jamie, 13 anos, sofre bullying e cyberbullying, tem o
sono interrompido por notificações e vive disperso, isolado mesmo em família.
Isso evidencia a urgência de resgatar espaços de calma, escuta e presença, para
evitar perder tempo de qualidade, capacidade de sonhar e vínculos verdadeiros.
A lógica dos feeds infinitos e das microrecompensas bloqueia o foco profundo, a
reflexão e o pensamento crítico. O cérebro fragmentado fica mais suscetível à
manipulação e menos capaz de análises complexas.
Em
síntese, expostos à vulnerabilidade das comparações digitais e sujeitos à
captura contínua da atenção pelos dispositivos eletrônicos, crianças e jovens
estão ansiosos e acelerados, em uma sobrecarga que nenhum cérebro aguenta.
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Porta de entrada da aprendizagem
A
atenção vai além da simples concentração; é cuidado, respeito e presença, um
gesto de afeto e zelo. A palavra vem do latim attendere, que significa “estar
presente”, e está historicamente ligada ao foco em algo importante, como o
conhecimento ou Deus. Já no século XIX, para o filósofo e psicólogo americano
William James, “focalização, concentração da consciência são sua essência”.
Implica o afastamento de algumas coisas para ocupar-se efetivamente de outras;
uma seleção crucial para o aprendizado, porque sem atenção o cérebro não filtra
estímulos nem cria memórias duradouras.
Em
1971, o economista Herbert Simon alertou que “uma riqueza de informação cria
uma pobreza de atenção”. O excesso de dados disputa nossa limitada capacidade
de foco, tornando vital saber para onde direcioná-la. De fato, ela pode ser
guiada por professores, contextos ou perguntas instigantes, ativando os
processos cerebrais que consolidam novas conexões. Héctor Ruiz Martín, psicólogo cognitivo,
reforça que a atenção ativa fortalece as conexões cerebrais e facilita a
memória de longo prazo. Assim, a qualidade do nosso foco é preponderante para o
quanto aprendemos e aplicamos.
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Ambientes propícios
Cultivar
a atenção, portanto, é a porta de entrada para qualquer processo de
aprendizagem. E isso exige cuidado, intencionalidade e escolhas pedagógicas. A
médica, educadora e cientista italiana, Maria Montessori, pioneira na pedagogia
moderna, já compreendia esse princípio quando criou os “ambientes preparados”:
espaços organizados com materiais sensoriais e mobiliário acessível, que
convidam à exploração livre e favorecem o foco sustentado. Nesse cenário, a
criança desenvolve os circuitos neurais responsáveis pelo controle atencional,
aprendendo a dirigir sua própria curiosidade com a mediação sensível do
educador.
Não por
acaso, para o neurocientista francês Stanislas Dehaene, atenção é o primeiro
dos quatro pilares da aprendizagem, a porta de entrada do conhecimento que
determina o que será processado profundamente. Ela se soma ao engajamento
ativo, o feedback de erros e a consolidação. Esses pilares operam de forma
interdependente. Sem atenção, nada é registrado. É ela que abre para o
engajamento, que transforma o ato de aprender em uma construção ativa. O
feedback de erros, por sua vez, fortalece as conexões quando há retorno da
aprendizagem durante o próprio processo. E tudo isso só se consolida quando o
cérebro descansa, no sono ou em pausas, fixando o que foi construído.
Como
afirmou Haidt no best-seller já mencionado, o mundo digital vem comprometendo
seriamente esse ciclo. Notificações constantes rompem o foco, substituem o
engajamento profundo por respostas rápidas e superficiais, e ainda prejudicam o
sono, etapa essencial para consolidar qualquer aprendizagem. O resultado é um
cérebro hiperestimulado, mas desconectado dos processos que sustentam o
aprendizado.
Transformar
esse cenário é urgente. Pensadores importantes para a educação, como Paulo
Freire e John Dewey, reforçam que o interesse do estudante é o motor para a
construção de conhecimento, o que passa por redesenhar o cotidiano escolar e
criar ambientes que promovam o diálogo, pilar estruturante da obra freireana.
Além
disso, podemos considerar as pausas para respiração consciente, estações com
materiais manipuláveis, interações com feedback imediato e, sobretudo, espaços
sem telas, com descanso e integração e trocas do que foi vivido como práticas
que contribuem para o processo atencional.
O
cérebro é plástico. Ele se adapta ao ambiente que encontra. Nesse sentido,
contextos que equilibram liberdade e estrutura, ação e pausa, concentração e
descanso, oferecem o terreno fértil para que a curiosidade se transforme em
reflexão e a reflexão, em aprendizagem relevante.
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Como favorecer a atenção e o foco
Apesar
dos avanços da neurociência, faltam pesquisas que relacionem diretamente
atenção e aprendizagem em contextos diversos do Brasil. Ainda assim,
professores criam, na prática, pequenos laboratórios em sala de aula, onde
observam, testam e revisitam estratégias que alimentam seu saber e melhoram a
atenção dos alunos.
A
atenção é uma habilidade aprendida, construída nas relações e no sentido de
pertencimento que a escola oferece. Fanny Sznelwar Minerbo, especialista em
Desenvolvimento de Metodologias e Projetos, e Beatriz Peres Rios, professora de
Projetos de Humanidades, ambas da Educação Básica, defendem que desenvolver o
foco exige práticas intencionais: rotina clara, ambientes organizados,
materiais acessíveis e estratégias que acolhem diferentes perfis, como o uso de
mensagens (postits) para reforçar etapas. Propõem também preparar o cérebro com
respiração guiada, música calma, pausas e utilização de blocos de atenção, a
exemplo do método Pomodoro. E valorizam Rotinas do Pensamento (Project Zero –
Harvard) como práticas que ajudam a organizar o raciocínio, aprofundar a
atenção e favorecer a construção do pensamento crítico.
A
atenção não surge do comando, mas de um ciclo que envolve organização,
relações, regulação emocional e construção de sentido. Portanto, promover a
atenção é criar experiências que combinem vínculo, participação e sentido,
fundamentos indispensáveis para uma aprendizagem viva e significativa.
Fonte: Extra Classe/IHU/The Conversation

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