Em
nova queda de braço, Congresso da elite impõe mais uma derrota ao governo
O
Congresso aprovou na quarta-feira (25/6) a anulação do decreto presidencial que
aumentava alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), em mais uma
derrota para o governo de Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
A
decisão foi aprovada na Câmara dos Deputados e depois no Senado.
Na
Câmara, foram 383 votos a favor e 98 contra a derrubada da medida, um placar
que mostra que mesmo parlamentares de partidos da base ficaram contra os
interesses do Palácio do Planalto.
No
Senado, a votação foi simbólica — sem contagem de votos.
A
elevação do IOF foi proposta pelo Ministério da Fazenda com objetivo de
equilibrar as contas públicas e cumprir as regras do arcabouço
fiscal.
Sem sua
aprovação, o governo terá que buscar outras fontes de receita extra ou cortar
gastos.
O
governo argumenta que a alta do IOF impactaria sobretudo os mais ricos. Já o
corte de despesas, diz a gestão Lula, afetaria programas que atendem os mais
pobres.
"O
decreto do IOF corrige uma injustiça: combate a evasão de impostos dos mais
ricos para equilibrar as contas públicas e garantir os direitos sociais dos
trabalhadores", argumentou o ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, na rede social X, na manhã desta quarta.
A
oposição, por sua vez, diz que a população já paga muitos impostos e que o
ajuste das contas públicas tem de vir de cortes de despesas. Para os
oposicionistas, o imposto maior aumentaria o custo de produção no país.
"É
um confisco unicamente visando arrecadar recursos. Ataque ao setor produtivo:
agro, serviços, comércio, indústria, tudo afetado", argumentou em suas
redes sociais o líder da oposição na Câmara dos Deputados, Luciano Zucco
(PL-RS).
O
governo enviou uma primeira proposta de aumento de IOF em maio, que reforçaria
o caixa do governo em R$ 20,5 bilhões em 2025 e em R$ 41 bilhões em 2026.
Com a
resistência do Congresso, o governo alterou a proposta, sugerindo uma alta
menor do imposto. Com isso, a arrecadação prevista caiu para R$ 10 bilhões
neste ano e R$ 30 bilhões no seguinte.
Por
outro lado, o Executivo propôs outras medidas para compensar a arrecadação
menor do IOF, como taxar em 5% títulos financeiros que hoje são isentos: tributação em
5% de ativos imobiliários e do agronegócio hoje isentos de Imposto de Renda
(IR): as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do
Agronegócio (LCAs).
Essa
proposta também sofre resistência no Congresso.
Junto
ao aumento do IOF, o governo
anunciou em maio um congelamento de R$ 31,3 bilhões no
orçamento deste ano, com objetivo de cumprir a meta fiscal de 2025.
Se a
alta do imposto fosse derrubada no Congresso, o corte de despesas teria que ser
ampliado, disse a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, antes
da votação no Congresso.
"Para
compensar essa perda de receita, o bloqueio e contingenciamento, que já são de
R$ 31 bilhões, tudo o mais constante, terá que ser elevado para R$ 41 bilhões,
resultando em risco de paralisação de programas como Auxílio Gás, Assistência
Social, Minha Casa Minha Vida, Pé de Meia, entre outros", afirmou em sua
conta na rede social X.
Ela
também tentou convencer os parlamentares a não derrubarem a medida, afirmando
que os cortes também vão atingir emendas parlamentares — verba que deputados e
senadores podem destinar para investimentos em suas bases eleitorais.
"As emendas
parlamentares também serão afetadas pela derrubada do Decreto.
Em 2025, o contingenciamento adicional de emendas será de R$ 2,7 bilhões,
somando-se aos R$ 7,1 bilhões já contidos, resultando no total de R$ 9,8
bilhões. Em 2026, considerado apenas o efeito dessa medida, a derrubada do
decreto resulta em perda de R$ 7,1 bilhões para as emendas parlamentares",
escreveu no X.
- Congresso
protege o 'andar de cima', diz economista
Em entrevista
recente à BBC News Brasil, o economista-sênior da consultoria LCA e
pesquisador-associado da FGV, Bráulio Borges, defendeu que o governo Lula adote
medidas para conter a alta de despesas, como interromper os reajustes do
salário-mínimo acima da inflação.
A
medida tem impacto importante nas contas públicas, porque as aposentadorias e
pensões pagas pelo INSS são atreladas ao piso salarial.
Por
outro lado, ele afirmou que o ajuste fiscal também demanda aumento de receitas
e concordou com o governo sobre o impacto do IOF atingir os mais ricos.
Borges
ressaltou ainda que o Congresso tem dificultado o trabalho do governo de
ajustar as contas públicas, ao aprovar benefícios tributários para empresas que
desfalcaram a arrecadação nos últimos anos, como as prorrogações de um programa
emergencial criado para o setor de eventos na pandemia (Perse) e da desoneração
da folha de pagamentos — uma política de emprego ineficiente, segundo estudos
econômicos.
O
Congresso não só manteve a desoneração de empresas, como estendeu o benefício a
pequenos municípios no final de 2023, uma medida "eleitoreira", na
visão de Borges.
As duas
medidas (Perse e desoneração) representaram uma renúncia de receita de quase R$
50 bilhões no ano passado.
"Irrita
ver o Congresso querendo posar como se fosse o adulto na sala, sendo que o
Congresso, do ponto de vista do equilíbrio fiscal, atrapalhou muito",
criticou.
Borges
também aponta limitações em uma das propostas que a oposição e o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mais têm defendido para equilibrar as
contas públicas: uma reforma administrativa para reduzir o custo com
servidores.
Na sua
visão, a medida é importante para melhorar o serviço público, mas faria apenas
"cócegas" na questão fiscal, ao gerar uma economia de até R$ 3
bilhões.
Muito
mais eficiente, argumenta, seria reduzir as emendas parlamentares, que mais que
quadruplicaram a partir de 2020.
"É
uma excrescência. As emendas parlamentares não eram para estar nos R$ 50
bilhões por ano. Eram para estar em R$ 10 bilhões, que é mais ou menos a média
que a gente teve de 2015 a 2019", crítica.
¨ Derrubada do IOF e
resistência do Congresso devem levar a novos cortes no Orçamento
O Congresso
Nacional derrubou nesta quarta-feira (25) o decreto
presidencial que alterou as regras de cobrança do Imposto Sobre Operações
Financeiras (IOF). Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a decisão deve levar o governo a aplicar
novos bloqueios e contingenciamentos no Orçamento 2025.
As
análises levam em conta as perdas para os cofres públicos com a anulação do
decreto. Estimativas do Ministério da
Fazenda indicam que a decisão dos parlamentares deve resultar
em uma queda de
arrecadação de cerca de R$ 10 bilhões neste ano.
O
ex-secretário da Fazenda de São Paulo e economista-chefe da Warren
Investimentos, Felipe Salto, projeta um rombo ainda maior: de ao menos R$
15 bilhões.
"Neste
caso, será preciso ampliar o contingenciamento, que já foi feito em maio em
valores expressivos", diz, ao g1,
o especialista em contas públicas.
Ele se
refere ao bloqueio de
R$ 31,3 bilhões no Orçamento de 2025, o maior dos últimos cinco
anos, que atingiu os gastos livres dos ministérios — ou seja, aqueles que não
são obrigatórios. São despesas envolvem investimentos e custeio da máquina
pública.
O texto
derrubado pelo Congresso era considerado essencial pela equipe econômica para
equilibrar o orçamento e alcançar a meta fiscal estabelecida para este ano.
Desde o início, a proposta enfrentou forte oposição do Legislativo, por
envolver aumento de impostos. (leia mais abaixo)
Segundo
Salto, com a decisão, o problema maior será em 2026.
"Para
o ano que vem, estamos com projeções muito diferentes do projetado pelo governo
no PLDO [Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias] e vemos uma necessidade
expressiva de cortes ou novas medidas, mesmo na presença do IOF", diz.
"Sem
ele [o decreto do IOF], as coisas complicariam ainda mais e a mudança da meta
fiscal seria líquida e certa", acrescenta.
Alterar
a meta das contas públicas costuma provocar reação negativa no mercado, que vê
na medida um sinal de enfraquecimento do compromisso do governo com a
estabilidade fiscal. Entre os reflexos, estão a retirada de investimentos do
país, além da pressão sobre os juros e alta do dólar.
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Meta fiscal e problema estrutural
O
economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, segue a mesma linha.
Para ele, a decisão do Congresso dificulta o cumprimento da meta de
déficit zero — ou seja, fazer com que as despesas fiquem no mesmo nível
das receitas ao longo do ano, sem considerar os juros da dívida.
- 🔎 Para este ano,
a meta é zerar o déficit das contas, que somou R$ 43 bilhões em
2024. O governo pode ter um déficit de até 0,25% do PIB sem que o
objetivo seja formalmente descumprido, o equivalente a cerca de R$ 31
bilhões.
"Nesse
sentido, contingenciar e bloquear despesas vai ajudar o governo a perseguir e
cumprir com esse resultado", diz Galhardo.
Há,
porém, outro ponto de consenso entre economistas: o país ainda carece de
medidas estruturais capazes de garantir a sustentabilidade das contas públicas
no médio e longo prazo. Entre elas, especialistas propõem:
- O fim da
correção real do salário mínimo e de remuneração de servidores;
- Uma mudança da
regra de correção do gasto mínimo da Saúde e da Educação;
- Um corte
das emendas parlamentares;
- Mudanças
na Previdência e no Fundeb.
"O
grande problema, e que tem trazido estresse para os mercados, é que o governo
tem sido incapaz de propor mudanças que tragam a resolução do problema da
trajetória das despesas", diz Galhardo.
Isso
afeta também a dívida do setor público consolidado do país, que hoje é de 76,2% do
Produto Interno Bruto (PIB) — o equivalente a R$ 9,2 trilhões. Os
números preocupam, principalmente, devido às projeções: analistas do mercado
financeiro preveem que essa dívida deverá atingir 93,5% do PIB em 2034.
Marcos
Moreira, sócio da WMS Capital, acredita que não haverá um aumento significativo
do risco fiscal com a derrubada do IOF. Isso porque, diz ele, a medida foi
publicada "como uma forma de tentar simplesmente tapar um buraco no curto
prazo".
"O
mercado não tem precificado tanto essas medidas de curto prazo, já que elas não
têm capacidade de resolver o problema fiscal. São ações que aproximam o governo
do cumprimento do arcabouço [a regra de gastos públicos] para 2025, mas não
atacam o problema", afirma.
Governo
e Congresso fogem de medidas estruturais?
Mesmo
com o decreto do IOF e os cortes de gastos tributários prometidos pelo governo
— e ainda não encaminhados ao Congresso — Felipe Salto, da Warren, prevê
que ainda faltariam cerca de R$ 25 bilhões para atingir o limite inferior
da meta fiscal.
"Imagine
a situação sem o decreto do IOF e as outras medidas. Seria, obviamente,
bastante pior", afirma.
"O
quadro fiscal é grave e estão brincando com fogo. É inacreditável o papel a que
a liderança da Câmara está se prestando. E sabemos o motivo: medo de perder as
polpudas emendas", diz Salto.
André
Galhardo, da consultoria Análise Econômica, destaca que, assim como o governo,
o Legislativo brasileiro não se empenha em encontrar medidas para a
redução de gastos.
Ele
cita propostas que vão na contramão desse objetivo, como a de aumentar de
513 para 531 o número de vagas para deputados federais — o
que pode gerar um impacto de, pelo menos, R$ 95 milhões por ano. O texto
foi aprovado pelo
Senado nesta quarta e retornará à Câmara.
"O Congresso
Nacional diz que o governo precisa cortar gastos, mas os
próprios parlamentares não querem cortar. Por outro lado, o governo também tem
tido dificuldade em propor uma mudança."
Marcos
Praça, diretor de Análise da Zero Markets Brasil, afirma que o governo federal
está “engessado” e que há grande ceticismo — inclusive entre aliados — quanto à
aprovação de medidas voltadas ao aumento da arrecadação.
"Acredito
que, pelo fato de no ano que vem termos eleições, os parlamentares vão seguir
engessando o governo, atrapalhando ao máximo", diz. "É um ano em que
vai acabar puxando um para cada lado e não vai sair nada", diz, ao
reforçar a impopularidade das ações.
Já para
Harrison Gonçalves, membro do CFA Society Brazil, a decisão do Congresso
"demonstra que o Parlamento considera que o nível de arrecadação do
governo já é elevado, e que é essencial organizar as contas públicas e cortar
despesas antes de pensar em novos aumentos de impostos".
"Essa
postura, além de promover uma gestão mais eficiente dos recursos, também pode
aumentar a confiança do mercado e dos investidores, mostrando um compromisso
firme com a responsabilidade fiscal do país."
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Relembre o aumento do IOF
No
final de maio, a equipe econômica anunciou um decreto
presidencial que aumentou o IOF sobre operações de crédito,
especialmente para empresas. A medida também passou a valer para operações de
câmbio (compra de moeda estrangeira), seguros e investimentos, como a
negociação de títulos.
O
governo informou que, sem o aumento do IOF, o bloqueio
orçamentário de R$ 31,3 bilhões — o maior dos últimos cinco
anos — teria que ser ainda maior. A área econômica espera arrecadar R$ 20
bilhões neste ano com a alta do tributo. Sem esse aumento, o bloqueio
precisaria crescer na mesma proporção ou maior.
Ainda
em maio, a área econômica decidiu revogar o
aumento do IOF que havia sido anunciado para aplicações de
fundos nacionais no exterior. Com isso, a alíquota zero foi mantida nesses
casos. Sem essa reversão, o tributo subiria para 3,5%.
Diante
da pressão do Legislativo, o governo decidiu, em junho, revogar
alguns atos que haviam aumentado o IOF. A alíquota fixa do tributo
sobre a contratação de empréstimos, que no mês passado subiu de 0,38% para
0,95%, foi revertida. A alíquota diária, entretanto, foi mantida em 0,0082%,
ante 0,0041% antes do aumento.
Também
houve recuo no aumento do IOF sobre operações de risco sacado, modalidade
em que um banco antecipa o pagamento de uma fatura que será cobrada
posteriormente do cliente. Com a decisão, o governo deixou de cobrar a alíquota
fixa de 0,95%, aplicada na contratação do crédito. Porém, manteve a alíquota
diária em 0,0082%, o que, segundo o Ministério da Fazenda, representa uma
redução de 80% na tributação desse tipo de operação.
Houve,
ainda, a revogação do aumento da tributação sobre seguros do tipo VGBL: o
IOF sobre os aportes passou a incidir apenas sobre o valor que ultrapassar R$
300 mil e, a partir de 1º de janeiro de 2026, a cobrança vale para o valor que
exceder R$ 600 mil.
Por
fim, foi revogada parte do aumento do IOF sobre Fundos de Investimento em
Direitos Creditórios (FDI), assim como sobre o retorno de investimentos diretos
ao país, que continuam isentos de tributação.
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Medida Provisória
Para
compensar a perda de arrecadação causada pelos recuos parciais no aumento do
IOF, a equipe econômica editou uma Medida Provisória que aumentou diversos
tributos — medida que resultou em um incremento de R$ 10 bilhões na
arrecadação.
Foram
propostos aumentos nos juros sobre o capital próprio das empresas, na
tributação das apostas (bets), a unificação do Imposto de Renda sobre
investimentos e a taxação de criptoativos, entre outras medidas. Essas
propostas também enfrentam forte resistência no Legislativo.
¨ Sem IOF governo perde
cerca de R$ 10 bilhões em arrecadação em 2025, diz Fazenda
Com a
derrubada dos decretos do presidente Lula sobre a alta do IOF
nesta quarta-feira (25), o Congresso impõe uma perda de arrecadação aos cofres
públicos de cerca de R$ 10 bilhões neste ano, apontam estimativas do Ministério
da Fazenda.
Considerada
necessária pela equipe econômica para equilibrar o orçamento e buscar o
atingimento da meta fiscal deste ano, a proposta sofreu com forte resistência
do Legislativo por envolver aumento de tributos. E acabou barrada pelo
Parlamento, algo inédito
em um decreto presidencial.
A
ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann,
articuladora política do governo, já havia
alertado que a derrubada da medida exigirá bloqueio adicional no orçamento,
englobando inclusive nas emendas parlamentares.
"A
derrubada dessa medida exigiria novos bloqueios e contingenciamentos no
Orçamento, prejudicando programas sociais e investimentos importantes para o
país, afetando inclusive a execução das emendas parlamentares. É hora de pensar
primeiro no país, que precisa continuar crescendo e buscando justiça social e
tributária", afirmou Gleisi, mais cedo nesta quarta.
Sem o
decreto do IOF, as regras das contas públicas estipulam a necessidade de
um bloqueio adicional de R$ 10 bilhões terá de ser anunciado pela área
econômica para compensar a perda de arrecadação.
- O objetivo é
buscar a meta de zerar o déficit nas contas do governo neste ano, com um
intervalo de tolerância (de até R$ 31 bilhões) e exclusão de parte dos
precatórios previstos.
- A alternativa
para o governo para evitar bloqueio no orçamento será elevar outros
tributos em igual intensidade, ou seja, em R$ 10 bilhões. O Congresso
Nacional, entretanto, não tem mostrado receptividade a propostas que
elevem impostos.
Fonte:
BBC News Brasil/g1

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