Quem
responsabilizar pelas substâncias químicas "eternas"?
A
pacata cidade italiana de Trissino fica aos pés dos Alpes, cercada por campos e
colinas verdejantes, com pequenas indústrias em sua periferia.
Embora,
à primeira vista, nada ali sugira que quantidades gigantescas de água potável e
solo estão contaminadas com substâncias químicas extremamente tóxicas, foi
exatamente isso que um tribunal em Roma concluiu recentemente.
O
processo, iniciado em 2021, terminou com a condenação à prisão de 11 réus
ligados ao grupo japonês Mitsubishi e à luxemburguesa Chemical Investors, entre
outros.
Organizações
não governamentais estimam que a contaminação pode afetar cerca de 350 mil
pessoas na região do Vêneto, no norte da Itália.
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O que são as "substâncias químicas eternas"?
Conhecidas
como PFAS, as substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas são
extremamente persistentes e não se decompõem. Uma vez liberadas no meio
ambiente, esses compostos químicos permanecem ali "para sempre".
Cientistas
já estabeleceram uma relação entre os PFAS e danos ao fígado e aos rins,
aumento dos níveis de colesterol, doenças nos gânglios linfáticos e redução da
fertilidade em homens e mulheres. Em altas concentrações, eles também provocam
baixo peso ao nascer, podem reduzir a eficácia de vacinas e causar câncer,
segundo a Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha.
Essas
substâncias são consideradas um problema global e podem ser detectadas
praticamente em qualquer lugar.
Em
2018, cientistas da Universidade de Harvard descobriram que 98% dos cidadãos
dos EUA têm PFAS no sangue. Estudos sobre leite materno em países como Índia,
Indonésia e Filipinas detectaram essas substâncias em quase todas as amostras.
Na Alemanha, elas estão nos organismos de todas as crianças – e uma em cada
cinco delas exibe níveis que ultrapassam os limites críticos.
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Da bomba atômica ao prato
Os PFAS
foram descobertos em 1938 pela gigante química americana DuPont. Por suas
propriedades especiais de proteger metais contra corrosão mesmo em altas
temperaturas, as substâncias foram inicialmente usadas no desenvolvimento da
bomba atômica.
Mais
tarde, os PFAS acabaram indo parar nos lares de cidadãos comuns como o Teflon,
um revestimento de panelas antiaderentes. Isso marcou o início do uso comercial
das substâncias, que se estenderam a diversos produtos.
Graças
à sua resistência única ao calor, à umidade e à sujeira, os PFAS são usados em
uma série de produtos industriais e acessíveis ao consumidor comum: de roupas à
prova d'água, maquiagem, tapetes e embalagens de alimentos até aparelhos
médicos, semicondutores e turbinas eólicas.
Essas
substâncias acabam indo parar no nosso organismo através da água que bebemos e
da comida que ingerimos, e vão se acumulando com o passar do tempo. Além de
serem detectáveis no leite materno e no sangue, eles também podem ser
encontrados no cabelo.
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Problema foi ocultado por décadas
Em
1998, o Teflon sofreu um arranhão sério em sua imagem após a morte súbita de
cem vacas numa fazenda próxima a uma fábrica da substância na cidade de
Parkersburg, no estado americano da Virgínia Ocidental.
Posteriormente,
descobriu-se que milhares de pessoas na região haviam sido contaminadas pelo
vazamento de um aterro e por águas residuais da fábrica da DuPont que continham
PFAS.
Estudos
sugerem que altos níveis de PFOA – um tipo específico de PFAS – na região estão
ligados a casos de câncer nos rins e nos testículos.
Documentos
mostram que a DuPont, ao contrário das autoridades governamentais, sabia há
décadas do perigo, mas continuou despejando a substância no meio ambiente.
Em
2017, a DuPont e a empresa Chemours, que foi desmembrada da primeira,
concordaram em pagar uma indenização de 671 milhões de dólares (R$ 3,7 bilhões)
a 3.550 pessoas afetadas.
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União Europeia quer banir PFAS
Os PFAS
continuam sendo liberados no meio ambiente. A organização ambiental americana
EWG calcula, com base em medições da Agência de Proteção Ambiental dos EUA e
outras fontes, que quase 10 mil locais no país estão contaminados com essas
substâncias, o que pode afetar cerca de 160 milhões de pessoas.
Na
Europa, sabe-se da contaminação em pelo menos 23 mil locais – destes, 2,3 mil
apresentam níveis tão altos que põem em risco a saúde humana, segundo a Agência
Europeia do Meio Ambiente.
Na
Alsácia, França, as autoridades atualmente recomendam que a população evite
beber água da torneira, após análises revelarem níveis elevados de 20
"substâncias químicas eternas".
E em
Dalton, no estado americano da Geórgia, corre um processo judicial contra um
fabricante de carpetes, a Chemours e a empresa química 3M. Moradores ali temem
ter adoecido devido à contaminação por PFAS.
Durante
o governo do ex-presidente Joe Biden, os EUA estabeleceram pela primeira vez
limites legais obrigatórios para seis substâncias PFAS na água potável. Quatro
deles, porém, foram revogados pelo governo de seu sucessor, Donald Trump.
Em
2023, o grupo 3M concordou em pagar cerca de 10 bilhões de dólares (R$ 55,2
bilhões) a fornecedores locais de água para encerrar processos judiciais – os
que tramitam e os que ainda poderiam ser abertos no futuro – relacionados à
poluição por PFAS. A 3M também enfrenta processos por contaminação na Holanda,
onde também atua.
A União
Europeia aprovou recentemente uma legislação para reduzir o uso dessas
substâncias. A longo prazo, o plano é bani-las, com exceções apenas para
produtos cujo uso seja considerado "essencial para a sociedade" –
caso, por exemplo, de materiais médicos como stents para vasos sanguíneos ou
próteses articulares.
Fonte:
DW Brasil

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