Clóvis
Roberto Zimmermann: O neoliberalismo não sobrevive sem o Estado
Há um
grande consenso nos estudos sobre neoliberalismo de que o propósito ideológico
central e estratégico de seus defensores é a diminuição do tamanho do Estado e
de seus investimentos em políticas sociais.
Segundo
Wendy Brown (2021), o neoliberalismo está focado na desregulamentação do
capital, na destruição da organização dos trabalhadores, na privatização de
bens e serviços públicos, na redução da progressividade fiscal e no declínio do
estado de bem-estar social.
Em
termos políticos, a maioria dos estudiosos aborda os compromissos da direita
com a defesa das políticas neoliberais e com seus valores. Segundo Menchise,
Ferreira e Ávarez (2023), não há grande controvérsia em assinalar que os
mandatos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher foram os principais responsáveis
pela proliferação ideológica de políticas de cunho neoliberal no mundo, com
objetivos desreguladores e de redução drástica do gasto público e da presença
pública no mercado.
Contudo,
de grande relevo em termos de implantação de uma agenda neoliberal é necessário
destacar a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, que no início dos anos 1980
iniciou um ciclo de privatizações do sistema de serviços sociais: esse ciclo
inclui a privatização de serviços educacionais e de saúde, da administração dos
fundos previdenciários (capitalização) e de bens naturais comuns, como a água.
Neste
sentido, diferentemente da Europa, a implementação do neoliberalismo na América
Latina foi radical, extremista, ortodoxa e combinada com ditaduras extremas.
Assim sendo, concordo com Rojas Ramos (2022) de que o neoliberalismo
latino-americano é marcado por uma nova forma de colonialidade, de ditaduras e
autoritarismo na sua implementação e consolidação.
Entretanto,
o que merece destaque é o fato do neoliberalismo chileno depender massivamente
de recursos estatais para continuar existindo. No Chile opera um sistema
privado de pensões baseado no regime de capitalização individual. Desde 1982,
todos os trabalhadores chilenos que entraram no mercado de trabalho foram
obrigatoriamente inscritos no sistema privado, além de serem obrigados a
escolher entre uma das administradoras privadas.
Além
desse sistema individual pagar pensões inadequadas aos seus contribuintes, seu
fracasso está ligado às oportunidades de negócios que as Administradoras de
Fundos de Pensões (AFP) encontram no Chile, cujo capital acumulado por meio da
captação mensal e obrigatória das contribuições trabalhistas dos chilenos as
tornou atraentes para grandes investidoras em relação direta com grandes grupos
empresariais nacionais e estrangeiros.
A
pressão por reformas fez com que em 2008, no primeiro governo de Michelle
Bachelet (2006-2010), reforça-se e unifica-se o pilar solidário financiado pelo
Estado, por meio de uma pensão mínima para todos aqueles que não podem se
aposentar (Pensão Básica Solidária, PBS), uma pensão por invalidez, um subsídio
para pensões autofinanciadas que não atingem o mínimo (Contribuição
Previdenciária Solidária, APS) e um bônus por filho.
Essas
mudanças funcionam, segundo Bossoni (2020), como um paliativo para o problema
estrutural que aflige o sistema chileno: sua incapacidade de pagar pensões
compatíveis com o custo de vida e em proporção justa à renda que o trabalhador
recebe ao final de sua vida profissional.
O que
mais chama a atenção no estudo de Bossoni (2020) é de que no mês de janeiro de
2020, apenas 28,8% do dinheiro total arrecadado (ou seja, o fluxo de dinheiro
que entra no sistema por meio de descontos salariais ou contribuições
previdenciárias) pelas Administradoras de Fundos de Pensões (AFP) é destinado a
despesas (ou seja, ao pagamento de pensões civis autofinanciadas). A maior
parte do dinheiro arrecadado pelas Administradoras (71,2%) não é destinada ao
pagamento de pensões, sendo retida indefinidamente no circuito financeiro do
qual fazem parte.
O dado
mais interessante apresentado no estudo de Bossoni (2020) em sua análise dos
gastos totais, ou seja, os que somam as pensões das Forças Armadas e da Ordem
(que ficaram fora do sistema privado) e as pensões civis dos que não puderam
contribuir, a incidência dos recursos contribuídos pelas Administradoras de
Fundos de Pensões (AFP) no total dos gastos representam apenas 20,9%, o que
equivale a menos de um quarto do gasto total do sistema. Isso significa que o
órgão que mais se esforça no pagamento de pensões no Chile é o Estado, uma vez
que assume 79,1% dos gastos previdenciários totais.
Estudos
na área da educação e da saúde no Chile chegam a conclusões semelhantes, por
isso o sociólogo chileno Carlos Ruiz (2015) denominou isso de “capitalismo de
serviço público”, referindo-se ao conjunto de atribuições, bônus, subsídios e
licitações concedidos pelo Estado chileno a empresas privadas, com o objetivo
de sustentar a prestação dos serviços sociais que são privatizados, mas com
grande dependência estatal, garantindo alto benefício privado através de gastos
estatais elevados. Isso tudo permitiu o surgimento de nichos de acumulação de
capital regulados e mantidos pelo Estado, apesar de sua operação privada.
Por
isso, a experiência neoliberal chilena, a mais profunda e radical do mundo,
instituída por uma ditadura, não parece sobreviver sem amplos recursos
públicos, dependendo massivamente de recursos estatais para continuar
existindo. Há um grande descompasso entre as proposições teóricas dos
neoliberais e a práticas realmente existentes.
¨
Dialética da colonização. Por Luiz Marques
O senso
comum tende a sincronizar acontecimentos de diferentes épocas conforme a
temporalidade dos observadores, como se as premissas descritivas implicassem
uma conclusão normativa sobre o real, quando apenas retiram seu solo histórico.
Semelhanças pretéritas com o presente mostram que o status quo protege
os poderosos, não que a história seja um eterno retorno ao ponto de
partida.
<><>
Tarefas inacabadas
Para o
padre Antônio Vieira (1608-1697), “cada um é as suas ações, e não outra coisa”.
Assim, num sermão pregado aos nobres procura demover a nobreza e inclusive o
clero de um apego injusto aos privilégios de isenção tributária que freiam o
desenvolvimento do povo.
Argui o
princípio moral da equidade. “Não sejam os remédios particulares, sejam
universais; não carreguem tributos somente sobre uns, carreguem sobre todos. O
que importa é que os montes se igualem com os vales, pois os montes são a quem
ameaçam principalmente os raios, e reparta-se por todos o peso para que fique
leve para todos”. O religioso acena à irmandade do evangelho para controlar a
ganância das elites.
A
metáfora dos “raios” alude à possibilidade de um levante, o qual enfim eclode
em uma revolução liderada por escravos e libertos na colônia francesa de
Saint-Domingue (Haiti), entre 1791 e 1804, resultando na abolição da
escravatura e na independência do país; a primeira república governada por
pessoas com uma ascendência africana.
A
burguesia transnacional pune desde então o Haiti, que inspira a Conjuração
Baiana ou Revolta dos Búzios, de negros, pardos, mulatos e também alfaiates, em
1798. O movimento lutava contra a segregação racial, os altos impostos, os
maus-tratos, a fome.
Quanto
ao liberalismo, articula-se com o escravismo. Seus desdobramentos compactuam
com os valores da intolerância e da opressão. Os discípulos de Adam Smith geram
notáveis paladinos da industrialização como Alexander Hamilton, um dos pais
fundadores dos Estados Unidos.
No
Brasil, contudo, nutrem adeptos do laissez-faire da mão
invisível para deixar fazer, deixar passar, deixar vender como Visconde de
Cairu (1756-1835), apoiador da liberação dos portos. Os cuidados com a proteção
social da força de trabalho, sob grilhões de ferro, não entram no rol da
“modernização”.
O
liberalismo tem caráter oligárquico e até neocolonial com a apologia da
monocultura, a aversão à intervenção estatal nos rumos da economia e a inserção
internacional sob a égide dos exportadores de matérias-primas que produzem para
além-fronteiras, não para o mercado interno. As raízes do individualismo se
encontram numa viralatice típica da casa grande. A ética calvinista do espírito
do capitalismo não frequenta a Terra brasilis, exceto para
justificar uma escassez – para os subjugados.
Alfredo
Bosi analisa a situação, em Dialética da colonização. Obra
referencial das percepções de que a alma da brasilidade abriga: (a) o
“colonizador” portador do patriarcado (racismo e sexismo); (b) o “colono” com
a vita activa quepotencializa o mérito e agrava o demérito dos
pobres; (c) o “escravizado” confinado ainda em senzalas destituídas de
direitos. É preciso fechar a Revolução de 1930 inacabada nas questões agrária,
nacional e democrática, somadas hoje à urbana e à ambiental.
<><>
2025, o novo déjà vu
Como um
bumerangue, o arcabouço fiscal volta-se contra o próprio governo para solapar o
projeto de justiça social com: (i) elevação da alíquota sobre a IOF (Imposto
sobre Operações Financeiras) de 1,1% para 3,5% na compra de moeda estrangeira
em espécie por pessoa física e; (ii) criação da alíquota de 5% em aportes
mensais superiores a R$ 50 mil para os planos de previdência privada tipo VGBL
(Vida Gerador de Benefício Livre). A direita reage com vinte vetos de
ressentimentos.
O ódio
atávico joga os trabalhadores na informalização, nas terceirizações e negação
dos vínculos empregatícios nos aplicativos (Uber, iFood). Os cães de guarda da
ordem conservadora, fiéis a dogmas avessos às medidas indutoras de
interferência no caos econômico, não sentem empatia. Principalmente se a
solução envolve tributos às classes endinheiradas na forma de aumento das
alíquotas e dos impostos.
O padre
Vieira, entre nós, continua feito João Batista a clamar com a voz no deserto,
sem sucesso. O rentismo financeiro é hegemônico e sinhô patrocinador de
noticiários.
Entidades
como a CNI (indústria), CNC (comércio), CNseg (seguradoras), CNA (agronegócio),
Abrasca (companhias abertas), CNF (instituições financeiras), OCB
(cooperativas) publicaram um manifesto conjunto com o argumento de que a
intenção abala a competitividade pátria e a formação da poupança de largo
prazo. A aliança de subordinação às vontades do capital improdutivo abrange
setores amplos das classes dominantes, em defesa dos preconceitos contrários à
taxação de ricos.
A
disparada dos juros básicos da Taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e
Custódia), que inibe os investimentos para a reindustrialização da nação, nunca
havia suscitado furor na sociedade civil. Não adiantou o governo federal recuar
no encaminhamento do decreto que previa, ademais, taxar os investimentos em
fundos nacionais no exterior. A reação furibunda do mercado, rápido avalizada
na mídia corporativa, levou a uma reconsideração pelas autoridades de plantão;
nem dedos nem anéis.
No que
concerne aos liberais brasileiros, seus representantes na imprensa seguem
achando difícil, para evocar o dilema existencial do jornal Estado de
S. Paulo,escolher entre a democracia e o neoliberalismo com rumor de botas.
Contra a primeira há insatisfação pelo apreço à igualdade e à ideia de
regulamentar a incerteza do mercado para não reproduzir mais desigualdades
sociais.
A favor
do segundo tem-se a apologia do livre mercado sob um regime de exceção para
conferir uma segurança jurídica aos contratos de espoliação, à revelia da
legislação confirmada em governanças democráticas. Sem falsos escrúpulos, o
Visconde de Cairu e o Estadão postam-se ao lado do atraso.
Se os
escravos são tidos como os pés e as mãos dos senhores, na figura de linguagem
que lhes tira a integridade de atores, a precarização do trabalho e a
necropolítica celebra fortunas indiferentes aos humilhados na trajetória
humana. Na gramática neoliberal a felicidade é muito seletiva, não se estende
ao coletivo: a liberté perde o juízo crítico sobre o exercício
da governabilidade; a égalité para de tornar cada um credor do
Estado; e a fraternité institucional abandona os direitos
universais.
A
conversão moderna do sujeito da política em objeto da economia consta na máxima
de um poeta: “O novo é para nós, contraditoriamente, a liberdade e a
submissão”. Substituindo o termo “novo” por Big Tech temos a
condição de todos nós usuários de smartphones na
contemporaneidade. Em troca do sentimento de “liberdade” no teclado, aceitamos
uma “submissão” gratuita da privacidade para a extração de dados que fabricam
mega riquezas para outrem, em leilões ocultos “em nuvens”.
O
Brasil deve superar o passado que aparenta imobilidade. A Constituição de 1988
foi um passo importante, pela ação decisiva dos progressistas na elaboração da
Carta Magna (cidadã). A vitória nas eleições de 2022 foi outro passo
fundamental. O próximo condensa avanços para retomar a luta político-ideológica
contra o Congresso da extrema vilania que, de Nacional, nada tem. Partidos têm
receios dada a espada sobre os mandatos. Os movimentos sociais e a intelligentsia podem
encarar.
<><>
O longo amanhecer
Revigorar
as vertentes transformadoras (as entidades comunitárias, os sindicatos, os
movimentos, as universidades, os partidos) cobra um novo padrão de organização
– com a ampliação da vanguarda de luta, para canalizar as emoções
antissistêmicas. O descrédito das instituições na opinião pública ajuda os
algoritmos da destruição da democracia, por dentro.
A
imaginação política deve romper o conformismo na novíssima dialética da
colonização. Amiúde a história começa na tragédia e não se repete com uma
farsa. Antes, evoca afetos da emancipação na erradicação de injustiças na
sociedade para descortinar “o longo amanhecer”, nas palavras de Celso Furtado:
“Há fogo sob as cinzas”.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário