Projeto de lei pró-Trump sobre terrorismo usa PCC e CV para facilitar intervenção dos EUA
Líderes
do Centrão e do bolsonarismo no Congresso têm articulado uma ‘pauta-bomba’ que
facilitaria “intervenções estrangeiras” no campo da segurança no Brasil, nas
palavras de especialistas ouvidos pela Agência Pública. A articulação já
conseguiu aprovar a urgência do projeto de lei (PL), permitindo a votação do PL
1283/2025 a qualquer momento.
Desde o
último dia 10 de setembro, a proposta, que cita nomeadamente o “governo Trump”
como modelo a ser seguido, é relatada pelo deputado federal Nikolas Ferreira
(PL-MG) – dos principais líderes bolsonaristas e entusiasta do governo Trump. O
deputado alegou, em seus perfis nas redes sociais, ter cedido a relatoria do
projeto, mas segue, até a presente data, indicado para o papel, segundo o site
oficial da Câmara.
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Por que isso importa?
• Classificação de organizações criminosas
como terroristas vem sendo utilizada pelo governo Trump para justificar
intervenções militares na América do Sul, como Colômbia e Venezuela.
• Especialistas apontam que não faltam
leis para enfrentar o narcotráfico, mas recursos humanos e de inteligência.
De
autoria de um dos líderes do União Brasil no Congresso, o deputado Danilo Forte
(União-CE), a proposta é que “milícias, facções, organizações paramilitares,
grupos criminosos ou esquadrões”, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o
Comando Vermelho (CV), sejam enquadrados no crime de “terrorismo”. A iniciativa
também diminui o papel da Polícia e da Justiça federais na investigação e
julgamento deste tipo de crime, empoderando polícias civis e tribunais
estaduais.
A
articulação do projeto de lei antiterrorismo está em andamento desde maio,
quando o presidente dos Estados Unidos enviou representantes para discutir o
“combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas” com o governo Lula na mesma
época em que a urgência da proposta foi aprovada na Câmara dos Deputados, com
apoio do Centrão.
O
requerimento que deu origem à urgência contou com assinaturas dos líderes de
PP, União Brasil, PL, Republicanos, MDB e PSD na Casa à época – os deputados
Doutor Luizinho (PP-RJ), Pedro Lucas (União-MA), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ),
Gilberto Abramo (Republicanos-MG), Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL) e Antônio Brito
(PSD-BA), respectivamente.
Dias
após a aprovação da urgência, Danilo Forte, autor da proposta, rejeitou
qualquer vínculo com interesses dos Estados Unidos ou risco à soberania
nacional. À Pública, o deputado Danilo Forte disse: “não estou preocupado com o
que vão dizer, não me importo com Trump e nem sei onde ele mora. A proposta é
para responder à sociedade do meu estado”. Procurado para rebater as críticas
de especialistas sobre a facilitação de uma intervenção norte-americana, o
deputado não respondeu até o momento.
A
proposta avançou na Câmara enquanto o governo norte-americano enviava caças e
navios de guerra para a América do Sul e o Caribe, sob o pretexto de “combater
o terrorismo” do narcotráfico. Até o dia 17 de setembro, o governo Trump
afirmou ter abatido ao menos três embarcações e matado “onze narcoterroristas”.
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Riscos são reais e EUA já podem ter começado “intimidação”
À
Pública, especialistas apontaram uma série de riscos ligados ao projeto. Para o
ex-ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff (PT) Eugênio Aragão, a
proposta sugere uma “falsa compreensão do que seja terrorismo, permitindo
intervenções estrangeiras” na segurança interna do país.
“Por
hora, não vejo o projeto como uma ameaça à soberania nacional porque ainda não
houve qualquer ameaça direta contra nosso território, mas é algo para nos
deixar ‘de orelhas em pé’ e atentos”, afirmou o ex-ministro da Justiça. “Vejo
isso como um movimento de fora para dentro do Brasil, estimulado por atores
internos e externos”, destacou.
Já para
o ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia e juiz do Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) Marcelo Semer, o projeto “não ajuda no
combate às organizações”. “O que está nos faltando não são leis, mas
investigação, inteligência policial”, disse, destacando ainda a sintonia da
proposta com a ofensiva do governo Trump, que classifica “mais [como]
intimidação política do que propriamente combate criminoso”.
“Não
sejamos ingênuos: tratar todos como terroristas vai facilitar, e muito, a
posição dos Estados Unidos, que se arroga como a polícia universal para fazer
atos como esses espetáculos de intimidação que ocorrem hoje, na proximidade da
Venezuela”, completou Semer.
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De Nikolas para Flávio Bolsonaro, proposta já é aguardada no Senado
A
Pública apurou que a oposição ao governo Lula no Senado já se prepara para
analisar a proposta rapidamente após sua aprovação na Câmara. Além disso, não
há uma articulação coordenada do governo para barrar a votação na Câmara.
O líder
da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse à Pública que a
articulação do projeto ficará com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na
condição de presidente da comissão de Segurança Pública. “Quem toca essa pauta
é o senador Flávio, pela comissão, mas nós somos favoráveis à proposta, sim”,
disse.
Por
outro lado, perguntados sobre estratégias do governo Lula para barrar o projeto
ainda na Câmara, deputados da base do governo disseram, na condição de
anonimato, que “não há orientação alguma, por enquanto”. “Considerando os
acontecimentos recentes, como na ‘PEC da Blindagem’, é possível, sim, que a
oposição aprove, até para passar um recado, uma demonstração de força”, disse
um dos parlamentares governistas.
Em
agosto, durante o motim bolsonarista que invadiu e ocupou a Mesa Diretora da
Câmara, a oposição tentou, inclusive, votar o projeto no Plenário da Casa. Na
ocasião, coube a dois deputados da base do governo Lula, Alencar Santana
(PT-SP) e Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ), liderarem os esforços para barrar a
votação no dia 12 de agosto, como mostra o portal da Câmara.
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PCC está na mira dos EUA ao menos desde 2021
Representantes
de ministérios da Defesa de todos os países ao sul do Panamá, com exceção da
Venezuela, se reuniram em Buenos Aires, na Argentina, para a Conferência de
Defesa Sul-Americana entre 20 e 21 de agosto. Na prática, o evento organizado
pelo Comando Militar Sul dos Estados Unidos (SouthCom) serve para o governo
norte-americano alinhar doutrinas militares unificadas para o continente.
Coube
ao comandante do SouthCom, almirante Alvin Halsey, passar o recado sobre o
objetivo dos Estados Unidos em relação ao “terrorismo” no continente. “O
crescente escopo, escala e força do crime organizado transnacional em toda a
região é uma das nossas principais preocupações”, disse o almirante Alvin
Holsey.
Dois
dias antes, o PL 1283/2025 tinha sido aprovado na Comissão de Segurança Pública
e Combate ao Crime Organizado da Câmara, sob relatoria do deputado Alexandre
Ramagem (PL-RJ), condenado a 16 anos de prisão por envolvimento na trama
golpista do 8 de janeiro.
Ramagem
foi um dos articuladores do PL 1283/2025, como mostrou a Pública, usando os
termos “Estados Unidos” e “cooperação internacional” com frequência em seus
pareceres e substitutivos. À certa altura, o parlamentar diz que a lei
norte-americana “traz uma definição mais ampla” que “permite classificar como
terroristas grupos ligados ao tráfico internacional”.
O
presidente Donald Trump aumentou críticas e represálias contra Venezuela e
Colômbia após o evento do SouthCom, acusando os dois países de “falhar no
combate às drogas”. A partir dali, enviou caças e navios de guerra para a costa
dos dois países, atacando embarcações venezuelanas e matando supostos
“narcoterroristas”.
Com a
classificação de grupos como PCC e CV como “terroristas”, especialistas temem
novos movimentos do governo Trump, mas direcionados ao Brasil, uma vez que as
organizações estão na mira das autoridades norte-americanas há anos.
Em sua
mais recente edição, o relatório anual do Escritório de Assuntos Internacionais
de Narcóticos e Aplicação da Lei dos Estados Unidos ressalta que o PCC é
considerado uma “organização criminosa transnacional” pelo governo
norte-americano desde 2021. O material aponta que o grupo está “presente em
países de todo o Hemisfério Ocidental”, com “controle sobre algumas das rotas
de tráfico mais lucrativas do mundo”.
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Ainda sem estratégia no Congresso, governo Lula se opõe a projeto
Já em
meio à atual ofensiva militar dos Estados Unidos nas imediações do Brasil, o
presidente Lula afirmou que terrorismo e crime organizado são problemas
distintos e “não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito
internacional”. O governo brasileiro teria repassado este mesmo recado a
emissários dos Estados Unidos ainda em maio, de acordo com a agência
internacional Reuters.
O
presidente brasileiro reforçou sua mensagem durante seu discurso na abertura da
80ª Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York (EUA), na última terça
(23). “É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo”,
afirmou Lula, que também declarou: “usar força letal em situações que não
constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento”.
A
rejeição à ideia de enquadrar CV, PCC e outros grupos no crime de terrorismo
fica ainda mais evidente a partir de documentos oficiais consultados pela
Pública. Respostas a Requerimentos de Informação Parlamentar mostram que os
ministérios da Justiça e Segurança Pública e das Relações Exteriores têm
argumentado contra o uso do conceito sobre estas organizações criminosas ao
longo dos últimos meses.
Fonte:
Por Caio de Freitas, da Agencia Pública

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