“Um
jogo de poder”: As investidas sexuais do rabino Sternschein nos latíbulos da
Congregação Israelita Paulista
No
quarto andar do edifício-sede da Congregação Israelita Paulista (CIP), na
Consolação, em São Paulo, há quatro escritórios destinados aos rabinos. Um
deles, ao lado da sala da diretoria, é ocupado desde 2008 pelo argentino Ruben
Gerardo Sternschein, rabino sênior da instituição. Trata-se de um espaço
pequeno, em torno de 12 m², com três paredes brancas e uma quarta revestida com
painel de madeira. Na entrada, há uma pequena estante com livros e papéis. Na
outra ponta, próximo à janela, há uma mesa em “L” com um computador e fotos da
família Sternschein.
Em
geral, os rabinos usam suas salas para estudar, preparar cursos e prédicas, e
atender os membros da comunidade. No caso de Sternschein, o escritório serviu
de ambiente para relações sexuais com diferentes mulheres, que chegaram, quase
sempre, com um mesmo objetivo: a conversão ao judaísmo, que é um processo
rigoroso e demorado. Na CIP, o processo de conversão é, em grande medida,
arbitrado pelo rabino Sternschein.
A piauí
reconstituiu a história de cinco mulheres a partir de entrevistas – ora com
elas próprias, ora com pessoas próximas. A revista também teve acesso a um
documento de cinco páginas enviado a uma organização rabínica internacional, a
Conferência Central dos Rabinos Americanos (CCAR, na sigla em inglês), com sede
em Nova York. Neste documento, os relatos descrevem o envolvimento de
Sternschein em quatro casos de assédio sexual e oito casos de assédio moral.
Em
agosto do ano passado, uma das mulheres apresentou uma denúncia formal contra o
rabino na CIP. Ao ler o documento, a presidente da congregação, Laura Feldman,
chorou e abraçou a denunciante, uma psicóloga que a piauí chamará de Taís
(todos os nomes das mulheres foram trocados a pedido delas). Laura Feldman
abriu uma sindicância e afastou o rabino de suas funções antes mesmo de começar
os trabalhos. A investigação durou 90 dias, mas não conseguiu acesso a nenhuma
das testemunhas, que preferiram não depor. O caso acabou encerrado sem um
resultado concreto. Diante disso, o rabino voltou a exercer seu posto.
O
roteiro das relações de Sternschein é pouco variável. Segundo os relatos
obtidos pela piauí, a aproximação acontecia com cantadas e atos libidinosos,
evoluía para encontros periódicos e, tempos depois, tudo se encerrava de forma
conflituosa. O primeiro dado que chama a atenção é que os encontros eram
consensuais. Ainda assim, podem ser considerados crimes de assédio, cuja
característica central está na relação de poder e de hierarquia. Nos casos
apurados pela reportagem, há uma complexidade adicional: a hierarquia no
ambiente religioso.
O caso
de Taís é ilustrativo. Em 2022, ela iniciou o curso de conversão ao judaísmo na
CIP, depois de conhecer a religião durante um trabalho voluntário na África. Em
junho, participou da primeira reunião com Sternschein na sede da congregação.
Surgiram flertes correspondidos e, ao fim do encontro, o rabino lhe ofereceu
uma carona. Dentro do carro, deu-se o primeiro beijo dos dois. Três dias
depois, eles tiveram relações sexuais – consentidas. Embora já fosse
divorciado, Sternschein pedia para a psicóloga manter o namoro em segredo.
Um ano
depois, em junho de 2023, Taís foi procurada por outra mulher dentro da
sinagoga da CIP. Aparentemente sem saber do relacionamento da psicóloga com
Sternschein, ela confessou que vivia um namoro com o rabino e que estava em
choque porque havia descoberto que ele mantinha um relacionamento amoroso com
uma terceira mulher. Arrasada, Taís contou o episódio ao próprio Sternschein,
que negou manter outros relacionamentos. Na mesma conversa, Taís terminou o
namoro. No entanto, os dois continuaram se encontrando esporadicamente, dentro
e fora da CIP. Em vários desses encontros, o rabino tentou reatar o
relacionamento, segundo Taís. Certo dia, em um jantar na casa de Sternschein,
ele pôs a mão nas coxas dela. Quando se despediram, ele fez questão de que Taís
notasse a ereção dele, dizendo que estava se recordando do primeiro beijo entre
eles. Ela não quis ter relação.
Sternschein
também tratou de manter Taís por perto. Conseguiu um emprego para ela na
Academia Judaica, um braço da CIP que oferece cursos online sobre judaísmo. Em
agosto de 2023, a psicóloga foi aprovada na avaliação que determina a concessão
da conversão ao judaísmo, uma avaliação denominada beit din, com o voto
favorável do rabino. (Taís chegou a pedir para que Sternschein não participasse
do seu beit din, mas ele não aceitou se ausentar.) Aos 46 anos, Taís tornava-se
formalmente uma judia convertida, mas nem por isso sua situação emocional
melhorou.
Em
relatos que fez a membros da comunidade judaica ouvidos pela piauí, Taís entrou
em depressão, sofreu alopecia e começou a ter ideação suicida. Em meio a esses
transtornos, resolveu procurar uma advogada para formalizar a denúncia por
assédio sexual contra Sternschein junto à direção da CIP. Na denúncia que
entregou em agosto de 2024, constavam as conversas que ela e o rabino
mantiveram por WhatsApp. Hoje, a psicóloga busca retomar a vida profissional
longe da congregação e de São Paulo.
Em
conversa com a reportagem em um café na Zona Sul de São Paulo, em julho, Ana
relatou seu caso. De família cristã, ela tinha 38 anos, trabalhava na casa de
uma família paulistana e se interessou pelo judaísmo por influência dos amigos
judeus do seu avô. Em 2021, procurou a CIP e, depois de ser entrevistada por
dois rabinos (um deles era Sternschein), pagou uma taxa de 8 mil reais e
iniciou o curso em março daquele ano.
Meses
depois, quando a vacinação contra a Covid começou, Ana passou a ter encontros
presenciais com os líderes religiosos na CIP, principalmente com Sternschein,
para sanar dúvidas a respeito dos preceitos judaicos. Na nova rotina, ela
passou a notar a aproximação do rabino, que na época estava recém-divorciado.
“Uma vez ele me chamou por um diminutivo e eu disse que o meu avô me chamava
daquela maneira. Ele retrucou, rindo: ‘Mas eu não estou tão velho, estou em
forma.’”
Ana
relembra que a sutileza de Sternschein acabou quando, em uma oração na noite de
sexta-feira, dentro da sinagoga da CIP, o religioso exaltou a “rainha do
shabat” olhando fixamente para ela. A atitude não foi trivial: normalmente essa
expressão não é personificada, pois designa a chegada do shabat, período entre
o pôr do sol de sexta-feira e o anoitecer de sábado, sagrado na semana judaica.
Segundo Ana, quando a oração terminou, Sternschein foi em sua direção, deu-lhe
um forte abraço e sussurrou no seu ouvido: “Está sentindo?” Ana percebeu a
ereção. “Na hora, fiquei muito encabulada, com receio de alguém ter notado”,
lembra.
O
próximo passo foi dado pela própria Ana. Ela convidou o rabino para um café,
mas ele disse que era uma pessoa conhecida e os dois não poderiam aparecer
juntos em público. Dias depois, logo depois de comandar a oração matinal diária
na sinagoga, chamada Shacharit, Sternschein fez um sinal para que Ana subisse
até a sala dele na CIP. Lá, diz ela, o rabino a agarrou, e ela cedeu. “Não
podemos chegar aos ‘finalmentes’ antes de você se converter, mas, até lá,
podemos fazer umas coisas”, disse o rabino, segundo a reconstituição de Ana. Em
seguida, ele a virou de frente para a estante de livros, abaixou as suas calças
e a tocou. A cena se repetiria outras duas vezes, no mesmo local, por vontade
de ambos. Assim, o caso ficou restrito aos latíbulos da CIP, enquanto nos
lugares de circulação pública os dois tentavam não dar pistas da relação.
Sternschein
era um dos três rabinos que avaliariam Ana no beit din. “Eu garanto que você
passa, e depois quero fazer tudo com você”, dizia o rabino, segundo ela. A
certa altura, Ana começou a questionar o curso e a duvidar da própria fé no
judaísmo. “Comecei a misturar a questão amorosa com a religião. Ficou tudo
muito confuso dentro de mim.” Ela também passou a suspeitar que Sternschein
mantinha outros relacionamentos amorosos paralelos. Depois de passar por todo o
processo de conversão, Ana chegou a agendar seu beit din três vezes, mas nunca
compareceu. “Lá eu não volto mais. Não foi judaísmo o que eu vi lá.” Então, em
2023, ela afastou-se do rabino e da congregação.
No
livro When Rabbis Abuse: Power, Gender and Status in the Dynamics of Sexual
Abuse in Jewish Culture (Quando os rabinos abusam: poder, gênero e status na
dinâmica do abuso sexual na cultura judaica; não publicado em língua
portuguesa), a socióloga americana Elana Maryles Sztokman analisa as
características do judaísmo que favorecem um eventual abusador. Além da cultura
do silêncio, Sztokman destaca o poder exercido pela figura do rabino. “Os
judeus são ensinados a confiar implicitamente nos rabinos e a acreditar no que
eles dizem, mesmo que isso vá contra o que sua consciência sabe ser verdade”,
diz. É algo que vale, é claro, para pastores, padres e outros líderes
religiosos.
Na
defesa de casos semelhantes aos da CIP, o argumento padrão é o de que são
relacionamentos consensuais, com mulheres adultas e conscientes. Para Sztokman,
o alegado consentimento é comprometido por uma razão clara. Em um ambiente no
qual a mulher busca conselho ou orientação espiritual, o líder religioso abusa
do seu poder sempre que sexualiza esse contato, uma vez que cabe a ele o dever
de cuidado, além da posição de autoridade.
O
código de ética da CCAR, a conferência rabínica americana, tem um capítulo
específico para o assédio sexual e, como não há um documento semelhante para o
rabinato brasileiro, o Conselho Rabínico Reformista do Brasil, do qual
Sternschein faz parte, aplica o código americano. O texto, porém, é ambíguo: ao
mesmo tempo que proíbe a “má conduta sexual” e exige respeito na relação com
pessoas que buscam ajuda, não informa como define o relacionamento sexual entre
rabino e uma pessoa judia. Diz o documento: “Temos a maior responsabilidade em
garantir que os limites éticos e sexuais sejam escrupulosamente respeitados em
todos os nossos relacionamentos, com todas as pessoas que confiam em nós. A má
conduta sexual por parte de rabinos é um pecado contra os seres humanos; é
também um Chilul Hashem (profanação do nome de Deus)”.
Do
ponto de vista legal, as regras são mais claras. É justamente essa assimetria
de poder entre o líder religioso e o seguidor da religião que caracteriza o
assédio sexual, explica o professor de Direito Penal Taiguara Libano Soares, da
Universidade Federal Fluminense (UFF). “O crime ocorre quando o indivíduo,
valendo-se de sua posição hierárquica, busca favores sexuais da vítima”,
afirma. A condenação pode ser dada mesmo quando a pessoa alvo do assédio
consente com as relações, e ainda que se beneficie da situação (como uma
funcionária que se vale de um caso com o chefe para conseguir uma promoção). A
pena varia de um a dois anos de prisão.
Do lado
das mulheres, à perturbação mental pode se somar a confusão espiritual. “Além
do sentimento de culpa comum em qualquer caso de assédio, é frequente a mulher
abusada questionar a própria fé, uma vez que o sacerdote é visto como um modelo
de conduta ética e moral a ser seguido. É uma camada a mais de dano
psicológico”, diz a psicóloga Liliane Domingos Martins, do Ministério Público
de Goiás, que atuou na investigação dos crimes sexuais envolvendo o líder
religioso João Teixeira de Faria. Em 2018, João de Deus, como é conhecido, foi
acusado de abuso sexual por mais de trezentas mulheres, em relações quase
sempre não consensuais. Condenado em dezesseis ações penais a uma pena somada
de quase quinhentos anos de reclusão, atualmente ele está em prisão domiciliar.
“São figuras de autoridade que reafirmam o próprio poder o tempo todo. É
narcísico: eu faço, engano e, se não há punição, eu repito. A impunidade torna
o assediador cada vez mais poderoso”, afirma Martins.
Em
2012, Sternschein envolveu-se com Beatriz, uma paulistana com pouco mais de 50
anos que, ao contrário das outras mulheres, havia se convertido ao judaísmo
ainda na adolescência. Ela procurou Sternschein em busca de conselhos.
Divorciada, estava fragilizada porque acabara de encerrar um relacionamento com
um homem casado. No escritório do rabino, ela desabafou e começou a chorar.
Sternschein abraçou-a colocando uma das mãos por debaixo da sua blusa, nas
costas. “Eu me assustei com aquilo. Nunca esperei aquele tipo de reação da
parte dele”, disse Beatriz à piauí.
Apesar
do espanto inicial, ela se envolveu com o rabino. “Eu sabia que ele era casado,
mas decidi entrar naquela dança”, disse. Em pouco tempo começaram a ter
relações sexuais – em uma ocasião, fizeram sexo oral no escritório dele na CIP.
“Na época, eu pensava que eu era a queridinha do rabino. Hoje vejo que não
passava de uma boneca inflável dele”, afirmou Beatriz. O envolvimento durou
três anos. Após algum tempo de terapia, ela pôs fim à relação.
Em
setembro de 2018, ela enviou a seguinte mensagem para Sternschein, pelo
WhatsApp:
Na primeira vez que fui conversar com
você, como rabino, confiei e te contei do meu erro, entre lágrimas, te contei
vendo como quem compreenderia meu sofrimento por uma escolha errada, meu
arrependimento, [e] me guiaria por um caminho certo e aliviaria a dor da culpa,
e você, após a conversa, num momento de fragilidade minha, num momento onde eu
te colocava no lugar de líder, em quem eu podia confiar, veio e me abraçou, […]
me assediou, durante o abraço, colocando tua mão dentro da minha blusa, nas
minhas costas. Isso foi muito errado, isso foi assédio. É isso que condeno em
você. Como, depois de eu ter me exposto tanto, e te contado algo que me fazia
tão mal, algo que eu considerava um grande erro, você me leva de volta ao lugar
do erro, como quem viu ali essa oportunidade? E a partir de então condeno
apenas a mim mesma, por eu, dentro de tudo aquilo, não ter dito nada, não ter
feito nada, não ter reagido. […] Não podia repetir o erro de me envolver com um
homem casado, muito menos podia ser com você, por ser rabino.
Em
resposta, o rabino afirma que Beatriz estava distorcendo a história:
Acredito fortemente que o caminho da
reescritura dos fatos (para não dizer a manipulação) não é justo nem saudável.
[…] Há algo que possa indicar que eu preciso ‘aproveitar’ oportunidades de
fraquezas de alguém? De mulheres? Ou que faço algo que não seja dialógico na
minha função humana, judaica e masculina? […] Uma vítima de assédio busca o
assediador embaixo da mesa, no quarto de Buenos Aires, de Jerusalém, de Campos
[do Jordão]? […] Pode ter certeza que lido há anos com centenas de assuntos muito
delicados e tristes e jamais eles derivam em absolutamente outra coisa que o
acompanhamento e fortalecimento emocional e espiritual da pessoa.
Depois
dessa troca de mensagens, os dois nunca mais se falaram.
Enquanto
ainda se relacionava com Beatriz, em 2015, o rabino viajou com membros da CIP
para Israel – a congregação promove excursões rotineiras com seus membros ao
país. Durante um dos passeios, dentro do ônibus, Sternschein pediu para se
sentar ao lado da advogada Renata. Quando ela adormeceu, sentiu o rabino pegar
na sua mão. Instintivamente a advogada recuou o braço. Como o marido dela
ficara no Brasil, Renata pediu para que um amigo a acompanhasse durante o
restante da viagem a fim de evitar novas investidas do rabino.
Quando
voltou a São Paulo, Sternschein chamou-a para uma conversa no seu escritório,
na CIP. Disse que a advogada parecia “uma pessoa aberta” e perguntou o que ela
achava de relacionamentos extraconjugais. Renata notou o assédio e deixou a
sala. Nunca mais mantiveram contato. A advogada relatou a história para pessoas
próximas, mas não quis dar entrevista à piauí.
Em
junho de 2024, a CCAR, em Nova York, recebeu o documento com denúncias contra
Sternschein, produzido a partir de 28 entrevistas com funcionários e
ex-funcionários da entidade, além de pessoas da comunidade judaica de São
Paulo. A mulher que assina o documento é, também ela, da comunidade judaica,
mas não se apresentou como uma das assediadas. Ao relatar os oito casos de
assédio moral e os quatro de assédio sexual, o documento resume as investidas
do acusado com uma definição curta: “Um jogo de poder”.
Além
dos casos de Ana, Beatriz e Renata – o da psicóloga Taís ainda não era
conhecido –, o documento menciona outra situação em que, aparentemente, o
rabino começou uma investida, mas não conseguiu ir em frente. É o caso de
Carla, voluntária da CIP. Ela enviou um livro de presente para Sternschein. Em
seguida, o rabino lhe enviou uma mensagem de WhatsApp. Nela, mencionou uma
curta passagem sobre um encontro sexual entre os personagens (o que não era o
tema principal da obra) e disse achar o trecho interessante. E então veio a
pergunta: se Carla gostaria de colocar aquilo em prática. Carla não respondeu.
Depois
de receber as denúncias, a CCAR, no entanto, não tomou qualquer providência,
alegando que o rabino não era mais filiado à entidade desde 2021, e enviou o
documento ao próprio Sternschein. Procurada, a CCAR não se manifestou. A piauí
também entrou em contato com a CIP, relatando os casos abordados nesta
reportagem. Em nota, a entidade confirma ter recebido a denúncia da psicóloga
Taís e afirma que “contemplou a oitiva de diversas testemunhas” e “concluiu não
haver qualquer irregularidade ou conduta incompatível com os valores da
instituição”.
A piauí
perguntou também se a CIP teve acesso ao documento enviado à CCAR. A
congregação disse que não recebeu o documento, mas confirmou que a CCAR
encaminhou as denúncias a Sternschein em “caráter exclusivamente procedimental,
servindo apenas para assegurar ao rabino seu direito de defesa, sem qualquer
juízo de valor sobre o conteúdo”. Embora não tenha recebido o documento, a nota
da CIP sugere que a congregação conhece sua autora, na medida em que afirma que
tudo foi escrito “por uma pessoa que, há mais de um ano, promove campanha
difamatória e persecutória contra o rabino, coagindo e pressionando membros da
comunidade judaica a endossar acusações falsas”. Diz ainda que a denunciante
foi notificada extrajudicialmente para que cesse “tais atos difamatórios”. A
piauí teve acesso a uma notificação extrajudicial enviada por um advogado do
rabino, não da CIP. A notificação diz que a denunciante poderá ser processada
criminalmente por difamação.
A
reportagem também procurou o rabino, a quem perguntou se ele assediava mulheres
dentro do ambiente de trabalho, se ele se aproveitou da condição de liderança
para abordar sexualmente mulheres em processo de conversão ao judaísmo e como
ele avaliava o seu comportamento à luz dos preceitos estabelecidos no código de
ética da CCAR. Ele respondeu com uma nota curta: “O rabino Ruben Sternschein
reafirma sua conduta ética e ilibada, rejeita as alegações de conduta
inapropriada e se declara vítima de campanha difamatória, confiante de que a
verdade prevalecerá”.
*Na
tarde de quarta-feira (22), data da publicação desta reportagem, o site da CIP
publicou uma nota pública na qual reafirmou seu “compromisso com a verdade, a
ética e o respeito à dignidade humana”, disse que nenhuma irregularidade foi
comprovada contra Sternschein na apuração da única denúncia formal que recebeu
e anunciou que rabino “está afastado de suas funções por prazo indeterminado
durante as investigações”.
Depois,
o site da Congregação substituiu a nota por um texto mais extenso, assinado por
Laura Feldman e também por Denise Antão, presidente do conselho da CIP, no qual
foi específico: informou que uma “consultoria externa especializada” irá
averiguar as informações publicadas na reportagem. Disse também que todas as
cerimônias serão realizadas pelos rabinos Dario Bialer ou Rav Natan Freller
enquanto Sternschein estiver afastado.
Fundada
em São Paulo na década de 1930 por judeus alemães perseguidos pelo regime
nazista, a CIP é formada por cerca de 2 mil famílias de judeus liberais, também
conhecidos como reformistas, com costumes e regras mais flexíveis do que os
ortodoxos. Desde 1954, a CIP ocupa uma área de 1.850 m² no bairro da
Consolação, em São Paulo, onde construiu uma sinagoga e um edifício de dez
andares. A entidade mantém projetos sociais como o Lar das Crianças, em Santo
Amaro, Zona Sul da capital, que atende cerca de quinhentas crianças não judias
com atividades pedagógicas no contraturno escolar.
A CIP
protagonizou um episódio marcante da história do Brasil. Em 1975, durante o
regime militar, seu líder, o rabino Henry Sobel, recusou-se a sepultar o corpo
do jornalista Vladimir Herzog, de origem judia, na antiga ala de suicidas do
Cemitério Israelita, no Butantã, em São Paulo. Era um protesto político. O
Exército argumentava que Herzog se enforcara na prisão, mas já então havia
fortes suspeitas – compartilhadas por Sobel – de que o suicídio era uma farsa.
Posteriormente comprovou-se que o jornalista havia sido torturado e morto no
cárcere.
Com a
saída de Sobel do seu do posto de liderança da CIP, em 2007, o brasileiro
Michel Schlesinger passou a ocupar a função de rabino sênior, o primeiro da
hierarquia. Meses depois, no entanto, o argentino Ruben Sternschein chegou à
CIP, e os dois passaram a dividir esse posto, o que sempre foi fonte de
conflitos internos. Quando Michel Schlesinger se mudou para Nova York, em 2021,
Sternschein tornou-se então o único chefe.
Em
Barcelona, onde estava antes de se mudar para São Paulo, Sternschein fundou uma
pequena comunidade de judeus liberais, nos anos 1990. Nascido e criado em
Buenos Aires, caçula dos dois filhos de um empresário do ramo farmacêutico que
emigrou da Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, Sternschein fez estudos
rabínicos em Israel. Casou-se com uma professora argentina, da qual se separou
no início da década atual, e tem quatro filhos, dois homens e duas mulheres.
Fonte:
Revista Piauí

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