Emir
Sader: O período histórico da Guerra Fria
Os
Estados Unidos saíram vitoriosos das duas guerras mundiais. Além de que, no
plano econômico, enquanto os países europeus sofriam os danos do conflito, os
EUA superavam os efeitos da crise de 1929 com os preparativos para uma nova
guerra, sem nem sequer sofrer no seu território os efeitos da guerra recém
terminada.
Porém,
em paralelo a esse processo de ascenso da hegemonia dos EUA no bloco ocidental,
se dava a constituição do campo socialista, um bloco sob a direção da URSS.
Apesar de golpeada em cheio pela ofensiva militar alemã, a URSS saía
politicamente fortalecida da guerra, não por sua capacidade de resistência, mas
também por ter chegado primeiro a Berlim e protagonizar diretamente a derrota
da Alemanha de Hitler.
A
liberação dos países do Leste Europeu da ocupação nazista pela URSS permitiu a
incorporação desses países ao sistema socialista, o que também aconteceu com a
China, depois da vitória da sua revolução. Expulsando os japoneses e os
norte-americanos e derrotando seus aliados internos.
O
surgimento do campo socialista introduziu um período histórico inédito, porque
a hegemonia mundial passou a ser compartilhada entre dois campos, um deles
questionando a hegemonia capitalista no mundo. Economicamente, a superioridade
dos EUA e das potências ocidentais era inquestionável.
Porém o
equilíbrio que caracterizava a Guerra Fria se dava no plano militar, pela
capacidade de ambas as superpotências de se destruírem mutuamente. Os EUA
haviam atirado suas bombas atômicas em Hiroshima e em Nagasaki para demonstrar
ao seu novo adversário, a URSS, sua superioridade militar, que logo foi
neutralizada pela obtenção soviética do seu próprio armamento atômico.
Pelos
acordos do pós-guerra, havia áreas de influência de delimitadas para os dois
campos, restando algumas em disputa – como a África e algumas regiões da Asia,
por exemplo. As duas situações de proximidade de enfrentamento direto se deram
nas duas esquinas da Guerra Fria: em Cuba e na Alemanha. Cuba rompeu os acordos
que definiam a continuidade as Doutrina Monroe – America para (norte)americanos
– e os acordos sobre áreas de influência no final da Segunda Guerra Mundial,
instaurando um regime socialista a 110 quilômetros dos EUA.
A
Alemanha, em particular Berlim, era, por definição, uma fronteira em disputa
entre os dois campos. Pela forma que assumiu a divisão do país, seus acordos
eram instáveis, permitindo que, principalmente Berlim, por sua localização,
fosse objeto de disputa entre os EUA e a URSS, antes mesmo da construção do
muro.
Disputavam
também duas caracterizações dos enfrentamentos que se davam no mundo: para o
campo dirigido pelos EUA, a contradição fundamental se dava entre a democracia
e o totalitarismo. Havia sido derrotado o totalitarismo nazista, agora haveria
que derrotar o totalitarismo soviético. Já para o campo socialista, a
contradição fundamental se dava entre o capitalismo e o socialismo.
O
período foi, no plano econômico, o que Eric Hobsbawn caracterizou como “a era
de ouro do capitalismo”, o maior ciclo longo expansivo desse sistema. As
locomotivas da economia – EUA, Alemanha e Japão – cresciam, assim como países
da América Latina – Brasil, Argentina, México, em primeiro lugar e o próprio
campo socialista.
Além da
bipolaridade mundial e do ciclo longo expansivo da economia, aquele período
histórico tinha uma terceira característica: a hegemonia de um modelo de
bem-estar social, em níveis de desenvolvimento diferentes conforme a região do
mundo, em que os direitos sociais eram reconhecidos e garantidos pelo Estado.
Foi
também um período histórico caracterizado pelo fim do colonialismo europeu, que
havia sobrevivido especialmente na África, mas também na Ásia. Além da
independência da Índia e do surgimento do Paquistão como divisão desse país,
despontaram dezenas de novas nações africanas, originariamente com ideologias e
lideranças nacionalistas.
Assim,
ao lado dos dois grandes blocos, liderados pelos EUA e pela URSS, surgia um
campo relativamente heterogêneo, chamado de Terceiro Mundo, constituído por
nações dos três continentes periféricos: América Latina, Ásia e África. Suas
características comuns eram mais dadas pela relativa distância em relação às
duas maiores potências, do que por traços compartilhados entre elas.
Entre
esses traços estafa o fato de pertencerem ao Sul do mundo, isto é, à periferia
do sistema capitalista, e de terem sido colonizados por muitos séculos, obtendo
sua independência quando o sistema já estava constituído e todas as suas
regiões estavam sob influência das grandes potências. Alguns dos governos
desses países se reúnam no Movimento dos Países Não Alinhados, entre os quais
estavam a Cuba de Fidel Castro e a Iugoslávia de Tito.
Essa
heterogeneidade fazia com que fosse um espaço de permanente disputa entre os
que queriam que o Movimento dos Países Não Alinhados fosse centralmente
anti-imperialista, isto é, contra os EUA, e os que pretendiam que nele tivesse
uma postura equidistante entre os dois blocos.
Essa
disputa fez com que, em uma grande assembleia geral do movimento, realizada em
Havana, em 1979, se enfrentassem justamente Fidel Castro e Tito como candidatos
à presidência. Por representar a maioria dos países enfrentados com os EUA,
Fidel foi eleito no momento de maior auge do movimento, imediatamente anterior
ao seu declínio.
A
unidade interna do movimento foi afetada por dois grandes e traumáticos
acontecimentos: a guerra Irã-Iraque e a invasão soviética do Afeganistão, que o
dividiu e o levou ao seu declínio. Esse esgotamento do Movimento dos Países Não
Alinhados já prefigurava o final daquele período histórico, que se consumou
quando um dos campos – o soviético – desapareceu e deixou de ter sentido a
ideia de não alinhamento.
Terminava
não apenas um período histórico, mas uma fase da historia mundial muito
particular, porque marcada não pela hegemonia única de uma potência, mas pela
bipolaridade mundial, pelo enfrentamento e de delimitação das áreas de
influência de dois campos, que se equilibravam em termos militares. E porque,
pela primeira vez, o socialismo aparecia como alternativa ao capitalismo.
Durante
a segunda Guerra Fria, no governo de Ronald Reagan, os EUA intensificaram a
corrida armamentista, o que levou a URSS a ter que usar ainda mais recursos
econômicos na indústria de armamentos, dificultando mais ainda os investimentos
na economia e no desenvolvimento tecnológico, de que tanto necessitava. Mais
tarde, chegada a era da internet, o atraso tecnológico da URSS ficou ainda mais
patente.
O que
se evidenciava era que terminava um período histórico e começa outro, de tal
monta e profundidade foram as transformações ocorridas no mundo nas últimas
décadas do século XX. Um século que tinha se iniciado com o esgotamento da
hegemonia britânica e terminava aparentemente, com a emergência dos EUA como
única superpotência.
• Estamos voltando em marcha acelerada aos
tempos e ódios da Idade Média. Por Adhemar Bahadian
Ao que
parece estamos voltando em marcha acelerada aos tempos e ódios da Idade Média.
O
Destino Manifesto dos Estados Unidos se transformou no MAGA de Trump, e a
guerra na Faixa de Gaza é a evidência mais clara de que o ódio ao povo
palestino substituiu o comunismo que durante anos foi a “bête noire” do mundo
ocidental.
Muito
longe de nos aproximarmos da “Paz Perpétua” de Kant nos dirigimos a passos
largos a uma devastação seja pela guerra nuclear seja pela indiferença aos
nossos reiterados ataques ao meio ambiente.
O
destino manifesto americano, por mais pretensioso e dogmático que tenha sido
jamais nomeado, a virulência do MAGA, cúpula inegável do supremacismo branco
para fazer ressurgir preconceitos raciais e religiosos dogmáticos, intolerantes
e injustos.
A razão
contra o islamismo, transformada em inimigo público primordial desde os ataques
terroristas às torres gêmeas, nos leva às guerras religiosas da Idade Média. O
Massacre de Gaza, a par de sua virulência militar, não esconde o cisma
religioso.
Inegável
reconhecer que tanto o neoliberalismo quanto o globalismo aumentaram os abismos
colossais entre pobres e ricos, mas, muito mais graves, tornaram muito mais
insuficientes os mecanismos de proteção social.
Pior
ainda: o MAGA arriscou do mapa as regras de Direito Internacional incorporadas
na Carta de São Francisco, fez da ONU um elefante branco e ferido às margens do
East River.
O
Destino Manifesto dos Estados Unidos se tornou o desatino indigesto de Trump
que tornou as regras do comércio internacional uma espécie de “ganhos quem
pode” aumentando tarifas sem levar em conta a “cláusula de nação mais
favorecida” sem tocar nas regras leoninas de propriedade industrial. Enfim, uma
espécie de regras só aceitáveis quando benéficas ou poderosas.
A
defesa da expressão livre se tornou o código sagrado das “big-techs” que dela
se vale para controlar a opinião pública e formar um conglomerado midiático sem
controle das leis aplicáveis aos órgãos nacionais.
Desta
forma, a livre opinião é, na realidade, censurada e controlada pelas leis e
costumes dos Estados Unidos, onde de qualquer forma abundam a censura e o
constrangimento sempre que há alguma forma de opinião desabonadora ao
presidente em exercício.
A
utilização de processos judiciais de valores astronômicos (vide a ação contra o
“New York Times”) tende a sufocar a imprensa livre.
Desatinada
também a pressão financeira sobre as Universidades que se recusaram a seguir
uma política educacional de cabresto, como as vigentes nos regimes
autoritários.
Constrange-se
igualmente a política de saúde pública, inclusive a vacinação de crianças, com
o reaparecimento de doenças já extintas como o sarampo.
Os
exemplos poderiam ser multiplicados ora com fundamentos religiosos ou puramente
retrógrados. Um bom exemplo é o constrangimento causado às mulheres e o direito
ao aborto.
A
defesa do capitalismo predatório extermina igualmente os sindicatos com
argumentos claramente facciosos.
A
ingerência nos assuntos de soberania nacional de países amigos é frequente e
abusiva, tornando a própria geografia física dos países suscetível de ser
invadida em nome do abastecimento de recursos naturais pelo hegemônico.
A ONU é
vista especialmente por cortes financeiros e pelos órgãos de controle interno
ou pelo serviço público de excelência reformado por meio de demissões sem justa
causa.
A
autonomia dos governos estaduais foi invadida por forças policiais nacionais
sem prévia consulta aos governadores e o mapa da distribuição eleitoral
nacional remexida de tal forma que a vitória da oposição seja cada vez mais
difícil.
A
insegurança de estrangeiros, mesmo daqueles contratados legitimamente por
empresas americanas, aumenta a cada dia, e a monetização dos vistos de trabalho
é objeto de oscilações imprevistas e abusivas.
O
combate ao narcotráfico se confunde com quase intervenções militares em águas
territoriais. Tudo está sob ameaça, mesmo os tratados internacionais
legitimamente negociados e aprovados.
Neste
passo, repito, a guerra sem limites e de extermínio se torna mais do que uma
possibilidade.
A
diplomacia de países como o Brasil se move em terreno extremamente movido a
impor cautela constante.
Lamentável
que nesta hora específica do Congresso Nacional possa considerar viável a
importação deste desarranjo político como invejável e passível de ser imitado
no Brasil.
Mais do
que nunca a consciência nacional impõe escolhas sensatas e a manifestação mais
contundente em 2026.
O
Brasil não é mais o mesmo e pode ficar infinitamente pior.
As
consequências que até hoje estamos sofrendo nos ensinam que não mais temos o
direito de brincar com projetos de ditadores que nos confundem a todos com
promessas de um Brasil subserviente.
Precisamos
ser, antes de mais nada, brasileiros. E abrindo o olho diante de um
renascimento bastardo do neocolonialismo dogmático.
Fonte:
A Terra é Redonda/JB

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