terça-feira, 28 de outubro de 2025

Emir Sader: O período histórico da Guerra Fria

Os Estados Unidos saíram vitoriosos das duas guerras mundiais. Além de que, no plano econômico, enquanto os países europeus sofriam os danos do conflito, os EUA superavam os efeitos da crise de 1929 com os preparativos para uma nova guerra, sem nem sequer sofrer no seu território os efeitos da guerra recém terminada.

Porém, em paralelo a esse processo de ascenso da hegemonia dos EUA no bloco ocidental, se dava a constituição do campo socialista, um bloco sob a direção da URSS. Apesar de golpeada em cheio pela ofensiva militar alemã, a URSS saía politicamente fortalecida da guerra, não por sua capacidade de resistência, mas também por ter chegado primeiro a Berlim e protagonizar diretamente a derrota da Alemanha de Hitler.

A liberação dos países do Leste Europeu da ocupação nazista pela URSS permitiu a incorporação desses países ao sistema socialista, o que também aconteceu com a China, depois da vitória da sua revolução. Expulsando os japoneses e os norte-americanos e derrotando seus aliados internos.

O surgimento do campo socialista introduziu um período histórico inédito, porque a hegemonia mundial passou a ser compartilhada entre dois campos, um deles questionando a hegemonia capitalista no mundo. Economicamente, a superioridade dos EUA e das potências ocidentais era inquestionável.

Porém o equilíbrio que caracterizava a Guerra Fria se dava no plano militar, pela capacidade de ambas as superpotências de se destruírem mutuamente. Os EUA haviam atirado suas bombas atômicas em Hiroshima e em Nagasaki para demonstrar ao seu novo adversário, a URSS, sua superioridade militar, que logo foi neutralizada pela obtenção soviética do seu próprio armamento atômico.

Pelos acordos do pós-guerra, havia áreas de influência de delimitadas para os dois campos, restando algumas em disputa – como a África e algumas regiões da Asia, por exemplo. As duas situações de proximidade de enfrentamento direto se deram nas duas esquinas da Guerra Fria: em Cuba e na Alemanha. Cuba rompeu os acordos que definiam a continuidade as Doutrina Monroe – America para (norte)americanos – e os acordos sobre áreas de influência no final da Segunda Guerra Mundial, instaurando um regime socialista a 110 quilômetros dos EUA.

A Alemanha, em particular Berlim, era, por definição, uma fronteira em disputa entre os dois campos. Pela forma que assumiu a divisão do país, seus acordos eram instáveis, permitindo que, principalmente Berlim, por sua localização, fosse objeto de disputa entre os EUA e a URSS, antes mesmo da construção do muro.

Disputavam também duas caracterizações dos enfrentamentos que se davam no mundo: para o campo dirigido pelos EUA, a contradição fundamental se dava entre a democracia e o totalitarismo. Havia sido derrotado o totalitarismo nazista, agora haveria que derrotar o totalitarismo soviético. Já para o campo socialista, a contradição fundamental se dava entre o capitalismo e o socialismo.

O período foi, no plano econômico, o que Eric Hobsbawn caracterizou como “a era de ouro do capitalismo”, o maior ciclo longo expansivo desse sistema. As locomotivas da economia – EUA, Alemanha e Japão – cresciam, assim como países da América Latina – Brasil, Argentina, México, em primeiro lugar e o próprio campo socialista.

Além da bipolaridade mundial e do ciclo longo expansivo da economia, aquele período histórico tinha uma terceira característica: a hegemonia de um modelo de bem-estar social, em níveis de desenvolvimento diferentes conforme a região do mundo, em que os direitos sociais eram reconhecidos e garantidos pelo Estado.

Foi também um período histórico caracterizado pelo fim do colonialismo europeu, que havia sobrevivido especialmente na África, mas também na Ásia. Além da independência da Índia e do surgimento do Paquistão como divisão desse país, despontaram dezenas de novas nações africanas, originariamente com ideologias e lideranças nacionalistas.

Assim, ao lado dos dois grandes blocos, liderados pelos EUA e pela URSS, surgia um campo relativamente heterogêneo, chamado de Terceiro Mundo, constituído por nações dos três continentes periféricos: América Latina, Ásia e África. Suas características comuns eram mais dadas pela relativa distância em relação às duas maiores potências, do que por traços compartilhados entre elas.

Entre esses traços estafa o fato de pertencerem ao Sul do mundo, isto é, à periferia do sistema capitalista, e de terem sido colonizados por muitos séculos, obtendo sua independência quando o sistema já estava constituído e todas as suas regiões estavam sob influência das grandes potências. Alguns dos governos desses países se reúnam no Movimento dos Países Não Alinhados, entre os quais estavam a Cuba de Fidel Castro e a Iugoslávia de Tito.

Essa heterogeneidade fazia com que fosse um espaço de permanente disputa entre os que queriam que o Movimento dos Países Não Alinhados fosse centralmente anti-imperialista, isto é, contra os EUA, e os que pretendiam que nele tivesse uma postura equidistante entre os dois blocos.

Essa disputa fez com que, em uma grande assembleia geral do movimento, realizada em Havana, em 1979, se enfrentassem justamente Fidel Castro e Tito como candidatos à presidência. Por representar a maioria dos países enfrentados com os EUA, Fidel foi eleito no momento de maior auge do movimento, imediatamente anterior ao seu declínio.

A unidade interna do movimento foi afetada por dois grandes e traumáticos acontecimentos: a guerra Irã-Iraque e a invasão soviética do Afeganistão, que o dividiu e o levou ao seu declínio. Esse esgotamento do Movimento dos Países Não Alinhados já prefigurava o final daquele período histórico, que se consumou quando um dos campos – o soviético – desapareceu e deixou de ter sentido a ideia de não alinhamento.

Terminava não apenas um período histórico, mas uma fase da historia mundial muito particular, porque marcada não pela hegemonia única de uma potência, mas pela bipolaridade mundial, pelo enfrentamento e de delimitação das áreas de influência de dois campos, que se equilibravam em termos militares. E porque, pela primeira vez, o socialismo aparecia como alternativa ao capitalismo.

Durante a segunda Guerra Fria, no governo de Ronald Reagan, os EUA intensificaram a corrida armamentista, o que levou a URSS a ter que usar ainda mais recursos econômicos na indústria de armamentos, dificultando mais ainda os investimentos na economia e no desenvolvimento tecnológico, de que tanto necessitava. Mais tarde, chegada a era da internet, o atraso tecnológico da URSS ficou ainda mais patente.

O que se evidenciava era que terminava um período histórico e começa outro, de tal monta e profundidade foram as transformações ocorridas no mundo nas últimas décadas do século XX. Um século que tinha se iniciado com o esgotamento da hegemonia britânica e terminava aparentemente, com a emergência dos EUA como única superpotência.

•        Estamos voltando em marcha acelerada aos tempos e ódios da Idade Média. Por Adhemar Bahadian

Ao que parece estamos voltando em marcha acelerada aos tempos e ódios da Idade Média.

O Destino Manifesto dos Estados Unidos se transformou no MAGA de Trump, e a guerra na Faixa de Gaza é a evidência mais clara de que o ódio ao povo palestino substituiu o comunismo que durante anos foi a “bête noire” do mundo ocidental.

Muito longe de nos aproximarmos da “Paz Perpétua” de Kant nos dirigimos a passos largos a uma devastação seja pela guerra nuclear seja pela indiferença aos nossos reiterados ataques ao meio ambiente.

O destino manifesto americano, por mais pretensioso e dogmático que tenha sido jamais nomeado, a virulência do MAGA, cúpula inegável do supremacismo branco para fazer ressurgir preconceitos raciais e religiosos dogmáticos, intolerantes e injustos.

A razão contra o islamismo, transformada em inimigo público primordial desde os ataques terroristas às torres gêmeas, nos leva às guerras religiosas da Idade Média. O Massacre de Gaza, a par de sua virulência militar, não esconde o cisma religioso.

Inegável reconhecer que tanto o neoliberalismo quanto o globalismo aumentaram os abismos colossais entre pobres e ricos, mas, muito mais graves, tornaram muito mais insuficientes os mecanismos de proteção social.

Pior ainda: o MAGA arriscou do mapa as regras de Direito Internacional incorporadas na Carta de São Francisco, fez da ONU um elefante branco e ferido às margens do East River.

O Destino Manifesto dos Estados Unidos se tornou o desatino indigesto de Trump que tornou as regras do comércio internacional uma espécie de “ganhos quem pode” aumentando tarifas sem levar em conta a “cláusula de nação mais favorecida” sem tocar nas regras leoninas de propriedade industrial. Enfim, uma espécie de regras só aceitáveis quando benéficas ou poderosas.

A defesa da expressão livre se tornou o código sagrado das “big-techs” que dela se vale para controlar a opinião pública e formar um conglomerado midiático sem controle das leis aplicáveis aos órgãos nacionais.

Desta forma, a livre opinião é, na realidade, censurada e controlada pelas leis e costumes dos Estados Unidos, onde de qualquer forma abundam a censura e o constrangimento sempre que há alguma forma de opinião desabonadora ao presidente em exercício.

A utilização de processos judiciais de valores astronômicos (vide a ação contra o “New York Times”) tende a sufocar a imprensa livre.

Desatinada também a pressão financeira sobre as Universidades que se recusaram a seguir uma política educacional de cabresto, como as vigentes nos regimes autoritários.

Constrange-se igualmente a política de saúde pública, inclusive a vacinação de crianças, com o reaparecimento de doenças já extintas como o sarampo.

Os exemplos poderiam ser multiplicados ora com fundamentos religiosos ou puramente retrógrados. Um bom exemplo é o constrangimento causado às mulheres e o direito ao aborto.

A defesa do capitalismo predatório extermina igualmente os sindicatos com argumentos claramente facciosos.

A ingerência nos assuntos de soberania nacional de países amigos é frequente e abusiva, tornando a própria geografia física dos países suscetível de ser invadida em nome do abastecimento de recursos naturais pelo hegemônico.

A ONU é vista especialmente por cortes financeiros e pelos órgãos de controle interno ou pelo serviço público de excelência reformado por meio de demissões sem justa causa.

A autonomia dos governos estaduais foi invadida por forças policiais nacionais sem prévia consulta aos governadores e o mapa da distribuição eleitoral nacional remexida de tal forma que a vitória da oposição seja cada vez mais difícil.

A insegurança de estrangeiros, mesmo daqueles contratados legitimamente por empresas americanas, aumenta a cada dia, e a monetização dos vistos de trabalho é objeto de oscilações imprevistas e abusivas.

O combate ao narcotráfico se confunde com quase intervenções militares em águas territoriais. Tudo está sob ameaça, mesmo os tratados internacionais legitimamente negociados e aprovados.

Neste passo, repito, a guerra sem limites e de extermínio se torna mais do que uma possibilidade.

A diplomacia de países como o Brasil se move em terreno extremamente movido a impor cautela constante.

Lamentável que nesta hora específica do Congresso Nacional possa considerar viável a importação deste desarranjo político como invejável e passível de ser imitado no Brasil.

Mais do que nunca a consciência nacional impõe escolhas sensatas e a manifestação mais contundente em 2026.

O Brasil não é mais o mesmo e pode ficar infinitamente pior.

As consequências que até hoje estamos sofrendo nos ensinam que não mais temos o direito de brincar com projetos de ditadores que nos confundem a todos com promessas de um Brasil subserviente.

Precisamos ser, antes de mais nada, brasileiros. E abrindo o olho diante de um renascimento bastardo do neocolonialismo dogmático.

 

Fonte: A Terra é Redonda/JB

 

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