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X realidade: como Bali virou vítima de seu próprio sucesso nas redes sociais
Bali, o
famoso paraíso tropical da Indonésia, vem cativando os turistas há muitos anos.
Mas
também vem deixando cada vez mais pessoas desiludidas, como aconteceu
recentemente com Zoe Rae.
"Desde
que aterrissamos em Bali, algo parecia estar errado", conta ela, em um
vídeo gravado em julho no seu quarto de hotel e publicado no YouTube.
"Viemos
para Bali com muitas expectativas porque havíamos visto todos se divertindo nas
redes sociais. Mas, se você tirar uma foto da cafeteria e afastar o zoom, verá
qual é a realidade."
Rae não
descreveu a realidade que ela observou, nem respondeu às perguntas encaminhadas
pela BBC antes da publicação desta reportagem.
Mas o
que ela encontrou foi suficientemente inquietante para que ela reservasse um
voo de última hora para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para continuar ali a
comemoração do seu aniversário de casamento.
E não é
preciso ir muito longe para encontrar pistas.
São
imagens de pessoas comendo em um restaurante junto à praia, observando o pôr do
sol. Ao lado delas, pilhas de lixo se espalham ao longo das frágeis escadas que
levam para o local.
Em
outra foto, uma pose de biquíni em frente a uma cascata, enquanto uma enorme
fila de turistas espera sua vez, sobre rochas escorregadias.
Ou
smoothies ao ar livre, com canudos de bambu, ao lado de motocicletas soltando
fumaça, sem conseguir andar nas ruas congestionadas.
Milhões
de pessoas viajam para Bali todos os anos, em busca do Shangri-lá espiritual
prometido no livro e no filme Comer, Rezar, Amar (2010). Mas o que elas
encontram são multidões de pessoas, trânsito e o barulho das obras, que se
intensificaram com o auge do turismo, após a pandemia de covid-19.
A
crescente tensão na ilha provocou muitas queixas e gestos de incredulidade.
Mas, em setembro, os acontecimentos tomaram um rumo sombrio.
Mais de
uma dezena de pessoas morreram em inundações incomuns na ilha. As autoridades
afirmam que a má gestão dos resíduos e o desenvolvimento urbano descontrolado
agravaram a situação.
Desde
então, o governo local anunciou que irá restringir as novas construções. Mas
muitos consideram que estas medidas são insuficientes e chegaram tarde demais.
Como
Bali chegou a esta situação, depois de ter sido considerada por décadas o
"último paraíso"?
#Bali
no Instagram
Aventureiros
ocidentais visitam Bali desde o início do século 20. A ilha era considerada um
local exótico e afastado, que abrigava templos hindus e campos de arroz.
Em
Bali, existe profunda espiritualidade e respeito pela natureza.
Macacos,
vacas e pássaros possuem significado sagrado. Os moradores locais acreditam que
as grandes árvores antigas abrigam espíritos e que o monte Batur, um vulcão
popular e ideal para caminhadas, é protegido por uma deusa.
Bali
foi "um dos primeiros lugares onde se falou de utopia, grande beleza e
cultura", afirma a escritora de viagens Gisela Williams. Ela mora em
Berlim, na Alemanha, e visita a ilha desde os anos 1990.
"A
cultura hindu balinesa foi quem criou este mito local", destaca ela.
Na
última década, o turismo em Bali disparou, passando de 3,8 milhões de
visitantes em 2014 para 6,3 milhões, no ano passado.
Em
2025, a ilha aparentemente baterá um novo recorde. Bali está a caminho de
receber mais de sete milhões de turistas estrangeiros.
Mais do
que pelas suas tradições únicas e seus locais idílicos, a ilha atualmente é
mais conhecida pelos seus clubes de praia e casas de surfe.
É fácil
conseguir álcool e o uso de menos roupa é mais aceitável em Bali do que no
restante da Indonésia, o maior país muçulmano do mundo. E a maioria dos
visitantes também quer mergulhar nos luxuosos hotéis, pousadas e spas da ilha.
"Muitos
ocidentais realmente aproveitam a acessibilidade de um estilo de vida de
luxo", segundo Williams.
"Desde
que as redes sociais tomaram o controle, elas se tornaram uma forma muito
superficial de compreender um lugar... Você vê apenas uma foto e viaja em
seguida."
A
desilusão de Zoe Rae com a realidade que encontrou em Bali questiona a imagem
idealizada de muitos visitantes ocasionais.
Em
resposta à sua publicação, a criadora de conteúdo britânica Hollie Marie, que
mora em Bali, alertou em um vídeo no TikTok que "simplesmente pesquisar
Bali no Instagram trará uma realidade distorcida da ilha em si".
"O
problema em Bali é que as pessoas vêm para cá e ficam apenas em certas regiões
porque querem ver cafeterias bonitas e visitar lugares instagramáveis",
explica Marie à BBC. "E esquecem que Bali é uma ilha culturalmente muito
rica."
As
pessoas que vivem ali, ou exploraram além dos lugares mais óbvios, irão dizer
que a beleza natural de Bali está viva e radiante, desde o avistamento de
golfinhos e explorações submarinas até a exuberante paisagem do norte da ilha,
mais tranquilo.
Bali é
"muito, muito mais" do que os "lugares de festa" que os
turistas costumam visitar, segundo Canny Claudya. Ela se mudou da capital da
Indonésia, Jacarta, para Bali.
"Se
você acha que Bali está superlotada, é porque não está nos lugares
adequados."
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'Deteriorando-se dia após dia'
Ainda
assim, os moradores locais afirmam que sua ilha mudou, sem dúvida, devido às
exigências do turismo. E, quando ouvem queixas de que aquele não é o paraíso
que os visitantes esperavam, alguns destacam a ironia desses comentários.
"Quando
os turistas dizem que estão decepcionados porque Bali está mais concorrida,
eles também fazem parte dessa multidão", afirma o pesquisador balinês I
Made Vikannanda. Ele defende a proteção da natureza e da população da ilha.
"É
como quando estamos em um engarrafamento e nos perguntamos: 'Por que há tanto
tráfego?'", exemplifica ele. "Mas nós estamos em um carro. Somos nós
que dirigimos o carro, somos nós que provocamos o tráfego."
Ni
Kadek Sintya, de 22 anos, recorda uma época em que costumava percorrer na sua
scooter as tranquilas estradas de Canggu, no litoral sudoeste da ilha, passando
pelos arrozais onde parava para comer.
Cinco
anos depois, Canggu sofre com alguns dos maiores congestionamentos de Bali. O
trajeto de Sintya até seu trabalho, em um resort, é repleto de pousadas e
cafeterias. As buzinas de motoristas impacientes a acompanham por todo o
caminho.
"Não
me dou ao trabalho de parar, muito menos descansar ali", ela conta.
"Agora,
sempre que passo pelo lugar onde costumava me sentar, sinto uma grande
tristeza. Sinto que Bali está se deteriorando dia após dia."
À
medida que o turismo aumenta, os hotéis, cafeterias e bares vão se expandindo a
partir do congestionado sul da ilha.
O
último destino da moda é Canggu, antes uma tranquila vila de pescadores que
passou a atrair surfistas de todo o mundo.
Canggu
segue os passos de outros locais da ilha, como Uluwatu e Seminyak, que eram
tranquilos, mas se transformaram à medida que os turistas buscam novas
"joias ocultas".
Esta
migração fez com que cafeterias da moda, academias e espaços de co-working
surgissem ao longo de estreitas rodovias rurais.
Pererenan,
no norte de Bali, vem sendo aclamada como um Canggu mais tranquilo. E, ainda
mais ao norte, nas florestas de Ubud, complexos turísticos são anunciados como
santuários para escapar do rebuliço do sul.
"É
uma verdadeira encruzilhada", segundo Marie.
"De
um lado, sempre é bom incentivar as pessoas a visitar diferentes regiões... mas
acredito que isso também traz um risco, pois animará as pessoas a construir em
todo e qualquer lugar."
"As
pessoas cuidam de Bali meio que como se fosse um parque de diversões",
lamenta ela.
Não
passa um mês sem que turistas mal comportados apareçam nas manchetes da
imprensa.
Eles se
envolvem em acidentes graves dirigindo motos embriagados ou sem capacete. Há
casos de estrangeiros deportados por andar nus em locais sagrados e outros
enfrentam problemas causados por brigas sob o efeito do álcool.
Somam-se
às recentes tensões os milhares de cidadãos russos e ucranianos que se
instalaram em Bali para fugir da guerra.
O
diretor da Agência Nacional de Narcóticos da Indonésia alertou recentemente
sobre o problema cada vez maior causado pelos russos e ucranianos dedicados a
atividades criminosas em Bali.
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Limpeza
O
ressentimento local vem se agravando e os justiceiros das redes sociais
denunciam publicamente os turistas que se comportam mal. Mas os balineses
mantêm sua hospitalidade mundialmente famosa.
"Muitos
turistas pensam que, como são eles que gastam dinheiro na nossa ilha, nós,
moradores locais, deveríamos aceitar tudo o que eles fazem", segundo
Sintya.
Como
muitas outras pessoas da sua geração, ela hoje depende da estabilidade
proporcionada pela sua carreira no setor turístico.
"Eu
me sinto em uma armadilha porque vivemos do turismo", descreve ela.
"Se deixarmos de receber turistas, vamos viver do quê?"
Apesar
do "crescimento descontrolado" do turismo, Vikannanda acredita que
"o desenvolvimento de Bali e a harmonia com a natureza ainda podem ser
mantidos".
"Continuo
otimista, especialmente com a participação dos jovens", afirma ele.
De
fato, empresas e ativistas colocaram em marcha iniciativas para incentivar o
desenvolvimento sustentável — desde a educação sobre a gestão de resíduos até a
limpeza das praias.
As
autoridades, criticadas por não regulamentar suficientemente o turismo, também
estão tentando limpar a ilha.
No
início deste ano, Bali proibiu os plásticos descartáveis e publicou diretrizes
de comportamento para os visitantes. O objetivo é "garantir que o turismo
em Bali continue sendo respeitoso, sustentável e em harmonia com nossos valores
locais".
A
polícia foi destacada para as regiões mais populares, para garantir que os
visitantes cumpram as normas.
"O
governo indonésio finalmente compreendeu que Bali também é um bem natural, não
apenas um mercado turístico a ser explorado", explica à BBC Maria
Shollenbarger, editora de viagens da revista How To Spend It, do jornal
britânico Financial Times.
"Bali,
em muitos sentidos, é uma prova de fogo para o turismo excessivo", afirma
ela.
"Mas,
independentemente do lugar do mundo aonde você for, acredito que é importante
que as pessoas tenham em mente que é sua responsabilidade, como turista,
comportar-se no destino de forma responsável."
Fonte:
BBC News Indonésia

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