Carlos
Hortmann: Entre o cinismo e o sionismo
No
passado dia 10 de outubro, Francisco Mendes da Silva escreveu no jornal
português Público um artigo cujo título é Dias de raiva, uma pseudo-resposta ao
substanciado e coerente texto, escrito por Alexandra Lucas Coelho.
Em
primeiro lugar, não é preciso ser gênio da hermenêutica para detectar a
flagrante hipocrisia e as falácias, digna dos argumentos sionistas, no texto de
Francisco Mendes da Silva. Na verdade, o genocídio, perpetrado sobre o povo
palestiniano, evidenciou em muito a hipocrisia, o cinismo e a manipulação da
memória histórica. Quer dizer, se tornou um hábito na maioria dos media
[imprensa], nos discursos de vários líderes, políticos e intelectuais, fazer
transparecer ou intuir que tudo começou no dia 7 de outubro 2023, varrendo para
debaixo do tapete décadas de ocupação tortuosa, massacres e despersonalização
organizada e calculada sobre o povo palestino.
Segundo,
é preciso assumir, reafirmar cada vez mais que quase um século de violência e
apartheid, da transformação de Gaza num campo de concentração à céu aberto, é
que gerou o 7 de outubro. A construção da entidade sionista desde 1948 foi
assente na limpeza étnica, típica da lógica colonial: “O seu primeiro confronto
desenrolou-se debaixo do signo da violência e a sua coabitação – mais
precisamente a exploração do colonizado pelo colono – realizou-se com grande
reforço de baionetas e de canhões. O colono e o colonizado conhecem-se há muito
tempo. E, na realidade, tem razão o colono quando diz conhecê-los. Foi o colono
que fez e continua fazendo o colonizado” (Fanon). É a entidade sionista que
ocupa a Palestina e não ao contrário, sem ter isso em mente perde-se de vista o
essencial da questão do conflito atualmente.
Terceiro,
o Hamas não é um baluarte, mas a única força organizada capaz de enfrentar o
projeto colonial sionista naquele território nos dias de hoje. É uma
organização político-religiosa, com um braço armado e força política em Gaza,
mas também na Cisjordânia. Afirmar isso não é o mesmo que dizer que concordamos
com os fundamentos religiosos do Hamas, mas, simplesmente, reconhecer um facto,
ele é a única força efetiva capaz de colocar em causa o colonialismo sionista.
Ninguém
adoça ou romantiza o Hamas, primeiro, porque ele não é uma organização
revolucionária, mas sim, uma organização de resistência anticolonial
política-religiosa. Pronto! Toda a cantilena ocidental de “organização
terrorista” é cortina de fumaça para que as pessoas não entendam a real questão
no território da Palestina: colonização por assentamento imbuído na lógica
limpeza étnica. Lembremos que o “novo querido” do dito “mundo livre”, o chefe
de governo da Síria, é agora um “ex-terrorista perigoso do bem” – tudo depende
se você serve ou não ao Imperialismo (sistema).
Quarto,
propalar o fim de Israel significa pôr fim ao Estado étnico-racial e de
apartheid que controla o território da Palestina, não o fim dos judeus que lá
vivem ou exterminá-los. Mas o fim dos contínuos colonatos que o Estado de
Israel promove, querendo “resolver” uma questão demográfica. Entretanto, é
preciso recordar a resolução 3379 da ONU que vigorou de 1975 até 1991, em que
identificava o sionismo como uma forma de racismo e comparava-o com o apartheid
da África do Sul.
Mas o
ponto central é que Francisco Mendes da Silva recorre a uma velha tática
ideológica do sionismo, que busca fazer uma equivalência entre o indivíduo
judeu (em qualquer lugar do mundo), a coletividade judaica (a etnia ou
religioso) e a suposta representação estatal de todos os judeus (Israel) – aqui
está o truque. Por isso, Francisco Mendes da Silva afirma sem a menor
desfaçatez que fazer crítica ao Estado de Israel coloque como horizonte o fim
do projeto colonial sionista é o mesmo que criticar os judeus (enquanto pessoa
ou coletividade), portanto, eliminá-los do território.
O mesmo
truque ideológico, é o de justificar que todos os problemas de Israel são de
responsabilidade do genocida Netanyahu, ou de todos os fanáticos que se alinham
ao seu governo (Smotrich, Ben Gvir e afins), portanto, a velar que ele só se
tornou a face mais violenta e exterminadora do que é o projeto colonial e
racista do sionismo.
Quinto,
a afirmação de Franz Fanon como teórico da violência, só demonstra que
Francisco Mendes da Silva está a simular conhecimento e nem passou perto da
leitura da obra fanoniana! (A direita já foi mais bem preparada
intelectualmente, hoje se resume a chavões de autores que sequer leram),
revelando que esta classificação diz muito mais da psique de Francisco Mendes
da Silva do que Fanon que mostrou transtornado pela violência quando escreveu
sobre a guerra colonial e perturbações mentais.
Mas
essa afirmação não nos surpreende uma vez que o próprio Franz Fanon tratou
sobre esse tema em Peles negras, máscaras brancas. É que no Ocidente o negro
(não-branco) representa algo aterrorizante, o que ele chamou de
“negro-fobogênese” e o que a direita conservadora, a extrema direita
(neofascista) e, mesmo certos ditos progressistas não perdoam a Franz Fanon é o
facto dele ter recusado negritude, como sinónimo de vitimização, na sua
resistência de uma luta armada contra a violência absoluta da colonização
francesa na Argélia, mantendo o aceso o espírito dos escravizados
revolucionários de “Haiti onde a negritude se pôs de pé pela primeira vez e
disse que acreditava na sua humanidade” como disse Aimé Cesáire.
E o que
os sionistas camuflados e assumidos não perdoam aos palestinos é a sua recusa
em sucumbirem-se, em serem vítimas passivas e bem comportadas face à violência
absoluta da entidade racista e colonialista que se responde pelo nome de
Israel.
Nesse
esteio, talvez Francisco Mendes da Silva imagine que a ONU seja uma instituição
fanoniana por “Reafirmar a legitimidade da luta dos povos pela independência,
integridade territorial, unidade nacional e libertação do domínio colonial e
estrangeiro e da ocupação estrangeira por todos os meios disponíveis, incluindo
a luta armada” (Resolução 3070).
Na
ânsia de ocultar a questão fundamental do colonialismo por assentamento
sionista, procura escapar afirmando que não são comparaveis as lutas de
libertação nas antigas colónicas portuguesas e a questão palestiniana, ou seja,
sem argumento dispara a fazer perguntas retóricas com apelo moral e ético.
Sim, o
Hamas recorre à tática do terrorismo, assim como a Revolução Argelina e as
Libertação Nacional em Angola, Guiné e Moçambique. Isso se chama guerra
assimétrica, em que o terrorismo como tática aparece como um dos poucos meios
de luta de um povo dominado pelas forças coloniais.
Sim,
teve crimes de guerra no dia 07 de outubro de 2023, mas como mostra o próprio
jornal israelense e sionista, Haaretz, muitos mortos civís nesse trágico dia
foram vítimas do Protocolo/diretiva Hannibal. Com as suas questões, Francisco
Mendes da Silva visa tocar a sensibilidade dos leitores, pois sabe que falar do
terrorismo, mortos, inocentes e afins, a mobilizar uma memória histórica muito
recentemente construída a partir da “guerra ao terror” levada a cabo pelos EUA
pós-11 de setembro de 2001. (Ah! por falar nos EUA, a malta do Francisco Mendes
da Silva, “costuma” esquecer que as bombas atómicas jogadas sobre o Japão,
rendido, foi um verdadeiro ataque terrorista).
Retomemos
os “argumentos” de Francisco Mendes da Silva. Ninguém afirma que se equivalem
as mortes do 7 de outubro com outras experiências históricas distintas, mas
elas podem ser comparadas dentro de suas particularidades.
O ponto
central da questão é que se procura afastar o 7 de outubro de 2023 como o
resultado de um longo processo de colonização/violência, colonatos, expulsão de
um dos povos nativo daquela região: Nakba! Quando recorremos a comparações
históricas, estamos a sair das aparências do fenómeno para mostrar a essência
histórica que estrutura os processos coloniais nas duas diferentes facetas. Por
isso, sua pergunta não é só retórica, mas falaciosa, porque ela diz algo que
não é dito por estudiosos que procuram analisar comparativamente esses
processos históricos.
O mesmo
vale para a “assemelhança” em relação aos forasteiros portugueses da
colonização dos territórios na África e a questão da construção Estado de
Israel, assente no projeto sionista de um Estado étnico “para um povo sem
terra, numa terra sem povo”. O problema fundamental é que a Palestina sempre
esteve ocupada e povoada, inclusive por um número muito pequeno de judeus (não
chegavam a 7%).
Esse é
o cerne da questão, a povoação por assentamento, é um projeto colonial do
sionismo (uma das correntes políticas dentro do judaísmo), que por vários
meios, inclusive a compra de território levou a cabo a transferência de judeus
para a Palestina no século XX. Os judeus que lá vivem, na sua grande maioria,
não são forasteiros, mas o processo que levou as suas primeiras gerações de
judeus foi produto da expulsão de 700 mil palestinos, que estão em disporás. Se
Francisco Mendes da Silva estudar a questão palestiniana a fundo poderia evitar
de repetir chavões da cartilha sionista ou pode ser isso que você queira mesmo!
Francisco
Mendes da Silva escreve: “a autora [Alexandra Lucas Coelho] acreditar que o
verdadeiro problema é a existência do Estado de Israel. Ou seja, a presença de
judeus naquela região. Porque todos os judeus são soldados de uma ocupação
ilegal do território palestino”. Como argumentamos anteriormente, a artimanha
falaciosa de Francisco Mendes da Silva é transformar em equivalente, sinónimo
ou numa identidade o Estado sionista de Israel (esse é o grande problema) e a
presença de judeus naquela região.
É de
uma aldrabice típica daqueles que distorcem para mentir e enganar as pessoas,
apresente-nos nas centenas de textos que Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre
a Palestina, que o problema são as pessoas de origem judia a viver naquela
região – relembramos que elas viviam muito antes de ter Estado sionista e
historicamente quem perseguiu os judeus foram os cristão-católicos. É de uma
infâmia sem tamanho afirmar algo deste género em relação a Alexandra Lucas
Coelho.
Pois,
defender o aniquilamento do Estado (entidade) sionista de Israel, enquanto
projeto colonial e racista, não é o mesmo que aniquilar as pessoas que agora lá
vivem, muitos em ocupações ilegais (os colonatos são um primor de legalidade).
Tudo isso não passa de uma identidade que Francisco Mendes da Silva apresenta
para inferir que se está a tratar das pessoas que lá vivem. Por que Israel
nunca reconheceu os dois Estados? Ou, por que não existir um Estado
palestino-judaico binacional? Cada cabeça um voto? Ah! O problema demográfico
aterroriza o sionismo? Palestina livre do rio ao mar significa estar livre do
julgo colonial sionista!
Comparar
a guerra no território ucraniano com a questão Palestina-Israel só demonstra o
desespero e falta de argumento para justificar tudo para prosseguir o projeto
sionista de colonização. Um familiar próximo de um dos autores, afirmava muitas
vezes o anti-semitismo só será enterrado quando o sionismo também for, pois,
infelizmente, o sionismo é quem usa de forma instrumental a tragédia do
holocausto, tratando como uma excepcionalidade histórica para justificar o seu
projeto colonial e racista na Palestina.
A parte
final do texto, só denuncia o cinismo de Francisco Mendes da Silva, que diz ser
o conflito “menos cínico do mundo”. “Jamais haverá paz se ambos os lados não
recuarem muitíssimo na sua fidelidade aos princípios”, perguntamos, o primeiro
deles a recuar não seria o projeto sionista, que não respeitou as fronteiras de
1948? A paz que vocês desejam é a paz cínica como toda a longa tradição
colonial europeia violentamente perpetrou pelo mundo.
• Amar o ódio. Por Samuel Kilsztajn
Philip
Roth, um dos escritores norte-americanos mais premiados de sua geração, era
acusado de odiar a si mesmo, de ser antissemita. Por ocasião do julgamento de
Adolf Eichmann, Gershom Scholem acusou Hannah Arendt de não demonstrar amor
pelo povo judeu; ao que ela respondeu, “Você tem toda a razão de que eu não
tenho esse amor, e isso por dois motivos. Primeiro, nunca em minha vida ‘amei’
algum povo ou coletivo – nem o povo alemão, francês ou americano, nem a classe
trabalhadora ou qualquer coisa deste gênero que envolva lealdade. A verdade é
que amo apenas os meus amigos e sou completamente incapaz de qualquer outro
tipo de amor. Segundo, esse tipo de amor aos judeus me pareceria suspeito, já
que eu mesma sou judia. Eu não amo a mim mesma ou qualquer coisa que sei
pertencer à substância do meu ser.”
De
minha parte, como humanista e internacionalista, diria, nunca amei um povo, amo
apenas a humanidade e todos os povos. E, vegetariano, acrescentaria que, por
humanidade, compreendo toda a fauna. Enquanto houver abatedouros, haverá
guerras!
Quando
eu ainda me dizia judeu, nunca considerei pejorativo o termo gentio, goy em
yiddish, a minha língua materna. Goy não era o “outro”, era o diferente. E eu
sempre gostei muito de me relacionar com o diferente, porque o diferente amplia
a minha condição humana. Aliás, eu me definia como judeu, budista, xangô e
corinthiano. Hoje me defino como palestino budista (sem prejuízo à minha
identidade xangô e corinthiana).
Palestino
porque nasci em Jaffa, a cidade eminentemente árabe que, mesmo de acordo com o
draconiano Plano de Partição da Palestina de 1947, foi reservada como enclave
árabe. Ou seja, a ocupação de Jaffa por Israel em 1948 é ilegal de acordo com
as Nações Unidas. A Palestina, durante o Império Otomano, era habitada por 92%
de árabes e 8% de judeus.
O
sionismo, até o final da Primeira Guerra Mundial, era uma ideologia exótica e
inofensiva. Só passou a ser implementado quando a Inglaterra, que então ainda
governava o mundo, ganhou a Palestina “de presente” da Liga das Nações e, por
interesse próprio, incentivou a imigração de judeus que estavam fugindo do
Leste Europeu. Mesmo assim, os judeus só começaram a imigrar em massa para a
Palestina após a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha em 1933 e,
principalmente, a partir das Leis de Nuremberg de 1935, quando os judeus foram
declarados cidadãos de segunda categoria.
Meus
amigos vivem me alertando que os antissemitas, os palestinos e os judeus vão
continuar me considerando judeu. Aí eu respondo, educadamente, que este
problema não é meu, é problema dos antissemitas, dos palestinos e dos judeus
(algumas vezes também respondo de forma menos educada).
Não
estou me assumindo palestino para escapar ao destino que os antissemitas querem
dar aos judeus, nem espero que os palestinos me aceitem (como é que um
palestino pode confiar em um judeu?). Não me identifico com os judeus que, em
sua grande maioria, embora com diferentes nuances, são a favor de Israel e
sequer assumem a violência contra os nativos palestinos desde o início do
Mandato Britânico da Palestina em 1920.
Um
amigo, que entre suas várias ascendências étnicas e culturais tem uma avó
judia, descobriu que seria considerado judeu de acordo com as Leis de
Nuremberg. Mas eu nunca precisei me debruçar sobre aquele complicado
“organograma racial”, porque os meus quatro avós eram judeus e eu só nasci
porque meus pais sobreviveram ao destino reservado a 9 a cada 10 familiares, 9
a cada 10 judeus das cidades onde nasceram e 9 a cada 10 judeus poloneses.
Apesar
do meu manifesto Máquinas, máquinas!, perguntei ao ChatGPT, “Amar a si mesmo é
amar o seu povo e odiar os demais povos?” E ele respondeu: “Não necessariamente
– e, na verdade, essa ideia é perigosa. Amar a si mesmo pode significar
reconhecer sua dignidade, cuidar de si, valorizar sua história e sua
comunidade. Amar o próprio povo, nesse sentido, é preservar sua cultura,
memória, tradições e direitos. Mas isso não implica, de forma alguma, odiar os
outros povos. O amor pode ser expansivo: quanto mais alguém se conhece e se
valoriza, mais tende a respeitar a alteridade.”
“O
problema aparece quando o amor a si mesmo ou ao próprio grupo é confundido com
exclusivismo, chauvinismo ou nacionalismo agressivo – que só se afirmam pela
negação e hostilidade em relação aos demais. Povos que se amam verdadeiramente
não precisam odiar os outros para existir; ao contrário, podem dialogar,
aprender, trocar e enriquecer-se mutuamente”.
E, como
eu já estava com a mão na massa, coloquei também o título deste artigo do ponto
de vista político no ChatGPT, que me retornou: “‘Amar o ódio’ é uma expressão
paradoxal – quase um oxímoro. Do ponto de vista político, amar o ódio é
transformar o inimigo em eixo de identidade coletiva, mobilizando paixões
negativas como força de união e poder.”
Comecei
este artigo citando Hannah Arendt e o polêmico julgamento de Eichmann em
Jerusalém. O serviço de informação israelense, Mossad, havia capturado e
contrabandeado o nazista Eichmann. Seu julgamento em 1961 foi amplamente
divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo
os crimes dos nazistas durante o Holocausto e, de acordo com as autoridades
israelenses, inibir o antissemitismo. Contudo, as declarações e seu conceito de
banalidade do mal custaram a Hannah Arendt a inimizade dos intelectuais
sionistas, que lhe exigiam solidariedade incondicional ao povo judeu após o
Holocausto.
Shulem
foi o primeiro livro que escrevi (2012) e Salaam Aleikum, Palestina! o último
(2025). Mas, se fosse hoje, não faria a pesquisa e muito menos escreveria o
primeiro, embora mesmo esse já seja declaradamente antissionista. Também pouco
me importa a minha língua materna, embora considere Yiddish o livro mais
radical (radix, raiz) que escrevi, pela valorização da cultura humanista,
internacionalista, pacifista e racionalista dos judeus da diáspora.
Continuo
solidário às vítimas judias da Segunda Guerra Mundial, mas, frente ao papel de
algozes que a esmagadora maioria dos judeus está assumindo no presente, não
consigo me interessar minimamente pela questão. Contudo, penso sim nos meus
parentes, a maioria vivendo na Palestina, que foram criados em cima de uma
mentira e se recusam a acordar.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário