Golpe,
guerra e genocídio: entenda definitivamente a diferença entre conceitos
“Golpe”,
“guerra” e “genocídio” são palavras usadas em nosso cotidiano — da mesa de bar
aos debates televisivos e artigos acadêmicos. Mas o que elas realmente querem
dizer? São sinônimos? Têm gravidades distintas? Há escala de terror? Para
elucidar essas e outras questões, vamos abordar, adiante, o significado de cada
um desses conceitos nos âmbitos político, jurídico e ético com o objetivo de
mostrar como o poder se exerce e se legitima por meio desses
instrumentos políticos e observar como se manifestam hoje: nos golpes
parlamentares, nas guerras híbridas e nos genocídios
televisionados. Tomamos como referência o Dicionário de Política (Editora
UnB, 11ª ed.), de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino para
trabalhar esses conceitos.
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Golpe: o poder tomado por dentro
O
cientista político Carlos Barbé define Golpe de Estado como ato praticado por
órgãos do próprio Estado que, por meios ilegais ou excepcionais, derrubam um
governo legítimo. Em outras palavras: há uma ruptura da legalidade
constitucional por quem deveria protegê-la. Voltando na história, nos séculos
17 e 18, o termo francês coup d’État designava decisões
súbitas dos soberanos em nome da “razão de Estado”, ou seja, medidas
excepcionais tomadas com o objetivo de proteger o próprio Estado. Com a
limitação do poder monárquico e a afirmação de direitos individuais, o termo
passa a indicar a violação deliberada das formas legais por quem já detém
autoridade. Barbé observa que o elemento central: a força do golpe é
endógena. Diferente da revolução — que mobiliza a sociedade para criar uma nova
ordem —, o golpe preserva a estrutura de poder e apenas substitui seus
dirigentes.
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América Latina: manual do golpe e laboratório autoritário
Na
América Latina dos anos 1960–70, o agente do Estado responsável pelos golpes de
Estado foi o Exército. Instala-se o regime “burocrático-autoritário”: alto
oficialato com frações empresariais, parcelas do Judiciário e da grande mídia
rompe a Constituição e se apresenta como “salvador da pátria”. O roteiro se
repete: tomada de palácios e meios de comunicação; prisões de lideranças;
fechamento ou esvaziamento do Congresso; atos de exceção; cassações e
intervenções em sindicatos, universidades e governos locais. A política vira
“gestão”: militares e tecnocratas prometem eficiência e segurança enquanto
suspendem direitos e instalam tribunais de exceção.
A
ideologia que arma essa engrenagem é a Doutrina de Segurança Nacional: a Guerra
Fria convertida em “guerra interna” permanente, com o “inimigo” transformado em
estudante, sindicalista, camponês, artista, jornalista, padre de base —
qualquer dissenso. Daí decorre o terror de Estado: vigilância, tortura,
desaparecimentos, exílios e redes clandestinas de repressão. A partir da
segunda metade da década, a cooperação repressiva se institucionaliza na
Operação Condor, plataforma transnacional de sequestros e assassinatos
políticos no Cone Sul. Exemplos-símbolo mostram o padrão: Brasil
(1964) — ditadura longa, AI-5 e censura; Chile (1973) — o
laboratório autoritário encontra o laboratório neoliberal; Uruguai
(1973) — autogolpe e vigilância capilar; Argentina (1976) —
repressão e reordenação produtiva levadas ao limite. Em todos, a mídia
hegemônica atua como quartel-general narrativo, legitimando a ruptura e
criminalizando a sociedade organizada.
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O “interno” que depende do externo
Embora
Barbé defina o golpe como ação interna do Estado, a experiência
latino-americana expõe interferência externa decisiva, no caso dos Estados
Unidos, que instrumentaliza forças internas para derrubar governos considerados
indesejados.
No
Chile, por exemplo, documentos e depoimentos reunidos no e-book Chile:
Anatomia de um Golpe (DSG) mostram como a participação dos EUA foi
sistemática e multicanal: direção política do ex-presidente estadunidense
Richard Nixon (1969–1974) e seu ex-conselheiro de Segurança Nacional, Henry
Kissinger, que autorizaram operações para impedir a posse de Salvador Allende
(1970–73) e, depois, para desestabilizar seu governo. Além disso, o
governo estadunidense promoveu operações secretas da CIA (financiamento a partidos
e lideranças golpistas; suporte logístico e de inteligência); guerra econômica
(greves estimuladas, pressão de empresas e bancos dos EUA); e guerra
informacional (recursos a veículos como El Mercurio para
produzir pânico moral e “caos” econômico). A engrenagem inclui
coordenação castrense, exercícios navais, narrativa midiática e blindagem
diplomática. Em síntese: os EUA planejam, financiam e protegem a derrubada de
Allende, caso exemplar de como a intervenção externa nutre um golpe que,
tecnicamente, se realiza “por dentro”.
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Século 21: da farda à toga, da caserna ao algoritmo
No
século 21, o modelo mais comum de golpe de Estado troca a farda pela toga — e
pela manipulação algorítmica. Em vez de tanque na rua, ocupa-se o ecossistema
de informação e os nós institucionais: investigações seletivas, vazamentos
cronometrados, moralismo punitivista, tribunais midiáticos e interpretações
criativas da lei para inabilitar lideranças, corroer maiorias e reverter as
urnas por dentro.
É
o lawfare — guerra jurídica apoiada por plataformas
digitais, big data e pressão financeira (sanções de
mercado, ratings, fundos) — combinada a impeachments “técnicos”,
ativismo judicial e máquinas de opinião que legitimam a exceção.
O
roteiro é híbrido: parlamentar-midiático-judicial, com selo de “Estado de
Direito” e efeito de regime de exceção em fatias. Na América Latina, essa
atualização preserva o velho objetivo: remodelar o Estado e a economia sem
tanques, quebrar a organização popular e reencaixar a região na hierarquia do
capital global.
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Guerra: a política em seu grau extremo
O
cientista político Fulvio Attinà aponta que a geopolítica moderna nasce do
esforço de relacionar o comportamento político dos Estados ao espaço físico.
Autores clássicos da geopolítica — Friedrich Ratzel, Rudolf Kjellén, Halford
Mackinder e Nicholas Spykman — indicam que a guerra é concebida como
instrumento de expansão territorial e de reorganização da ordem mundial. Para
entender a guerra (e distingui-la de golpe e genocídio) no giro do império
europeu ao estadunidense, vale um mapa das principais teorias e de como elas se
encaixam na nova ordem.
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Guerra como política (Clausewitz)
A
ideia-chave é simples e poderosa: a guerra é a política por outros meios.
Depois de 1945, os Estados Unidos ampliam esses “meios” para além das armas e
os organizam em três camadas que operam juntas.
- Dinheiro que
decide (FMI/Banco
Mundial). Quem controla o crédito e a moeda de referência define as
condições do jogo. Condicionalidades (reformas, cortes, abertura)
funcionam como pressão sem tiro: países aceitam para ter recursos. É poder
coercitivo financeiro.
- Regras que
enquadram (GATT/OMC).
Normas do comércio internacional premiam comportamentos e punem desvios.
Tarifas, sanções e disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC)
disciplinam economias. É poder jurídico-institucional que substitui (ou
prepara) o conflito aberto.
- Força que
garante (Organização
do Tratado do Atlântico Norte — Otan). Quando dinheiro e regras não
bastam, entra o braço armado: bases, alianças, dissuasão e, em último
caso, uso da força. É o respaldo militar da orde
Didaticamente:
o crédito pressiona, as regras enquadram, a força garante. Os três juntos
permitem alcançar objetivos políticos às vezes sem guerra (só com finanças e
normas), às vezes com guerra (quando o resto falha). Este é Clausewitz no
século 21: a política usa um continuum de instrumentos — do banco ao tratado,
do tribunal à tropa.
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Guerra total × guerra limitada
Depois
das duas guerras mundiais, se consolida a distinção entre guerra total e guerra
limitada. Na guerra total, todo o Estado e a sociedade se mobilizam —
economia, indústria, ciência, mídia e civis —, desaparece a linha entre frente
e retaguarda e os objetivos deixam de ser “calibrados”: busca-se aniquilar a
capacidade de luta do inimigo, inclusive por meio da destruição de
infraestrutura civil, bloqueios e rendição incondicional (ex.: Segunda Guerra
Mundial, 1939–1945). Já a guerra limitada, típica da Guerra Fria, ocorre
quando as potências restringem objetivos, meios e alcance para evitar confronto
direto entre Estados Unidos e União Soviética (URSS) — sobretudo o uso de armas
nucleares.
Exemplo:
a Guerra da Coreia (1950–1953) busca conter e restaurar uma linha de separação
(paralelo 38), sem atacar diretamente China ou URSS. A Guerra do Vietnã
(1955–1975; envolvimento direto dos EUA, 1965–1973) tem como objetivo conter a
expansão comunista, com regras de engajamento e alvos geográficos limitados
para evitar escalada nuclear e guerra entre superpotências.
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Guerras de libertação nacional
Nas
guerras de libertação nacional, povos colonizados enfrentam metrópoles e
regimes de ocupação para recuperar soberania e território. A literatura
clássica descreve esse processo como guerra popular prolongada, em que a
política comanda a militarização, o território vira espaço social de
mobilização e o objetivo estratégico é expulsar o poder colonial e refundar o
Estado.
Entre
os autores de referência estão Frantz Fanon (Os condenados da terra),
que analisa a violência como ruptura da “ordem” colonial; Amílcar Cabral
(discursos e textos do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo
Verde — PAIGC), que enfatiza cultura, organização e “desertificação do
colonialismo”; Mao Zedong (teoria da guerra popular), que sistematiza fases e
logística da insurreição; e Võ Nguyên Giáp (estratégia vietnamita), que detalha
a passagem da guerrilha à guerra de movimento. Na chave latino-americana,
somam-se Che Guevara (foco guerrilheiro) e Régis Debray (debate estratégico),
enquanto a crítica ao imperialismo em Vladimir Lênin e J. A. Hobson oferece
moldura econômica e política do fenômeno.
Exemplos
que ilustram o padrão: a Argélia do Front de Libération Nationale (FLN)
contra a França (1954–1962); Guiné-Bissau/Cabo Verde sob o PAIGC (1963–1974);
Angola com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA 1961–1975) e
Moçambique com a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo 1964–1974) contra
Portugal; o Quênia no levante Mau Mau (1952–1960); o Vietnã com o Viet Minh e,
depois, a Frente de Libertação Nacional na luta contra França e EUA
(1946–1975); e a Palestina, onde a resistência associa dimensões nacional,
antirracista e anticolonial. Em todos, a insurgência combina frente militar,
frente política e frente diplomática (solidariedade internacional,
reconhecimento, sanções às metrópoles).
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Guerras por procuração
No fim
do século 20, multiplicam-se as guerras por procuração: em vez de confrontos
diretos entre grandes potências, Washington, Moscou e aliados regionais
financiam, treinam e armam forças locais para projetar poder sem declarar
guerra. Essa engenharia reduz custo político interno, terceiriza baixas,
permite negar o envolvimento e mantém o conflito abaixo do limiar
nuclear. O tabuleiro se expande por África, América Latina e Ásia:
corredores de armas, campos de treinamento e redes de inteligência operam como
infraestrutura transnacional do conflito. A mídia legitima facções, a ajuda
humanitária é instrumentalizada como cobertura logística e sanções econômicas
estrangulam governos-alvo. Ao mesmo tempo, mercenários e empresas militares
privadas entram em cena, barateando operações e omitindo
responsabilidades. O efeito estrutural é o prolongamento de guerras
civis, desestabilização de Estados e a reformulação de economias em torno do
esforço de guerra, abrindo caminho para golpes internos apoiados de fora e para
bloqueios vendidos como “medidas técnicas”.
O
exemplo mais atual é a guerra na Ucrânia (2014–atual). O esforço militar
ucraniano é sustentado por financiamento, treinamento, inteligência e
armamentos de países da Otan e dos Estados Unidos (EUA), enquanto Moscou atua
como polo direto do outro lado, a ser enfraquecido e contido. O teatro
principal está em solo ucraniano, mas a direção estratégica, os fluxos de armas
e a logística mostram disputa entre blocos de poder, como sustentam os autores
do e-book Muito Além da Ucrânia, os fatores por trás da guerra,
editado pela Diálogos do Sul Global.
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Guerra híbrida
O termo
guerra híbrida é sistematizado por Frank G. Hoffman na virada dos anos 2000, a
partir da observação de conflitos que misturam meios militares e não militares
(forças regulares/irregulares, operações cibernéticas, sanções, propaganda,
terrorismo, crime organizado).
Se
trata do uso combinado de ferramentas militares e não militares para forçar
mudanças políticas sem guerra declarada: sanções e bloqueios que estrangulam
finanças e comércio; pressão cambial e corte de crédito; operações cibernéticas
contra redes elétricas, bancos e ministérios; desinformação coordenada
com bots e influenciadores; sabotagens em infraestrutura;
forças por procuração e operações clandestinas; além de ataques limitados
(drones, incursões) para manter o confronto abaixo do limiar de guerra aberta.
Essa engenharia corrói governos por fora e prepara terreno interno: economia
ficará asfixiada, reputações serão destruídas, base social será
desorganizada.
Por
isso, a guerra híbrida funciona como ponte entre a guerra e o golpe. O desenho
é externo (planejamento e pressão vindos de fora), mas o desfecho buscado será
interno: rupturas por impeachments “técnicos”, decisões
judiciais, intervenções administrativas e outras formas de lawfare,
que darão aparência legal ao que é, no fundo, mudança de regime.
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Lawfare (guerra jurídica) e o ecossistema informacional
No
século 21, a disputa de poder se desloca para tribunais, procuradorias e
plataformas digitais. É chamado lawfare o uso instrumental do
direito para produzir resultados políticos: acusações seletivas, vazamentos
cronometrados, quebras abusivas de sigilo, prisão preventiva como pena
antecipada, delações estimuladas por chantagem penal, mudanças casuísticas de competência
e calendarização eleitoral de decisões. A mídia amplifica versões
acusatórias como fato consumado, enquanto algoritmos de plataformas elevam
narrativas convenientes e enterram desmentidos. O objetivo é inabilitar
lideranças, reverter maiorias e legitimar exceções sob aparência de legalidade
— roupagem contemporânea do golpe por dentro.
Esse
roteiro costuma vir acompanhado de medidas administrativas e financeiras:
congelamento de ativos, sanções de “compliance”, listas de “organizações
indesejáveis”, bloqueios de financiamento e cooperação assimétrica com agências
estrangeiras via tratados de assistência mútua. No plano internacional, sanções
unilaterais e designações por órgãos como o Office of Foreign Assets
Control (OFAC) funcionam como pena sem julgamento, estrangulando
economias, meios de comunicação e entidades civis. Em conflitos, o lawfare isola
adversários, criminaliza resistências e dá verniz jurídico a cercos econômicos.
Na
América Latina, Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010 e 2023- ) foi condenado e
preso em 2018; em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações
e reconheceu a parcialidade do juiz Sergio Moro. Cristina Fernández de Kirchner
(ex-presidenta argentina 2007–2015 e vice-presidenta 2019–2023) recebeu
sentença em primeira instância no caso Vialidad (2022), com recursos pendentes,
falta de provas e evidentes efeitos eleitorais. Já Rafael Correa (ex-presidente
do Equador 2007–2017) foi condenado in absentia em 2020, em
processo acelerado que desarticulou sua coalizão política.
O
Ocidente apresenta suas ofensivas como “defesa da liberdade”, mas, como aponta
Attinà, toda guerra é também disputa por representação simbólica — uma
tentativa de impor, junto às armas, um discurso.
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Genocídio: o crime de apagar existências
O
jurista Raphael Lemkin cunha o termo em 1944 para designar a destruição em
massa de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Mais do que
assassinato coletivo, se trata de um projeto sistemático de aniquilação da vida
e da cultura de um povo.
Após a
Segunda Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprova, em 1948,
a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, que define o
genocídio como crime contra a humanidade. Como observa Giorgio Bianchi, o
instrumento jurídico é limitado: ele exige que Estados julguem a si mesmos — e
raramente o fazem. A impunidade passa a integrar a estrutura do crime.
A
definição jurídica aponta a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo
nacional, étnico, racial ou religioso não só pelo assassinato direto, mas
também por fome induzida, deportações, esterilização, sequestro de crianças,
destruição de cultura, memória e meios de vida. O genocídio é a etapa extrema
de um projeto político. Há dois exemplos que se consolidaram na literatura
política internacional: Ruanda e Palestina.
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Ruanda (1994)
O caso
expõe a velocidade e a mecânica social desse crime. Em cerca de cem dias, a
propaganda de ódio — preparada por anos em rádios, jornais e listas — foi
convertida em maquinaria de extermínio contra tutsis e hutus opositores. Cerca
de 800 mil a 1 milhão de pessoas foram assassinadas.
A
violência não foi “espontânea”: havia direção política, listagens, logística e
discurso desumanizante que autorizou matar vizinhos e saquear seus bens. A
demora internacional em nomear o que ocorria ilustra como palavras retêm poder:
enquanto se evitou dizer “genocídio”, não se acionou a obrigação de prevenir e
punir.
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Palestina (desde 1948)
Na
Palestina, a lógica é colonial e de limpeza étnica de longa duração — da Nakba
(1948) às ofensivas recentes. Cercos, bloqueios a alimentos e remédios, ataques
recorrentes a civis, hospitais, escolas e jornalistas, destruição sistemática
de infraestrutura e deslocamentos forçados operam como engenharia de inviabilização
de um povo.
Quando
a política pública nega água, energia, abrigo e passagem segura, e os
assassinados são, em sua maioria, mulheres e crianças, o objetivo já não é
“vencer militarmente” um grupo armado, e sim remover o povo do território e
quebrar sua reprodução social — núcleo da tipificação de genocídio.
Essa
gramática remete ao colonialismo histórico, sobretudo ao colonialismo de
povoamento — como nos casos herero e nama, na Namíbia sob domínio alemão
(1904–1908), e nas práticas do Estado Livre do Congo sob Leopoldo II.
O
padrão é reconhecível: expropriação de terras, hierarquização racial, trabalho
forçado quando convém à metrópole e, quando a resistência cresce ou o custo de
administrar sobe, passagem à eliminação — física, cultural ou
territorial.
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A maquinaria mediática do genocídio
A forma
contemporânea do genocídio é também mediática. A morte é espetacularizada por
televisão, plataformas e relatórios, enquanto eufemismos burocráticos — “dano
colateral”, “zona de exclusão”, “alvo dual” — maquiam a intenção real.
Métricas substituem rostos: gráficos de “neutralizados”, mapas de “zonas
seguras”, tabelas de “ajuda entregue”. Quando a linguagem técnica cobre o
sofrimento e o algoritmo premia a indignação breve, a barbárie ganha rotina — e
a responsabilidade internacional se dilui.
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Diferença entre golpe, guerra e genocídio
Golpe,
guerra e genocídio são distintos, mas se articulam. O golpe rompe a soberania
nacional; a guerra reconfigura o mapa do poder; o genocídio tenta apagar quem
denuncia. É o mesmo roteiro imperial que se reinventa para manter o centro:
Honduras (2009), Paraguai (2012), Brasil (2016), Ucrânia (desde 2014; escalada
em 2022), Bolívia (2019), Gaza (2024–2025). Em todos os casos,
legalidade, diplomacia e “humanitarismo” servem de máscara para a violência —
e, em todos, a resistência popular revela que, apesar do arsenal bélico e
financeiro, a verdade segue vulnerabilizando o império.
Em
síntese: o genocídio é o ápice da hierarquia colonial. Quando explorar já não
serve, eliminar é proposto como “solução de segurança”. Distinguir guerra
(disputa entre Estados/blocos) e golpe (ruptura interna) de genocídio
(aniquilação de um grupo) não é preciosismo: é o que define quais obrigações
jurídicas e quais respostas políticas serão acionadas — e é o que separa a
barbárie justificada da humanidade defendida.
Fonte:
Por Vanessa Martina-Silva, em Diálogos do Sul Global

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