UNIVERSIDADES
EM TEMPESTADE: Repensar o futuro a partir do Sul Global
O
editorial da revista Nature (setembro, 2025) aponta que as universidades estão
no olho de uma tempestade: precisam inovar para sobreviver. O diagnóstico não é
trivial. Depois de séculos de protagonismo na produção de saber, de expansão em
escala global e de crescente massificação, as instituições de ensino superior
encontram-se pressionadas por crises de financiamento, transformações
tecnológicas aceleradas e desconfiança social quanto ao seu papel. A Nature
sugere que, assim como tantas vezes no passado, as universidades devem se reinventar
para não perder relevância. É preciso reafirmar que o verdeiro engajamento
público da universidade depende da sua independência intelectual. Só assim será
possível reinventar a universidade sem diluir aquilo que a torna indispensável
à democracia e ao futuro da liberdade de cátedra e do pensamento crítico.
Em um
contexto que exige diálogo social e prestação de contas públicas, A Nature já
advertia em 2017, que pesquisadores e instituições deveriam “alcançar para além
da bolha da ciência”, tornando visível o valor social do conhecimento. Esse
chamado dialoga com uma literatura crítica mais ampla, que há décadas insiste
na necessidade de repensar o modelo tradicional de universidade, herdado de
matrizes eurocêntricas, elitistas e cada vez mais mercantilizadas. Autores como
Achille Mbembe (2015, 2016) e Boaventura de Sousa Santos (2008) denunciam que a
universidade ocidental não apenas enfrenta problemas de sustentabilidade
financeira, mas carrega limitações epistemológicas e políticas profundas.
Outros, como Philip Altbach (2013) e Jamil Salmi (2009), ressaltam que o
desafio de construir universidades de pesquisa nos países em desenvolvimento
não se resolve com simples imitação dos centros do Norte Global. Raewyn Connell
(2017) acrescenta que a teoria produzida no Sul precisa se tornar base legítima
do conhecimento universitário global.
Combinando
o alerta da Nature e as críticas da literatura, este ensaio sustenta que O
futuro da universidade depende de um duplo movimento: por um lado,
reinventar-se diante das pressões financeiras e tecnológicas; por outro,
reconhecer que os países em desenvolvimento não possuem apenas carências, mas
também potencialidades específicas para propor novos modelos universitários
mais inclusivos, descolonizados e socialmente enraizados sem perder de vista a
liberdade de crítica e a autonomia do pensamento
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O modelo tradicional em xeque
O
editorial da Nature sublinha que, após a Segunda Guerra Mundial, o ensino
superior deixou de ser privilégio das elites religiosas ou seculares e
tornou-se base ampla de educação e pesquisa. O número de estudantes no mundo
saltou de 10 milhões, em 1950, para mais de 264 milhões em 2023. Essa expansão
massiva, embora positiva, trouxe tensões.
Primeiro,
a crise do financiamento. Governos que antes custeavam as universidades como
parte da educação pública passaram a transferir custos para estudantes e
famílias, especialmente após a crise financeira de 2008. Esse processo
converteu o ensino superior em mercadoria, sujeita à lógica de mercado, como
mostram Santos e Almeida Filho (2008), ao analisar a mercantilização e a erosão
do caráter público da universidade. O resultado é o endividamento estudantil, a
precarização do trabalho docente e a captura de agendas de pesquisa por
interesses privados.
Segundo,
a homogeneização. Com a ascensão da avaliação por rankings internacionais,
modelos de “universidade de classe mundial” tornaram-se referência global, como
descreve Salmi (2009). Essa padronização privilegia indicadores de publicações,
patentes e parcerias empresariais, desconsiderando contextos locais e funções
sociais específicas.
Terceiro,
a perda de confiança social. Em muitos países, as universidades são acusadas de
elitismo, de não representar a diversidade de suas sociedades e de se afastar
das demandas sociais. A politização crescente – que leva governos a cortar
orçamentos, restringir vistos e limitar intercâmbios – agrava a crise de
legitimidade.
Nesse
cenário, como insiste Marginson (2022, 2023), a universidade corre o risco de
perder sua identidade como bem público global, reduzida a prestadora de
serviços educacionais e geradora de lucros. Antes de ceder ao imperatico da
inovação e da utilidade imediata é preciso a defesa intransigente da
independência intelectual do ambiente universitário e da liberdade de ensinar,
pesquisar e pensar.
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Descolonizar e diversificar saberes
Mbembe
(2015, 2016) propõe que a crise da universidade não é apenas financeira, mas
também epistêmica. O modelo eurocêntrico consolidado a partir da modernidade
colonial construiu currículos, disciplinas e formas de avaliação que
marginalizam saberes não ocidentais. A universidade tornou-se guardiã de um
arquivo excludente, que silencia tradições intelectuais africanas, indígenas,
asiáticas ou latino- americanas.
Nesse
sentido, reinventar a universidade exige um processo de descolonização: revisar
currículos, abrir espaço para epistemologias plurais, valorizar línguas e
memórias locais. Connell (2017) converge ao argumentar que as “teorias do Sul”
não devem ser apenas complemento exótico, mas parte constitutiva da produção de
conhecimento global. Isso significa, por exemplo, reconhecer contribuições
latino-americanas para teorias críticas da dependência, africanas para estudos
pós-coloniais ou indianas para filosofia política.
Boaventura
de Sousa Santos (2008) sugere uma “ecologia de saberes”, na qual o conhecimento
científico se articule com saberes populares e tradicionais. Para ele, a
universidade do século XXI deve ser intercultural, traduzindo e dialogando com
diferentes formas de conhecimento.
Ao
incorporar essas perspectivas, as universidades não apenas sobrevivem, mas se
tornam mais relevantes para sociedades plurais e desiguais.
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O papel das universidades do Sul Global
Enquanto
a Nature enfatiza a crise geral, autores como Altbach (2013) e Salmi (2009)
chamam atenção para os países em desenvolvimento. O desafio aqui é duplo:
ampliar o acesso ao ensino superior para populações historicamente excluídas e,
ao mesmo tempo, construir universidades de pesquisa capazes de sustentar o
desenvolvimento nacional.
Altbach
reconhece que universidades do Sul não precisam imitar Harvard ou Oxford. Em
vez disso, devem articular excelência científica com relevância local. Salmi
adverte contra a obsessão com “world-class universities”, defendendo que a
prioridade deve ser criar sistemas de ensino superior diversificados, com
instituições de diferentes perfis, todas comprometidas com qualidade.
Na
América Latina, experiências como a Reforma Universitária de Córdoba (1918) já
apontavam para universidades autônomas, democráticas e socialmente enraizadas.
Hoje, esse espírito renova-se em propostas de extensão crítica, de integração
com movimentos sociais e de produção de ciência orientada para problemas
nacionais – saúde, desigualdade, sustentabilidade. Não é por acaso que a
política de extensão universitária está em plena expansão nas 180 universidade
públicas brasileiras.
Portanto,
os países em desenvolvimento não são apenas receptores de modelos, mas
laboratórios vivos para novas universidades.
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Conhecimento como bem público e comum
A
Nature alerta que o financiamento da pesquisa depende de convencer governos e
eleitores de que investir em ciência é investir em crescimento. Contudo, essa
justificativa economicista é insuficiente. Marginson (2023) insiste que a
universidade deve ser entendida como produtora de bens comuns globais – saberes
que transcendem fronteiras e beneficiam coletividades.
O
relatório da UNESCO (2022), Transforming Knowledge for Just and Sustainable
Futures, reforça essa ideia: o conhecimento precisa ser orientado para justiça
social e sustentabilidade planetária. O relatório Futures of Education (ONU,
2022) aponta que reimaginar a educação superior é essencial para enfrentar
crises globais, do clima à desigualdade.
Assim,
a sobrevivência da universidade não depende apenas de provar seu valor
econômico, mas de afirmar seu papel na produção de saberes indispensáveis à
sobrevivência coletiva. Trata-se de um compromisso ético e político.
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Crítica ao produtivismo e alternativas
A
expansão da educação superior foi acompanhada pela intensificação do
produtivismo acadêmico. Publicar em revistas indexadas, captar recursos e
aparecer em rankings tornou se critério de avaliação. Como nota Agarwal (2015),
esse modelo sufoca a imaginação científica e limita a capacidade de inovação
real.
O
artigo de Glauco Arbix sobre a DeepSeek, startup chinesa que rompeu com a
lógica dominante da IA, ilustra uma lição para as universidades: muitas vezes,
a inovação nasce não da escala ou do acúmulo de recursos, mas da criatividade
para buscar caminhos alternativos. O “lean coding” pode inspirar um “lean
research”: pesquisa enxuta, colaborativa, voltada para problemas concretos e
com impacto social (Arbix, 2025).
Nesse
sentido, universidades do Sul Global, acostumadas a operar com restrições
orçamentárias, podem liderar movimentos de inovação que valorizem parcerias
locais, tecnologias abertas e interdisciplinaridade.
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Universidades e inovação social
O
editorial da Nature lembra que as universidades são motores de mobilidade
social e crescimento econômico. Mas essa visão deve ser expandida: como
ressaltam Boaventura e Mbembe, seu papel é também formar cidadãos críticos e
contribuir para justiça social. Exemplos abundam: universidades africanas que
desenvolvem pesquisas sobre saúde comunitária; latino-americanas que articulam
extensão universitária a movimentos sociais; indianas que inovam em agricultura
sustentável.
Essas
experiências mostram que a universidade pode ser centro de inovação social, não
apenas tecnológica. E que seu valor se mede pela transformação da vida das
pessoas, não apenas por patentes ou rankings.
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Geopolítica do conhecimento
A
revista destaca que as restrições a vistos e à imigração fragilizam a
cooperação científica. Arbix (2025) mostra que o protecionismo dos Estados
Unidos em relação à China ao tentar restringir o acesso a chips e tecnologias,
não conteve a inovação, mas, ao contrário, estimulou o desenvolvimento de
alternativas.
No
campo universitário, a lógica é semelhante. Barreiras impostas a estudantes e
pesquisadores do Sul limitam a circulação do conhecimento. Mas, paradoxalmente,
podem estimular soluções próprias: redes regionais de cooperação, uso de
tecnologias abertas, valorização de línguas locais.
O
desafio é construir uma geopolítica solidária do conhecimento, na qual
universidades do Sul dialoguem entre si e com o Norte em condições mais
simétricas. Isso exige políticas públicas, financiamento estável e
reconhecimento da diversidade epistemológica, sem perder de vista que a
universidade não deve ser concebida como uma “força produtiva direta” ou
simplesmente como prestadora de serviços para o mercado (Chauí, 2003). A
universidade pública, historicamente concebida como uma instituição social, deve
manter sua vocação própria de formação, de reflexão crítica e democratização do
saber (Cunha, 2007).
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Síntese e perspectivas
O
editorial está correto ao afirmar que as universidades precisam inovar para
sobreviver. Mas a análise crítica da literatura amplia essa conclusão:
• O problema não é apenas financeiro, mas
também epistêmico e político;
• O modelo eurocêntrico e mercantilizado
não responde às necessidades do século XXI;
• Países em desenvolvimento não devem
apenas copiar o Norte, mas propor modelos próprios, baseados em relevância
social e pluralidade de saberes, tornando cada vez mais o ensino e a pesquisa
indissociáveis da extensão universitária;
• O conhecimento deve ser tratado como bem
comum global, não como mercadoria;
• A inovação universitária deve ser
interdisciplinar e socialmente enraizada;
• A cooperação internacional precisa ser
fortalecida, mas sob novas bases de
Portanto,
a tempestade que atravessa as universidades é também oportunidade. Se souberem
reinventar-se, descolonizar-se e reorientar-se para os desafios do nosso tempo,
elas não apenas sobreviverão, mas serão forças decisivas para sociedades mais
justas e sustentáveis.
O
futuro da universidade não está garantido, mas pode ser construído – e os
países do Sul Global têm papel central nesse processo. Como lembra Mbembe, “não
se trata de incluir o Sul no cânone, mas de reinventar o cânone”. Essa é a
lição que tanto a Nature quanto os críticos convergem em apontar: a
universidade deve mudar para continuar a existir.
Fonte:
Por Raul Borges Guimarães, no Le Monde

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