quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Jeffrey D. Sachs: O ultimato dos genocidas

Poucas cenas expressam o declínio político e ético do Ocidente quanto o “acordo” de paz proposto ontem por Donald Trump ao primeiro ministro israelense Benyamin Netanyahu. Apresentada ontem (29/9) em meio ao genocídio contra a população de Gaza, a proposta surgiu sem qualquer consulta à liderança palestina. Foi lançada na forma de um ultimato. Ou o Hamas, que dirige o enclave, a aceita, ou Telaviv terá carta branca para tornar ainda mais brutal a carnificina, anunciou Trump a um sorridente Netantyahu. Os termos, esboçados num plano de vinte pontos, ignoram as resoluções da ONU e o apoio internacional cada vez mais amplo a um Estado palestino. Ao invés disso, propõem a formação de um “governo tecnocrático” em Gaza. Seria comandado por ninguém menos que o próprio Trump – com assessoria do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, um dos grandes responsáveis pela invasão do Iraque, que matou mais de 1 milhão de pessoas, e ignorou igualmente a comunidade internacional, mas terminou num fracasso humilhante para os EUA.

Estudioso atento da geopolítica internacional, o economista norte-americano Jeffrey Sachs analisou ainda ontem, em entrevista a Andrew Napolitano, a proposta. Expôs seu contexto caótico. Israel vive há três anos – desde que iniciou o genocídio contra Gaza – em crise econômica. Parte relevante da população emigrou, um fenômeno especialmente forte entre a juventude e as camadas com formação tecnológica. O isolamento internacional se agudiza. No entanto, num mundo em crise, este declínio não é capaz de deter a máquina de guerra. Ao contrário: Sachs adverte o Irã sobre a inconveniência de lançar apelos à paz. Eles serão interpretados por Telaviv e Washington como sinal de fraqueza e convite a novos ataques mortíferos.

A entrevista, traduzida por Outras Palavras e editada para eliminar repetições típicas da oralidade (foi feita originalmente em vídeo) convida a refletir sobre a necessidade de uma nova ordem internacional. A que foi comandada pelo Ocidente no pós-II Guerra – e em especial após a vitória norte-americana na Guerra Fria – está caduca. E dá mostras seguidas de que conduzirá a humanidade ao desastre.

>>>> LEIA A ENTREVISTA:

·        Professor Sachs, bem-vindo. Vamos direto ao noticiário do momento, que é o anúncio, feito pelo presidente Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, de um “acordo” para pôr fim à guerra em Gaza. Que fique claro: é umacerto entre os Estados Unidos e Israel; não entre Israel e seus adversários… Um plano para dizera ao Hamas que ele não tem escolha, a não ser concordar. Se não o fizer, o presidente Trump apoiará totalmente os esforços de Netanyahu para destruir tudo o que for vivo na Faixa de Gaza. Para onde isso vai levar?

É um em um típico ato de confusionismo trumpiano. O que poderia produzir a paz está claro. É um Estado da Palestina criado lado a lado com o Estado de Israel: o fim da negação do Estado palestino, junto com o fim do Hamas como força militar. Haveria um desfecho político, e um desfecho de segurança ligado a ele. Ao vincular o político e a segurança, você obteria o aceite de todos os países da região.

O que Trump está oferecendo não faz isso. O presidente diz que o movimento deve se render por completo, libertar os reféns e então… veremos! Israel se retiraria militarmente de Gaza passo a passo, mas teria arranjos de segurança gerais no enclave. O que está sendo oferecido — infelizmente, porque os EUA são um mediador desonesto, um apoiador do sionismo – é que o Hamas acabe com sua resistência, e o que virá politicamente… vamos ver! Observe o contexto. O primeiro-ministro Netanyahu disse na semana passada, na ONU que, sob nenhuma circunstância, haverá um Estado da Palestina. A posição israelense é: nós sabemos o que vem, nada. O Hamas deve se desarmar. Israel deve manter o controle sobre Gaza. Talvez haja até algum tipo de retirada em etapas, mas nunca espere um Estado palestino. Isso foi reiterado ainda em 29/9, numa reunião do Conselho de Segurança, pelo embaixador de Israel na ONU. Nesse arranjo, Gaza seria presidida por ninguém menos que o presidente Trump, supostamente apoiado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Também está claro, e foi dito, que o Hamas não foi de forma alguma parte deste chamado “acordo” entre os EUA e Israel. Não houve nenhuma negociação. Há poucos dias, ao contrário, Israel tentou matar os negociadores do Hamas que estavam no Catar, considerando os termos para um cessar-fogo. É um arranjo típico de como as coisas funcionam atualmente. Tudo é deixado ambíguo, porque Trump politicamente não está interessado, ou não é capaz de clareza em quase nada o que faz. Isso exigiria acompanhamento, consistência, diplomacia. Ele não opera dessa forma. Temos, por isso, um acordo mal-elaborado que pode significar nenhum acordo. Pode ser simplesmente rejeitado por Netanyahu quando ele entrar no avião, ou aterrissar em Israel, ou alegar que o Hamas discorda de certo ponto. Israel reservou-se o direito de não cumprir nada. Muito provavelmente, os combates continuarão. Se eles terminassem, o que seria maravilhoso, a verdadeira questão seria que a comunidade internacional, fora Israel e os Estados Unidos, reconhece esmagadoramente que precisa haver um Estado da Palestina. Não sei se fui claro.

·        Certamente. É um absurdo chamar isso de acordo de paz. É apenas um acordo entre o primeiro-ministro de Israel e o presidente dos Estados Unidos. Foi, aliás, condenados pelos dois principais membros de ultradireita no govrno de Netanyahu: Bezael Smotrich e Itamar Ben-Gvir. E Tony Blair atuaria em que papel? Fiador colonial?

Tony Blair, lembrem-se, foi o grande defensor da guerra no Iraque. É o grande reflexo do pensamento imperial britânico, que se mantém até hoje apesar do declínio. Quando você ouve Donald Trump, Tony Blair e o Banco Mundial, é, basicamente, a continuação de cem anos de tentativa britânico-americana de governar o mundo e permitir que Israel domine o povo palestino. O pior é que tudo isso se dá num contexto de assassinato em massa, de massacre. Todos queremos que haja um cessar-fogo, urgente. Isso deveria ocorrer em negociações políticas, de acordo com a justiça internacional, o direito, os padrões, a honestidade. Mas o que acaba de ser anunciado é, na melhor das hipóteses, confusionismo. O presidente está pedindo ao mundo: “Confiem em mim, eu sou Donald J. Trump.” Não há detalhes, nem especificidades. Eles saem da entrevista coletiva em meio a névoa, numa situação tão opaca que parece bizarra. Eles têm a manchete que queriam. Netanyahu está dizendo: “Eu apoio o plano do presidente.” Mas todo o resto é uma névoa completa.

·        Quão ruim está a situação em Israel, depois do que Netanyahu fez o país passar nos últimos dois anos e meio?

Israel está em situação hemorrágica. Está perdendo talento: os jovens não querem morar lá. E Centenas de milhares de pessoas estão deixando o país. O turismo, é claro, entrou em colapso. Cada vez mais países vão simplesmente interromper as relações econômicas com Israel. Já temos mais de três quartos dos países reconhecendo o Estado da Palestina, ao qual Israel jurou opor-se. Por isso, quase não importa o que aconteça nos próximos dias com este suposto plano de paz. Seja ele qual for, haverá sentimentos muito agressivos, e um isolamento de Israel. E só podemos imaginar, em qualquer circunstância, a tragédia que virá. Um oficial com quem falei esta tarde previu que a guerra não só continuará, como se estenderá à Cisjordânia. Israel fará o que puder para acabar com a Autoridade Palestina. Já começou uma campanha de propaganda para dizer que a região é o viveiro do terrorismo e de armamentos, e muita propaganda que parece claramente voltada a acabar com qualquer esperança de um Estado palestino. Voltando à sua pergunta sobre a economia, Israel ficará cada vez mais isolado e cada vez mais pessoas que vão sair. As consequências são muito más, olhando para qualquer tipo de futuro previsível, até que haja uma paz real e um Estado da Palestina. Esta é a única maneira de promover a paz: um fim à dominação, ao assassinato e ao regime de apartheid de Israel sobre o povo palestino. Infelizmente, nada disso ocorrerá, segundo o que ouvimos esta tarde. E é possível traçar um veredito muito negativo para a economia israelense. O que eles têm agora? Têm espionagem. São muito bons nisso, em assassinatos e em sistemas de armas. Mas a maior parte do resto da economia, o setor de serviços, o do turismo… O que se pode dizer sobre um lugar que está em guerra perpétua?

·        Qual é a sua opinião sobre o presidente Masoud Pezeshkian, do Irã, que promete em não construir uma arma nuclear? Qual sua sinceridade e o significado, no governo e na sociedade iraniana, dafatwa contra armas atômicas?

Existe um fatwa, um decreto religioso lançado há muito tempo, segundo o qual o Irã não deve construir uma arma nuclear. Eles têm seguido isso. O fato, é claro, foi interpretado como uma fraqueza por Israel e pelos EUA; portanto, como um convite para atacar o Irã repetidamente, incluindo assassinatos de cientistas, líderes políticos e militares iranianos. Não tenho dúvidas de que Israel tentará assassinar mais líderes iranianos. Infelizmente para o Irã, estas declarações de paz, que são feitas repetidamente e já duram há bem mais de uma década, são um recado para Telaviv. Quando o Irã diz querer paz, Israel reflete: “Ótimo, agora vamos matá-los. Isso mostra que são fracos.” É o que me preocupa. Acontece que o presidente do Irã é também um médico que leva muito, muito a sério sua responsabilidade ética. Ouvi-o falar longamente sobre isso: quando se tem um paciente sobre mesa e se deve operá-lo, não importa quem ele seja — é seu dever salvar essa pessoa. Ele discorreu longamente há poucos dias, e fez uma declaração muito pessoal a esse respeito. Mas tenho medo de que a CIA e o Mossad digam: Que ótimo. Vamos simplesmente eliminá-los.” Acho que, sem dúvida, é o que está sendo planejado neste momento.

·        Netanyahu corre o risco de perder seu governo e seu cargo? Podemos especular sobre o que vai acontecer com ele nessas condições. Em outras palavras, Ben-Gvir e Smotrich e seus colegas vão deixar o governo?

Netanyahu não vai deixar isso acontecer. Ele não é uma pessoa de paz. É um homem com sangue nas mãos e não tem absolutamente nenhuma intenção de perder o seu cargo. Vai encontrar uma maneira fácil de dizer que, bem, o Hamas não pontuou o i ou não cruzou o t, ou espirrou no momento errado, e isso foi um sinal para mais terrorismo… Ele vai inventar o que quiser para não perder sua coalizão extremista e assassina, que está dedicada acima de tudo ao controle completo de Israel sobre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Em outras palavras, não há a partir deste “acordo” nenhuma possibilidade de um Estado palestino. E se há alguma dúvida sobre isso, é só ouvir de novo. Eu sugiro a qualquer um: ouça novamente o discurso do Netanyahu na ONU, porque ele foi o mais claro possível: sob nenhuma condição … nunca haverá um Estado palestino. E Netanyahu não permitirá qualquer distanciamento de seus colegas extremistas, porque ele é igualmente extremo. E o que foi dito hoje não importará amanhã, nesse aspecto. Qualquer coisa que ponha em risco esta coalizão será bloqueada por Netanyahu. E ele está se preparando para a sua próxima campanha eleitoral, em algum momento. Vai apresentar-se como a pessoa que tornou o Estado palestino impossível para sempre. Seja matando todos os palestinos ou fazendo o que fizer, é nisso que ele vai basear a campanha. E pode ter certeza de que o que for acordado agora entre Israel e os Estados Unidos terá isso como um subtexto. Que vergonha esse homem é. “Deixe o meu povo ir,” diz o homem que está escravizando, aprisionando e assassinando milhões de palestinos. Refere-se aos 20 ou mais reféns, não aos milhões de pessoas que estão morrendo de fome, brutalizadas, trancadas num gigantesco campo de concentração, expropriadas por ele.É uma perversidade tão grande, mas é o que temos. E sim, ele ri satisfeito com a capacidade da Mossad de infiltrar os telefones dos libaneses. Continua com o deleite infantil diante dos pagers com armadilhas, que mutilaram e mataram muitas pessoas inocentes no Líbano há meses, num ataque para tentar assassinar os líderes do Hezbollah. Fez isso assassinando também mulheres e crianças, em lojas e mercados ou andando pela rua. Eles são muito orgulhosos desta tecnologia da morte.

¨      A conexão de Israel no genocídio dos povos guatemalteco e palestino. Por Amyra El Khalili

Repórter internacional do jornal Hora do Povo - onde atua há mais de três décadas, membro da Agência ComunicaSul e do Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo, dentre várias outras mídias contra-hegemônicas, Leonardo Wexell Severo tem acompanhado as lutas da Palestina e da Guatemala, países onde é parceiro do movimento popular contra o imperialismo e o sionismo. Nesta entrevista, o autor de “Latifúndio Midiota – Crimes, Crises e Trapaças” e “A CIA contra a Guatemala”, aborda o lançamento do seu novo livro “Guatemala e Palestina sob o tacão genocida de Israel – Uma história silenciada pela mídia hegemônica” (Editora Papiro, 126 páginas). De forma enfática, com riqueza de fontes e depoimentos, o autor denuncia “o caráter manipulador dos grandes conglomerados de comunicação como serviçais dos Estados Unidos e de Israel, e a forma como falseiam escancaradamente a realidade e silenciam na tentativa de absolver os criminosos e transformar a vítimas em culpadas”. Seu livro traz fatos escabrosos sobre a ditadura da Guatemala, que hoje passa por um julgamento histórico nas instituições do país, e ilumina mais um capítulo da participação de Israel em regimes ditatoriais e genocidas. Colunista do Correio e militante da causa palestina, a economista Amyra El Khalili conversou com Severo.

>>> Confira a íntegra a seguir.

·        De onde surgiu a ideia deste seu novo livro, tão oportuno para o momento atual?

Leonardo Wexell Severo: Eu estive na Palestina - em 2000 e 2015 - e na Guatemala - em 2013 e 2024 -, países que sempre tive muita proximidade, mas que passavam então por situações extremamente discrepantes. Enquanto a Guatemala vivia um processo de redemocratização com a eleição do presidente Bernardo Arévalo, tínhamos um recrudescimento do fascismo em Israel com Benjamin Netanyahu. Na Guatemala fizemos várias entrevistas e reportagens na capital e no seu rico interior com vítimas e parentes dos mais bárbaros crimes. Denúncias horripilantes, desde a descrição de testemunhas que presenciaram bebês jogados vivos em brasas para morrer, de crianças que foram estupradas – e permaneceram vivas para dar o testemunho de seus traumas -, de mulheres pelas quais passaram 20 soldados, até meninos e meninas que, após serem sequestrados, foram transformados em escravos por anos a fio. Tudo resultado da “formação” nazi-israelense, de profissionais da morte. Diante disso, acompanhei o julgamento do ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Benedicto Lucas Garcia, que após ser condenado a 2.860 anos de prisão pelo Tribunal de Alto Risco A, foi liberado de forma ridícula pelo Tribunal B, que invalidou todos os procedimentos do julgamento, evidenciando o jogo de cartas marcadas no judiciário. Vale dizer que atualmente com 92 anos, o general reformado é um dos comandantes carniceiros responsáveis pelo assassinato em massa cometidos ao lado do irmão, o presidente Fernando Romeo Lucas Garcia, que governou o país para os estrangeiros de 1º de julho de 1978 a 23 de março de 1982, e que morreu sem receber qualquer tipo de condenação. Importante ainda destacar que foi da escola sionista que Benedicto trouxe os termos “palestinização”, a prática de usurpação de territórios, da imposição de aldeias-modelo, campos de concentração e trabalhos forçados para os indígenas. Foi aí que a ideia do livro engatilhou e disparou. Espero que venha no alvo. E para ficar.

·        De que forma os israelenses contribuíram tão decisivamente para a sustentação das ditaduras militares na Guatemala?

Quando a opinião pública dos Estados Unidos pressionou o governo a retirar o seu apoio à carnificina, Israel caiu como uma luva. Os generais guatemaltecos também simpatizaram de imediato com a ideia. Afinal, os sionistas sempre estiveram por ali desde o começo dos anos 1970. Ao todo eram cerca de 300 assessores dos mais variados escalões e especialidades, desde a formação militar até a tecnológica, gente prática e racista. Nas cidades, havendo uma residência onde o consumo de energia sofresse uma alteração muito significativa, isso era avaliado pelos israelenses como um abrigo de guerrilheiros e a casa imediatamente cercada. Uma vez confirmado o foco oposicionista, todas as pessoas eram executadas. Contra os habitantes da zona rural a relação era ainda pior, pois os sionistas sempre viram nos árabes seres inferiores, da mesma forma que a tropa de “elite” Kaibile, formada em 1974 por guatemaltecos extremamente preconceituosos que desprezavam os maias, os tratavam como lixo. Por isso matavam da forma mais perversa mulheres, idosos e crianças, com requintes de crueldade.

·        Há um capítulo onde denuncia que junto à fábrica de munições construída por Israel está o maior centro de extermínio da Guatemala. Conte um pouco sobre isso.

As organizações de direitos humanos receberam a informação de que próximo à fábrica de munições de Cobán, localizada no centro de detenção e execução clandestino em Alta Vera Paz, onde funcionava uma base militar, “havia possivelmente duas pessoas enterradas”. A partir daí, entre 2012 e 2015, feitas as exumações pela Fundação de Antropologia Forense de Guatemala (FAFG), foram encontradas 565 ossaturas em quatro fossas. Pessoas que após terem sido torturadas, haviam sido enterradas ali entre 1981 e 1988. Pelo menos 90 eram crianças e adolescentes. As provas estão ali, incontestáveis. Entrevistamos o coordenador da Associação de Familiares de Detidos e Desaparecidos da Guatemala (Famdegua), Paulo Estrada, que acompanhou tudo de perto e é alguém de muita responsabilidade. Filho de Otto René e sobrinho de Julio Alberto Estrada, ambos “capturados e sumidos” pelo Estado guatemalteco em 1984, Paulo sobrevive sem residência fixa por questões de segurança e para manter acesas as denúncias dos crimes de lesa-humanidade, acompanhando os processos nos tribunais internacionais. Arqueólogo empenhado em lutar para fazer justiça às vítimas e a seus familiares, busca trazer à tona não apenas as provas dos crimes, mas seus financiadores, os que para entregar seu país às transnacionais se beneficiaram e continuam lucrando com a dor e o sangue alheios. É neste contexto que aparece num gigantesco e reluzente outdoor o nome do Estado terrorista de Israel.

·        E vamos para mais de 12 mil quilômetros dali. Qual é a maior lembrança que trazes da Palestina?

São tantas recordações intensas de Gaza e da Cisjordânia que mal dá para quantificar, mas sem dúvida foi o encontro com o presidente Yasser Arafat, fundador da Organização para Libertação da Palestina - OLP. Guardo esta foto comigo em dois lugares da casa e faço questão de editar nos meus livros, por conta do sorriso registrado daquele generoso líder. Acho que ele sentiu o quanto significou para o meu passado, e quanto continuaria impulsionando o meu presente e futuro. Sem palavras. Mas há coisas também extremamente dolorosas, como as crianças palestinas que jogaram pedras nos tanques de Israel e que foram vítimas de balas de aço revestidas com borracha. Dos tiros dados por fuzis com mira telescópica ”para não matar, mas apenas cegar”. Um nível de desumanidade do sionismo que vem das trevas. Lembro também a tristeza da esposa que ficou viúva no primeiro dia após o casamento, pois um tanque invadiu sua aldeia e o soldado executou seu marido, que protestava atirando pedras. O convite do casamento, colorido e cheio de vida, permanecia ali, pintado na parede externa da casa, chamando os vizinhos. Uma dor só. Também trago comigo a foto do pequeno Tarek, de apenas 11 anos, que fez o V da vitória, com o braço estilhaçado por balas de fuzil. Afinal, como ousou levantar a mão e jogar pedras em um tanque? A seu lado no hospital, o pai olhava com admiração a determinação do filho em continuar com o ato simbólico de expulsão do invasor. Um gesto altivo, tantas vezes repetido como odiado e temido pelos agressores israelenses, que revelava a persistência da insubmissão.

·        Qual é a tua mensagem para o povo palestino?

Em meio a tanta morte e destruição, vocês palestinos são um exemplo para as nossas presentes e futuras gerações, porque é a Humanidade que está em jogo. Ninguém esquecerá jamais os horrores de Gaza que, diferente do campo de concentração de Auschwitz, está sendo televisionada e com direito a interpretações mirabolantes de “profissionais de imprensa”, verdadeiros capachos do império e dos nazi-israelenses quando justificam e aplaudem o genocídio. Levo em conta, me inspiro e inclusive cito no meu livro a música Pedrada, do brasileiro Chico César: “Cães danados do fascismo babam e arreganham os dentes, sai do ovo a serpente, fruto podre do cinismo, para oprimir as gentes, nos manter no escravismo, pra nos empurrar no abismo e nos triturar com os dentes. Mas nós temos a pedrada pra jogar, a bola incendiária está no ar (vai voar), fogo nos fascistas. Fogo, já!”. Que continuemos sempre juntos, irmanados com a causa palestina para construir um mundo novo, do tamanho dos nossos sonhos. Até a vitória. Sempre!

 

Fonte: Entrevista para Andrew Napolitano | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/Correio da Cidadania

 

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