Jeffrey
D. Sachs: O ultimato dos genocidas
Poucas
cenas expressam o declínio político e ético do Ocidente quanto o “acordo” de
paz proposto ontem por Donald Trump ao primeiro ministro israelense Benyamin
Netanyahu. Apresentada ontem (29/9) em meio ao genocídio contra a população de
Gaza, a proposta surgiu sem qualquer consulta à liderança palestina. Foi
lançada na forma de um ultimato. Ou o Hamas, que dirige o enclave, a aceita, ou
Telaviv terá carta branca para tornar ainda mais brutal a carnificina, anunciou
Trump a um sorridente Netantyahu. Os termos, esboçados num plano de vinte
pontos, ignoram as resoluções da ONU e o apoio internacional cada vez mais
amplo a um Estado palestino. Ao invés disso, propõem a formação de um “governo
tecnocrático” em Gaza. Seria comandado por ninguém menos que o próprio Trump –
com assessoria do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, um dos grandes
responsáveis pela invasão do Iraque, que matou mais de 1 milhão de pessoas, e
ignorou igualmente a comunidade internacional, mas terminou num fracasso
humilhante para os EUA.
Estudioso
atento da geopolítica internacional, o economista norte-americano Jeffrey Sachs
analisou ainda ontem, em entrevista a Andrew Napolitano, a proposta. Expôs seu
contexto caótico. Israel vive há três anos – desde que iniciou o genocídio
contra Gaza – em crise econômica. Parte relevante da população emigrou, um
fenômeno especialmente forte entre a juventude e as camadas com formação
tecnológica. O isolamento internacional se agudiza. No entanto, num mundo em
crise, este declínio não é capaz de deter a máquina de guerra. Ao contrário:
Sachs adverte o Irã sobre a inconveniência de lançar apelos à paz. Eles serão
interpretados por Telaviv e Washington como sinal de fraqueza e convite a novos
ataques mortíferos.
A
entrevista, traduzida por Outras Palavras e editada para eliminar repetições
típicas da oralidade (foi feita originalmente em vídeo) convida a refletir
sobre a necessidade de uma nova ordem internacional. A que foi comandada pelo
Ocidente no pós-II Guerra – e em especial após a vitória norte-americana na
Guerra Fria – está caduca. E dá mostras seguidas de que conduzirá a humanidade
ao desastre.
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LEIA A ENTREVISTA:
·
Professor Sachs, bem-vindo. Vamos direto ao noticiário do
momento, que é o anúncio, feito pelo presidente Donald Trump, ao lado
do primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, de um
“acordo” para pôr fim à guerra em Gaza. Que fique claro: é umacerto
entre os Estados Unidos e Israel; não entre Israel e seus adversários… Um
plano para dizera ao Hamas que ele não tem escolha, a não
ser concordar. Se não o fizer, o presidente Trump apoiará totalmente os
esforços de Netanyahu para destruir tudo o que for vivo na Faixa de
Gaza. Para onde isso vai levar?
É um em
um típico ato de confusionismo trumpiano. O que poderia produzir a
paz está claro. É um Estado da Palestina criado lado a lado com o Estado de
Israel: o fim da negação do Estado palestino, junto com o fim do Hamas como
força militar. Haveria um desfecho político, e um desfecho de segurança ligado
a ele. Ao vincular o político e a segurança, você obteria o aceite de todos os
países da região.
O que
Trump está oferecendo não faz isso. O presidente diz que o movimento deve se
render por completo, libertar os reféns e então… veremos! Israel se retiraria
militarmente de Gaza passo a passo, mas teria arranjos de segurança gerais no
enclave. O que está sendo oferecido — infelizmente, porque os EUA são um
mediador desonesto, um apoiador do sionismo – é que o Hamas acabe com sua
resistência, e o que virá politicamente… vamos ver! Observe o contexto. O
primeiro-ministro Netanyahu disse na semana passada, na ONU que, sob nenhuma
circunstância, haverá um Estado da Palestina. A posição israelense é: nós
sabemos o que vem, nada. O Hamas deve se desarmar. Israel deve
manter o controle sobre Gaza. Talvez haja até algum tipo de retirada em etapas,
mas nunca espere um Estado palestino. Isso foi reiterado ainda em 29/9, numa
reunião do Conselho de Segurança, pelo embaixador de Israel na ONU. Nesse
arranjo, Gaza seria presidida por ninguém menos que o presidente Trump,
supostamente apoiado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Também
está claro, e foi dito, que o Hamas não foi de forma alguma parte deste chamado
“acordo” entre os EUA e Israel. Não houve nenhuma negociação. Há poucos dias,
ao contrário, Israel tentou matar os negociadores do Hamas que estavam no
Catar, considerando os termos para um cessar-fogo. É um arranjo típico de como
as coisas funcionam atualmente. Tudo é deixado ambíguo, porque Trump
politicamente não está interessado, ou não é capaz de clareza em quase nada o
que faz. Isso exigiria acompanhamento, consistência, diplomacia. Ele não opera
dessa forma. Temos, por isso, um acordo mal-elaborado que pode significar
nenhum acordo. Pode ser simplesmente rejeitado por Netanyahu quando ele entrar
no avião, ou aterrissar em Israel, ou alegar que o Hamas discorda de certo
ponto. Israel reservou-se o direito de não cumprir nada. Muito provavelmente,
os combates continuarão. Se eles terminassem, o que seria maravilhoso, a
verdadeira questão seria que a comunidade internacional, fora Israel e os Estados
Unidos, reconhece esmagadoramente que precisa haver um Estado da Palestina. Não
sei se fui claro.
·
Certamente. É um absurdo chamar isso de
acordo de paz. É apenas um acordo entre o primeiro-ministro de Israel e o
presidente dos Estados Unidos. Foi, aliás, condenados pelos dois
principais membros de ultradireita no govrno de Netanyahu: Bezael Smotrich e
Itamar Ben-Gvir. E Tony Blair atuaria em que papel? Fiador colonial?
Tony
Blair, lembrem-se, foi o grande defensor da guerra no Iraque. É o grande
reflexo do pensamento imperial britânico, que se mantém até hoje apesar do
declínio. Quando você ouve Donald Trump, Tony Blair e o Banco Mundial, é,
basicamente, a continuação de cem anos de tentativa britânico-americana de
governar o mundo e permitir que Israel domine o povo palestino. O pior é que
tudo isso se dá num contexto de assassinato em massa, de massacre. Todos
queremos que haja um cessar-fogo, urgente. Isso deveria ocorrer em negociações
políticas, de acordo com a justiça internacional, o direito, os padrões, a
honestidade. Mas o que acaba de ser anunciado é, na melhor das hipóteses,
confusionismo. O presidente está pedindo ao mundo: “Confiem em mim, eu sou
Donald J. Trump.” Não há detalhes, nem especificidades. Eles saem da entrevista
coletiva em meio a névoa, numa situação tão opaca que parece bizarra. Eles têm
a manchete que queriam. Netanyahu está dizendo: “Eu apoio o plano do
presidente.” Mas todo o resto é uma névoa completa.
·
Quão ruim está a situação em Israel,
depois do que Netanyahu fez o país passar nos últimos dois anos e meio?
Israel
está em situação hemorrágica. Está perdendo talento: os jovens não querem morar
lá. E Centenas de milhares de pessoas estão deixando o país. O turismo, é
claro, entrou em colapso. Cada vez mais países vão simplesmente interromper as
relações econômicas com Israel. Já temos mais de três quartos dos países
reconhecendo o Estado da Palestina, ao qual Israel jurou opor-se. Por isso,
quase não importa o que aconteça nos próximos dias com este suposto plano de
paz. Seja ele qual for, haverá sentimentos muito agressivos, e um isolamento de
Israel. E só podemos imaginar, em qualquer circunstância, a tragédia que virá.
Um oficial com quem falei esta tarde previu que a guerra não só continuará,
como se estenderá à Cisjordânia. Israel fará o que puder para acabar com a
Autoridade Palestina. Já começou uma campanha de propaganda para dizer que a
região é o viveiro do terrorismo e de armamentos, e muita propaganda que parece
claramente voltada a acabar com qualquer esperança de um Estado palestino. Voltando
à sua pergunta sobre a economia, Israel ficará cada vez mais isolado e cada vez
mais pessoas que vão sair. As consequências são muito más, olhando para
qualquer tipo de futuro previsível, até que haja uma paz real e um Estado da
Palestina. Esta é a única maneira de promover a paz: um fim à dominação, ao
assassinato e ao regime de apartheid de Israel sobre o povo
palestino. Infelizmente, nada disso ocorrerá, segundo o que ouvimos esta tarde.
E é possível traçar um veredito muito negativo para a economia israelense. O
que eles têm agora? Têm espionagem. São muito bons nisso, em assassinatos e em
sistemas de armas. Mas a maior parte do resto da economia, o setor de serviços,
o do turismo… O que se pode dizer sobre um lugar que está em guerra perpétua?
·
Qual é a sua opinião sobre
o presidente Masoud Pezeshkian, do Irã, que promete em
não construir uma arma nuclear? Qual sua sinceridade e o
significado, no governo e na sociedade iraniana, dafatwa contra armas
atômicas?
Existe
um fatwa, um decreto religioso lançado há muito tempo, segundo o
qual o Irã não deve construir uma arma nuclear. Eles têm seguido isso. O fato,
é claro, foi interpretado como uma fraqueza por Israel e pelos EUA; portanto,
como um convite para atacar o Irã repetidamente, incluindo assassinatos de
cientistas, líderes políticos e militares iranianos. Não tenho dúvidas de que
Israel tentará assassinar mais líderes iranianos. Infelizmente para o Irã,
estas declarações de paz, que são feitas repetidamente e já duram há bem mais
de uma década, são um recado para Telaviv. Quando o Irã diz querer paz, Israel
reflete: “Ótimo, agora vamos matá-los. Isso mostra que são fracos.” É o que me
preocupa. Acontece que o presidente do Irã é também um médico que leva muito,
muito a sério sua responsabilidade ética. Ouvi-o falar longamente sobre isso:
quando se tem um paciente sobre mesa e se deve operá-lo, não importa quem ele
seja — é seu dever salvar essa pessoa. Ele discorreu longamente há poucos dias,
e fez uma declaração muito pessoal a esse respeito. Mas tenho medo de que a CIA
e o Mossad digam: Que ótimo. Vamos simplesmente eliminá-los.” Acho que, sem
dúvida, é o que está sendo planejado neste momento.
·
Netanyahu corre o risco de perder seu governo e seu
cargo? Podemos especular sobre o que vai acontecer com ele nessas
condições. Em outras palavras, Ben-Gvir e Smotrich e seus colegas vão deixar o
governo?
Netanyahu
não vai deixar isso acontecer. Ele não é uma pessoa de paz. É um homem com
sangue nas mãos e não tem absolutamente nenhuma intenção de perder o seu cargo.
Vai encontrar uma maneira fácil de dizer que, bem, o Hamas não pontuou o i ou
não cruzou o t, ou espirrou no momento errado, e isso foi um sinal para mais
terrorismo… Ele vai inventar o que quiser para não perder sua coalizão
extremista e assassina, que está dedicada acima de tudo ao controle completo de
Israel sobre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Em outras palavras, não há
a partir deste “acordo” nenhuma possibilidade de um Estado palestino. E se há
alguma dúvida sobre isso, é só ouvir de novo. Eu sugiro a qualquer um: ouça
novamente o discurso do Netanyahu na ONU, porque ele foi o mais claro possível:
sob nenhuma condição … nunca haverá um Estado palestino. E Netanyahu não
permitirá qualquer distanciamento de seus colegas extremistas, porque ele é
igualmente extremo. E o que foi dito hoje não importará amanhã, nesse aspecto.
Qualquer coisa que ponha em risco esta coalizão será bloqueada por Netanyahu. E
ele está se preparando para a sua próxima campanha eleitoral, em algum momento.
Vai apresentar-se como a pessoa que tornou o Estado palestino impossível para
sempre. Seja matando todos os palestinos ou fazendo o que fizer, é nisso que
ele vai basear a campanha. E pode ter certeza de que o que for acordado agora
entre Israel e os Estados Unidos terá isso como um subtexto. Que vergonha esse
homem é. “Deixe o meu povo ir,” diz o homem que está escravizando, aprisionando
e assassinando milhões de palestinos. Refere-se aos 20 ou mais reféns, não aos
milhões de pessoas que estão morrendo de fome, brutalizadas, trancadas num
gigantesco campo de concentração, expropriadas por ele.É uma perversidade tão
grande, mas é o que temos. E sim, ele ri satisfeito com a capacidade da Mossad
de infiltrar os telefones dos libaneses. Continua com o deleite infantil diante
dos pagers com armadilhas, que mutilaram e mataram muitas
pessoas inocentes no Líbano há meses, num ataque para tentar assassinar os
líderes do Hezbollah. Fez isso assassinando também mulheres e crianças, em
lojas e mercados ou andando pela rua. Eles são muito orgulhosos desta
tecnologia da morte.
¨
A conexão de Israel no genocídio dos povos guatemalteco e
palestino. Por Amyra El Khalili
Repórter
internacional do jornal Hora do Povo - onde atua há mais de três décadas,
membro da Agência ComunicaSul e do Sindicato dos Escritores do Estado de São
Paulo, dentre várias outras mídias contra-hegemônicas, Leonardo Wexell Severo
tem acompanhado as lutas da Palestina e da Guatemala, países onde é parceiro do
movimento popular contra o imperialismo e o sionismo. Nesta entrevista, o autor
de “Latifúndio Midiota – Crimes, Crises e Trapaças” e “A CIA contra a
Guatemala”, aborda o lançamento do seu novo livro “Guatemala e Palestina sob o
tacão genocida de Israel – Uma história silenciada pela mídia hegemônica”
(Editora Papiro, 126 páginas). De forma enfática, com riqueza de fontes e
depoimentos, o autor denuncia “o caráter manipulador dos grandes conglomerados
de comunicação como serviçais dos Estados Unidos e de Israel, e a forma como
falseiam escancaradamente a realidade e silenciam na tentativa de absolver os
criminosos e transformar a vítimas em culpadas”. Seu livro traz fatos
escabrosos sobre a ditadura da Guatemala, que hoje passa por um julgamento
histórico nas instituições do país, e ilumina mais um capítulo da participação
de Israel em regimes ditatoriais e genocidas. Colunista do Correio e militante
da causa palestina, a economista Amyra El Khalili conversou com Severo.
>>>
Confira a íntegra a seguir.
·
De onde surgiu a ideia deste seu novo livro, tão oportuno
para o momento atual?
Leonardo
Wexell Severo: Eu
estive na Palestina - em 2000 e 2015 - e na Guatemala - em 2013 e 2024 -,
países que sempre tive muita proximidade, mas que passavam então por situações
extremamente discrepantes. Enquanto a Guatemala vivia um processo de
redemocratização com a eleição do presidente Bernardo Arévalo, tínhamos um
recrudescimento do fascismo em Israel com Benjamin Netanyahu. Na Guatemala
fizemos várias entrevistas e reportagens na capital e no seu rico interior com
vítimas e parentes dos mais bárbaros crimes. Denúncias horripilantes, desde a
descrição de testemunhas que presenciaram bebês jogados vivos em brasas para
morrer, de crianças que foram estupradas – e permaneceram vivas para dar o
testemunho de seus traumas -, de mulheres pelas quais passaram 20 soldados, até
meninos e meninas que, após serem sequestrados, foram transformados em escravos
por anos a fio. Tudo resultado da “formação” nazi-israelense, de profissionais
da morte. Diante disso, acompanhei o julgamento do ex-chefe do Estado-Maior das
Forças Armadas, Benedicto Lucas Garcia, que após ser condenado a 2.860 anos de
prisão pelo Tribunal de Alto Risco A, foi liberado de forma ridícula pelo
Tribunal B, que invalidou todos os procedimentos do julgamento, evidenciando o
jogo de cartas marcadas no judiciário. Vale dizer que atualmente com 92 anos, o
general reformado é um dos comandantes carniceiros responsáveis pelo
assassinato em massa cometidos ao lado do irmão, o presidente Fernando Romeo
Lucas Garcia, que governou o país para os estrangeiros de 1º de julho de 1978 a
23 de março de 1982, e que morreu sem receber qualquer tipo de condenação.
Importante ainda destacar que foi da escola sionista que Benedicto trouxe os
termos “palestinização”, a prática de usurpação de territórios, da imposição de
aldeias-modelo, campos de concentração e trabalhos forçados para os indígenas.
Foi aí que a ideia do livro engatilhou e disparou. Espero que venha no alvo. E
para ficar.
·
De que forma os israelenses contribuíram tão
decisivamente para a sustentação das ditaduras militares na Guatemala?
Quando
a opinião pública dos Estados Unidos pressionou o governo a retirar o seu apoio
à carnificina, Israel caiu como uma luva. Os generais guatemaltecos também
simpatizaram de imediato com a ideia. Afinal, os sionistas sempre estiveram por
ali desde o começo dos anos 1970. Ao todo eram cerca de 300 assessores dos mais
variados escalões e especialidades, desde a formação militar até a tecnológica,
gente prática e racista. Nas cidades, havendo uma residência onde o consumo de
energia sofresse uma alteração muito significativa, isso era avaliado pelos
israelenses como um abrigo de guerrilheiros e a casa imediatamente cercada. Uma
vez confirmado o foco oposicionista, todas as pessoas eram executadas. Contra
os habitantes da zona rural a relação era ainda pior, pois os sionistas sempre
viram nos árabes seres inferiores, da mesma forma que a tropa de “elite”
Kaibile, formada em 1974 por guatemaltecos extremamente preconceituosos que
desprezavam os maias, os tratavam como lixo. Por isso matavam da forma mais perversa
mulheres, idosos e crianças, com requintes de crueldade.
·
Há um capítulo onde denuncia que junto à fábrica de
munições construída por Israel está o maior centro de extermínio da Guatemala.
Conte um pouco sobre isso.
As
organizações de direitos humanos receberam a informação de que próximo à
fábrica de munições de Cobán, localizada no centro de detenção e execução
clandestino em Alta Vera Paz, onde funcionava uma base militar, “havia
possivelmente duas pessoas enterradas”. A partir daí, entre 2012 e 2015, feitas
as exumações pela Fundação de Antropologia Forense de Guatemala (FAFG), foram
encontradas 565 ossaturas em quatro fossas. Pessoas que após terem sido
torturadas, haviam sido enterradas ali entre 1981 e 1988. Pelo menos 90 eram
crianças e adolescentes. As provas estão ali, incontestáveis. Entrevistamos o
coordenador da Associação de Familiares de Detidos e Desaparecidos da Guatemala
(Famdegua), Paulo Estrada, que acompanhou tudo de perto e é alguém de muita
responsabilidade. Filho de Otto René e sobrinho de Julio Alberto Estrada, ambos
“capturados e sumidos” pelo Estado guatemalteco em 1984, Paulo sobrevive sem
residência fixa por questões de segurança e para manter acesas as denúncias dos
crimes de lesa-humanidade, acompanhando os processos nos tribunais
internacionais. Arqueólogo empenhado em lutar para fazer justiça às vítimas e a
seus familiares, busca trazer à tona não apenas as provas dos crimes, mas seus
financiadores, os que para entregar seu país às transnacionais se beneficiaram
e continuam lucrando com a dor e o sangue alheios. É neste contexto que aparece
num gigantesco e reluzente outdoor o nome do Estado terrorista de Israel.
·
E vamos para mais de 12 mil quilômetros dali. Qual é a
maior lembrança que trazes da Palestina?
São
tantas recordações intensas de Gaza e da Cisjordânia que mal dá para
quantificar, mas sem dúvida foi o encontro com o presidente Yasser Arafat,
fundador da Organização para Libertação da Palestina - OLP. Guardo esta foto
comigo em dois lugares da casa e faço questão de editar nos meus livros, por
conta do sorriso registrado daquele generoso líder. Acho que ele sentiu o
quanto significou para o meu passado, e quanto continuaria impulsionando o meu
presente e futuro. Sem palavras. Mas há coisas também extremamente dolorosas,
como as crianças palestinas que jogaram pedras nos tanques de Israel e que
foram vítimas de balas de aço revestidas com borracha. Dos tiros dados por
fuzis com mira telescópica ”para não matar, mas apenas cegar”. Um nível de
desumanidade do sionismo que vem das trevas. Lembro também a tristeza da esposa
que ficou viúva no primeiro dia após o casamento, pois um tanque invadiu sua
aldeia e o soldado executou seu marido, que protestava atirando pedras. O
convite do casamento, colorido e cheio de vida, permanecia ali, pintado na
parede externa da casa, chamando os vizinhos. Uma dor só. Também trago comigo a
foto do pequeno Tarek, de apenas 11 anos, que fez o V da vitória, com o braço
estilhaçado por balas de fuzil. Afinal, como ousou levantar a mão e jogar
pedras em um tanque? A seu lado no hospital, o pai olhava com admiração a
determinação do filho em continuar com o ato simbólico de expulsão do invasor.
Um gesto altivo, tantas vezes repetido como odiado e temido pelos agressores
israelenses, que revelava a persistência da insubmissão.
·
Qual é a tua mensagem para o povo palestino?
Em meio
a tanta morte e destruição, vocês palestinos são um exemplo para as nossas
presentes e futuras gerações, porque é a Humanidade que está em jogo. Ninguém
esquecerá jamais os horrores de Gaza que, diferente do campo de concentração de
Auschwitz, está sendo televisionada e com direito a interpretações mirabolantes
de “profissionais de imprensa”, verdadeiros capachos do império e dos
nazi-israelenses quando justificam e aplaudem o genocídio. Levo em conta, me
inspiro e inclusive cito no meu livro a música Pedrada, do brasileiro Chico
César: “Cães danados do fascismo babam e arreganham os dentes, sai do ovo a
serpente, fruto podre do cinismo, para oprimir as gentes, nos manter no
escravismo, pra nos empurrar no abismo e nos triturar com os dentes. Mas nós
temos a pedrada pra jogar, a bola incendiária está no ar (vai voar), fogo nos
fascistas. Fogo, já!”. Que continuemos sempre juntos, irmanados com a causa
palestina para construir um mundo novo, do tamanho dos nossos sonhos. Até a
vitória. Sempre!
Fonte:
Entrevista para
Andrew Napolitano | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/Correio da
Cidadania

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