As
duas modernidades eurocêntricas
O
capitalismo realmente existente se constituiu por meio de duas modernidades
eurocêntricas mundializadas:
(i) A
europeia, que dominou do Renascimento até no máximo o término da Segunda Guerra
Mundial, palco da expansão e saqueio coloniais dos povos e da emergência da
burocracia militar, econômico-financeira e cultural imperialista que cumpriu a
função de reprimir as intensas lutas de classes do movimento operário cada vez
mais organizado, em seu interior, ao mesmo tempo em que realizou uma
multitudinária e genocida reengenharia social em escala planetária, através da
manipulação migratória de sua própria população para diferentes lugares do
planeta e do deslocamento de milhões de trabalhadores africanos e asiáticos
para as Américas, da exportação de capital para as periferias do sistema-mundo
e de guerras interimperialistas impulsionadas pela concorrência em torno da
acumulação primitiva às custas dos recursos naturais e superexploração dos
povos do Sul Global.
(ii) A
norte-Americana, hegemônica após a Segunda Guerra Mundial, tendo recebido
alguns nomes revisionistas no âmbito acadêmico, como pós-modernidade, época do
superimperialismo industrial-produtivo estadunidense, em conformidade a Michael
Hudson de Super Imperialism: the origin and Fundamentals of U.S. World
Dominance (2003), globalização e contemporaneidade ou simplesmente
contemporâneo.
A fase pós-moderna do superimperialismo
industrial-produtivo se constituiu com base no superávit comercial,
oportunizando o excedente libidinal, encarnado na invenção da juventude
transviada e festiva, tendo o Rock and roll como alegoria estilizada da luta de
classes fora de qualquer referência a relações sociais de produção.
Entrou
em crise em função dos improdutivos gastos militares na guerra de EUA contra o
Vietnã ( 1955-1975), período a partir do qual o pós-moderno foi gradativamente
sendo substituído pela categoria da globalização ou globalismo, até chegar ao
momento do falso atual, em que tem sido designada como “contemporâneo”, com
lastro no “imperialismo de cartão de crédito” e, portanto, no déficit
fiduciário dolarizado com o mundo, fase não por acaso de caráter religioso e
messiânico; da promessa de pagamento e do retorno a um passado cosmogônico
pré-moderno, razão de ser da dominância, no Ocidente
(i) do
neopentecostalismo, com seu apelo ao retorno ao Antigo Testamento; (ii) e do
wokismo da “esquerda” financiado pelo Partido Democrata, com o seu despertar
que pode ser traduzido como guerra identitária contra a soberania
nacional-popular dos povos ou messianismo da essência a si (fora da história)
negra, indígena, homoafetiva, feminina; o novo suposto MayFlower dos puritanos
de gênero e étnicos – não brancos e não héteros, só aceitos ( os brancos e
héteros), com muitas reservas, se se domesticam pela culpa.
Do
ponto de vista do mercado teórico, a modernidade do superimperialismo
norte-americano, em seu primeiro período de superávit comercial ( fase da
juventude anárquica), foi dominada por teorias como estruturalismo e
pós-estruturalismo, epistemologias, principalmente a última, com lastro antes
de tudo na França rebelde ao hegemonismo estadunidense; uma forma, portanto, de
cooptação de seus intelectuais como, por exemplo, Jacques Lacan, Louis
Althusser, Jacques Derrida, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari,
seduzindo-os para o eixo do culturalismo da fase do bem-estar social ianque.
O
segundo, por sua vez, foi hegemonizado pelos anglo-saxônicos, tendo em vista os
estudos culturais britânicos do final da década dos noventa do século passado,
e, ato contínuo, o pós-colonialismo canadense e, finalmente, o decolonialismo e
a ancestralidade norte-americanos, considerando:
(i) Que
o primeiro, o decolonialismo, a pretexto de ser a versão do pós-colonialismo
africano e asiático para a América Latina cumpre a função revisionista de
cancelamento do marxismo europeu anti-imperialista e independentista, ao mesmo
tempo em que oculta a onipresença da Doutrina Monroe, com seus golpes,
intervenções militares e estilos de vida, do México ao Chile.
(ii)
que a segunda, ancestralidade, funcionando como se fosse uma teoria que se
dedica à interface entre África e Brasil, sem a presença ianque, é, na verdade
uma guerra epistemológica, estilo stay behind, devotada a sabotar a presença da
China no continente africano e no Brasil, ao esgrimir o sofisma de que todas as
formas de progresso são antiecológicas e que por isso é preciso voltar à
cosmogonia das comunidades coletivas anteriores às grandes civilizações do
passado – um antes do antes ou um antes do Antigo Testamento. Delírio total!
Em A
Universidade necessária (969), a propósito, Darcy Ribeiro exprimiu seu profundo
descontentamento com o nosso sistema universitário público, assinalando a
mediocridade de seu desempenho cultural e científico e a profunda indiferença
frente aos problemas do povo que o mantém, o brasileiro.
As
políticas de internacionalização universitária no país têm sido marcadas pela
acoplagem subserviente e acrítica ao revisionismo teórico do sistema
universitário imperialista euro-norte-americano, desprezando o pensamento
social brasileiro e replicando modas que surgem e desaparecem, assim como
(co)formando professores e pesquisadores que a rigor nutrem uma deletéria
indiferença alienada relativamente à questão central da soberania
nacional-popular, de base anti-imperialista, sem a qual nada de digno, criativo,
inteligente, justo é possível, muito menos o combate ao racismo e à violência
de gênero.
Funcionam
como diluidores internos, ao menos desde a década de setenta do passado século,
do mercado teórico dominado pelos anglo-saxões, situação que é absolutamente
inaceitável porque, antes de tudo, chancela, adotando como próprio, o que não
passa de neocolonialismo epistemológico do metaimperialismo estadunidense.
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Os condenados da Terra de Franz Fanon
A
modernidade capitalista eurocêntrica norte-americana emergiu como
metamodernidade em relação à europeia, o que significa que, de modo paralelo,
separada pelo excepcionalismo geográfico ( não faz fronteira com as antigas
civilizações; e nem com a Europa), pela sacada, observou com distanciamento as
lutas religiosas e de classes ocorridas no processo de constituição da
modernidade europeia não apenas para evitá-las em seu interior, mas também para
usá-las como armas de guerra contra a Alemanha, a Inglaterra, a França, enfim,
contra os concorrentes interimperialistas, razão por que manipulou dos
bastidores as duas guerras europeias do século XX ( chamadas arrogantemente de
mundiais), a de 1914 a 1918 e a de 1931 (invasão do Japão à Manchúria, na
China) a 1945, com o objetivo de alcançar a hegemonia imperialista do planeta,
o que de fato ocorreu, iniciando a quarta guerra do capitalismo eurocêntrico (
uma redundância) contra os povos, designada de forma eufêmica como guerra fria.
Como
metamodernidade, a estadunidense se define como manipulação integral de tudo
que existiu e existe, controlando e ao mesmo tempo transformando em formas de
guerra tanto a produção, a circulação e consumo de bens e serviços, inclusive
bens e serviços culturais e teóricos, o que significa, por exemplo, que autor
algum circulou e circula mundialmente por seus talentos próprios ou porque
tenha algo realmente importante a dizer, o que vale inclusive para um pensador
engajado tão brilhante como Franz Fanon, de Pele negra, máscaras brancas,
publicado em 1952; e Os condenados da Terra, em 1961, obras que se concentram
na crítica do “sistema de bens”, sob o ponto de vista eurocêntrico, da
modernidade europeia, pouco fornecendo de contribuição reflexiva e analítica
sobre a modernidade realmente onipresente à época de sua militante existência
anticolonial; a norte-americana.
O texto
a seguir é a conclusão modificada de Os condenados da Terra; um incisivo
panfleto critico de Franz Fanon contra o sistema colonial europeu e um apelo
aos povos colonizados para abandonarem todas as esperanças relativamente à
velha Europa e suas promessas, quaisquer que sejam. Como todos os argumentos
conclusivos caem “como uma luva” na descrição/análise da modernidade
norte-americana, substituí Europa por EUA, transformando-o numa crítica
atualizada do inferno ianque contra os povos do mundo.
Onde se
lê, pois, Estados Unidos e termos correlatos, como norte-americanos, leia-se,
em conformidade ao original, Europa, europeus. Onde se lê Sul Global, leia-se,
por sua vez, como era hábito à época, Terceiro Mundo.
O texto
está entre aspas por razões óbvias; é de Franz Fanon.
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Conclusão modificada de Os condenados da Terra
“Vamos,
camaradas, é melhor que mudemos de procedimento desde já. A grande noite em que
estivemos mergulhados, cumpre que a abalemos e nos livremos dela. O dia novo
que já desponta deve encontrar-nos firmes, avisados e resolutos. É preciso que
renunciemos a nossos sonhos, abandonemos nossas velhas crenças e nossas
amizades anteriores à vida. Não percamos tempo como litanias estéreis ou
mimetismos nauseabundos. Deixemos esses EUA que não cessam de falar do homem
enquanto o massacra por toda a parte onde o encontra, em todas as esquinas de
suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo. Há décadas (no original,
séculos) que os EUA impedem o avanço dos outros homens e os submete a seus
desígnios e à sua glória; há décadas (no original, séculos) que, em nome de uma
suposta “aventura espiritual”, vêm asfixiando a quase totalidade da humanidade.
Vemos, hoje, oscilar entre a desintegração atômica e a desintegração
espiritual.
E,
todavia, no plano das realizações” pode dizer-se que ela foi bem-sucedida.
Os EUA
assumiram a direção do mundo com ardor, cinismo e violência.
E vemos
como a sombra de seus monumentos se estende e se multiplica. Cada movimento de
EUA fez estalar os limites do espaço e os do pensamento. Os EUA recusaram-se a
toda humildade, a toda modéstia, e também a toda solicitude, a toda afeição.
Os EUA
só se mostraram parcimoniosos com o homem, mesquinha, carniceira, homicida só
com o homem.
Então,
irmãos, como não compreender que não nos convém seguir esses ianques?
Esses
Estados Unidos que nunca pararam de falar do homem, de proclamar que só se
preocupavam com o homem, sabemos hoje com que sofrimentos a humanidade pagou
cada uma das vitórias de seu espírito.
Vamos,
camaradas, o jogo norte-americano está definitivamente terminado, é necessário
encontrar outra coisa. Podemos fazer tudo hoje, desde que não macaqueemos os
EUA, desde que não nos deixemos empolgar pelo desejo de alcançar os ianques.
Os
Estados Unidos adquiriram uma velocidade tão louca, tão desordenada, que escapa
hoje a todo condutor, a toda razão, e a arrasta numa assombrosa vertigem para
abismos dos quais é melhor que nos afastemos o mais depressa possível.
É bem
verdade, porém, que carecemos de um modelo, de esquemas, de exemplos. Para
muitos dentre nós, o modelo estadunidense é o mais exultante. Ora, vimos nas
páginas precedentes a que insucessos nos conduzia essa imitação. As realizações
norte-americanas, a técnica estadunidense, o american way of life devem cessar
de nos tentar e de nos desequilibrar.
Quando
procuro o homem na técnica e no estilo estadunidenses, vejo uma sucessão de
negações do homem, uma avalancha de morticínios.
A
condição humana, os projetos do homem, a colaboração entre os homens para as
tarefas que aumentam a totalidade do homem são problemas novos que exigem
verdadeiras invenções.
Decidamos
não imitar os EUA e retesemos nossos músculos e nosso cérebro numa direção
nova. Tratemos de inventar o homem total que os EUA foram incapazes de fazer
triunfar.
Há dois
séculos uma antiga colônia europeia resolveu alcançar a Europa. E tal foi o seu
êxito que os Estados Unidos da América se converteram num monstro em que as
taras, as doenças e a desumanidade da Europa atingiram dimensões espantosas.
Camaradas,
não teremos outra coisa a fazer senão criar um segundo EUA? O Ocidente quis ser
uma aventura do Espírito. Foi em nome do Espírito, do espírito europeu, tornado
EUA, entenda-se que o Ocidente justificou seus crimes e legitimou a escravidão
na qual conservava quatro quintos da humanidade.
Sim, o
espírito norte-americano teve fundamentos singulares. Toda a reflexão
estadunidense se desenvolveu em lugares cada vez mais desérticos, cada vez mais
escarpados, Assim, tornou-se hábito encontrar aí cada vez menos o homem.
Um
diálogo permanente consigo mesmos, um narcisismo cada vez mais obsceno não
cessaram de preparar o leito para um quase delírio, onde a atividade cerebral
se torna um sofrimento, as realidades não sendo as do homem que vive, trabalha
e se forja a si mesmo, mas palavras, agregados variados de palavras, as tensões
nascidas dos significados contidos nas palavras. Contudo, norte-americanos
existiram que convidaram os trabalhadores a destruir esse narcisismo e a romper
com essa desrealização.
De
maneira geral, os trabalhadores norte-americanos não responderam a esses
apelos. Porque os trabalhadores, eles também, se imaginaram ligados à aventura
prodigiosa do Espírito estadunidense.
Todos
os elementos de uma solução para os grandes problemas da humanidade existiram,
em momentos diversos, no pensamento de EUA. Mas a ação dos homens
norte-americanos não realizou a missão que lhes competia e que consistia em
refletir intensamente sobre esses elementos, em lhes modificar o arranjo, o
ser, em transformá-los, enfim, em levar o problema do homem a um nível
incomparavelmente superior.
Hoje
assistimos a um êxtase de EUA. Fujamos, camaradas, desse movimento imóvel em
que a dialética, pouco a pouco, se transfez em lógica do equilíbrio. Retomemos
a questão do homem. Retomemos a questão da realidade cerebral, da massa
cerebral de toda a humanidade, da qual é preciso multiplicar as conexões,
diversificar as ramificações e tornar a humanizar as mensagens.
Vamos,
irmãos, temos muito trabalho, não podemos divertir-nos com jogos da retaguarda.
Os Estados Unidos fizeram o que tinha de fazer e, no fim de contas, fê-lo bem;
vamos parar de acusá-los e dizer-lhes com firmeza que não deve mais continuar a
fazer tanto barulho. Não precisamos temê-los mais; paremos, portanto, de
invejá-los.
O Sul
Global surge hoje diante de EUA como uma massa colossal cujo projeto deve ser o
de tentar resolver os problemas aos quais esses mesmos Estados Unidos não
souberam oferecer soluções.
Mas,
então, convém não falar em rendimento, não falar em intensificação, não falar
em ritmos. Não, não se trata de retorno à Natureza. Trata-se, de modo bastante
concreto, de não impelir os homens em direções que os mutilam, de não impor ao
cérebro ritmos que rapidamente o obliteram e desarranjam. Não é necessário, a
pretexto de recuperar o perdido, pôr o homem de pernas para o ar, arrancá-lo de
si mesmo, de sua intimidade, quebrantá-lo, mata-lo.
Não,
não queremos alcançar ninguém. Queremos, isto sim, marchar o tempo todo, noite
e dia, em companhia do homem, de todos os homens. Não se trata de alongar a
caravana, porque então cada fila percebe apenas a que a precedente, e os homens
que não se reconhecem mais encontram-se cada vez menos, falam-se cada vez
menos.
Trata-se,
para o Sul Global, de recomeçar uma história do homem que tenha em conta ao
mesmo tempo as teses às vezes prodigiosas sustentadas por EUA e também os
crimes de Estados Unidos dos quais os mais odiosos terão sido, no interior do
homem, o esquartejamento patológico de suas funções e o esmigalhamento de sua
unidade, no quadro de uma coletividade a fratura, a estratificação, as tensões
sangrentas alimentadas pelas classes, enfim, na escala imensa da humanidade, os
ódios raciais, a escravidão, a exploração e sobretudo o genocídio exangue que
representa a segregação da maioria esmagadora dos homens.
Portanto,
camaradas, não paguemos tributo aos Estados Unidos criando Estados,
instituições e sociedades que neles se inspirem.
A
humanidade espera de nós uma coisa bem diferente dessa imitação caricatural e
no conjunto obscena
Se
desejamos transformar a África num novo EUA, o Sul Global, em EUA, então
confiemos aos norte-americanos o destino de nosso país. Eles saberão fazê-lo
melhor do que os mais bem-dotados dentre nós.
Mas, se
queremos que a humanidade avance um furo, se queremos levar a humanidade a um
nível diferente daquele onde os Estados Unidos a expuseram, então temos de
inventar, temos de descobrir.
Se
queremos corresponder à expectativa de nossos povos, temos de procurar noutra
parte, não nos EUA.
Mais
ainda, se queremos corresponder à expectativa dos norte-americanos, não devemos
devolver-lhes uma imagem, mesmo ideal, de sua sociedade e de seu pensamento,
pelos quais eles experimentam de vez em quando uma imensa náusea.
Pelos
EUA, por nós mesmos e pela humanidade, camaradas, temos de mudar de
procedimento, desenvolver um pensamento novo, tentar colocar de pé um homem
novo”.
Fonte:
Por Luis Eustáquio Soares, em A Terra é Redonda

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