Instabilidade
e crise na política brasileira
Enquanto
acompanhava o noticiário acerca da votação da Medida Provisória do imposto
sobre operações financeiras (IOF) caducar, bem como da resistência do lobby das
bets à matéria, na Câmara Federal, li Instabilidade e crise na política
brasileira.
O livro
contempla treze capítulos assinados por vinte autoras e autores e me inclinou a
pensar, inevitavelmente, no que estaria por trás da supracitada luta de
congressistas entre si e deles com o poder executivo federal: quais seriam as
frações de classes sociais interessadas em direcionar a política pública para a
não taxação das casas de apostas e de fintechs?
O
título do livro, por si, já coloca o problema da orientação de políticas
públicas de maneira qualificada: vige (nas últimas semanas, anos e algumas
décadas), na escolha e na prioridade das pautas da agenda pública nacional,
crise, instabilidade ou estabilidade permeada de tensões?
Divisar
entre os termos permite majorar o alcance do diagnóstico acerca da conjuntura
brasileira na monta de fenômenos que o arco histórico das pesquisas contempla:
a periodização proposta expõe como estável o período de 1994 a 2014 e de
instável o sucessor, cujo vinco inicial é a contestação, pelo PSDB, do
resultado da eleição presidencial de 2014.
Nos
anos seguintes, com o neofascismo bolsonarista ganhando força, a instabilidade
escalou da contestação de resultado de eleições ao ataque ininterrupto às
instituições e à tentativa fracassada de golpe de 08 de janeiro de 2023.
Como
“estabilidade”, as instituições ainda atuam, mesmo que resignadamente, diante
de demandas que ficam subsumidas temporal, política e protocolarmente:
trocam-se as frações de classes como detentoras da hegemonia do poder político
formal, mas sem que se coloque a democracia liberal como alvo.
Não há
como não se lembrar dos anos PSDB e PT como principais contendores pela
Presidência da República: a despeito das diferenças entre o neoliberalismo do
primeiro e (algum) neodesenvolvimentismo do segundo, a Nova República seguia
seu rame-rame sem, aparentemente, enveredar pela corrosão daquela
institucionalidade.
Contudo,
a molecagem de Aécio Neves, o candidato derrotado do PSDB para a eleição de
2014, que insistiu na recontagem dos votos daquele pleito, patenteou, no palco
da política, o que já estava esboçado nas coxias da sociedade e da economia.
Subjacente
à instabilidade daí decorrente estava o conflito distributivo entre classes e
frações de classes, a lide delas para entrarem no bloco no poder e para serem a
fração politicamente hegemônica, sobremaneira, entre as frações do grupo
dominante: a heterogeneidade das empresas que se diferenciam a partir do lugar
que ocupam no processo produtivo, do porte, de monopolizarem ou não seus
setores, de serem nacionais ou estrangeiras, de produzirem para o mercado
interno ou externo são fatores importantes para o entendimento das razões dos
conflitos internos das classes burguesas.
Da
maneira como lutam para tentar inclinar as políticas de Estado para um lado ou
para outro, a despeito de tais frações poderem, reunidas, compor um bloco no
poder (mesmo que unitário, não isento de contradições e conflitos e não
homogêneo), sob a liderança e hegemonia política de uma ou alguma das frações
no que concerne à prioridade e à execução das políticas de Estado.
Assim,
as pesquisadoras e os pesquisadores colocam uma lupa no grupo da classe
dominante e divisam dois grupos com força para a disputa da hegemonia política,
a saber, a grande burguesia associada (ligada mais diretamente à dominação
imperialista) e a grande burguesia interna (não necessariamente nacionalista ou
anti-imperialista, dependente financeira e tecnologicamente do capital externo
e em luta com ele para garantir a sobrevivência).
Um
exemplo deste segundo grupo é o caso dos maiores bancos comerciais nacionais
que sabem que a desnacionalização do varejo bancário seria desastrosa para
eles; com efeito, não aderem, integralmente, ao neoliberalismo e, a depender da
conjuntura, podem compor o bloco no poder com as classes subjacentes e com
frações da burguesia que também têm interesses não necessariamente idênticos
aos da burguesia associada.
Tais
bancos tiveram seus interesses atendidos, desde os primeiros governos petistas,
não apenas pelo protecionismo em relação à presença estrangeira no setor, mas
também em virtude do tripé macroeconômico, do crescimento da dívida pública
interna, da bancarização e da popularização do crédito.
Fizeram
parte do bloco no poder neodesenvolvimentista e ali ficaram porque também
perceberam que a condução das políticas não encetava qualquer forma rompimento
da continuidade do capitalismo periférico e dependente em vigência. E mesmo às
vésperas da votação do impeachment de Dilma Rousseff, os bancos Itaú e Bradesco
declararam apoio ao governo e mostraram-se desinteressados na instabilidade.
As duas
frações têm aliados fora do bloco no poder, com a burguesia interna atraindo,
principalmente, movimentos operário e popular. A hipótese do livro é a de que a
grande burguesia associada e a interna revezaram-se como fração hegemônica no
bloco no poder, estável e sem rupturas, até 2014, fenômeno possível porque, a
despeito das diferenças, ambas constituíam-se como parte do grande capital: de
Fernando Collor a Fernando Henrique Cardoso, com predomínio da burguesia
associada; a partir do ensaio de neodesenvolvimentismo petista, da burguesia
interna (que demandava maior proteção e incentivo do Estado); com Michel Temer
e Jair Bolsonaro, o pêndulo moveu-se novamente para o controle da burguesia
associada e radicalizou o neoliberalismo com as reformas previdenciária e
trabalhista, a imposição do teto de gastos e a autonomia do Banco Central.
O
pêndulo em uma ou outra fração não rompeu com o regime de acumulação em
vigência; contudo, no segundo posicionamento favorável à burguesia associada,
com instabilidade política eivada de autoritarismo.
Tal
restauração da burguesia associada como hegemônica politicamente ocorreu com a
ofensiva de empresas multinacionais, do lawfare, do Departamento de Justiça dos
EUA mediante à Operação Lava-Jato, do Golpe de 2016, de grandes manifestações
nas ruas atacando as instituições da democracia liberal: cônscia de que não
conseguia vencer Lula nas urnas, a retomada da hegemonia política pela
burguesia associada precisou da virada de mesa, do impedimento do principal
político do país se candidatar em 2018, do desrespeito do resultado eleitoral
de 2022 e da tentativa de golpe, ao início de 2023.
Aquele
revezamento estável entre a grande burguesia interna e a grande burguesia
associada, observado entre 1994 e 2014, foi metamorfoseado em contínuas ações
autoritárias e preparatórias de efetivação de golpe de Estado, em virtude da
majoração das contradições e da crise econômica do capitalismo não mais poderem
adiar o amargor das políticas neoliberais citadas no parágrafo anterior, o
aprofundamento delas e o advento de outras. Edificava-se o neofascismo como
força política que atraiu para si grande parte do campo neoliberal e suspendeu
a frente policlassista de cariz neodesenvolvimentista.
Contudo,
parte considerável da fração interna da burguesia também sujou as mãos com o pó
do neofascismo: ela organizou-se segundo o programa da burguesia associada à
medida que se incomodou, entre outras coisas, com a política de valorização do
salário mínimo, com o crescimento do movimento reivindicatório dos
trabalhadores durante o segundo governo Dilma Rousseff (2000 greves por ano
entre 2013 e 2016), com os reajustes salariais acima da inflação, com o não
andamento das reformas trabalhista e previdenciária e com uma política externa
mais próxima ao Mercosul e aos BRICS do que com os EUA.
Estas
foram contrapartidas materiais que motivaram a adesão da burguesia interna ao
programa que contradizia seus próprios interesses, uma vez que a ortodoxia
neoliberal vetava a continuidade de políticas desenvolvimentistas que aqueciam
as atividades fabris. As indústrias representadas pela FIESP, por exemplo,
foram vitoriosas naquilo que correspondia ao triunfo sobre a classe
trabalhadora, a exemplo da reforma trabalhista e da imposição do teto dos
gastos públicos, sob o governo Temer; contudo, o esvaziamento do BNDES minou a
política de desenvolvimento e de competitividade doméstica que eram
interessantes para as indústrias filiadas àquela federação. Mesmo perdendo como
fração, ganharam como classe.
Eis
mais um caso de abandono da agenda neodesenvolvimentista em favor da neoliberal
entre frações da classe burguesa: agroindustriais canavieiros do Estado de São
Paulo apoiaram o ensaio neodesenvolvimentista enquanto houve política
governamental de investimento em biocombustíveis, créditos e financiamentos
subsidiados para o setor e lide da política externa brasileira para alçar o
etanol como commodity no mercado mundial e que contribuiria para a diminuição
de efeitos deletérios ao meio ambiente.
Contudo,
já sob efeitos da crise financeira de 2008 e a partir da política de controle
de preços dos combustíveis, da centralidade do pré-sal e do petróleo na matriz
energética, do endividamento das usinas oriundo do período de expansão dos
investimentos no setor, houve corrosão do apoio destes empresários à frente
neodesenvolvimentista e, aos poucos, o grupo foi aderindo à agenda da ortodoxia
neoliberal.
O médio
capital sucroalcooleiro foi o primeiro a engajar-se nesta agenda, e o grande
capital (interno) moveu-se pendularmente no momento próximo ao impeachment de
Dilma Rousseff, uma vez que também estava prejudicado pela centralidade que o
poder público dava ao setor petrolífero, que desejava facilitação na
legalização da propriedade rural para estrangeiros (pauta importante para o
capital internacional e para a burguesia a ele associada que operavam no setor
– o capital estrangeiro se tornou cada vez maior nele e subordinou os capitais
de portes médio e pequeno).
Tanto o
pequeno e médio quanto o grande capital uniram-se, como vetores de
instabilidade, para condenar a prioridade governamental ao setor petroleiro – a
Operação Lava Jato potencializou tal entrelaçamento – e ao reivindicar aquelas
reformas antipopulares que foram se efetivar sob o governo Temer.
Nos
dois momentos de hegemonia de fração de classe dominante, a associada e a
interna, a média burguesia e a classe média, tiveram parte considerável de seus
interesses relegados a um plano secundário e elas também se moveram
pendularmente entre os campos neoliberal e desenvolvimentista, a exemplo da
fração superior da classe média e do médio capital nacional que abandonaram os
governos petistas.
Contudo,
funcionaram como base social que arvorou um campo próprio, neofascista: a
classe média, revoltada com a conquista de direitos trabalhistas das empregadas
domésticas, sob Dilma Rousseff, e com as políticas de cotas que, desde os
primeiros governos Lula, fizeram com que a reserva de mercado nas universidades
e no serviço público fosse perdida, sentiu-se vitimada por uma desclassificação
social diante da modesta ascensão das classes subjacentes e reagiu,
ideologicamente, apregoando a meritocracia como meio de seleção.
Tanto
no fascismo original, como no movimento neofascista brasileiro e hodierno,
frações intermediárias organizaram-se e alçaram-se ao poder político (no
Brasil, também aglutinando setores da classe dominante e populares,
contemplando tanto a Faria Lima como os filiados ao neopentecostalismo das
periferias), mas, na condução deste, terminaram por colocarem-se a serviço da
grande burguesia (no caso brasileiro, do capital internacional e da burguesia a
ele associada), a despeito desta não controlar todos os disparates e os
voluntarismos neofascistas, a exemplo do 08 de janeiro de 2023.
O livro
trata de mais frações de classes, material e ideologicamente importantes para
tratar do pêndulo movendo-se entre neodesenvolvimentismo e neoliberalismo.
Simbólica
e materialmente, a alta classe média sentia a corrosão de seus privilégios;
proprietários de médias e pequenas empresas estavam ressentidos com o apoio
governamental às grandes empresas nacionais e, assim, tornaram-se suscetíveis
às propostas da burguesia associada; a pequeno burguesia de segmentos como os
de lojistas, taxistas, proprietários de bares e restaurantes.
Caminhoneiros
etc. também engajaram-se como agentes de instabilidade; proprietários de terra
de médio capital (com terras maiores que as de pequenos agricultores e de
agricultura familiar, mas menores que as do grande capital e dominados por este
na jusante e na montante da produção, na força que ele exerce na precificação
das mercadorias, no amplo domínio tecnológico que o capital estrangeiro impõe
na cadeia produtiva), a despeito de terem se aproveitado das ações de crédito e
de investimento em transportes, reorientaram-se em direção ao neoliberalismo da
burguesia associada por desejarem maior repressão aos movimentos sociais no
campo, tais como o camponês, o indígena, o quilombola e o ambientalista.
Estes
proprietários também sentiam-se insatisfeitos com o apoio governamental ao
grande capital, mediante políticas de apoio aos campeões nacionais, do
agronegócio e à agricultura familiar, mediante o Pronaf – eles consideravam-se
preteridos entre as duas pontas e formaram um contingente de base do
bolsonarismo.
Frações
dos trabalhadores organizados não foram as mais atendidas pelos governos
desenvolvimentistas e, outras frações, mais desorganizadas, como a de massa
marginal, mesmo eleitoralmente preservando-se fiel ao lulismo, não defenderam o
governo nas ruas quando ele esteve sob ataque; uma grande massa pentecostal,
cujo apanágio ideológico é a crença na ascensão social individual, reforçada
pela teologia da prosperidade e pela defesa de uma forma de família que ela
acredita ser “tradicional”, também aderiu à agenda neoliberal à medida que as
pautas conservadoras estavam contempladas pelas lideranças neofascistas.
Tais
frações de classe, já estavam presentes naquela segunda fase do Junho de 2013,
quando as pautas das manifestações guiaram-se à direita e palmilharam pelo
antipetismo: em relação às manifestações da semana anterior, com reivindicações
e partícipes integrados à esquerda, os manifestantes que foram às ruas, em São
Paulo, tinham mais idade, constituíram-se como um grupo com maior percentual de
assalariados registrados, com maior número de profissionais liberais – de
maneira geral, o número de pessoas com renda e escolaridade mais elevadas
mostravam que a classe média ganhava as ruas.
Emerge,
no ínterim da instabilidade e da crise, um neofascismo que, amalgamando
autoritarismo, neoliberalismo e populismo de direita, tendo como principal
esteio social a pequena burguesia e a classe média, conquistou o Executivo
Federal e o colocou a serviço da fração burguesa associada ao grande capital
internacional (notadamente, a do segmento financeiro), cujas derrotas
eleitorais, desde 2002, encontrou outro meio para campear seu domínio.
Terminada
a leitura, nota-se e sublinha-se a vitalidade metodológica da análise das
classes e frações de classes – muito bem realizada desde Marx, na metade do
século XIX, quando ele analisou a conjuntura francesa em O 18 Brumário de Luís
Bonaparte – para explicar as orientações, à direita e à esquerda, das políticas
adotadas, das crises e das instabilidades sob as quais vivemos;
Ccapital
e trabalho não formam blocos monolíticos, eles estão constituídos de frações e,
assim, desvendar os conflitos internos em cada uma das classes e a maneira como
conseguem constituir frentes policlassistas sob a direção de certas frações de
classe foram as luzes que as autoras e autores dos capítulos elencados em
Instabilidade e crise na política brasileira jogaram nas raízes mais profundas
da política brasileira para explicar o que aparece na superfície.
Outrossim,
adverte-se que, mesmo sendo parte do que se convencionou chamar de “Escola
Poulantzas de Campinas”, há diferenças entre as perspectivas das autorias (o
que problematiza o termo “escola”) e uma certa heterodoxia entre elas: é
verdade que os trabalhos contemplam, sobretudo, o campo semântico e as
concepções de clássicos do marxismo, a exemplo de Nicos Poulantzas
(notadamente, este), Palmiro Togliatti, Antonio Gramsci etc., mas não deixam de
mobilizar ideias de outras tradições, tais como as de Norberto Bobbio e de
Hannah Arendt et alli.
E o elã
de parte da Câmara Federal para não taxar as Bets e as fintechs? Acompanhemos
as frações de classe envolvidas na questão!
Fonte: Por Anderson Alves Esteves, em A Terra é
Redonda

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