quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Uso excessivo de antibióticos pode elevar risco de doenças na infância

O uso excessivo de antibióticos nos dois primeiros anos de vida pode causar consequências a longo prazo na saúde. Um grande estudo conduzido no Reino Unido, com dados de mais de 1 milhão de crianças acompanhadas entre 1987 e 2020, identificou que a exposição precoce a esses medicamentos está associada a um risco maior de desenvolver asma, alergias alimentares e, em alguns casos, até deficiência intelectual.

O trabalho foi publicado na revista científica Clinical Infectious Diseases e analisou prontuários eletrônicos de crianças para avaliar os efeitos da prescrição de antibióticos na primeira infância. Entre os bebês que tomaram o medicamento antes dos 2 anos, houve um aumento significativo no diagnóstico de doenças alérgicas, como asma (24% mais comum), alergia alimentar (33% mais comum) e rinite alérgica (6% mais comum). O risco foi ainda maior entre as crianças que receberam múltiplos ciclos do tratamento.

“Esses resultados são um importante alerta. Antibióticos salvam vidas, mas, se forem usados em excesso e fora de indicação precisa, podem modificar o futuro imunológico e neurológico das crianças”, comentou o pediatra Linus Pauling Fascina, gerente médico do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho, em São Paulo, unidade pública gerida pelo Einstein Hospital Israelita.

Segundo ele, na prática clínica já se observa que o uso abusivo de antibióticos na infância está ligado a mais casos de alergias e asma, em parte devido ao impacto desses remédios no microbioma intestinal. “Mas a ligação com deficiência intelectual é inédita e chama atenção para a urgência de aprofundar pesquisas”, afirmou.

De fato, uma das associações mais surpreendentes do estudo foi justamente com a deficiência intelectual. Crianças expostas a cinco ou mais ciclos de antibióticos antes dos 2 anos apresentaram um risco quase três vezes maior de desenvolver essa condição em comparação com aquelas que tomaram apenas um ou dois ciclos. Na avaliação do pediatra, trata-se de um dado que muda a dimensão do debate e precisa ser avaliado com cautela.

“Nos primeiros anos de vida, o intestino ainda está formando sua flora bacteriana. Quando usamos antibióticos, principalmente de forma repetida, eliminamos não apenas as bactérias nocivas, mas também as benéficas. O eixo intestino-cérebro, responsável por modular neurotransmissores, inflamação e até a plasticidade neuronal, pode estar sendo profundamente impactado por antibióticos em uma fase crítica de desenvolvimento, disse.

Apesar dos achados expressivos, o estudo não encontrou associação entre o uso de antibióticos e outras doenças, como diabetes tipo 1, doença celíaca, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou ansiedade. Os autores reforçam que os dados foram ajustados para minimizar fatores de confusão, como histórico familiar, nível socioeconômico e condições pré-existentes.

<><> Uso indiscriminado

O problema, segundo Fascina, não está no antibiótico em si, mas no uso indiscriminado desse medicamento. Muitas vezes, antibióticos são prescritos como medida preventiva ou por pressão dos pais, mesmo em quadros que não justificam a intervenção. “Infelizmente, ainda existe o mito de que antibiótico ‘cura qualquer coisa’. Isso leva à prescrição desnecessária, principalmente em casos de febre baixa, gripes ou resfriados, causados por vírus e não respondem a esse tipo de medicamento”, disse.

Mas como saber quando o uso é realmente necessário? “Há situações em que os antibióticos são inegociáveis, como pneumonia bacteriana, meningite, sepse, infecção urinária grave ou otite média supurada de repetição. Nessas condições, o medicamento salva vidas.”

O risco está nas prescrições excessivas em quadros virais, onde não há eficácia. Para reduzir essa prática, o pediatra defende estratégias como a educação contínua de profissionais de saúde, a explicação clara aos pais sobre a diferença entre infecção viral e bacteriana, e até a conduta do “esperar e observar”, quando a segurança do paciente permite.

O médico ressalta que os pais podem contribuir para a prevenção desde cedo ao adotar o uso racional de medicamentos e algumas medidas essenciais. Entre elas estão: realizar um pré-natal responsável, evitar antibióticos desnecessários durante a gestação, estimular o parto normal sempre que possível, priorizar o aleitamento materno exclusivo até os seis meses, manter as vacinas em dia, reduzir a exposição a fatores nocivos — como tabagismo passivo e poluição — e garantir uma dieta equilibrada para mãe e bebê. Ele reforça ainda a importância de conversar com o pediatra sobre as reais indicações do antibiótico e de evitar a automedicação.

•        Campanha alerta para falhas na prescrição de antibióticos em hospitais

Uma pesquisa realizada com pouco mais de 100 hospitais brasileiros alerta para um cenário preocupante: um em cada cinco não ajusta corretamente a dosagem de antibióticos. O estudo foi lançado na quarta-feira (20) pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), como parte da campanha “Será que precisa? Evitando a resistência antimicrobiana por antibióticos e antifúngicos”.

Realizada pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG) em unidades de saúde públicas e privadas, a pesquisa alerta para a necessidade de evitar o uso excessivo ou ineficaz desses medicamentos, o que aumenta o risco de infecções por bactérias resistentes.

Entre os 104 hospitais públicos e privados onde a pesquisa foi feita, 87,7% ainda usam os antibióticos empiricamente, o que quer dizer que os médicos prescrevem as dosagens e medicamentos por tentativa e erro.

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“Todos os indicadores reforçam a urgência de políticas públicas robustas. Precisamos urgentemente combater o uso indiscriminado de antibióticos”, afirmou a presidente do IQG, Mara Machado.

Segundo os médicos, a falta de ajuste correto dos antibióticos é um ponto a mais no cenário de risco de infecção hospitalar e aumento da resistência de bactérias a esses remédios, além de problemas no meio ambiente.

Sem o ajuste ideal, o uso excessivo desses medicamentos cria o risco aumentado do surgimento de microorganismos resistentes, contra os quais eles não farão mais efeito. Mara Machado explicou que a resistência antimicrobiana impede o real controle de uma infecção.

No Brasil, estima-se que 48 mil pessoas morram por ano por infecções resistentes, totalizando mais de 1,2 milhão de mortes até 2050. “Por isso o controle dessa cadeia da prescrição até o descarte dos antibióticos, é importante para diminuir a resistência a esses medicamentos", disse.

“A pesquisa revelou, no entanto, que todos os hospitais avaliados, por exemplo, não possuem nem protocolo de descarte nem análise de efluentes hospitalares, tornando essa situação também um problema ambiental”, acrescentou a pesquisadora.

Os organizadores da campanha destacam que a resistência antimicrobiana já é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma crise silenciosa, capaz de superar o câncer em número de mortes até 2050. Infecções comuns, como urinárias, pneumonias e ferimentos cirúrgicos, se tornam cada vez mais difíceis ou até impossíveis de tratar, levando a mais de 5 milhões de mortes por ano.

“Fazer uso empírico e sem evidências pode levar a outros graves problemas de saúde pública. A resistência aos antibióticos é um fator agravante em muitos casos de morte, por exemplo, em UTIs. São riscos desnecessários que poderiam ser evitados com maior controle. Os hospitais possuem as comissões de controle de infecção hospitalar, mas existem muitas falhas”, ressaltou a infectologista coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da SBI, Ana Gales.

A infectologista e coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Ana Gales Rovena Rosa/Agência Brasil

Para o presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (AHOSP), Anis Ghattás, os hospitais têm papel central nesse combate.

“Por isso, estamos trabalhando ativamente para a implementação de protocolos rigorosos e capacitação de equipes para uso racional de antimicrobianos. Nosso compromisso é a orientação técnica. Queremos promover uma resposta coletiva coordenada”, finalizou.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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