Imposto
de renda: lobistas do agro e indústria atuaram na surdina para reescrever
projeto
Lobistas
do agro e da indústria usaram três deputados federais, do Partido Liberal,
Progressistas e Republicanos, para tentar reescrever o projeto de lei de
isenção do imposto de renda a favor dos interesses dos mais ricos.
O PL
1087/2025 visa instituir a isenção do imposto de renda para os mais pobres e
promover uma maior justiça tributária. Mas, às vésperas da votação, lobistas
atuaram na surdina para reescrever o projeto.
O
Intercept Brasil identificou que três emendas protocoladas por deputados para
desidratar a proposta têm como verdadeiros autores funcionários do Instituto
Pensar Agropecuária, o IPA, e da Confederação Nacional da Indústria, a CNI,
entidades patronais que defendem os donos do agronegócio e grandes empresários.
O IPA é
o braço técnico e político da bancada ruralista no Congresso, responsável por
redigir e orientar projetos que beneficiam o agronegócio. A CNI representa
grandes empresários e indústrias. Atua no lobby legislativo e nos conselhos
fiscais do governo, como o Conselho de Administração de Recursos Fiscais, o
Carf. Ambas defendem menos impostos e
mais benefícios fiscais para seus setores.
As
informações que revelam a atuação de lobistas ligados as duas entidades estão
disponíveis nos metadados dos documentos dessas emendas inseridos no sistema da
Câmara dos Deputados, que revelam os reais autores das propostas.
Os
deputados responsáveis por apresentarem os textos dos lobistas são Ricardo
Barros, do Progressistas do Paraná, Coronel Fernanda, do PL do Distrito
Federal, e Diego Garcia, do Republicanos do Paraná.
Todas
elas desidratam o PL 1087, criando brechas para diminuir o imposto de renda dos
mais ricos. O PL 1087, enviado pelo governo Lula à Câmara em março, pretende
zerar o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e criar uma taxa mínima
de 10% de imposto para quem ganha mais de R$ 100 mil por mês.
No
total, 53 emendas foram protocoladas no projeto de lei antes da votação. Mais
da metade dessas emendas, 70%, criam brechas para o imposto mínimo ou reduz a
arrecadação, segundo levantamento do instituto Mais Progresso.org, o que mostra
uma ofensiva do mercado e da elite econômica para tentar enfraquecer o projeto.
A
previsão é que a votação do PL aconteça ainda nesta quarta-feira, 1º de
outubro. O relator do texto é o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, do PP de
Alagoas. A proposta tramita em regime de urgência e as emendas ainda não foram
colocadas em votação, mas continuam a ser protocoladas a todo vapor. Só nesta
quarta, mais 37 novas propostas foram inseridas no sistema da Câmara.
Duas
das emendas identificadas pelo Intercept, propostas pelo deputado Ricardo
Barros, do Progressistas do Paraná, e pela Coronel Fernanda, do PL do Distrito
Federal, foram na verdade produzidas pelo técnica do IPA, Hyan Canales. Ou
seja, uma entidade que defende os donos do agro no Brasil está escrevendo e
redigindo diretamente a legislação que vai beneficiá-la.
A
emenda protocolada por Ricardo Barros, ex-ministro da Saúde de Michel Temer e
ex-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, prevê o arrendamento de imóvel rural como
atividade rural, o que beneficia os donos de fazendas que alugam suas terras,
pagando menos imposto.
Já a
emenda criada pelo IPA e apresentada pela Coronel Fernanda, expoente do
bolsonarismo no Mato Grosso, apresenta uma extensa lista de despesas que devem
ser consideradas essenciais e descontadas na base de cálculo do Imposto de
Renda. A lista vai de manutenção de imóveis residenciais próprios a gasto com
internet e combustível, o que aumenta a isenção, esvaziando a taxa mínima de
10% para os mais ricos.
Em
contato com a reportagem, Coronel Fernanda disse que não sabe quem é o técnico
da IPA, Hyan Canales, e afirmou que pediu ajuda para o advogado tributarista
Eduardo Lourenço, da Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária, a FPA, também
conhecida como bancada ruralista. “Ele corrigiu algumas questões técnicas para
mim, mas o texto foi meu”, escreveu a deputada.
Uma
terceira emenda, apresentada pelo deputado federal Diego Garcia, do
Republicanos do Paraná, foi na verdade escrita por Jeferson Teodorovicz,
representante da CNI no Conselho de Administração de Recursos Fiscais, o Carf.
O
projeto da CNI estipula cinco situações que permitem a diminuição do cálculo
final do Imposto de Renda, como compensação de prejuízos fiscais e inovação
tecnológica. Na prática, a emenda cria condições para beneficiar os mais ricos
com isenção fiscal, fugindo da lógica do projeto de lei – que é justamente uma
maior justiça tributária.
O
deputado Diego Garcia disse que a emenda foi elaborada por sua equipe técnica a
partir de contribuições do setor produtivo, especialmente da Federação das
Indústrias do Paraná, a FIEP. O parlamentar não explicou a digital do IPA nos
metadados do documento.
Além
dessas três emendas ligadas à indústria e ao agronegócio, também identificamos
uma quarta emenda que prevê a diminuição de impostos para cartórios. Os
metadados da emenda revelam que o verdadeiro autor é o delegado-federal adjunto
da Polícia Civil do Distrito Federal, Benito Augusto Galiani Tiezzi.
O
deputado Isnaldo Bulhões, do MDB de Alagoas, que apresentou esse projeto, disse
que não sabe quem é o delegado, mas admite que a proposta da emenda foi feita
pelo presidente da Associação dos Notários e Registradores de Alagoas, Raynei
Marinho.
• Isenção do IR: apenas uma das 53 emendas
vai contra interesses dos ricaços; lobby e jabutis imperam
Das 53
emendas apresentadas ao PL 1087/2025, relatado por Arthur Lira (PP-AL), que
devem ser debatidas em plenário na Câmara nesta quarta-feira (1º), apenas uma,
de autoria da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), vai contra os interesses dos
super ricos.
A
matéria relatada por Lira, que coordenou o grupo especial na Câmara,
transformou em Projeto de Lei a Medida Provisória (MP) enviada pelo governo
Lula que prevê a isenção do Imposto de Renda para milhões de brasileiros que
ganham até R$ 5 mil mensais. Como compensação, o Ministério da Fazenda,
comandado por Fernando Haddad, propôs taxação progressiva dos chamados super
ricos, que têm rendimentos acima de R$ 50 mil mensais, com teto de 10%.
Na
emenda apresentada, Tabata dobra esse teto, propondo que a alíquota do IR
"cresça linearmente de zero a 20% para rendimentos superiores a R$ 600.000
(seiscentos mil reais) e inferiores a R$ 1.800.000 (um milhão e oitocentos mil
reais) e seja de 20% para aqueles com rendimentos iguais ou superiores a R$
1.800.000".
"O
Projeto de Lei nº 1.087, de 2025, representa uma janela de oportunidade para
que esta Casa se debruce com firmeza sobre a temática da falta de
progressividade do nosso sistema de tributação. A discussão e o aperfeiçoamento
da legislação tributária, para que esta sirva como instrumento de combate à
avassaladora concentração de renda verificada no Brasil, são uma necessidade
inadiável", justifica a deputada.
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Lobbies para ricaços e jabutis
Segundo
levantamento do instituto MaisProgresso.org, conferido pela Fórum, das 53
emendas apresentadas 37 delas criam armadilhas para instalação de uma
bomba-fiscal nas contas do governo, ampliando isenções ou reduzindo as
compensações, especialmente em benefícios dos ricaços.
Essas
37 emendas estão entre as 44 que foram apresentados por comissões ou deputados
que fazem lobby para setores, especialmente de endinheirados.
Palco
do lobby dos ruralistas, a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e
Desenvolvimento Rural apresentou nove emendas, todas elas para pedir a retirada
de setores do agro da taxação - ou propondo manobras tributárias para restituir
o imposto.
Em uma
das emendas, a Comissão ainda cria um jabuti inserindo a isenção de impostos
para compra de agrotóxicos alegando que "a emenda alinha a política
tributária à realidade tecnológica do campo, protege a segurança alimentar, reduz a inflação de
alimentos e fortalece a competitividade do agronegócio brasileiro sem
sacrificar a receita pública de médio prazo".
Um
outro jabuti - jargão para emendas nonsense que buscam pegar carona na
aprovação do PL -, a deputada Renata Abreu (Podemos-SP) pede a dedução no
imposto de rendas de gastos com pets, como são chamados os animais de
estimação. "Trata-se de um benefício justo e necessário, tendo em vista
que os animais domésticos ocupam um lugar de destaque na vida emocional das
pessoas", justifica a deputada, presidenta nacional do Podemos.
Quase a
totalidade das emendas foram propostas por deputados do Centrão - que
representam lobbies - e pela base bolsonarista, que articulam um golpe para
afundar a proposta do governo, que será a principal bandeira de Lula nas
eleições de 2026.
Em
dobradinha com Ciro Nogueira, presidente do PP e principal lobista da Faria
Lima, o deputado Claudio Cajado (PP-BA) é um dos autores das emendas que
pretendem instalar uma bomba-fiscal nas contas do governo.
Em
emenda tramada junto com Nogueira, após o senador se comprometer a retirar o
aumentos das tarifas sobre os ricaços em evento na Faria Lima, Cajado amplia a
isenção para quem ganha até R$ 7.350 mensais, aumentando o rombo nas contas
públicas.
Por
outro lado, o deputado pepista chega a citar o economista francês Thomas
Piketty - autor de O Capital no Século
XXI - para mascara uma manobra para retirar a taxação dos super ricos alegando
"baixa
tributação
na faixa dos 0,2% mais ricos" e propondo a criação de um adicional de 5%
na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) das instituições
financeiras que apurarem resultado superior a R$ 1 bilhão de reais - que
poderia ser derrubado em outras votações.
Segundo
o levantamento feito pelo MaisProgresso.org além da única proposta propositiva,
cinco são classificadas como neutras, três como neutras com ressalvas e 7 como
"estranhas à matéria" - ou seja jabutis que imperam junto com as
emendas apresentadas pelos lobbys dos ricaços na Câmara.
• Boulos alerta por golpe de Lira e
Centrão contra "taxa Odete Roitman"; entenda
O
deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) fez uma analogia com a vilã da
novela Vale Tudo, Odete Roitman, para explicar nas redes sociais o novo golpe
que o Centrão e a bancada bolsonarista, sob o comando do relator Arthur Lira
(PP-AL), pretende desencadear com a votação do Projeto de Lei sobre a isenção
do Imposto de Renda (IR) para milhões de brasileiros que ganham até R$ 5 mil,
previsto para entrar na pauta do plenário da Câmara nesta quarta-feira (1º).
"Hoje
quem ganha até 5 mil reais paga 4.300 reais por ano de imposto de renda. Vai
pagar zero. Na prática, esse projeto acaba com imposto de renda para 90% da
população. E como faz para compensar isso? Fazendo uma minoria, menos de 1%,
que ganha mais de 1 milhão por ano, pagar 10% sobre seus lucros e dividendos,
porque hoje não pagam nada. Simples assim, zero para 90% e faz com que uma
minoria de privilegiados paguem mais", explica Boulos em um dos vídeos
publicado em suas redes sociais.
No
entanto, o deputado alerta que "o golpe que eles estão tramando é mexer no
andar de cima no sentido de tirá-los" da taxação, inviabilizando a
compensação fiscal para isentar os milhões de brasileiros.
ara
ilustrar, a equipe de Boulos comparou as realidades de Odete Roitman -
"rica, mas podre de rica, do tipo que mora em uma cobertura e manda em uma
companhia aérea" - e o motorista de aplicativo e da família Roitman,
Jarbas, em alusão aos personagens de Débora Bloch e Leandro Firmino na nova
versão da trama global Vale Tudo.
"O
que muda na vida desses dois se o projeto do governo que está no Congresso for
aprovado? O Jarbas e todo trabalhador que ganha até 5 mil reais, fica isento do
imposto de renda. Já a Odete passa a pagar 10% sobre sua fortuna. E você sabe
quem está surtando com essa proposta, né? Pra fazer justiça, precisamos
pressionar o Congresso. Tá na hora das Odetes pagarem a parte delas e deixarem
o Jarbas respirar", diz o vídeo compartilhado por Boulos com a
#taseasodetes.
Fonte:
Por Thalys Alcântara, em The Intercept/Fórum

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