Companhia
de Jesus e o compromisso com a Justiça
No
último dia 27 de setembro a Companhia de Jesus completou 485 anos de sua
aprovação pelo Papa Paulo III, em 1540. No mesmo ano em que fez sua páscoa o
único papa jesuíta e em que se completou cinquenta anos da emblemática 32ª
Congregação Geral, conduzida pelo inesquecível e ousado Pedro Arrupe. Há algum
tempo, na Congregação Geral 36, o Papa Francisco “sublinhou que não podemos
ficar satisfeitos com o status quo de nossos ministérios”. “Impulsionou-nos de
novo ao magis, a ‘esse mais’ que levou ‘Inácio a iniciar processos, a
acompanhá-los e a avaliar sua real incidência na vida das pessoas’” (CG 36,
dec. 1, n. 39). Por onde caminha, como chamava São Francisco Xavier, a
Companhia de Amor?
Nesta
mudança de época pela qual passa a humanidade, a Igreja e a Vida Religiosa
Consagrada também vivem suas crises e tensões. Diminuição das vocações e
envelhecimento dos membros, perda de relevância e crescimento dos extremismos
religiosos, estruturas pesadas e difíceis de serem mantidas. Qual será o futuro
das ordens e congregações religiosas? O então Superior-Geral dos Jesuítas
(2008-2016), Padre Adolfo Nicolás interpelou certa vez:
“Durante
algum tempo, os religiosos nos temos perguntado sobre nossa vida na Igreja e o
poder e a atração de nosso testemunho. Não se necessita uma visão
extraordinária ou uma análise profunda para se dar conta de que o que chamamos
“vida religiosa” perdeu algo de seu impacto na Igreja e fora de seus muros.
Claro, isto não é universal. Alguns grupos de religiosos mantiveram e inclusive
aumentaram sua credibilidade pela autenticidade de sua vida, seu serviço aos
pobres ou a profundidade de sua oração. Contudo, as perguntas persistem. O que
perdemos? Onde nos equivocamos? Entendemos mal nosso chamado a renovação?
Estamos sem rumo?” (Nicolás, 2020).
Mas,
afinal, as religiosas e os religiosos estão mesmo sem rumo? Muito preocupados
com suas grandes obras e comunidades esvaziadas? Centrados demais em direcionar
suas melhores forças para tentar, a todo custo, manter os centenários colégios,
universidades e casas de retiro? Sobrecarregando os jovens com a administração
interna de intrincadas estruturas jurídico-canônicas e múltiplas funções de
governo? Ou pior, assustados com a falta de pessoas suficientes para dirigir
tais missões corre-se o risco de se terceirizar com estratégias, ferramentas e
mentalidades estritamente empresariais?
Esses
dilemas também afligem a Companhia de Jesus que não está incólume aos novos
cenários socioeclesiais. Em uma sociedade nacional e internacionalmente
perpassada pelo ressurgimento de projetos políticos neofascistas e
totalitários, como testemunhar a Boa Nova de Jesus? É possível seguir apostando
em apostolados que ignorem ou desconsiderem a centralidade da opção
preferencial pelos empobrecidos? Qual o lugar da política no desenvolvimento da
missão apostólica dos jesuítas? Posicionar-se ao lado dos injustiçados
significa um desaconselhável envolvimento ideológico a partir de uma mera
análise sociológica ou então um imperativo inegociável da encarnação
evangélica?
O atual
Prepósito-Geral da Companhia, Padre Arturo Sosa, esclarece com bastante
assertividade e sem meias palavras:
“Nós
cristãos também somos cidadãos, e temos que nos ocupar do bem comum – e não
apenas nos preocupar com ele –, de modo que a Igreja não pode deixar de ter uma
voz ativa na vida pública. Ninguém discute que a Cáritas, obra apostólica que
coordena o serviço de promoção e assistência social da Igreja, distribua comida
aos necessitados, mas parece surpreendente quando a Igreja, apoiando-se nos
mesmos Direitos Humanos, se opõe a alguma lei injusta. Se não participássemos
na vida pública seríamos puros, sim, mas puros ‘idiotas’, como se chamava na
antiguidade grega aos que prescindiam do seu compromisso político ou cívico,
antepondo os seus interesses particulares aos interesses da sociedade. Não
queremos uma Igreja de ‘idiotas’, mas uma que nos leve a ser mais políticos,
cidadãos melhores, ocupando-nos dos outros e do bem comum. Por isso falamos
tanto de justiça, reconciliação e paz” (Sosa, 2021, p. 104-105).
De
outro modo, vale destacar que não é possível falar em paz e reconciliação –
pelo menos não sem que se tornem conceitos adocicados e instrumentalizados –
sem a busca inexorável pela justiça. Como disse o “Papa Paulo VI: ‘Se queremos
a paz, trabalharemos pela justiça’”. Ora, “essas palavras nos recordam que
quando trabalhamos pela justiça pelo mundo afora, tomamos parte na luta pela
paz” (CG 36, 2016, p. 77).
Ideal
que esteve presente desde os inícios dos primeiros companheiros. A experiência
de peregrinação de Inácio lhe permitiu perceber que a “pobreza, como sólida
muralha da vida religiosa, deve amar-se e conservar-se em sua pureza, tanto
quanto for possível, com a graça divina” (Const. 553). Seguir o Cristo pobre e
humilhado, como ensina nos Exercícios Espirituais (EE 167) deveria ser o
horizonte de todo jesuíta.
Como
resultado das reverberações do Concílio Vaticano II, a Companhia de Jesus
realizou, em 1975, a sua marcante e inesquecível 32ª Congregação Geral. Passou
para a história como o ponto de viragem da atualização da missão dos jesuítas,
em que se proclama que o serviço da fé é indissociável da promoção da justiça.
“Isto exige, da parte de todos, grande disponibilidade e verdadeira mobilidade
apostólica, ao serviço da missão universal da Igreja” (CG 32, d. 4, n. 69).
“A
‘encarnação’ do Evangelho na vida da Igreja, exige que Cristo seja anunciado e
encontrado de maneiras diferentes” e “não só que as nossas vidas sejam marcadas
pelo testemunho de justiça a que Cristo nos chama, mas também que as estruturas
da reflexão teológica, da catequese, da liturgia e da ação pastoral sejam
adaptadas às necessidades que a experiência real do meio tenha manifestado” (CG
32, d. 4, n. 54).
Além do
mais, há um modo de proceder específico a ser observado: “esta opção deve
levar-nos a rever as nossas solidariedades e preferências apostólicas” (CG 32,
d. 4, n. 47). Ou seja, “não trabalharemos na promoção da justiça sem que isso
muito nos custe” (CG 32, d. 4, n. 46). “Caminhando nós paciente e humildemente
ao lado dos pobres, ficaremos a saber qual o auxílio que lhes poderemos levar,
depois de termos primeiro aceitado receber muito deles” (CG 32, d. 4, n. 50).
Um
apostolado que, como dizia o Padre Arrupe, se preocupa com a transformação do
sistema e das mentalidades:
“Não
esqueçamos que, ainda que a raiz do reino da injustiça está em nós mesmos (e
por isso dedicamos nossos melhores esforços a nossa própria reeducação e
reforma), essa injustiça está assentada estruturalmente no mundo, com
independência objetiva de cada um dos homens. Mais ainda, que não podemos
mudarmo-nos até as últimas consequências, se não mudarmos nosso mundo. Educar
para a justiça é portanto educar para a mudança, formar pessoas que sejam
agentes eficazes de transformação e de mudança” (Arrupe, 1982, p. 355).
Há
cinquenta anos já se pontuava que “em nenhum caso poderemos dispensar uma
análise, a mais rigorosa possível, da situação quanto ao aspecto social e
político” (CG 32, d. 4, n. 44). Uma acurada e crítica análise da conjuntura não
poderá jamais ser recusada em troca de abordagens espiritualizadas e
devocionais que correm o risco de se fechar para a realidade que grita. Para
tanto é imprescindível uma robusta formação intelectual que possibilite
elementos para a leitura aprofundada da realidade.
Ao
reconhecer que “talvez existam, sim, menos comunidades de inserção, que optam
por viver em zonas marginais” (Sosa, 2021, p. 178), o atual Superior-Geral
parece fazer um alerta. Dom Luciano, na época Padre Mendes, também participou
da CG 32 e testemunhou ser imprescindível a “abertura apostólica às
preocupações e aspirações dos homens de nosso tempo, em especial dos mais
desfavorecidos”. Constatou também que “houve distanciamento, às vezes, entre a
vida dos Jesuítas e os sofrimentos e angústias dos pobres” (Almeida, 1975, p.
117).
“A
vivência da missão inclui a atitude de maior desinstalação e disponibilidade
que torne os jesuítas de hoje aptos como no tempo de Inácio a serem mandados
onde melhor puderem servir” (Almeida, 1975, p. 118), observou aquele que seria
o futuro presidente da CNBB. Isso porque “arriscamo-nos a não chegar a ouvir a
interpelação evangélica que nos é dirigida pelos homens e mulheres do nosso
tempo”. Assim, “uma inserção mais resoluta no mundo será, portanto, testemunho
decisivo da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade apostólica” (CG
32, d. 4, n. 35). Palavras que interpelam, pois permanecem desconcertantemente
atuais e cheias de sentido.
Tudo
isso foi reafirmado nas Congregações Gerais subsequentes, inclusive na última,
a 36ª (2016). Padre Sosa também vem insistindo que “a pobreza pode nos ajudar a
fazer isso de uma forma mais radical, mediante o desapego e a capacidade de
mobilidade que provoca” (Sosa, 2021, p. 170). Nesse sentido convoca o órgão
máximo da Companhia de Jesus:
“O
desafio polifacético de cuidar de nosso lar comum exige da Companhia uma
resposta também polifacética. Comecemos por mudar nosso estilo de vida pessoal
e comunitário, adotando um comportamento coerente com nosso desejo de
reconciliação com a criação. Temos que acompanhar e permanecer próximos aos
mais vulneráveis. Nossos teólogos, filósofos e outros intelectuais e
especialistas devem contribuir a uma análise rigorosa das raízes e das soluções
da crise. O engajamento jesuíta em regiões como a Amazônia e a Bacia do Congo,
reservas ambientais essenciais para o futuro da humanidade, deve ser apoiado.
Temos que gerenciar nossos investimentos financeiros de modo responsável. E não
podemos esquecer-nos de celebrar a criação, dando graças por ‘tanto bem recebido’”
(CG 36, d. 1, n. 30).
Todavia,
não se pode ignorar que “o apostolado social corre o risco de perder seu vigor
e impulso, sua orientação e impacto”, já avisava o sucessor de Arrupe, o Pe.
Peter-Hans Kolvenbach, há cerca de vinte e cinco anos. “Tal processo de erosão
reduziria inevitavelmente Nossa missão hoje (CG32) e Nossa missão e a justiça
(CG34) a umas poucas frases obrigatórias, mas apenas retóricas de nossa
linguagem, deixando ocas nossa opção pelos pobres e nossa promoção da justiça”
(Kolvenbach, 2007, p. 60), continua o 29º Superior-Geral da Companhia de Jesus.
Há um
perigo natural de arrefecimento do apostolado socioambiental, com a diminuição
e o envelhecimento de jesuítas. Diante da necessidade de manutenção das grandes
obras, a absorção dos jovens acaba sendo quase sistemática. Como se não
bastasse, com a crise financeira e o declínio de benfeitores, o corte de
recursos parece inevitável. No mais, as mantenedoras de muitas congregações
religiosas sofrem a tentação de circunscrever tal dimensão ao preenchimento das
inúmeras exigências legais, tais como o oferecimento de bolsas de filantropia.
Mas seria suficiente simplesmente cumprir a legislação?
Atento
aos sinais dos tempos, o Padre Kolvenbach alertava ainda no começo do milênio,
em uma Carta sobre o Apostolado Social, instando os jesuítas a permanecerem
vigilantes:
“Ao
mesmo tempo e paradoxalmente, esta consciência da dimensão social de nossa
missão nem sempre encontra expressão concreta em um apostolado social pujante.
Ao contrário, este manifesta algumas debilidades preocupantes: parecem ser cada
vez menos e menos preparados os jesuítas dedicados ao apostolado social e os
que estão encontram-se desanimados e dispersos, carentes de colaboração e
organização. Fatores externos a Companhia estão também debilitando o apostolado
social: nossos dias estão marcados por imprevisíveis e rápidas mudanças
socioculturais difíceis de interpretar e ainda mais difícil de responder com
eficácia (globalização, excessos da economia de mercado, tráfico de drogas e
corrupção, migração em massa, degradação ecológica, explosões brutais de
violência). Visões da sociedade que antes inspiravam e estratégias para uma
mudança estrutural ampla, cederam espaço para o ceticismo ou, no melhor dos
casos, a mera preferência por projetos mais modestos e planejamentos restritos”
(Kolvenbach, 2007, p. 60).
Tudo se
intensificou “com o neoliberalismo”, quando “a razão passa a identificar-se com
a realização de cálculos de interesses egoístas”. Quer dizer, “o princípio do
interesse, fundamental à compreensão do homo economicus (uma espécie de ator
voltado à maximização dos ganhos), que já funcionava como o núcleo da ideologia
liberal, tornou-se o vetor interpretativo e o mandamento nuclear do sistema
forjado a partir da racionalidade neoliberal” (Casara, 2024, p. 26). Ou seja, o
sistema econômico e sua mentalidade estendem seus tentáculos sedutores também
na Vida Religiosa Consagrada, influenciando decisões e condicionando aportes.
Infelizmente,
é cada vez mais recorrente escutar as preocupações sobre a auto
sustentabilidade e a viabilidade financeira da missão. Acontece que o
apostolado socioambiental, em razão da sua natureza específica, dificilmente
gera recursos próprios, quanto mais suficientes para a sua manutenção. Assim, a
lógica preponderante e “os conceitos passam a ser ‘dispositivos otimizados’, e
o próprio pensamento parece reduzido a um processo industrial e acrítico”
(Casara, 2024, p. 26-27).
Se é
verdade que “tiramos proveito, indicava o Papa Francisco, de ‘unir tensões’:
contemplação e ação, fé e justiça, carisma e instituição, comunidade e missão”,
também é preciso “para buscar o progresso no seguimento do Senhor, a Companhia
deve constantemente re-imaginar e discernir como nossas estruturas de governo
podem servir melhor à missão a nós confiada” (CG 36, d. 2, n. 28).
Para
tanto, a formação das novas gerações de religiosos será fundamental para romper
com uma mentalidade aburguesada e individualista, que corre o risco de não ir
além de um vazio profissionalismo. A existência de algumas comunidades de
inserção deverão ser alternativas concretas e radicais para se experimentar a
proximidade real com o mundo dos empobrecidos. Nesse sentido recomenda o Padre
Kolvenbach:
“‘Durante
sua formação os jovens jesuítas devem estar em contato com os pobres, não
apenas ocasionalmente mas sim de forma mais continuada. A tais experiências
deve acompanhar uma reflexão apropriada como parte da formação acadêmica e
espiritual, que integraria a preparação para a análise sociocultural’ (CG34,
d.3, n.18). A formação corrente de escolásticos e irmãos deveria incluir
estudos sociais e experiências apostólicas que sirvam para todos crescerem na
sensibilidade social, e permitam a alguns descobrir sua vocação pessoal e
sacerdotal a Companhia” (Kolvenbach, 2007, p. 63).
Os
jovens jesuítas e religiosos de modo geral são comumente cheios de desejos e
apaixonados pelas causas do Evangelho. Como não se encantar com a luta dos
Povos Indígenas, que embora massacrados teimam em resistir? Ou então com as
missões junto às pessoas em situação de rua e aos encarcerados que mostram o
rosto do Servo Sofredor? E também com a defesa da Casa Comum e suas belezas que
refletem as maravilhas da Criação? Ou com a educação popular tão libertadora em
um país estruturalmente desigual? Muitas, diversas e atrativas são as faces de
uma missão comprometida com a justiça social. Mas é preciso ir, ver,
experimentar e permanecer!
Evidentemente,
se também antes, ainda mais nesses tempos, o futuro do apostolado
socioambiental, na Vida Religiosa e na Companhia de Jesus, vai exigir
sacrifícios, generosidade e prioridade na alocação de verbas e na destinação de
pessoas. E isso pressupõe vontade e assertividade, mesmo que implique – e isso
invariavelmente acontecerá – em retirar recursos de outras áreas. Caso não haja
empenho e esforço efetivos, as bonitas palavras dos muitos documentos em vigor
não passarão de meras boas intenções.
Para
isso será preciso, provavelmente, repensar algumas obras e missões, deixar
certas presenças e avançar para novos caminhos e compromissos. Isso demandará
coragem, ousadia e desprendimento, na melhor dinâmica do Princípio e Fundamento
dos Exercícios Espirituais (EE 23). Do contrário, há forte possibilidade de se
cair no imobilismo, na pastoral de manutenção e no autocentramento soberbo e
acomodado que poderá levar à progressiva irrelevância e à infiel mediocridade.
Como
asseverou a Congregação Geral 36 (2016, p. 78), “a luta pela justiça, pela paz
e pela reconciliação nos remete a nossas raízes jesuíticas expressas na Fórmula
do Instituto”. Por isso, “ela foi reiterada nas últimas Congregações Gerais e é
relevante – e urgente – hoje como era quando nossos Primeiros Companheiros
fundaram a Companhia de Jesus”. Se assim não o for, o ímpeto do Vaticano II e
da histórica Congregação Geral 32 deixarão de ressoar no presente, tornando-se
letra morta.
Então
se poderá dizer com Pedro Arrupe (1982, p. 359), que “Cristo é finalmente o
fundamento desse ‘magis’ tão inaciano, que nos move a não colocar nunca limite
ao nosso amor, a dizer sempre ‘mais’ e ‘mais’, a buscar sempre a ‘maior Glória
de Deus’, que concretamente se realiza na maior entrega ao ser humano e à causa
da Justiça”. E junto com Santo Inácio, como simples servos repetiremos: tomai,
Senhor e recebei, tudo é vosso!
Fonte:
Por Gabriel Vilardi, para IHU

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