segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A carne que esquenta o planeta: maiores produtoras impactam tanto quanto petrolíferas

Se fossem um país, as 45 maiores empresas que produzem carne e laticínios seriam o nono maior emissor de gases do efeito estufa do mundo. Juntas, essas empresas, entre as quais estão gigantes brasileiras como a JBS, emitiram 1 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa, que contribuem com o aquecimento global, em 2023 – mais do que a Arábia Saudita, segundo maior produtor global de petróleo.

Os dados – lançados a poucos dias do início da 30ª Conferência do Clima da ONU, a COP30, que vai reunir representantes de quase 200 países em Belém, no Pará, para discutir medidas de enfrentamento à crise climática – são de um levantamento feito pela Profundo, organização de pesquisa sem fins lucrativos, e integram um relatório de quatro ONGs internacionais (Greenpeace, Foodrise, Friends of the Earth, Institute for Agriculture and Trade Policy).

Só as cinco maiores emissoras combinadas (as brasileiras JBS e Marfrig, a americana Tyson, a também brasileira Minerva e a americana Cargill) produziram, em 2023, 480 milhões de toneladas de gases do efeito estufa. O número é superior às emissões de grandes petrolíferas, como Chevron (com 454 milhões de toneladas), Shell (429 milhões) e BP (366 milhões).

Considerando apenas o metano – gás do efeito estufa com mais capacidade de reter calor do que o gás carbônico (CO₂) -, o relatório estima que as 45 maiores empresas de proteína animal emitiram no total mais do que todos os países da União Europeia e o Reino Unido em 2023.

Segundo o relatório, as comparações com petrolíferas e países são apenas ilustrativas, já que não há uma padronização global dos dados de emissões entre diferentes indústrias e setores econômicos.

Ainda assim, elas dão dimensão do impacto climático das grandes produtoras globais de proteína animal, provocado principalmente pelo metano, que respondeu por mais de 51% das estimativas de emissões das empresas.

<><> Aquecimento global e o “arroto” do boi

Diminuir as emissões de metano, produzidas majoritariamente pelo rebanho bovino, é considerada uma medida estratégica para desacelerar rapidamente o aquecimento global, porque, apesar de possuir uma vida curta, esse gás é quase trinta vezes mais potente que o dióxido de carbono.

Em 2021, mais de 150 países, entre eles o Brasil, firmaram um compromisso de cortar essas emissões em 30% até o final da década. Ainda assim, a concentração do gás na atmosfera bateu um novo recorde no ano passado, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

No Brasil, as emissões de metano aumentaram em 6% entre 2020 e 2023, ano em que o país lançou 21,1 milhões de toneladas de metano na atmosfera, de acordo com o Observatório do Clima. A agropecuária, pela fermentação entérica (o famoso “arroto” dos bovinos), responde por 70% das emissões de metano.

Segundo Gabriel Quintana, do Imaflora, o Brasil poderia adotar várias metas para reduzir de forma considerável essas emissões na pecuária, como melhorar a dieta animal por meio de pastagens bem manejadas, realizar melhoramento genético para maior produtividade animal de 45% do rebanho de gado e expandir o abate precoce dos bovinos para corte, totalizando 85% dos abates nacionais com até 30 meses.

“Por depender de um clima estável, a agricultura global está em uma situação perigosa. O sistema agrícola está ameaçado pelos impactos climáticos, sendo, ao mesmo tempo, o segundo maior impulsionador desses impactos por meio das emissões”, afirma o professor de Oxford Paul Behrens, que pesquisa as conexões entre clima, energia e alimentação, no relatório das organizações internacionais.

“Os lucros das empresas de carne e laticínios dependem da negação do papel delas como motor dessa crise, como mostra esse relatório”, diz Behrens.

<><> Emissões colocam JBS no nível de petrolíferas

O relatório dá especial atenção à JBS, maior processadora de carne do mundo e, pelas estimativas, também a maior emissora entre as empresas do ramo por uma margem considerável. Sozinha, a companhia – que abateu 3,6 bilhões de frangos, 20,8 milhões de cabeças de gado e 38,8 milhões de porcos em 2023 – responde por 24% de todas as emissões das 45 empresas.

Conforme o levantamento, em 2023, a JBS emitiu estimadas 241 milhões de toneladas de gases do efeito estufa, mais do que as emissões individuais de 81% dos países do mundo. Apenas o rebanho bovino respondeu por 87% dessas emissões.

O relatório cita, ainda, outro levantamento, da Greenpeace Nordic, que, no ano passado, estimou que as emissões de metano da JBS ultrapassaram as reportadas pelas petrolíferas Shell e ExxonMobil combinadas. Esse mesmo levantamento anterior já havia mostrado que, somadas, JBS, Marfrig, Minerva, Cargill e Dairy Farmers of America emitiram a mesma quantidade de metano que ExxonMobil, Chevron, Shell, TotalEnergies e BP, também somadas.

De acordo com o documento, todas as empresas de carne e laticínios foram procuradas antes da publicação do relatório para comentar os dados e os resultados das estimativas de emissões.

Em um evento recente, ao mencionar as emissões do setor agropecuário, o CEO da JBS, Gilberto Tomazoni, disse que há um problema de métrica e que a conta atual é incompleta por considerar as emissões, mas não contabilizar também a captura de carbono durante o crescimento da pastagem.

“Nós não podemos ser avaliados pelas métricas da agricultura temperada”, afirmou, em setembro, no NeoSummit COP30. “Nós temos que ser avaliados pelas métricas da agricultura tropical. Então esse é o grande desafio que o Brasil tem que mostrar [na COP30 e outros eventos internacionais]”.

O pleito é ecoado por entidades representativas do agronegócio, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), que defendem a “tropicalização” das métricas usadas para calcular a quantidade de emissões do setor e têm levado essa demanda para a presidência da COP30.

“Há cerca de um mês atrás, o presidente [da CNA] João Martins recebeu a visita do presidente da COP30, embaixador Corrêa do Lago. O presidente João externou com muita ênfase ao embaixador a nossa expectativa de que a COP30 possa avançar nesse contexto da agricultura tropical para que nós possamos ter o agro brasileiro efetivamente medido com métricas e critérios adaptados à agricultura tropical – e não mais por métricas de agricultura temperada que não refletem efetivamente a realidade do agro brasileiro”, afirmou Muni Lourenço Silva, da CNA, em um evento recente da entidade.

Em 2021, a JBS foi uma da primeira entre as empresas do setor a se comprometer com neutralizar suas emissões até 2040 e acabar com o desmatamento ilegal em sua cadeia de fornecedores.

Entretanto, em janeiro deste ano, o diretor global de sustentabilidade da JBS afirmou, em entrevista à agência Reuters, que a meta de neutralidade de emissões nunca foi uma promessa de fato, mas apenas uma “aspiração”.

Ao longo dos últimos anos, surgiram denúncias de que a empresa teria comprado gado criado ilegalmente em áreas protegidas, como Terras Indígenas e Reservas Extrativistas, como mostrou a Agência Pública.

Mais recentemente, uma investigação da organização Human Rights Watch (HRW) aponta que a JBS pode ter exportado para a União Europeia carne bovina e couro produzidos com gado proveniente de fazendas ilegais no Pará. À HRW, a JBS afirmou que monitora as fazendas de seus fornecedores diretos para verificar se eles cumprem sua política de compras. Afirmou ainda que, a partir de 1º de janeiro de 2026, será obrigatório que os fornecedores diretos disponibilizem informações sobre seus fornecedores.

<><> Títulos de R$ 100 mi do agro financiaram fazendeiro autuado por trabalho escravo

O PRODUTOR RURAL Alair Ribeiro Fernandes obteve crédito privado no mercado de capitais por meio de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) avaliados em R$ 100 milhões e emitidos em julho de 2025, mesmo após ele ter sido autuado por trabalho escravo.

A fiscalização que responsabilizou o fazendeiro pelo uso de mão de obra em condições análogas à escravidão ocorreu em outubro de 2024, na Fazenda São Francisco, em Bonito (MS). Três trabalhadores paraguaios foram resgatados enquanto faziam a limpeza de terreno para plantio de soja na propriedade, de acordo com o relatório do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

Durante a fiscalização na Fazenda São Francisco, foram encontrados alojamentos improvisados com lona, camas de madeira e ausência de instalações sanitárias, segundo o relatório. A água para consumo era retirada de um açude próximo. Não havia local adequado para refeições ou descanso, nem lavatórios.

Os auditores também relataram ausência de EPI (equipamentos de proteção individual), falta de formalização dos contratos e inexistência de treinamentos para trabalhos de risco, como operação de motosserra. Segundo eles, os resgatados foram transportados do Paraguai à fazenda sem registro migratório e foram empregados sem registro formal.

Mesmo com o processo administrativo sobre o flagrante em curso no MTE, Fernandes emitiu uma CPR (Cédula de Produto Rural) Financeira para obter financiamento. Essa cédula serviu como lastro para a emissão dos CRAs, uma categoria de títulos de renda fixa voltados ao financiamento de atividades agrícolas.

As cotas dos CRAs foram vendidas a nove investidores pessoa física e um fundo de investimento, que não tiveram sua identidade revelada.  A operação teve como garantia imóveis rurais e safras de soja e milho vinculadas ao produtor, segundo documento financeiro acessado pela Repórter Brasil.

<><> Resgate incomum

Previstos para vencer em 2031, os CRAs foram resgatados antecipadamente pela Ecoagro, a empresa securitizadora responsável pela emissão dos títulos.  Isto ocorreu dez dias antes da inclusão de Fernandes na Lista Suja do trabalho escravo, em 6 de outubro de 2025 – ou seja, cerca de um ano após o resgate. A inclusão de nomes na Lista Suja ocorre apenas após os autuados terem acesso a direito de defesa em duas instâncias administrativas no MTE.

O resgate antecipado, segundo comunicado ao mercado divulgado pela Ecoagro, deveu-se ao fato do sojicultor ter resgatado, também antecipadamente, a CPR que servia de lastro para a operação.

Uma fonte do mercado financeiro consultada pela reportagem classificou como pouco usual o resgate prematuro. A emissão dos CRAs havia sido anunciada menos de dois meses antes. A Repórter Brasil procurou o produtor para questionar se a antecipação do vencimento dos títulos se relaciona com a inserção de seu nome na relação de empregadores autuados, mas não obteve resposta até a publicação. A reportagem será atualizada em caso de manifestações futuras.

Medidas regulatórias e políticas corporativas de diversas empresas utilizam a Lista Suja como referência para impor restrições econômicas a fazendeiros flagrados utilizando mão de obra escrava. As normas do Banco Central vetam, por exemplo, a concessão de crédito rural para empregadores incluídos no cadastro.

Procurada, a Ecoagro afirmou ter feito as diligências legais pertinentes e que não tinha conhecimento sobre o caso de trabalho escravo no momento da emissão dos CRAs. Além disso, disse que o resgate antecipado foi uma decisão exclusiva do devedor, sem relação com esse tema.

A Vórtx, empresa que atuou como agente fiduciário da operação – responsável, portanto, por representar os interesses dos investidores e monitorar o cumprimento dos termos da emissão – também afirmou não ter tomado conhecimento do caso.

<><> Demandas por transparência no crédito agro

“Só a autuação [por trabalho escravo] já é indício para não dar o crédito”, afirma Ademiro Vian, ex-diretor da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e consultor em finanças do agronegócio. Uma securitizadora “criteriosa”, diz, aplica boas práticas de crédito, mesmo quando não obrigada por lei.

O consultor critica a falta de padronização do mercado de títulos do agronegócio. Para Vian,  o setor tem baixa transparência e falhas de governança e compliance que seriam inadmissíveis em operações internacionais.  Além de regulação estatal, ele defende autorregulação rigorosa pelo mercado e as “boas práticas” de crédito como regra. “É isso que está desmoralizando, de certa forma, o mercado de capitais de títulos do agro”, diz.

Os CRAs funcionam como adiantamento de recursos financeiros, com base em dívidas agrícolas que seriam pagas no futuro. Esse modelo de crédito privado tem crescido e se aproximado do volume de crédito subsidiado pelo governo destinado à atividade rural. Para o ciclo 2025/2026, o governo destinou R$ 516,2 bilhões ao Plano Safra. Já no mercado privado, o estoque de CRAs, ou seja, o conjunto de títulos em circulação, já havia superado R$ 140 bilhões em agosto de 2025, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

 

Fonte: Por Isabel Seta, da Agencia Pública/Reporter Brasil

 

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