quinta-feira, 26 de junho de 2025

Pode haver saúde mental em tempos de guerra?

Em 1994, o mundo vivia a Guerra da Bósnia, conflito armado que ocorreu entre 1992 e 1995 e envolveu os grupos étnicos da região: sérvios cristãos ortodoxos, croatas católicos romanos e bósnios muçulmanos. Foi nessa guerra que se deu o Cerco a Sarajevo, quando a cidade foi cercada, bombardeada e teve a entrada de insumos básicos, como comida, bloqueada. Mais de 200 mil pessoas morreram e cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas, em números que variam conforme a fonte.

Foi nesse contexto que o psiquiatra italiano Franco Rotelli, em 1994, afirmou: “Não temos um entendimento sobre a guerra que seja adequado. Porque não temos um pensamento da normalidade, porque não temos um pensamento sobre a riqueza do cotidiano, sobre a riqueza da, assim chamada, ‘banal cotidianidade’ do bem e do mal”¹. Rotelli, na busca por situar os termos de seu pensamento sobre o conflito, esclarece que não crê “nas guerras étnicas, as guerras são sempre políticas”, recordando que “também a psiquiatria não existe, se não como articulação da política” e que “a política não pode, então, nunca ser reduzida à psiquiatria”.

<><> Estranho seria se a psiquiatria não identificasse transtornos mentais

Uma revisão da literatura sobre a saúde mental em Gaza identificou na população de Gaza “altas taxas de transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, e transtornos agudos de estresse entre crianças, adultos e idosos”. Os dados mostraram que 54% das crianças em Gaza experimentaram transtorno de estresse pós-traumático, além de “depressão (41%) e ansiedade (34%), devido a eventos traumáticos como bombardeios e perda de entes queridos”. Talvez o espantoso seja esse número não ser ainda maior.

Os autores do estudo compreendem que essa “alta prevalência de transtornos mentais é dada pela violência, perda e deslocamento”, e ressaltam que “as barreiras para responder às necessidades de saúde mental da população incluem a destruição da infraestrutura de saúde”.

É relevante que estudos tratem da saúde mental das pessoas em Gaza porque é preciso, por todos os meios, chamar atenção para a situação da Palestina. Agora, se tal leitura é certamente limitada, também é certo que um pensamento sobre o que é a vida – ou melhor, a sobrevivência – das pessoas em Gaza não virá da psiquiatria enquanto instituição. Não é nela que encontraremos qualquer linha de pensamento para saber mais sobre saúde mental nesse contexto, muito menos quaisquer respostas à realidade e necessidades reais das pessoas.

A experiência humana de extremo sofrimento imposta às pessoas que ainda estão vivas em Gaza – sem esquecer que se estima que ao menos 55 mil palestinos já foram mortos por ações militares do Estado de Israel em suas decisões como país – se dá por uma guerra política. E já sabemos que a política não pode ser reduzida à psiquiatria.

<><> A banalidade do cotidiano

Entre vídeos de bombardeios, de uma criança sendo incendiada, de pessoas desesperadas para suprir a necessidade básica humana de ter algo para comer, surge o vídeo de um casamento: um rapaz gravou cenas da preparação do casamento de seu amigo, que tomou a decisão de se casar em 2025, em Gaza. No vídeo compartilhado em redes sociais, ele aquece um ferro de passar na brasa de um fogareiro improvisado. Falta energia elétrica – mas a  formalidade de um casamento pede uma camisa elegantemente bem passada.

Filmando a si mesmo dentro de um carro percorrendo ruas (seriam ruas?) daquilo que um dia foi uma cidade, ele atravessa escombros e encontra seu amigo. A continuidade é de um recorte de cenas sequenciais em que pessoas se abraçam, dançam e celebram a vida. Eles casam o amigo. A escolha é por sonhar e projetar um futuro, mesmo em meio ao presente genocídio.

Atravessando a insensatez que todos assistimos diariamente – e em algum momento precisaremos falar sobre o quão surreal é assistir em uma tela bombardeios e pessoas explodindo enquanto passamos manteiga no pão do outro lado do mesmo mundo – talvez se casar seja, para usar as palavras de Rotelli, “a sensatez do pequeno ato de vida”.

Talvez seja dessa mesma qualidade o gesto de um palhaço de se pintar e reunir um grupo de crianças na faixa de Gaza para elas brincarem e tão somente para isso: para brincarem e poderem ser crianças.

Talvez o gesto de resistência de viver a banalidade do cotidiano seja o único pensamento sensato.

Acordar, ir à escola, trabalhar, encontrar amigos e família, ter trocas sociais, ter uma casa para voltar no final do dia. Experimentar emoções, amar, desejar, se enfurecer por uma situação ou relação qualquer, sentir tédio, se frustrar, sofrer e se alegrar. Viver a segurança de que o amanhã e o depois de amanhã estarão ali, sonhar e imaginar futuros, agir no cotidiano com pequenos gestos e grandes decisões para caminhar em direção aos futuros sonhados. Tudo isso é necessário para experimentar o bem-estar. E quando tudo isso está ausente?

Talvez, como afirmava Rotelli em outro contexto, para as pessoas que vivem na pele as situações de guerras “o modo de fazer a guerra de resistência é viver o cotidiano: obstinar-se a recusar medidas de exceção, a emergência, repropor obsessivamente o valor concreto e inatacável da cotidianidade – que é ainda o único modo sensato de ser terapêutico”.

E para quem assiste à distância a um genocídio em curso e a tantas guerras (sempre) insensatas, resta algo de sensato a fazer?

<><> Pensar e agir do outro lado do mesmo mundo

Não há resposta fora da política. Se a política não se reduz à psiquiatria, também ocorre que a saúde mental não se dá fora da política – da polis. É na polis, na cidade, nos encontros e trocas reais e afetivas que se faz saúde mental. E é possível saúde mental quando as oportunidades de encontro são impedidas e a subjetividade marcada pelo horror? É possível saúde mental quando a luta é pelo direito de viver amanhã?

Há quem esteja buscando, sim, construir sobre isso pensamento e ação de forma articulada – e aqui é preciso mencionar a atuação de Samah Jabr, psiquiatra e chefe da unidade de Saúde Mental do Ministério da Saúde da Autoridade Nacional Palestina, e do Desorientalismos.

Fato é que vivemos tempos de genocídio, guerras e conflitos armados, muitos deles esquecidos. Qual foi a última vez que vimos algo sobre a gente que vive na Síria, Sudão ou Mianmar? Fato é que toda guerra impacta pessoas; impacta gente que deixa de viver a banalidade do cotidiano. Destes fatos, mais perguntas do que respostas se colocam para nós.

Por fim, para os que conhecem a realidade dos manicômios e se aliam à luta antimanicomial, vale recordar o pensamento de Rotelli de que “não há diferença entre as estratégias de limpeza étnica e a ideia de manter em pé os manicômios”. Enfrentar todas as formas de opressão e todos aparatos que as sustentam, deste e do outro lado do mundo – que é o mesmo –, é o mínimo de sensato a fazer. Não há trocas reais e afetivas sem gente; e não há gente se à gente é negado o direito de existir e viver em um comum. Isto também é fato.

É preciso que as crianças em Gaza possam voltar a viver a banalidade do cotidiano e voltar a brincar, sendo as pipas que soltam no ar apenas pipas.

 

Fonte: Por Cláudia Braga, para a coluna Cuidar das pessoas. Cuidar das cidades, em Outra Saúde

 

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