Pode
haver saúde mental em tempos de guerra?
Em
1994, o mundo vivia a Guerra da Bósnia, conflito armado que ocorreu entre 1992
e 1995 e envolveu os grupos étnicos da região: sérvios cristãos ortodoxos,
croatas católicos romanos e bósnios muçulmanos. Foi nessa guerra que se deu o
Cerco a Sarajevo, quando a cidade foi cercada, bombardeada e teve a entrada de
insumos básicos, como comida, bloqueada. Mais de 200 mil pessoas morreram e
cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas, em números que variam conforme
a fonte.
Foi
nesse contexto que o psiquiatra italiano Franco Rotelli, em 1994, afirmou: “Não
temos um entendimento sobre a guerra que seja adequado. Porque não temos um
pensamento da normalidade, porque não temos um pensamento sobre a riqueza do
cotidiano, sobre a riqueza da, assim chamada, ‘banal cotidianidade’ do bem e do
mal”¹. Rotelli, na busca por situar os termos de seu pensamento sobre o
conflito, esclarece que não crê “nas guerras étnicas, as guerras são sempre
políticas”, recordando que “também a psiquiatria não existe, se não como
articulação da política” e que “a política não pode, então, nunca ser reduzida
à psiquiatria”.
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Estranho seria se a psiquiatria não identificasse transtornos mentais
Uma
revisão da literatura sobre a saúde mental em Gaza identificou na população de
Gaza “altas taxas de transtorno de estresse pós-traumático, depressão,
ansiedade, e transtornos agudos de estresse entre crianças, adultos e idosos”.
Os dados mostraram que 54% das crianças em Gaza experimentaram transtorno de
estresse pós-traumático, além de “depressão (41%) e ansiedade (34%), devido a
eventos traumáticos como bombardeios e perda de entes queridos”. Talvez o
espantoso seja esse número não ser ainda maior.
Os
autores do estudo compreendem que essa “alta prevalência de transtornos mentais
é dada pela violência, perda e deslocamento”, e ressaltam que “as barreiras
para responder às necessidades de saúde mental da população incluem a
destruição da infraestrutura de saúde”.
É
relevante que estudos tratem da saúde mental das pessoas em Gaza porque é
preciso, por todos os meios, chamar atenção para a situação da Palestina.
Agora, se tal leitura é certamente limitada, também é certo que um pensamento
sobre o que é a vida – ou melhor, a sobrevivência – das pessoas em Gaza não
virá da psiquiatria enquanto instituição. Não é nela que encontraremos qualquer
linha de pensamento para saber mais sobre saúde mental nesse contexto, muito
menos quaisquer respostas à realidade e necessidades reais das pessoas.
A
experiência humana de extremo sofrimento imposta às pessoas que ainda estão
vivas em Gaza – sem esquecer que se estima que ao menos 55 mil palestinos já
foram mortos por ações militares do Estado de Israel em suas decisões como país
– se dá por uma guerra política. E já sabemos que a política não pode ser
reduzida à psiquiatria.
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A banalidade do cotidiano
Entre
vídeos de bombardeios, de uma criança sendo incendiada, de pessoas desesperadas
para suprir a necessidade básica humana de ter algo para comer, surge o vídeo
de um casamento: um rapaz gravou cenas da preparação do casamento de seu amigo,
que tomou a decisão de se casar em 2025, em Gaza. No vídeo compartilhado em
redes sociais, ele aquece um ferro de passar na brasa de um fogareiro
improvisado. Falta energia elétrica – mas a
formalidade de um casamento pede uma camisa elegantemente bem passada.
Filmando
a si mesmo dentro de um carro percorrendo ruas (seriam ruas?) daquilo que um
dia foi uma cidade, ele atravessa escombros e encontra seu amigo. A
continuidade é de um recorte de cenas sequenciais em que pessoas se abraçam,
dançam e celebram a vida. Eles casam o amigo. A escolha é por sonhar e projetar
um futuro, mesmo em meio ao presente genocídio.
Atravessando
a insensatez que todos assistimos diariamente – e em algum momento precisaremos
falar sobre o quão surreal é assistir em uma tela bombardeios e pessoas
explodindo enquanto passamos manteiga no pão do outro lado do mesmo mundo –
talvez se casar seja, para usar as palavras de Rotelli, “a sensatez do pequeno
ato de vida”.
Talvez
seja dessa mesma qualidade o gesto de um palhaço de se pintar e reunir um grupo
de crianças na faixa de Gaza para elas brincarem e tão somente para isso: para
brincarem e poderem ser crianças.
Talvez
o gesto de resistência de viver a banalidade do cotidiano seja o único
pensamento sensato.
Acordar,
ir à escola, trabalhar, encontrar amigos e família, ter trocas sociais, ter uma
casa para voltar no final do dia. Experimentar emoções, amar, desejar, se
enfurecer por uma situação ou relação qualquer, sentir tédio, se frustrar,
sofrer e se alegrar. Viver a segurança de que o amanhã e o depois de amanhã
estarão ali, sonhar e imaginar futuros, agir no cotidiano com pequenos gestos e
grandes decisões para caminhar em direção aos futuros sonhados. Tudo isso é
necessário para experimentar o bem-estar. E quando tudo isso está ausente?
Talvez,
como afirmava Rotelli em outro contexto, para as pessoas que vivem na pele as
situações de guerras “o modo de fazer a guerra de resistência é viver o
cotidiano: obstinar-se a recusar medidas de exceção, a emergência, repropor
obsessivamente o valor concreto e inatacável da cotidianidade – que é ainda o
único modo sensato de ser terapêutico”.
E para
quem assiste à distância a um genocídio em curso e a tantas guerras (sempre)
insensatas, resta algo de sensato a fazer?
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Pensar e agir do outro lado do mesmo mundo
Não há
resposta fora da política. Se a política não se reduz à psiquiatria, também
ocorre que a saúde mental não se dá fora da política – da polis. É na polis, na
cidade, nos encontros e trocas reais e afetivas que se faz saúde mental. E é
possível saúde mental quando as oportunidades de encontro são impedidas e a
subjetividade marcada pelo horror? É possível saúde mental quando a luta é pelo
direito de viver amanhã?
Há quem
esteja buscando, sim, construir sobre isso pensamento e ação de forma
articulada – e aqui é preciso mencionar a atuação de Samah Jabr, psiquiatra e
chefe da unidade de Saúde Mental do Ministério da Saúde da Autoridade Nacional
Palestina, e do Desorientalismos.
Fato é
que vivemos tempos de genocídio, guerras e conflitos armados, muitos deles
esquecidos. Qual foi a última vez que vimos algo sobre a gente que vive na
Síria, Sudão ou Mianmar? Fato é que toda guerra impacta pessoas; impacta gente
que deixa de viver a banalidade do cotidiano. Destes fatos, mais perguntas do
que respostas se colocam para nós.
Por
fim, para os que conhecem a realidade dos manicômios e se aliam à luta
antimanicomial, vale recordar o pensamento de Rotelli de que “não há diferença
entre as estratégias de limpeza étnica e a ideia de manter em pé os
manicômios”. Enfrentar todas as formas de opressão e todos aparatos que as
sustentam, deste e do outro lado do mundo – que é o mesmo –, é o mínimo de
sensato a fazer. Não há trocas reais e afetivas sem gente; e não há gente se à
gente é negado o direito de existir e viver em um comum. Isto também é fato.
É
preciso que as crianças em Gaza possam voltar a viver a banalidade do cotidiano
e voltar a brincar, sendo as pipas que soltam no ar apenas pipas.
Fonte:
Por Cláudia Braga, para a coluna Cuidar das pessoas. Cuidar das cidades, em
Outra Saúde

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