Desobediência
civil às ordens imorais do governo israelense
Anna Foa, estudiosa da
história judaica e da memória do Holocausto, responde às nossas
perguntas sobre o tema da desobediência às ordens imorais do governo
israelense.A entrevista é de Giordano Cavallari.
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Eis a entrevista.
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Querida Anna, o que você lembrou recentemente sobre a
guerra de 1956 em Israel?
Após o
início da guerra, um dia, o toque de recolher para a população civil palestina
foi antecipado em duas horas. Um grupo de agricultores, ocupados nos campos e
totalmente alheios à situação, foram abatidos pelo exército israelense quando
voltavam para casa, na vila de Kefar Kassem: 49 pessoas morreram,
incluindo mulheres e crianças.Isso provocou uma forte reação civil em Israel. O general Gurion, chefe do
governo, foi ao Parlamento, impôs um minuto de silêncio e pediu desculpas aos
palestinos. Houve então um julgamento regular, no fim do qual os responsáveis,
que tinham dado a ordem de atirar, foram condenados. Eles não permaneceram
presos por muito tempo, mas a sentença clara e definitiva foi dada. O
juiz Benjamin Halevy certa vez proferiu uma frase que continua sendo
um ponto alto da lei, bem como da moral: "Sabe-se que se está diante de
uma ilegalidade manifesta quando uma espécie de sinal acena como uma bandeira
preta sobre a ordem em questão e avisa: 'proibido'."
·
Por que lembrar desse fato?
Porque
hoje – dado o que está acontecendo em Gaza – eventos
políticos e institucionais desse tipo, infelizmente, não podem se repetir
em Israel.
·
Quer trazer à tona o caso recente do soldado Yair Golan?
Yair Golan era um oficial
de alta patente do exército israelense que, em 07-10-2023, às primeiras
notícias da agressão, vestiu novamente seu uniforme, pegou seu carro e foi
salvar, quem e como podia, civis dos terroristas do Hamas. Ele é agora o líder
da "esquerda" em Israel, que deriva da fusão de dois partidos de
oposição a Netanyahu. Golan disse
que há soldados israelenses que atiram em crianças palestinas “como um hobby”.
Bem, ele foi destituído da capacidade de vestir o uniforme israelense
novamente.
·
O gesto de Yair Golan é isolado?
Em Israel,
um movimento de desobediência civil contra o
governo de Netanyahu está ganhando força: do meu ponto de vista, isso
é muito interessante. Nas páginas do Haaretz, o conhecido jornalista Gideon Levi escreveu
claramente que alguém pode se recusar a obedecer a ordens injustas e imorais. Espero
que este debate – sério e civilizado – em Israel continue e, assim,
levante toda a sociedade israelense contra o massacre indiscriminado que o
exército israelense está realizando em Gaza.O tema da obediência – e
portanto da desobediência – às ordens é um tema “histórico” para Israel.
Lembro-me de que até mesmo o líder nazista Eichmann, um dos principais
responsáveis pelo extermínio
dos judeus na Europa, julgado em Israel e
condenado à morte, sempre sustentou que simplesmente havia obedecido ordens.
·
A conexão entre os militares nazistas e israelenses é
muito forte…
Pode
ser uma justaposição muito forte, mas vem da história. Basta ler ou reler os
documentos do julgamento de Eichmann ou dos julgamentos de Nüremberg: todos os réus, apoiados por seus advogados, sempre
alegaram ter obedecido às ordens. Aqueles que estão atacando a população civil
e as crianças de Gaza também estão seguindo ordens.
·
Esta é uma crítica forte para o bem de Israel?
Certamente.
Acredito que apoiar firmemente a oposição a Netanyahu significa
correr em auxílio de Israel e salvá-lo de seu suicídio, como escrevi
em meu livro.
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A sociedade civil israelense protesta: há quem o esconde.
Por Davide Assael
Os
protestos contra a guerra da sociedade civil israelense continuam
ininterruptos. Após as marchas à fronteira Sul do país ao grito de “Dai
HaMilchamà!” (Chega de guerra!), é deste fim de semana a carta assinada por
mais de mil docentes universitários que, em tons bastante graves, pede o fim do
massacre em Gaza, prolongado pela vontade desses líderes políticos, de ambos os
lados, que o mantêm vivo como sua única razão de ser. Entrementes, as
manifestações diárias se intensificam e se tornam mais numerosas. Elas
acompanham as enormes manifestações de sexta-feira à noite, cujo epicentro foi
Rechov Kaplan, em Tel Aviv, mas que se espalham por todo o país. Mas não basta:
recentemente, em Jerusalém, se realizou uma convenção organizada por sessenta
associações israelenses, árabes e judaicas, com a participação de milhares de
pessoas, algo nada marginal. O objetivo: exigir o fim da guerra, a libertação
dos reféns ou de seus corpos, o início de um percurso de reconhecimento mútuo.
Não foram poucos os políticos envolvidos. Na liderança estão Ehud Olmert e
Nasser al Qudwa, que repropuseram seu plano de paz, desenvolvido com base no
plano que o próprio Olmert, como presidente do Conselho em exercício, havia
proposto em 2008. Um plano indispensável, que previa até mesmo uma forma de
Jerusalém federal. Abu Mazen não pôde aprová-lo devido às divisões internas da
frente palestina. Gaza já havia caído nas mãos dos assassinos do Hamas, que
tinham imediatamente abolido as eleições, assassinado e expulso a ANP da Faixa
de Gaza e ameaçavam sua autoridade na Cisjordânia. E ainda: o trabalho diário
do Círculo de Pais, que também esteve na Itália nos últimos meses, de Omdim
beyachad, em inglês “standing together”.
Em
resumo, o Israel democrático se levantou definitivamente contra o tirano
criminoso Benjamin Netanyahu e seus acólitos supremacistas do sionismo
religioso (e entristece pensar no que era esse movimento há um século), que
deliram com anexações aqui e ali, indiferentes a qualquer dado demográfico que
documenta como os israelenses não têm nenhuma intenção de se associar a seus
delírios pseudomessiânicos. Porque o messianismo é um assunto sério demais para
ser deixado nas mãos desses kahanistas, fascistas, cujo lugar natural são as
pátrias prisões. Lugares, afinal de contas, bastante frequentados por muitos
deles antes de Netanyahu fazer sua obra de rastreamento para garantir uma
maioria para si depois de perder todos os aliados possíveis. Um despertar que,
para mim, parece a contradição mais explícita da definição do sionismo como uma
ideologia etnonacionalista, que acolhe acriticamente as especulações originadas
por círculos ideológicos radicais.
Mas
vamos ver essa ideologia etnonacionalista que Netanyahu é acusado em seu país
de estar traindo: princípio da igualdade entre todos os cidadãos sancionado
pela Carta de Independência de 1948 e reafirmado por duas leis fundamentais do
Estado, 21% da população árabe, sendo 18% muçulmanos e o restante cristãos.
Depois, drusos, baha'i, circassianos e beduínos. Todos com direitos iguais. O
árabe, embora com um leve rebaixamento devido à odiosa Lei da Nação de 2018, é
um idioma oficial do Estado, assim como o hebraico. O Estado financia quatro
sistemas educacionais, um dos quais é árabe. Partidos árabes no parlamento,
ministros árabes, juízes árabes da Suprema Corte, batalhões inteiros do
exército de beduínos e drusos.
Parâmetros
nem sequer imagináveis na ultrademocrática Europa, onde as pessoas esbravejam
sobre a substituição étnica em países onde os muçulmanos representam 2%. A lei
do retorno? Nada mais é do que a versão israelense das nossas leis que
privilegiam a imigração se alguém teve um distante parente italiano. Em suma, a
imprópria definição só funciona quando se nega aos judeus o atributo de povo. A
velha história que associa os judeus aos ciganos (ainda se ouve falar de etnia
cigana mesmo em círculos cultos), ou aos curdos. Ou até mesmo aos palestinos,
que alguns gostariam que fossem incluídos na genérica definição de árabes. Mas
é o discurso de sempre: aproveitar a guerra para exumar o antissionismo
militante. Que é o que Netanyahu quer, alimentar a polarização: ou você está
comigo ou está com os inimigos antissionistas/antissemitas da pátria. Enquanto
isso, continuam os protestos contra o Hamas em Gaza.
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Judeus contra o genocídio que Israel conduz em Gaza
A
manifestação, convocada, entre outras, pelas associações Judeus pela Paz e pela
Justiça (JPJ) e Israelenses pela Pressão Internacional (IPI), decorreu em
simultâneo com iguais manifestações realizadas em outras em 12 cidades de
países da União Europeia (UE) sob o lema “No Business as Usual with Israel”
[fim à normalidade das relações com Israel], e visou denunciar a “cumplicidade
europeia com os crimes de guerra de Israel” e pressionar os governos da União
Europeia a tudo fazer para “acabar com o genocídio do povo palestino”. Em
declarações à agência Lusa, Liad Hollender, da IPI, frisou que a manifestação
foi organizada “por israelenses muito preocupados, horrorizados, pelo que está
se passando em Gaza e contra o atual governo de Benjamim Netanyahu”. Hollender
é natural de Haifa, onde nasceu há 43 anos, e mora em Portugal há 14.
Outro
manifestante, Alan Stoleroff, responsável da JPJ, equiparou o que Israel faz
nos territórios palestinos ao que a Rússia faz na Ucrânia, sustentando que Tel
Aviv tem em curso “uma operação especial militar” que já se constituiu “como um
genocídio”. Do seu ponto de vista, está claro aos olhos de todos que “Netanyahu
não pretende acabar com essa operação até, como dizem explicitamente os seus
ministros dos dois ou três grupos de partidos da extrema, extrema-direita,
conseguirem a expulsão definitiva dos palestinos da Faixa de Gaza”. Stoleroff,
de 71 anos, é natural de Brooklyn, Estados Unidos, e vive em Portugal há cerca
de 45. “Estão a utilizar a arma da fome para pressionar a população civil da
Palestina, sejam simpatizantes do Hamas, ou não. É absolutamente ilegal,
imoral, algo sem precedentes”, afirmou Stoleroff, defendendo que o movimento
mundial de judeus contra o governo de Netanyahu “mina a legitimidade do Estado
de Israel ao pretender falar e atuar em nome de todos os judeus e israelenses
do mundo”. A manifestação contou também com cartazes a denunciar a atuação do
governo israelense e com palavras de ordem como “parem o genocídio”, “judeus
pela paz e pela justiça”, “igualdade para todos” ou “suspender o acordo de
associação Israel-UE”. A organização entregou uma carta aberta aos partidos
representados no Parlamento a denunciar a postura israelense nos territórios
ocupados.
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Israel ativa a destruição total de Gaza sem que ninguém a
impeça
O
governo de Benjamin Netanyahu há muito não esconde suas verdadeiras intenções
em Gaza: expulsar ou matar a população palestina – seja com bombas ou fome – e
ocupar todo o território, depois de tê-lo destruído quase completamente desde o
início de sua guerra punitiva em outubro de 2023. Na segunda‑feira,
no entanto, o governo ultranacionalista israelense iniciou uma nova fase da
guerra na qual anunciou que ocupará e destruirá
tudo o que resta de Gaza, permitindo uma entrada mínima
de ajuda humanitária cujo único objetivo é
evitar imagens horríveis de fome e aplacar os EUA, seu protetor na esfera
internacional. Na terça‑feira, o chefe humanitário
da ONU, Tom Fletcher, alertou em entrevista à BBC que 14 mil bebês
morrerão no enclave palestino nas próximas
48 horas se a ajuda humanitária não
chegar a tempo.
Somente
nas primeiras horas de segunda a terça‑feira, os ataques
israelenses mataram pelo menos 53 pessoas no norte e no centro da faixa. No
campo de refugiados de Jabalia, no norte, agora transformado em ruínas,
pelo menos nove pessoas foram mortas após um bombardeio
israelense de uma casa de família, detalharam as
mesmas fontes. As tropas de Benjamin Netanyahu também atacaram uma escola na
Cidade de Gaza que servia de refúgio para os palestinos. O bombardeio matou
pelo menos 13 pessoas. Em Deir Al Balah, o centro da Faixa, houve um bombardeio
de um posto de gasolina perto do campo de refugiados de Nuseirat, que no
momento do ataque abrigava civis deslocados, dos quais pelo menos quinze
morreram. "Uma estratégia totalmente nova. Chega de invasões ou operações
de entrada e saída – agora conquistamos, limpamos e ficamos. Até que o Hamas
seja destruído. Ao longo do caminho, o que resta da Faixa também está sendo
arrasado, simplesmente porque tudo lá se tornou uma grande cidade de
terror", disse Bezalel Smotrich, um dos ministros mais radicais do Executivo,
na segunda‑feira.
O
primeiro‑ministro declarou mais uma vez que Israel
assumirá o controle de toda a Faixa de Gaza, um plano no qual as
tropas israelenses vêm avançando rapidamente nos últimos
dois meses, desde que Tel Aviv decidiu quebrar o cessar‑fogo
com o grupo palestino Hamas e retomou sua ofensiva brutal em 18 de março.
Desde aquele dia, mais de 3.200 moradores de Gaza foram mortos, centenas deles
no último fim de semana, quando as Forças
de Defesa de Israel (IDF) anunciaram o início da Operação
'Carruagens de Gideão', um nome bíblico que sugere os desejos de um final
apocalíptico que entrará para a história. Com poucos edifícios de pé de norte a
sul do enclave palestino (mais de 90% foram danificados) e sua infraestrutura
destruída, as FDI continuam a atacar por terra, mais e pelo ar, destruindo o
que resta de bairros dizimados e visando até mesmo as tendas de lona em que
vivem os deslocados. A população está encurralada em uma área cada vez mais
limitada da pequena faixa de 360 quilômetros quadrados, com cada vez menos
rotas de fuga e nenhum lugar seguro. De acordo com o Escritório das Nações
Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA), mais de 70% do território de Gaza foi
ocupado e incluído nas chamadas zonas de "segurança" ou
"tampão", ao longo da divisão israelense, ou foi evacuado por ordens
militares forçando civis a deixar essas "áreas de combate perigosas".
Na
segunda‑feira, o porta‑voz do exército
israelense em língua árabe, Avichay Adraee,
ordenou a evacuação da cidade de Khan Younis (a maior do sul da
Faixa) e das cidades do sul de Beni Suhaila e Abasan. O OCHA lamenta que
"as pessoas tenham sido confinadas em espaços cada vez menores",
mesmo antes do início da atual operação militar, com a qual líderes políticos e
militares dizem querer pressionar mais o Hamas para libertar os 58 reféns (dos
quais menos da metade se acredita estarem vivos) que estão detidos por
militantes palestinos desde 7 de outubro de 2023.
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Ataque e negocie
No
entanto, os parentes dos reféns, vivos e mortos, denunciaram repetidamente que
a via militar não funciona e que a única maneira de trazer de volta seus entes
queridos é por meio de um acordo. Após o anúncio da Operação 'Carruagens de
Gideão', o Fórum das Famílias de Reféns e Pessoas Desaparecidas emitiu um
comunicado dizendo que "a expansão dos combates em Gaza aumenta
drasticamente o risco de danos tanto aos reféns vivos quanto aos corpos
daqueles que morreram em cativeiro". Há uma semana, o Hamas libertou o
refém israelense‑americano Edan Alexander graças
a um acordo com o governo dos EUA, com a mediação do Catar. Sua
libertação foi um gesto de boa vontade por parte dos
islâmicos que estavam tentando pressionar por novas negociações
indiretas com Israel para acabar com a guerra em Gaza. Um dia depois que
Alexander foi libertado, uma delegação israelense viajou
para Doha para retomar os contatos com mediadores do Catar, mas observadores
dizem que as ações de Israel mostram que não tem vontade de
concordar com uma cessação permanente das hostilidades, que é o que o Hamas
exige.
Netanyahu
concordou em enviar seus negociadores a Doha – sob pressão do enviado de Trump
ao Oriente Médio, Steve Witkoff, segundo o Haaretz – enquanto o presidente dos
EUA estava em visita oficial a este emirado do Golfo Pérsico; mas quando ainda
não havia deixado a região, intensificou os ataques a Gaza, enviando uma
mensagem clara ao seu aliado. Até agora, Trump não criticou a nova operação
israelense, na qual centenas de pessoas morreram em poucos dias, nem pediu a
Israel que a interrompesse. "As perspectivas de parar os combates agora
dependem principalmente de Trump e da esperança de que ele continue a mostrar
interesse nos eventos em Gaza", escreveu o analista Amos Harel no jornal
israelense Haaretz no domingo.
Se o
governo anterior dos EUA havia alertado que não apoiaria uma nova ocupação de
Gaza – território do qual Israel retirou suas tropas e desmantelou os
assentamentos em 2005 – o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro passado
abriu as portas para essa possibilidade e até mesmo para a expulsão da
população palestina. O governo ultranacionalista israelense tomou o plano do
republicano de esvaziar a Faixa, reconstruí-la e transformá-la na "Riviera
do Oriente Médio" literalmente. De Washington, houve apenas sinais de
desconforto e desaprovação nos últimos dias por causa das imagens de fome em
Gaza, dois meses e meio depois que Israel fechou as passagens de fronteira do
enclave e proibiu a entrega de ajuda humanitária e qualquer produto básico, de
água a remédios ou combustível.
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Ajuda humanitária para evitar críticas
Depois
de ignorar as advertências e apelos da ONU e de uma infinidade de organizações
humanitárias, Netanyahu cedeu aos sinais dos Estados Unidos e decidiu permitir
a entrada de uma quantidade "mínima" de ajuda humanitária para
aliviar o sofrimento da população civil em Gaza, que sofre com a fome há meses,
além da violência. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o primeiro‑ministro
argumentou sua decisão mais em termos políticos do que humanitários.
De acordo com Netanyahu, seus "melhores amigos ao redor do mundo" (ou
seja, os americanos) transmitiram a ele que há uma coisa que eles não
podem aceitar: "imagens de fome, fome em massa". Portanto, antes de
chegar a um "ponto perigoso" para Israel e chegar a uma "linha
vermelha", nas palavras de Netanyahu, é necessário
"resolver o problema".
O
governo e o exército hebreus garantiram que permitirão a entrada de ajuda
humanitária e na segunda‑feira cinco caminhões
foram autorizados a passar, uma quantidade totalmente insuficiente para as
necessidades. O OCHA confirmou que as autoridades israelenses entraram em
contato com a agência para "retomar a entrega limitada de ajuda"
e estão estudando como fazê-lo com base nas
condições no terreno, que não
são fáceis em meio a ataques e operações
militares e ao deslocamento da população. "O que vai
chegar nos próximos dias é um pouco para as padarias que distribuem pitas para
as pessoas e para as cozinhas públicas que dão uma ração diária de comida
cozida. Os civis em Gaza receberão um pão sírio e um prato de comida, e é
isso", disse Smotrich. O ministro das Finanças também deixou claro que a
decisão é puramente estratégica: "Eu gostaria de evitar ter que introduzir
um único grão de sal na Faixa de Gaza, mesmo para civis? É possível." Mas
ele admitiu que, se Israel o fizesse, "o mundo" o forçaria a acabar
com a guerra, que é a que se opõe a todo custo. "Isso permitirá que os
civis comam e nossos amigos no mundo continuem a nos dar o guarda‑chuva
internacional de proteção contra o Conselho de Segurança,
o tribunal de Haia e nós continuaremos a lutar até a vitória",
disse o ministro.
¨ Eu, soldado do Estado
judeu, sinto vergonha por Netanyahu. Por Ariel Bernstein
Meu
nome é Ariel Bernstein. Sou cidadão judeu israelense e ex-soldado das Forças de
Defesa de Israel (IDF). Este é um apelo aos líderes italianos e europeus para
que ajam com urgência.
Em
2014, servi como soldado na guerra em Gaza. Eu estava na área de Al-Burrah, em
Beit Hanoun, apoiando as unidades de engenharia envolvidas no desmantelamento
dos túneis do Hamas. A imensa destruição que deixamos para trás e o que vi me
mudaram para sempre, mas o que estamos assistindo hoje na Faixa de Gaza
ultrapassa qualquer limite imaginável. Atualmente moro em Bolonha e amo a
Itália. Mas todas as manhãs acordo com um peso insuportável: a dor pela minha
pátria, pelos prisioneiros, pelo povo de Gaza. E uma vergonha que me consome
pelos crimes cometidos em meu nome. Para o historiador Carlo Ginzburg, o lugar
que você ama é aquele do qual você sente vergonha. A vergonha, diz ele, pode
ser um laço mais forte que o amor. Só agora entendo o que significa. Sinto-me
profundamente envergonhado pelo que meu país se tornou. Em Gaza não há uma
guerra, mas a destruição metódica de um povo inteiro. A Itália e a Europa têm o
poder e o dever moral de impedir que continue.
Em sua
última coletiva de imprensa, o primeiro-ministro Netanyahu disse o que muitos
em Israel temiam: o objetivo não é apenas a "vitória total" sobre o
Hamas, mas a deportação dos palestinos de Gaza. "O plano Trump" é
apenas o eufemismo que ele usa para esconder uma limpeza étnica. Estamos
assistindo, em tempo real, à violação das normas mais básicas da decência
humana, em uma escala que eu jamais poderia ter imaginado. Nossos militares
mataram 50 mil pessoas, a maioria civis, incluindo mais de 15 mil crianças,
três mil desde que o cessar-fogo foi violado. A fome tem sido usada como arma.
Essa é uma política de destruição e agora os ministros nem têm medo de dizê-lo.
Após o
7 de outubro e o sequestro de centenas de civis, a única resposta que
conseguiram dar ao seu próprio povo foi infligir sofrimento a outro. Esse
governo não me representa, nem fala em nome do povo judeu, que em grande parte,
tanto em Israel quanto na diáspora, pede o fim dessa loucura.
Netanyahu
afirma agir em nosso nome, mas essas políticas perversas estão apenas colocando
em perigo os judeus em todo o mundo. Na Itália e na Europa, as comunidades
judaicas estão pagando o preço de uma campanha irracional realizada em seu
nome, mas sem o seu consentimento. Israel afirma ser seu escudo, mas suas ações
os estão tornando alvos. E a comunidade internacional não compreende a urgência
da questão. No Conselho UE-Israel, em fevereiro, os 27 Estados-membros
expressaram preocupação, solicitaram acesso humanitário e reafirmaram a
natureza vinculativa dos mandatos do TPI. No campo, nada mudou. Pelo contrário,
poucos dias depois, Israel interrompeu completamente a entrada de ajudas.
Peço à
Itália e à Europa que se posicionem. Vocês têm o poder de pôr fim a essa
loucura, a oportunidade de desempenhar um papel crucial e as alavancas de
pressão em suas mãos. Usem-nas. Suspendam os acordos comerciais e bilaterais,
façam tudo o que for necessário para obter um cessar-fogo e a libertação dos
reféns. Cada momento de atraso equivale a mais vidas perdidas, mais famílias e
futuros destruídos. Como israelense e judeu que se preocupa com o futuro do
nosso povo, peço que ajam antes que seja tarde demais. A história se lembrará
daqueles que falaram e daqueles que permaneceram em silêncio.
Fonte: Settimana News/Domani/7 Margens/La Repubblica/El Diário

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