terça-feira, 3 de junho de 2025

A extrema direita no deserto das planilhas

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Era 17 de abril de 2016. Com a abjeta homenagem ao torturador, Jair Messias Bolsonaro somava seu voto à coalizão conservadora que derrubaria a então presidente eleita. Ao lado do apartamento onde moro, na favela do Menino de Deus, estouraram alguns fogos. No mais, silêncio. Foi acachapante.

Desde então acumulamos derrotas. O obscurantismo da homenagem era só o começo: aprovação do teto de gastos e da reforma trabalhista pelo governo Temer, prisão ilegal de Lula e vitória do mesmo Bolsonaro em 2018. Em 2022, algum respiro. Solto, Lula comandou uma campanha popular e foi reeleito para o terceiro mandato. No entanto, já nos primeiros dias, teve que enfrentar um levante golpista contra o governo que ainda tomava forma. Apesar da retomada da cadeira presidencial, nas ruas, a língua que se fala é da direita e da extrema direita: empreendedorismo, militarização, teologia da prosperidade e da guerra. Situação que impõe uma questão a todos nós do “campo progressista”: como tudo isso foi possível?

Vários se apresentaram à tarefa. Respostas foram dadas, algumas convincentes, outras nem tanto: retórica do ódio, mundo do avesso das redes algorítmicas, ressentimento, ódio aos pobres e ao seu tímido processo de ascensão social. Em todas há um grão de verdade. Mas, como Vladimir Safatle, penso que sempre quando a extrema direita renasce é sinal de que a esquerda faltou ao encontro.

No quadro da desintegração social em que vivemos, a visão de mundo da esquerda soa como bom-mocismo dos que são materialmente protegidos e não sabem nada sobre o mundo real. A extrema direita, portanto, seria realista. Nós, românticos, tolos. Alguns acham graça, outros se enervam diante das nossas propostas.

A extrema direita, por sua vez, afirma um discurso sobrevivencialista. Os que engrossarem a casca e petrificarem o coração, sobrevivem. Ao menos, têm chance. A esquerda hegemônica, cada vez mais institucionalizada, aponta para o inferno e promete a redenção no céu da integração social. O mal não é natural, é a desigualdade que o promove e banaliza. O tempo da emancipação virá, mas antes é preciso trabalhar, negociar, conciliar, conceder.

Ela diz do futuro e passa a fazer cálculos para equilibrar as contas. Na prática, quer ser a fiadora final de um capitalismo sem solução. Já a extrema direita aponta para o inferno e diz: esse é o nosso lar. Aqui vamos viver. Não esperem nada de ninguém e nem concedam nada a ninguém. Peguem suas armas, não as deixem cair. Seria fatal.

O discurso na pandemia, por exemplo, era o da sobrevivência. Quem tergiversar, querer se esconder, vai ser capturado dentro de casa. Era hora da coragem. Ir para a rua, enfrentar o vírus, trabalhar. Do contrário, viria a fome. Não tem pra onde correr. A não ser que você seja privilegiado. Aí o discurso da extrema direita nomeia seus inimigos: os que podem se esconder do vírus são os que mesmo sem trabalhar não vão morrer de fome. Nosso ódio a eles.

Nós odiamos abstrações — o capital, o colapso climático, a especulação financeira. Eles odeiam pessoas cujos rostos conhecem muito bem.

Como nos lembra Walter Benjamin, a social-democracia de sua época abandonou a ideia da classe trabalhadora como “escravizada, vingadora e libertadora”, para recrutá-la como salvadora das gerações futuras. Foi quando ela desaprendeu o ódio e a disponibilidade para o sacrifício, cuja fonte principal era a solidariedade com os mortos do passado. Aqueles que não terão descanso enquanto o inimigo vencer. Fazer contas e mais contas em nome do “realismo fiscal” é também perder a solidariedade com os mortos do presente, falar uma língua inócua e rifar o ódio de classe inteiro ao outro lado.

Nas ruínas do fordismo, que aqui não passou de horizonte formativo da vindoura sociedade salarial, se encontra o núcleo de verdade do sobrevivencialismo de extrema direita. Para quem trabalha 12 horas por dia sem qualquer garantia de que haverá amanhã, o mundo social é mesmo uma luta de vida ou morte. Os mortos e estropiados estão pelas calçadas, como a lembrar que há sempre um buraco mais fundo para se cair.

Afinal, numa coisa a extrema direita tem razão. Conhecer a realidade não implica o poder de mudá-la. Nós, “progressistas”, sabemos de tudo. Produzimos ciência, análise de conjuntura, contamos com extenso apoio de evidências sobre o funcionamento do mundo social. Mas ao final o mundo é mesmo esse daí. É preciso sobreviver agora, não depois. Ao fim de tantas promessas que ficaram a meio caminho, de tanta conquista espanada, parte expressiva da população se impacientou. A extrema direita promete que quanto mais identificado com a ordem, mais chances de sobreviver você terá. Ela não quer mudar nada. Não acredita que isso seja possível. Que ninguém a atrapalhe. Nesse sentido, ela abomina todas as mediações e faz o elogio bruto da dominação direta (mercado, patriarcalismo etc.) tida por natural.

Theodor Adorno uma vez disse que enquanto houver sofrimento desnecessário haverá dialética. Não que haverá progresso, mas sim negatividade. História. Não se sabe de antemão em nome do que ela falará, mas certamente a voz ressoará da escuta e organização da revolta. Essa língua a esquerda desaprendeu. É preciso recuperá-la.

Taí, claro, mais uma daquelas palavras de ordem que, como Roberto Schwarz diria, é fácil de lançar e difícil de cumprir. Taxar grandes fortunas, isentar do imposto de renda as classes trabalhadoras e, sobretudo, abolir a escala 6×1 — pautas mais ou menos encampadas pelo governo — até poderiam contribuir para a retomada de uma dicção de classe. Mas só se não fossem acenos eleitorais no momento do desespero, e sim vias de reencontro com a tradição dos oprimidos. Será que há espaço na planilha?

•        “A ideologia é a base da opressão imperialista”, diz Alysson Mascaro

Em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, o jurista e professor Alysson Mascaro fez uma análise contundente sobre o papel da ideologia na dominação geopolítica e econômica do Brasil, especialmente diante dos embates entre o Ocidente e os países que integram o BRICS. Para ele, a base da opressão imperialista está assentada na forma como os afetos e os valores são moldados ideologicamente. “A ideologia é a base da opressão imperialista”, afirmou.

Mascaro defendeu que não há qualquer obstáculo ideológico racional que impeça o Brasil de se integrar plenamente ao eixo econômico mais dinâmico da atualidade, representado pelos países do BRICS. “Não há nenhuma razão ideológica para que o Brasil não abrace o pólo mais dinâmico da economia global, que hoje é representado pelo BRICS”, afirmou, ao criticar a persistente inclinação de setores populares brasileiros pelos Estados Unidos. “Mas o povão ainda prefere os Estados Unidos – e isso se explica pela ideologia.”

Para o jurista, essa preferência não se sustenta em dados objetivos sobre desenvolvimento ou bem-estar social. “Há meio século aumenta a pobreza nos Estados Unidos e a China diminuiu a pobreza. Mas a ideologia ainda é formada a partir do paradigma ocidental”, apontou. Ele destaca que essa hegemonia cultural tem raízes profundas na história da colonização e na estrutura afetiva que conecta o Brasil ao imperialismo. “Há toda uma história de afetos que liga nosso país, de modo colonizado, ao imperialismo.”

Mascaro sustenta que a ideologia não atua apenas pela razão, mas mobiliza sentimentos e afetos, gerando distorções na percepção política e social. “A ideologia opera por afetos. E é por isso que gente que beija a bandeira dos Estados Unidos passa por patriota”, ironizou. Na sua visão, o capitalismo se mantém justamente por essa articulação entre repressão e construção ideológica. “O capitalismo opera à base de repressões”, explicou.

Questionado sobre o cenário econômico e político brasileiro, Mascaro observou que o país ainda está sob o domínio do capital financeiro. “Hoje o Brasil é dominado pelo capital financeiro. Mas se o governo Lula conseguir ao menos dois dinheiros, um financeiro e um industrial, quem sabe acontece alguma briga”, sugeriu, apontando que a construção de um novo modelo produtivo poderia abrir espaço para disputas mais equilibradas dentro da própria estrutura do capital.

O jurista também teceu críticas ao sistema universitário dos Estados Unidos e à corrosão de suas instituições sob o governo de Donald Trump, que atualmente exerce a presidência do país. “Harvard está sendo destruída por Trump porque o modelo estadunidense é cada vez mais especulativo”, denunciou, ao evidenciar o enfraquecimento da produção intelectual e do pensamento crítico nos centros acadêmicos norte-americanos.

Por fim, Mascaro alertou para os perigos da manipulação ideológica na América Latina. “Com a ideologia, é possível fazer o povo gostar do pior. Vejam o caso da Argentina, onde o povo consegue preferir o Milei”, afirmou. E deixou um aviso: embora o presidente Lula esteja fazendo um bom governo, o risco da extrema direita ainda ronda o Brasil. “Lula vai bem, mas há sempre um Milei à espreita no Brasil”, concluiu.

•        Na audiência sobre o golpe, Tarcísio aplica o migué do superávit. Por Moisés Mendes

O procurador-geral Paulo Gonet e o ministro Alexandre de Moraes sabem com quem devem duelar nas audiências com as testemunhas dos golpistas. Tarcísio de Freitas está fora dessa lista.

O governador falou por 10 minutos, nesta sexta-feira, como testemunha de Bolsonaro, e não foi questionado nem por Gonet nem por Moraes. Só o advogado Celso Vilardi, da defesa de Bolsonaro, fez perguntas irrelevantes.

Porque o melhor é deixar assim. Tarcísio foi para dizer que não viu, não ouviu e não falou nada sobre o golpe com o chefe do golpe. Não é o tipo de testemunha que possa ajudar em alguma coisa.

O governador é o nome que a velha direita deseja para enfrentar Lula em 2026. A torcida da velha direita por Tarcísio é muito mais entusiasmada do que a do novo fascismo. Por isso as deferências.

Ele é o extremista moderado, que disse ter se reunido com Bolsonaro por cinco vezes, depois da eleição, mas nunca trataram de golpe. Aproveitando o palco do STF, deixou um recado de candidato para a Globo, a Faria Lima, os donos das boiadas e a base no Congresso. Na primeira parte do recado, disse:

"Falamos (nas reuniões) também da montagem do secretariado aqui em São Paulo. E a gente sempre conversava sobre isso basicamente. O presidente sempre esteve comigo no sentido de orientar, preocupado que eu acertasse também, preocupado também em transmitir a experiência dele".

Na segunda parte, complementar e bem estudada, falou da convivência com Bolsonaro:

"O único comentário (de Bolsonaro) era que lamentava. Foi um período de situações difíceis, crises graves, Brumadinho, Covid, crise hídrica, guerra da Ucrânia e todas elas da melhor forma possível. Terminamos com superávit. A preocupação era que a coisa desandasse, uma preocupação com o futuro do país".

Tarcísio apresenta-se como gestor, mas inspirado no grande chefe, que deve ser exaltado em nome da fidelidade cobrada pela raiz da extrema direita. Diante de todos os problemas que enfrentavam, da matança de Brumadinho à matança da Covid, eles sempre pensavam em superávit.

A coisa não poderia desandar. Bolsonaro era o presidente que nem vacina comprava e ele era o ministro da Infraestrutura, não era ministro da Fazenda. Mas ambos pensavam no quê? Só em superávit. Que é a obsessão permanente de toda a direita sob as ordens da Faria Lima.

Tarcísio aproveitou o depoimento para dizer que, ao contrário do que o governo faz ao aumentar o IOF, ele sempre pensa em racionalidade e superávit e no futuro do país. Ele e Bolsonaro. Essa é a frase: “Terminamos com superávit”.

O golpe estava sendo armado, desde o início de 2022, e Bolsonaro dormia e acordava pensando em superávit, em oferecer exemplos de sobriedade fiscal ao mercado financeiro. Nem Silas Malafaia deve acreditar. Nem a Folha acreditou.

Essa foi a manchete do jornal em 5 de dezembro de 2022, com a abordagem dos déficits acumulados pelo governo, do desrespeito crônico ao teto de gastos e da gestão caótica do orçamento: “Governo chega ao fim com apagão na máquina pública”.

Só o que faltou no título foi o nome do chefe do governo. Faltou dizer que o governo Bolsonaro chegou ao fim como um desastre total e mais de 700 mil mortos na pandemia. Mas Tarcísio acha que nada desandou e que tudo terminou em superávit.

Gonet e Moraes esperavam ouvir a versão da testemunha qualificada de um golpe e escutaram o relato de um milagre. Tarcísio usou o STF para aplicar um migué e dizer que está na briga para receber a bênção do chefe quase encarcerado

•        Apologia ao crime é ver Collor em casa, Bolsonaro solto e Moro sequer denunciado. Por Aquiles Lins

A apologia ao crime, tipificada no Artigo 287 do Código Penal Brasileiro, significa defender, elogiar ou incentivar um crime ou um criminoso em público, como se a prática fosse justificável ou admirável. A pena pode ser de 3 a 6 meses de prisão, ou multa.

Com base nesta lei a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu MC Poze do Rodo. Poze é um jovem negro, oriundo de favela, que está sendo acusado de ligação com a facção criminosa Comando Vermelho.

Uma operação absolutamente espetacularizada, midiatizada, expuseram o corpo negro de Poze cheio de tatuagens numa medida inócua, que não ataca o cerne do problema.

O problema do crime organizado não será solucionado prendendo um funkeiro de comunidade que canta sua realidade. Mas sim com uma ação estruturada e coordenada entre os estados e a união, como está propondo o governo federal com a PEC da Segurança Pública.

Enquanto isso, o estado brasileiro transmite para a população a sensação de que apologia ao crime é acompanhar Fernando Collor de Mello em décadas de delinquências terminar em prisão domiciliar “humanitária”.

Apologia ao crime é ver Sérgio Moro ter conduzido uma perseguição política contra Lula, quebrado a engenharia nacional e nem chegar a ser julgado.

Apologia ao crime é ver Flávio Bolsonaro livre e solto depois de comandar um esquema de rachadinha.

Apologia ao crime é Jair Bolsonaro não ter sido preso e cassado por ter exaltado um torturador da Ditadura Militar.

Para estes e muitíssimos outros casos, a impunidade é a maior apologia ao crime.

 

Fonte: Por Thiago Turibio, em A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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