sexta-feira, 12 de junho de 2026

Uma única dose de psilocibina devolve temporariamente funções perdidas em paciente com Alzheimer

O potencial terapêutico da psilocibina voltou a chamar a atenção da comunidade científica após um estudo relatar melhorias temporárias em uma paciente de 80 anos com Alzheimer avançado. A mulher, que convivia com a doença havia uma década, recuperou capacidades perdidas anos antes, incluindo comunicação verbal mais elaborada, maior autonomia física e controle urinário, após receber uma dose elevada da substância encontrada em cogumelos do gênero Psilocybe.

O caso foi descrito em um artigo publicado na revista científica Frontiers in Neuroscience. Embora os pesquisadores ressaltem que a intervenção não reverteu a progressão do Alzheimer, os resultados sugerem que determinadas funções cerebrais podem permanecer preservadas mesmo em estágios avançados da doença e serem reativadas temporariamente sob condições específicas.

O Alzheimer figura entre as formas mais comuns de demência e provoca deterioração gradual das capacidades cognitivas, motoras e de comunicação. Com o envelhecimento da população mundial, o número de diagnósticos segue em crescimento, ampliando a busca por alternativas terapêuticas capazes de melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Nesse contexto, a psilocibina tem despertado interesse crescente. Utilizada há milênios por povos da Mesoamérica, a substância é conhecida por sua ação sobre receptores de serotonina no cérebro. Pesquisas recentes indicam que compostos psicodélicos podem aumentar a comunicação entre diferentes redes neurais e estimular a neuroplasticidade, processo relacionado à formação de novas conexões entre células nervosas.

Para investigar esse potencial, os pesquisadores acompanharam uma paciente com Alzheimer avançado que apresentava severas limitações. Antes do tratamento, ela conseguia pronunciar apenas poucas palavras, necessitava de auxílio para caminhar e havia perdido o controle da bexiga. A participante recebeu uma dose oral única de cinco gramas de cogumelos contendo psilocibina, considerada elevada para os padrões de pesquisa. Um mês depois, foi administrada uma segunda dose de três gramas.

As mudanças começaram a ser observadas menos de um dia após a primeira administração. Cerca de 19 horas depois, a paciente conseguiu manter conversas prolongadas sobre acontecimentos de sua vida, algo incompatível com seu estado anterior. Também passou a demonstrar emoções de forma mais evidente, responder ao humor de familiares e estabelecer contato visual com maior frequência.

Os avanços se estenderam a outras áreas. Após anos utilizando fraldas, a paciente apresentou melhora significativa do controle urinário, incluindo períodos noturnos sem episódios de incontinência. Houve ainda recuperação parcial da capacidade de se vestir sozinha, além do retorno de expressões faciais como sorrisos espontâneos.

Segundo os autores, a mulher também passou a caminhar e interagir por períodos mais longos e conseguiu reconhecer alguns familiares. Parte dessas melhorias permaneceu por semanas, inclusive após a segunda administração da substância.

Os pesquisadores classificaram o trabalho como um estudo observacional exploratório baseado em um único caso, o que impede conclusões amplas sobre eficácia e segurança. Ainda assim, os resultados reforçam a necessidade de investigações mais abrangentes para compreender como a psilocibina atua no cérebro de pessoas com doenças neurodegenerativas.

Os cogumelos que produzem psilocibina existem há milhões de anos e podem ter surgido muito antes do desaparecimento dos dinossauros. Apesar de sua longa presença na história natural e cultural da humanidade, apenas nas últimas décadas a ciência passou a explorar de forma sistemática seus possíveis efeitos terapêuticos em transtornos neurológicos e psiquiátricos.

O estudo acrescenta novas evidências ao debate sobre o uso controlado de substâncias psicodélicas na medicina. Embora ainda distante de uma aplicação clínica consolidada, a observação de ganhos funcionais temporários em uma paciente com Alzheimer avançado abre novas frentes de pesquisa sobre mecanismos cerebrais que permanecem ativos mesmo durante fases severas da doença.

•        Cães podem ajudar em compreensão e enfrentamento do Alzheimer. Por Mariana Pezzo

Perda de memória e acúmulo anormal de algumas proteínas no cérebro são condições associadas à doença de Alzheimer em seres humanos. Estudo realizado em parceria entre grupos de pesquisa das áreas de Gerontologia e de Medicina Veterinária da UFSCar e da Universidade Estadual Paulista (Unesp, campus de Botucatu), respectivamente, acaba de mostrar que estes e outros aspectos estão presentes também na disfunção cognitiva canina (CCD), que acomete cães idosos. Além da relevância para a própria saúde dos animais, os achados também indicam o potencial do modelo canino em estudos voltados ao enfrentamento do Alzheimer em humanos.

Tradicionalmente, roedores e primatas são usados como modelos em estudos que resultaram em avanços importantes no conhecimento sobre Alzheimer. No entanto, esse uso envolve limitações, relacionadas a diferenças anatômicas; à necessidade de induzir a doença artificialmente; e, também, a trajetórias de envelhecimento muito diferentes da neurodegeneração em seres humanos. Já os cães de estimação, além de apresentarem a disfunção cognitiva naturalmente, compartilham com seres humanos um conjunto de aspectos relacionados ao processo de envelhecimento, como a exposição a fatores ambientais similares e estruturas sociais complexas.

O artigo com a análise feita pelo grupo brasileiro, intitulado “From companionship to science: the importance of dogs in advancing translational research on Alzheimer’s disease – a scoping review”, foi publicado em 20 de março na revista científica “Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions” (TRCI, publicação da Alzheimer’s Association). Como etapa preparatória de pesquisa que vai investigar biomarcadores associados à neurodegeneração no plasma sanguíneo de cães atendidos no Hospital Veterinário da Unesp de Botucatu, o grupo desenvolveu revisão sistemática da literatura científica na área.

A revisão sistemática é uma metodologia de produção de conhecimento, que identifica, organiza e analisa os estudos já existentes sobre um determinado tema, com o objetivo de sintetizar o que já se sabe até aquele ponto. Esse processo de síntese ajuda, por exemplo, a identificar consensos, lacunas de conhecimento e, assim, caminhos promissores para novas investigações. Na área da Saúde, artigos de revisão têm especial relevância por orientarem práticas clínicas, fundamentarem políticas públicas e garantir o acesso de cientistas e outros profissionais às melhores evidências disponíveis para a tomada de decisões.

No estudo recém-publicado, foram coletados, em diferentes bases de dados internacionais, artigos científicos sobre o processo de envelhecimento publicados entre janeiro do ano 2000 e maio de 2025, relatando pesquisas feitas com cães. Após a filtragem e exclusão de publicações duplicadas, com objetivos de pesquisa diferentes dos almejados, sem o envolvimento de cães como população estudada, dentre outros critérios, 125 artigos foram analisados em profundidade pela equipe de pesquisa, e categorizados em relação a três aspectos: fatores de risco, neuropatologia e abordagens diagnósticas.

Em relação a fatores de risco, a análise identificou um conjunto de variáveis demográficas, de modo de vida e fisiológicas possivelmente associadas à instalação e ao desenvolvimento do declínio cognitivo em cães. Dentre elas, o fator de risco não modificável mais significativo para CCD e, também, para as demências em humanos, é a idade. Também são compartilhados entre cachorros e seres humanos, enquanto fatores de risco modificáveis, o sedentarismo, perda de audição e exposição à poluição do ar. A análise também indicou a emergência de evidências de associação do declínio cognitivo com fatores nutricionais e com a microbiota intestinal, dentre outros pontos de interesse.

A neuropatologia está relacionada às alterações que doenças provocam no sistema nervoso e, especialmente, no cérebro. Esses achados são importantes tanto para aprimorar o diagnóstico quanto na busca de tratamentos mais eficazes. Na revisão de literatura realizada, foram identificados como aspectos comuns entre o declínio cognitivo em cães e o Alzheimer em humanos o acúmulo não normal de proteínas no tecido cerebral, ocorrência de processos inflamatórios e perda de neurônios, dentre outros.

Por fim, no que diz respeito a metodologias de diagnóstico do declínio cognitivo, os estudos foram categorizados em relação ao foco na detecção de perdas cognitivas; na avaliação da capacidade de memória e aprendizagem; ou no estudo de biomarcadores. Uma das conclusões é que o diagnóstico de CCD é, tradicionalmente, baseado em uma combinação de avaliações clínicas, comportamentais, e na exclusão de outras condições médicas possivelmente associadas aos sintomas apresentados pelos animais (como dor crônica, perdas sensoriais e distúrbios endócrinos).

Aqui, cães e humanos compartilham, de acordo com os resultados da análise realizada, a associação entre velocidade de marcha e performance cognitiva, bem como entre declínio cognitivo e distúrbios do sono. Além disso, há as evidências relacionadas ao traço mais comumente associado à doença de Alzheimer em humanos, que é a perda da memória.

O trabalho recém-publicado é parte dos estudos de doutorado de Heloisa Máximo Ribeiro no Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas (PIPGCF) da UFSCar, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processo 2025/02761-6). A orientação é de Marcia Regina Cominetti, docente no Departamento de Gerontologia (DGero), que lidera o Laboratório de Biologia do Envelhecimento (LABEN) da UFSCar, com linha de pesquisa voltada à investigação de biomarcadores na doença de Alzheimer.

A pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida em colaboração com grupo da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp em Botucatu, liderado pelos docentes Didier Cagnini e Rogério Amorim, também autores do artigo. As mestrandas Vanessa Alexandre-Silva (da UFSCar, com mestrado já concluído) e Klysse Assumpção Barbosa (da Unesp) também assinam a publicação.

Além dos potenciais do uso do modelo canino em pesquisas translacionais sobre Alzheimer e outras demências – ou seja, na construção de pontes entre o laboratório e a aplicação do conhecimento científico -, a revisão também apontou fragilidades. Dentre elas, a necessidade de maior padronização metodológica e, também, de estudos de longo prazo.

Isso porque, dos 125 artigos analisados, a grande maioria reportava pesquisas transversais. Um estudo transversal observa uma população em um único momento no tempo, como uma “fotografia” de uma determinada situação, como, por exemplo, da presença simultânea de obesidade e alterações metabólicas em um determinado conjunto de pessoas. É um tipo de pesquisa que permite identificar associações entre essas variáveis, mas não estabelecer relações de causalidade, ou seja, no exemplo usado, dizer que a obesidade leva a alterações metabólicas, ou vice-versa. Já os estudos longitudinais – presentes em apenas quatro das publicações analisadas – acompanham uma mesma população ao longo de um determinado período, registrando mudanças e, assim, permitindo a avaliação de relações de causa e efeito.

Os autores também registram, como sugestões e diretrizes para pesquisas futuras, a validação de técnicas quantitativas para medida precisa de proteínas acumuladas no cérebro dos animais; e a realização de estudos clínicos controlados de tratamentos para CCD, incluindo intervenções farmacológicas, na dieta e comportamentais. Junto a outras proposições, o artigo conclui destacando justamente a necessidade de abordagens interdisciplinares, que promovam a colaboração entre neurociência, gerontologia e neurobiologia humanas e veterinárias.

 

Fonte: eCycle/UFSCar

 

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