Big
techs:
Trump arma um escândalo silencioso
Há uma
frase que Donald Trump soltou a bordo do Air Force One, em 5 de junho, que
merecia ter travado o noticiário dos últimos dias. O governo dos Estados
Unidos, disse o presidente, estuda adquirir participação acionária nas maiores
empresas de inteligência artificial do planeta, num arranjo que “quase vira uma
parceria com o público americano”. Os líderes de todas as grandes do setor
já foram convocados à Casa Branca e deverão
ocorrer reuniões nesta semana. O detalhe que passou em brancas nuvens é a
origem da ideia. Ela não brotou de nenhum instinto estatizante de Washington.
Veio de Sam Altman. Foi o CEO da OpenAI quem, segundo apurou a NOTUS, plantou a semente
ainda no começo do segundo mandato, depois de peregrinar para conhecer os
fundos soberanos do Golfo e da Ásia. E quando o fundador de uma das empresas
mais valiosas do setor demanda que o Estado seja seu sócio, convém desconfiar
da generosidade. Ninguém doa um naco de uma futura empresa trilionária por
altruísmo. Doa-se para comprar alguma coisa. O que Altman compra, ao oferecer
ações, é a apólice mais barata do mercado contratada do único regulador que de
fato importa.
Não por
acaso, no mesmo 8 de junho em que deu o primeiro passo formal para seu pedido
de IPO, a OpenAI publicou um manifesto cujo refrão é que o poder da IA não deve
“se concentrar em poucas empresas, governos ou indivíduos”. É a luva de veludo
do IPO — prega prosperidade repartida e uma fatia significativa dos ganhos para
todos no exato gesto em que seu autor negocia ceder ao governo um pedaço da
própria empresa. Condenar a concentração de poder enquanto se oferece o capital
ao Estado só deixa de ser contradição quando se entende que repartir dividendo
nunca foi repartir mando.
O
enquadramento oficial é sedutor e enganoso. Fala-se em “partilhar os ganhos” da
IA com o cidadão, como se o governo fosse repartir os dividendos que receber
com 340 milhões de pessoas. Para a avaliação de uma empresa com valor de
mercado de US$ 2 trilhões, isso significaria US$ 59 por habitante. O escândalo
silencioso se verifica por seu ineditismo. Todas as vezes em que os EUA
compraram pedaços de empresas privadas — a General Motors em 2009, os bancos na
crise financeira no ano anterior — foi para catar cacos no chão, em meio a um
desastre econômico. Trump propõe o avesso disso. Quer entrar no capital destas
empresas quando OpenAI, Anthropic e SpaceX caminham para aberturas de capital
que devem gerar companhias de trilhões de dólares.
E o
relógio anda. Em 8 de junho, três dias após a fala de Trump, a OpenAI confirmou
ter protocolado, em sigilo, seu S-1 na SEC — o primeiro passo formal do IPO. O
Estado não cogita comprar uma empresa madura; cogita entrar pela porta do
pregão antes mesmo dele abrir. Não é o anteparo de uma crise anunciada. É um
investidor-anjo armado com poder de polícia. E é aqui que a retórica esconde o
seu truque mais fino. Socializar o lucro parece o oposto de socializar o
prejuízo, mas não é algo tão distinto.
Um
Estado que aposta em ações de uma companhia antes do seu IPO, em meio a uma
bolha prestes a estourar, não pode mais se dar ao luxo de deixar a própria
carteira mobiliária derreter. No instante em que vira acionista, passa a ter um
motivo fiscal para socorrer o setor caso a bolha estoure. O tal “fundo de
riqueza pública” proposto por Altman nasceria, portanto, como fundo de resgate
fantasiado de dividendo. Repartir a alta de hoje é a maneira elegante de
assinar, em letra miúda, a garantia da queda de amanhã. O investimento na Intel, cuja ação disparou mais de 50% nas semanas
seguintes depois
que o governo comprou 10% do seu capital e impulsionada também por Nvidia e
SoftBank, serve de vitrine justamente porque calou esse risco enquanto deu
certo. Esse “fundo de riqueza pública” é, na prática, uma operação de
securitização pois pega as participações do governo nas empresas de IA e as
transforma em direitos a dividendos, picotados e distribuídos ao cidadão.
Securitiza-se a aposta, não o poder. O contribuinte herda o papel e a torcida
pelo lucro, jamais o assento à mesa onde se decide.
Um
defensor do plano dirá que nada disso se sustenta — a perda de um acionista é
limitada ao que investiu, e distribuir dividendos a milhões de cidadãos é, sim,
espalhar a riqueza. O contra-argumento tem duas falhas. A primeira é que a IA é
sistêmica demais para se deixar quebrar; o Estado a socorreria de todo modo, e
a participação apenas troca o resgate relutante pelo interesse próprio. A
segunda é que distribuir dinheiro não é distribuir poder — o cidadão recebe o
cheque, mas o comando segue concentrado no par Estado-empresa, justamente a
concentração que o manifesto da OpenAI jura combater.
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O espelho chinês
O
paralelo com a China incomoda com razão. Desde 2015, Pequim recolhe as
chamadas golden shares,
fatias de cerca de 1% em subsidiárias de Alibaba, Tencent e ByteDance, por meio
de fundos amarrados ao regulador da internet. O dinheiro nunca foi o ponto. O
que conta é o assento no conselho, possibilidade de veto sobre a estratégia dos
conglomerados, o acesso aos dados — o controle exercido por dentro da
corporação. David Sacks, que foi o czar de IA da própria Casa Branca, avisou
que a “nacionalização da IA” aceleraria a fusão entre Estado e corporação no
figurino chinês. Mas este modelo não é um privilégio de Pequim mas também se
reproduz, com nuances, na Noruega, França e Singapura.
E ele
carrega uma ironia mais profunda, que nenhum porta-voz vai sublinhar. Os
Estados Unidos passaram uma década dizendo aos aliados que não confiassem em
tecnologia chinesa precisamente porque o Partido tem assento nos conselhos das
empresas. No dia em que o Tesouro estadunidense virar acionista da OpenAI, esse
argumento se vira contra quem o inventou. Não se vende “IA democrática” ao
planeta enquanto se estatiza a tabela de capitalização em casa. A diplomacia
tecnológica de Washington repousa sobre uma promessa que o próprio Trump está
prestes a quebrar pela segunda vez.
Repare
também em quem não foi convidado para o banquete do lastro público financeiro.
Ainda segundo a NOTUS, a Anthropic não está nas conversas sobre ceder ações ao
governo, enquanto a OpenAI, que enviou os papéis para seu IPO esta semana,
conduz a dança. A ausência é eloquente. A relação entre a empresa e a
administração já vinha corroída, a ponto de o governo restringir o uso da tecnologia da
Anthropic por
agências federais no início de 2026 — ruptura que veio depois de a
empresa recusar as exigências do Pentágono e manter duas
linhas vermelhas, não ceder o Claude para vigilância em massa de americanos nem
para armas autônomas. Horas depois, foi a OpenAI quem fechou com o Pentágono o contrato
para operar em redes classificadas.
Não
enxergo aí um acaso de agenda. Enxergo o desenho do instrumento. Quando o
Estado distribui participação, ele não está fazendo política industrial. Está
montando um sistema de espólios com cláusula de contrato de investimento. A
fatia acionária deixa de ser ferramenta econômica e vira aferidor de
fidelidade. É o quadro de acionistas convertido em lista de lealdade. E um
governo que possui a OpenAI mas não a Anthropic, que passou a valer mais que a
adversária, não tem como arbitrar a disputa entre as duas sem que cada decisão
regulatória carregue a suspeita do favorecimento.
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Derrota do neoliberalismo
Poucos
assuntos desorganizam tanto a bússola ideológica. Pela esquerda, Bernie Sanders
quer o mais ousado, um imposto único de 50% pago em ações, assentos nos
conselhos e um fundo soberano. O combustível é o ressentimento legítimo de
quem vê o sistema viciado e se sente
impotente.
Pela direita, Trump chega ao mesmo lugar pela porta oposta, sem nenhum verniz
populista, movido pelo faro de quem brincou que “deveria ser corretor da bolsa” e se gaba do
lucro com a Intel. Um quer justiça redistributiva. O outro quer um bom negócio.
O
encontro dos extremos esconde o verdadeiro derrotado. Quando o socialista de
Vermont e o bilionário de Mar-a-Lago concordam que o Estado deve possuir a IA,
quem perde não é a esquerda nem a direita. É o centro liberal que ainda
acreditava na regulação à distância de braço, no Estado que apita o jogo sem
entrar em campo. Esse consenso neoliberal é o cadáver na sala. A bem da
verdade, o defunto já agonizava havia uma década, corroído pelas tarifas, pelo
CHIPS Act e pelo IRA; o que muda agora é a proporção. Do lado da resistência, a
coisa também atravessa partidos. O libertário Rand Paul chamou o negócio da
Intel de passo rumo ao socialismo e Sacks atacou pela mesma trincheira. A briga
real não é esquerda contra direita. É entre quem quer o Estado dentro do jogo e
quem o quer fora dele.
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Parceria unilateral
Falta o
mais mundano, que é como tudo isso funcionaria na prática. Há três modelos
sobre a mesa e eles não são variações de grau, são filosofias distintas.
A doação voluntária da OpenAI entregaria
ações a um fundo sem custo para o contribuinte, numa engenharia jurídica que
ninguém ainda testou. O figurino da Intel converte subsídios não pagos em fatia
passiva, sem cadeira no conselho. A via de Sanders tomaria as ações via imposto
e sentaria o governo nos conselhos das empresas. As perguntas em aberto valem o
debate inteiro. É possível transferir ações privadas ao Estado sem o aval do
Congresso. A participação será silenciosa, como na Intel, ou terá voz, como
quer o senador democrata?
E é
aqui que devolvo a palavra mágica do presidente dos EUA. Trump fala em
“parceria”, mas parceiro é quem divide risco e decisão. O que se oferece ao
“público americano” é um acionista que não pode vender, não pode votar, não
pode sair e nem sequer escolheu entrar. É o pior negócio de ações do mundo.
Chamar isso de sociedade já é elogio. Soa mais como gorjeta, uma migalha do
lucro entregue para que ninguém pergunte quem manda. O modelo amigável que os
defensores invocam é o fundo do petróleo do Alasca, que paga dividendos aos
cidadãos. O temido pelos opositores do modelo protecionista é a golden
share de Pequim. Tudo o que separa um do outro é uma única variável, o
direito de mando, e é precisamente essa variável que ninguém quis cravar antes
de sentar à mesa na Casa Branca.
E há um
cidadão que sequer entra na conta — o que vive fora dos Estados Unidos. Se
Washington se torna coproprietária da camada de inteligência artificial sobre a
qual o mundo inteiro processa, comunica e decide, todo país que depende dessa
infraestrutura, passa a hospedar no próprio cotidiano digital os ativos de um
Estado estrangeiro com interesse direto no resultado que ultrapassa as questões
de segurança nacional. A soberania digital alheia deixa de ser ameaçada apenas
pelas plataformas privadas e passa a sê-lo por um sócio público sentado na Casa
Branca. Para o Sul Global, a “parceria com o público americano” é, no melhor
dos casos, uma parceria com o público dos outros.
No
século passado, Washington só injetava recursos públicos em empresas
monopolistas quando elas estavam quebrando ou intervia para garantir o
famoso too big to fail. Mas não é mais o too big to fail de
2008, em que o Estado socorria a contragosto empresas das quais nada possuía. É
um grande demais para cair fundado na origem — o governo entra já como dono, e
um dono não deixa a própria carteira derreter. O resgate, antes exceção
vergonhosa, vira reflexo de autopreservação. Agora, Trump quer comprá-las enquanto
estão na alta. Essa inversão, do segurador para o especulador, do resgate para
o palpite, é a mudança que de fato importa. E ela está acontecendo de forma
atabalhoada e às escuras. O mínimo que os cidadãos e os estados nacionais
deveriam exigir é que se chame a coisa pelo nome e que as decisões sejam
tomadas à luz do dia. Tudo que parece que não irá acontecer no atual momento.
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Anthropic ou OpenIA: quem ganhará disputa trilionária?
Por Nicolas Martin
Poderia
ser um roteiro de Hollywood, mas é real. Dois nerds ambiciosos que, com
estratégias duras e muita persistência, disputam a supremacia na Inteligência Artificial (IA). Também não faltam
reviravoltas. Dario Amodei, chefe da Anthropic,
criadora do Claude, recentemente pediu uma pausa no desenvolvimento da IA,
alertando que os humanos poderiam perder o controle. E isso poucos dias após
apresentar à autoridade reguladora dos mercados americanos, a SEC, documentos
para abrir o capital da empresa na bolsa (IPO).
Assim,
os criadores do Claude saem na frente dos responsáveis pelo ChatGPT, da OpenAI, que só
anunciaram sua estreia em Wall Street e submeteram a documentação necessária
uma semana depois.
O
momento parece favorável. As bolsas estão em alta e a IA está em evidência.
Além disso, a Anthropic é avaliada atualmente em 965 bilhões de dólares,
enquanto a OpenAI chega a 852 bilhões. Um IPO poderia levar ambas ao grupo das
empresas trilionárias — algo que hoje apenas gigantes como Nvidia, Apple, Alphabet,
Amazon, Meta e Tesla alcançaram.
Para comparação, a maior empresa alemã atualmente, a Siemens, vale cerca de 230
bilhões de dólares.
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Para que serve tanto dinheiro?
A
consultoria Gartner estima que os gastos globais com inteligência artificial
continuarão crescendo fortemente, ultrapassando 2,5 trilhões de dólares já
neste ano. A maior parte desses investimentos está na infraestrutura de IA,
sobretudo na construção e aluguel de grandes data centers, responsáveis por
fornecer o poder computacional necessário.
Até
agora, Anthropic e OpenAI captaram recursos por meio de rodadas de
investimento, nas quais empresas e fundos apostam em startups com potencial de
crescimento. Segundo o analista Harrison Rolfes, da PitchBook, a OpenAI já
arrecadou 185,9 bilhões de dólares desde sua fundação, enquanto a Anthropic
captou 126,8 bilhões.
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Quem está na frente?
Para
muitos especialistas financeiros, a Anthropic tem melhores perspectivas no
mercado. "A Anthropic tem a melhor história para um IPO — e são sobretudo
os números que convencem", afirma Rolfes.
A
empresa deve faturar cerca de 47 bilhões de dólares neste ano, contra 30
bilhões da OpenAI, mesmo tendo captado menos recursos. Outro fator é o foco no
mercado corporativo.
"Mais
de mil empresas já gastam mais de um milhão de dólares por ano com a
Anthropic", destaca o analista.
Já a
OpenAI domina o segmento de consumidores com o ChatGPT, que tem mais de 900
milhões de usuários semanais — mas a maioria utiliza o serviço gratuitamente.
"Monetizar
uma base tão grande de usuários grátis é um desafio", afirma Rolfes.
Pedro
Domingos, professor emérito de ciência da computação da Universidade de
Washington, concorda.
"A
Anthropic está mais avançada nos serviços para empresas, e é daí que virá a
maior parte do dinheiro. Mas isso pode mudar rapidamente". Segundo ele, a
empresa tem mais demanda, mas menos capacidade computacional.
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Uma disputa de egos
A
rivalidade também envolve grandes egos. Em 2021, Dario Amodei deixou a OpenAI
por discordar da direção sob Sam Altman — excessivamente focada em dinheiro e
insuficiente em responsabilidade. Desde então, ele posiciona a Anthropic como
defensora de uma IA mais segura e regulada.
Amodei
também impôs limites quanto ao uso militar: o Claude não deveria ser utilizado
para vigilância em massa nem sistemas de armas automatizados. Isso levou o
Pentágono a classificar a Anthropic como "risco de segurança na cadeia de
fornecimento" — uma medida drástica, normalmente aplicada a empresas
estrangeiras.
Sam
Altman tenta ocupar esse espaço: a OpenAI planeja fornecer software ao
Pentágono. Com isso, sua empresa vem assumindo cada vez mais o papel de
"vilã" na disputa — algo irônico, considerando que a OpenAI foi
fundada em 2015 com a missão de desenvolver IA de forma ética e responsável.
Especialistas
acreditam que a postura de Amodei também tem um componente de marketing. Para
Domingos, o sucesso rápido e a pressão crescente podem abalar a imagem da
Anthropic como "a empresa do bem".
"Decisões
difíceis virão, e alguns funcionários podem sair decepcionados — como aconteceu
quando Amodei e outros deixaram a OpenAI".
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Corrida pela AGI
Segundo
Domingos, o objetivo final das empresas é desenvolver a chamada Inteligência
Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês), capaz de realizar qualquer tarefa
cognitiva humana. "Quem chegar lá primeiro terá uma vantagem praticamente
impossível de alcançar".
Ainda
assim, Rolfes relativiza: "Chegar primeiro não significa vencer. Para
lucrar de verdade com IA, é preciso adoção ampla, confiança das empresas e boas
margens". No fim das contas, diz ele, a disputa será decidida por
qual tecnologia será adotada pelas maiores empresas do mundo.
A
corrida pela liderança na inteligência artificial, portanto, ainda está longe
de terminar.
Fonte:
Por Por James Görgen, em Outras Palavras/DW Brasil

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