quinta-feira, 11 de junho de 2026

Big techs: Trump arma um escândalo silencioso

Há uma frase que Donald Trump soltou a bordo do Air Force One, em 5 de junho, que merecia ter travado o noticiário dos últimos dias. O governo dos Estados Unidos, disse o presidente, estuda adquirir participação acionária nas maiores empresas de inteligência artificial do planeta, num arranjo que “quase vira uma parceria com o público americano”. Os líderes de todas as grandes do setor já foram convocados à Casa Branca e deverão ocorrer reuniões nesta semana. O detalhe que passou em brancas nuvens é a origem da ideia. Ela não brotou de nenhum instinto estatizante de Washington. Veio de Sam Altman. Foi o CEO da OpenAI quem, segundo apurou a NOTUS, plantou a semente ainda no começo do segundo mandato, depois de peregrinar para conhecer os fundos soberanos do Golfo e da Ásia. E quando o fundador de uma das empresas mais valiosas do setor demanda que o Estado seja seu sócio, convém desconfiar da generosidade. Ninguém doa um naco de uma futura empresa trilionária por altruísmo. Doa-se para comprar alguma coisa. O que Altman compra, ao oferecer ações, é a apólice mais barata do mercado contratada do único regulador que de fato importa.

Não por acaso, no mesmo 8 de junho em que deu o primeiro passo formal para seu pedido de IPO, a OpenAI publicou um manifesto cujo refrão é que o poder da IA não deve “se concentrar em poucas empresas, governos ou indivíduos”. É a luva de veludo do IPO — prega prosperidade repartida e uma fatia significativa dos ganhos para todos no exato gesto em que seu autor negocia ceder ao governo um pedaço da própria empresa. Condenar a concentração de poder enquanto se oferece o capital ao Estado só deixa de ser contradição quando se entende que repartir dividendo nunca foi repartir mando.

O enquadramento oficial é sedutor e enganoso. Fala-se em “partilhar os ganhos” da IA com o cidadão, como se o governo fosse repartir os dividendos que receber com 340 milhões de pessoas. Para a avaliação de uma empresa com valor de mercado de US$ 2 trilhões, isso significaria US$ 59 por habitante. O escândalo silencioso se verifica por seu ineditismo. Todas as vezes em que os EUA compraram pedaços de empresas privadas — a General Motors em 2009, os bancos na crise financeira no ano anterior — foi para catar cacos no chão, em meio a um desastre econômico. Trump propõe o avesso disso. Quer entrar no capital destas empresas quando OpenAI, Anthropic e SpaceX caminham para aberturas de capital que devem gerar companhias de trilhões de dólares.

E o relógio anda. Em 8 de junho, três dias após a fala de Trump, a OpenAI confirmou ter protocolado, em sigilo, seu S-1 na SEC — o primeiro passo formal do IPO. O Estado não cogita comprar uma empresa madura; cogita entrar pela porta do pregão antes mesmo dele abrir. Não é o anteparo de uma crise anunciada. É um investidor-anjo armado com poder de polícia. E é aqui que a retórica esconde o seu truque mais fino. Socializar o lucro parece o oposto de socializar o prejuízo, mas não é algo tão distinto.

Um Estado que aposta em ações de uma companhia antes do seu IPO, em meio a uma bolha prestes a estourar, não pode mais se dar ao luxo de deixar a própria carteira mobiliária derreter. No instante em que vira acionista, passa a ter um motivo fiscal para socorrer o setor caso a bolha estoure. O tal “fundo de riqueza pública” proposto por Altman nasceria, portanto, como fundo de resgate fantasiado de dividendo. Repartir a alta de hoje é a maneira elegante de assinar, em letra miúda, a garantia da queda de amanhã. O investimento na Intel, cuja ação disparou mais de 50% nas semanas seguintes depois que o governo comprou 10% do seu capital e impulsionada também por Nvidia e SoftBank, serve de vitrine justamente porque calou esse risco enquanto deu certo. Esse “fundo de riqueza pública” é, na prática, uma operação de securitização pois pega as participações do governo nas empresas de IA e as transforma em direitos a dividendos, picotados e distribuídos ao cidadão. Securitiza-se a aposta, não o poder. O contribuinte herda o papel e a torcida pelo lucro, jamais o assento à mesa onde se decide.

Um defensor do plano dirá que nada disso se sustenta — a perda de um acionista é limitada ao que investiu, e distribuir dividendos a milhões de cidadãos é, sim, espalhar a riqueza. O contra-argumento tem duas falhas. A primeira é que a IA é sistêmica demais para se deixar quebrar; o Estado a socorreria de todo modo, e a participação apenas troca o resgate relutante pelo interesse próprio. A segunda é que distribuir dinheiro não é distribuir poder — o cidadão recebe o cheque, mas o comando segue concentrado no par Estado-empresa, justamente a concentração que o manifesto da OpenAI jura combater.

<><> O espelho chinês

O paralelo com a China incomoda com razão. Desde 2015, Pequim recolhe as chamadas golden shares, fatias de cerca de 1% em subsidiárias de Alibaba, Tencent e ByteDance, por meio de fundos amarrados ao regulador da internet. O dinheiro nunca foi o ponto. O que conta é o assento no conselho, possibilidade de veto sobre a estratégia dos conglomerados, o acesso aos dados — o controle exercido por dentro da corporação. David Sacks, que foi o czar de IA da própria Casa Branca, avisou que a “nacionalização da IA” aceleraria a fusão entre Estado e corporação no figurino chinês. Mas este modelo não é um privilégio de Pequim mas também se reproduz, com nuances, na Noruega, França e Singapura.

E ele carrega uma ironia mais profunda, que nenhum porta-voz vai sublinhar. Os Estados Unidos passaram uma década dizendo aos aliados que não confiassem em tecnologia chinesa precisamente porque o Partido tem assento nos conselhos das empresas. No dia em que o Tesouro estadunidense virar acionista da OpenAI, esse argumento se vira contra quem o inventou. Não se vende “IA democrática” ao planeta enquanto se estatiza a tabela de capitalização em casa. A diplomacia tecnológica de Washington repousa sobre uma promessa que o próprio Trump está prestes a quebrar pela segunda vez.

Repare também em quem não foi convidado para o banquete do lastro público financeiro. Ainda segundo a NOTUS, a Anthropic não está nas conversas sobre ceder ações ao governo, enquanto a OpenAI, que enviou os papéis para seu IPO esta semana, conduz a dança. A ausência é eloquente. A relação entre a empresa e a administração já vinha corroída, a ponto de o governo restringir o uso da tecnologia da Anthropic por agências federais no início de 2026 — ruptura que veio depois de a empresa recusar as exigências do Pentágono e manter duas linhas vermelhas, não ceder o Claude para vigilância em massa de americanos nem para armas autônomas. Horas depois, foi a OpenAI quem fechou com o Pentágono o contrato para operar em redes classificadas.

Não enxergo aí um acaso de agenda. Enxergo o desenho do instrumento. Quando o Estado distribui participação, ele não está fazendo política industrial. Está montando um sistema de espólios com cláusula de contrato de investimento. A fatia acionária deixa de ser ferramenta econômica e vira aferidor de fidelidade. É o quadro de acionistas convertido em lista de lealdade. E um governo que possui a OpenAI mas não a Anthropic, que passou a valer mais que a adversária, não tem como arbitrar a disputa entre as duas sem que cada decisão regulatória carregue a suspeita do favorecimento.

<><> Derrota do neoliberalismo

Poucos assuntos desorganizam tanto a bússola ideológica. Pela esquerda, Bernie Sanders quer o mais ousado, um imposto único de 50% pago em ações, assentos nos conselhos e um fundo soberano. O combustível é o ressentimento legítimo de quem vê o sistema viciado e se sente impotente. Pela direita, Trump chega ao mesmo lugar pela porta oposta, sem nenhum verniz populista, movido pelo faro de quem brincou que “deveria ser corretor da bolsa” e se gaba do lucro com a Intel. Um quer justiça redistributiva. O outro quer um bom negócio.

O encontro dos extremos esconde o verdadeiro derrotado. Quando o socialista de Vermont e o bilionário de Mar-a-Lago concordam que o Estado deve possuir a IA, quem perde não é a esquerda nem a direita. É o centro liberal que ainda acreditava na regulação à distância de braço, no Estado que apita o jogo sem entrar em campo. Esse consenso neoliberal é o cadáver na sala. A bem da verdade, o defunto já agonizava havia uma década, corroído pelas tarifas, pelo CHIPS Act e pelo IRA; o que muda agora é a proporção. Do lado da resistência, a coisa também atravessa partidos. O libertário Rand Paul chamou o negócio da Intel de passo rumo ao socialismo e Sacks atacou pela mesma trincheira. A briga real não é esquerda contra direita. É entre quem quer o Estado dentro do jogo e quem o quer fora dele.

<><> Parceria unilateral

Falta o mais mundano, que é como tudo isso funcionaria na prática. Há três modelos sobre a mesa e eles não são variações de grau, são filosofias distintas. A doação voluntária da OpenAI entregaria ações a um fundo sem custo para o contribuinte, numa engenharia jurídica que ninguém ainda testou. O figurino da Intel converte subsídios não pagos em fatia passiva, sem cadeira no conselho. A via de Sanders tomaria as ações via imposto e sentaria o governo nos conselhos das empresas. As perguntas em aberto valem o debate inteiro. É possível transferir ações privadas ao Estado sem o aval do Congresso. A participação será silenciosa, como na Intel, ou terá voz, como quer o senador democrata?

E é aqui que devolvo a palavra mágica do presidente dos EUA. Trump fala em “parceria”, mas parceiro é quem divide risco e decisão. O que se oferece ao “público americano” é um acionista que não pode vender, não pode votar, não pode sair e nem sequer escolheu entrar. É o pior negócio de ações do mundo. Chamar isso de sociedade já é elogio. Soa mais como gorjeta, uma migalha do lucro entregue para que ninguém pergunte quem manda. O modelo amigável que os defensores invocam é o fundo do petróleo do Alasca, que paga dividendos aos cidadãos. O temido pelos opositores do modelo protecionista é a golden share de Pequim. Tudo o que separa um do outro é uma única variável, o direito de mando, e é precisamente essa variável que ninguém quis cravar antes de sentar à mesa na Casa Branca.

E há um cidadão que sequer entra na conta — o que vive fora dos Estados Unidos. Se Washington se torna coproprietária da camada de inteligência artificial sobre a qual o mundo inteiro processa, comunica e decide, todo país que depende dessa infraestrutura, passa a hospedar no próprio cotidiano digital os ativos de um Estado estrangeiro com interesse direto no resultado que ultrapassa as questões de segurança nacional. A soberania digital alheia deixa de ser ameaçada apenas pelas plataformas privadas e passa a sê-lo por um sócio público sentado na Casa Branca. Para o Sul Global, a “parceria com o público americano” é, no melhor dos casos, uma parceria com o público dos outros.

No século passado, Washington só injetava recursos públicos em empresas monopolistas quando elas estavam quebrando ou intervia para garantir o famoso too big to fail. Mas não é mais o too big to fail de 2008, em que o Estado socorria a contragosto empresas das quais nada possuía. É um grande demais para cair fundado na origem — o governo entra já como dono, e um dono não deixa a própria carteira derreter. O resgate, antes exceção vergonhosa, vira reflexo de autopreservação. Agora, Trump quer comprá-las enquanto estão na alta. Essa inversão, do segurador para o especulador, do resgate para o palpite, é a mudança que de fato importa. E ela está acontecendo de forma atabalhoada e às escuras. O mínimo que os cidadãos e os estados nacionais deveriam exigir é que se chame a coisa pelo nome e que as decisões sejam tomadas à luz do dia. Tudo que parece que não irá acontecer no atual momento.

¨      Anthropic ou OpenIA: quem ganhará disputa trilionária? Por Nicolas Martin

Poderia ser um roteiro de Hollywood, mas é real. Dois nerds ambiciosos que, com estratégias duras e muita persistência, disputam a supremacia na Inteligência Artificial (IA). Também não faltam reviravoltas. Dario Amodei, chefe da Anthropic, criadora do Claude, recentemente pediu uma pausa no desenvolvimento da IA, alertando que os humanos poderiam perder o controle. E isso poucos dias após apresentar à autoridade reguladora dos mercados americanos, a SEC, documentos para abrir o capital da empresa na bolsa (IPO).

Assim, os criadores do Claude saem na frente dos responsáveis pelo ChatGPT, da OpenAI, que só anunciaram sua estreia em Wall Street e submeteram a documentação necessária uma semana depois.

O momento parece favorável. As bolsas estão em alta e a IA está em evidência. Além disso, a Anthropic é avaliada atualmente em 965 bilhões de dólares, enquanto a OpenAI chega a 852 bilhões. Um IPO poderia levar ambas ao grupo das empresas trilionárias — algo que hoje apenas gigantes como Nvidia, Apple, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla alcançaram. Para comparação, a maior empresa alemã atualmente, a Siemens, vale cerca de 230 bilhões de dólares.

<><> Para que serve tanto dinheiro?

A consultoria Gartner estima que os gastos globais com inteligência artificial continuarão crescendo fortemente, ultrapassando 2,5 trilhões de dólares já neste ano. A maior parte desses investimentos está na infraestrutura de IA, sobretudo na construção e aluguel de grandes data centers, responsáveis por fornecer o poder computacional necessário.

Até agora, Anthropic e OpenAI captaram recursos por meio de rodadas de investimento, nas quais empresas e fundos apostam em startups com potencial de crescimento. Segundo o analista Harrison Rolfes, da PitchBook, a OpenAI já arrecadou 185,9 bilhões de dólares desde sua fundação, enquanto a Anthropic captou 126,8 bilhões.

<><> Quem está na frente?

Para muitos especialistas financeiros, a Anthropic tem melhores perspectivas no mercado. "A Anthropic tem a melhor história para um IPO — e são sobretudo os números que convencem", afirma Rolfes.

A empresa deve faturar cerca de 47 bilhões de dólares neste ano, contra 30 bilhões da OpenAI, mesmo tendo captado menos recursos. Outro fator é o foco no mercado corporativo.

"Mais de mil empresas já gastam mais de um milhão de dólares por ano com a Anthropic", destaca o analista.

Já a OpenAI domina o segmento de consumidores com o ChatGPT, que tem mais de 900 milhões de usuários semanais — mas a maioria utiliza o serviço gratuitamente.

"Monetizar uma base tão grande de usuários grátis é um desafio", afirma Rolfes.

Pedro Domingos, professor emérito de ciência da computação da Universidade de Washington, concorda.

"A Anthropic está mais avançada nos serviços para empresas, e é daí que virá a maior parte do dinheiro. Mas isso pode mudar rapidamente". Segundo ele, a empresa tem mais demanda, mas menos capacidade computacional.

<><> Uma disputa de egos

A rivalidade também envolve grandes egos. Em 2021, Dario Amodei deixou a OpenAI por discordar da direção sob Sam Altman — excessivamente focada em dinheiro e insuficiente em responsabilidade. Desde então, ele posiciona a Anthropic como defensora de uma IA mais segura e regulada.

Amodei também impôs limites quanto ao uso militar: o Claude não deveria ser utilizado para vigilância em massa nem sistemas de armas automatizados. Isso levou o Pentágono a classificar a Anthropic como "risco de segurança na cadeia de fornecimento" — uma medida drástica, normalmente aplicada a empresas estrangeiras.

Sam Altman tenta ocupar esse espaço: a OpenAI planeja fornecer software ao Pentágono. Com isso, sua empresa vem assumindo cada vez mais o papel de "vilã" na disputa — algo irônico, considerando que a OpenAI foi fundada em 2015 com a missão de desenvolver IA de forma ética e responsável.

Especialistas acreditam que a postura de Amodei também tem um componente de marketing. Para Domingos, o sucesso rápido e a pressão crescente podem abalar a imagem da Anthropic como "a empresa do bem".

"Decisões difíceis virão, e alguns funcionários podem sair decepcionados — como aconteceu quando Amodei e outros deixaram a OpenAI".

<><> Corrida pela AGI

Segundo Domingos, o objetivo final das empresas é desenvolver a chamada Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês), capaz de realizar qualquer tarefa cognitiva humana. "Quem chegar lá primeiro terá uma vantagem praticamente impossível de alcançar".

Ainda assim, Rolfes relativiza: "Chegar primeiro não significa vencer. Para lucrar de verdade com IA, é preciso adoção ampla, confiança das empresas e boas margens". No fim das contas, diz ele, a disputa será decidida por qual tecnologia será adotada pelas maiores empresas do mundo.

A corrida pela liderança na inteligência artificial, portanto, ainda está longe de terminar.

 

Fonte: Por Por James Görgen, em Outras Palavras/DW Brasil

 

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