quarta-feira, 10 de junho de 2026

Por que Xi Jinping visita a Coreia do Norte — e o que está em jogo na disputa com a Rússia

Para o líder chinês, Xi Jinping, a Coreia do Norte é um vizinho que a China não consegue controlar totalmente, mas também não pode se dar ao luxo de perder.

Os dois países costumam definir sua relação como um vínculo "selado em sangue", em referência à participação conjunta na Guerra da Coreia (1950-1953).

Mas nos últimos anos a desconfiança desgastou essa parceria. Agora, a China busca recuperar influência sobre um aliado estrategicamente importante, mas conhecido por sua imprevisibilidade.

A China quer manter a estabilidade em sua fronteira e preservar sua influência na Coreia do Norte, sem ser arrastada para crises provocadas pelas ambições nucleares norte-coreanas.

Por isso, a visita de Xi ao país nesta semana tende a ter menos relação com amizade e mais com estratégia política.

Autoridades em Seul, na Coreia do Sul, avaliam que Xi pode tentar apresentar a China como mediadora entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, mas o governo chinês pode ter outros interesses.

Fontes diplomáticas ocidentais disseram à reportagem da BBC que a China acompanha com preocupação a aproximação entre a Coreia do Norte e a Rússia.

Depois de se reunir na semana passada com o presidente russo, Vladimir Putin, Xi pode querer garantir que também mantenha influência sobre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, sobretudo em um momento em que a China amplia sua presença no cenário internacional.

<><> Reaproximação após anos de desgaste

O esfriamento das relações entre a China e a Coreia do Norte era perceptível, ainda que de forma discreta.

Os dois países praticamente não celebraram o 75º aniversário de suas relações diplomáticas, em outubro de 2024. As manifestações públicas foram contidas.

No mês anterior, o embaixador chinês não participou das comemorações pelo aniversário de fundação da Coreia do Norte. Ao longo de todo o ano, também não houve encontros de alto nível, um contraste evidente com a aproximação cada vez maior entre Coreia do Norte e Rússia.

Essa aproximação crescente com a Rússia passou a preocupar a China.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Coreia do Norte ampliou sua cooperação militar com o presidente russo, Vladimir Putin. O movimento culminou na assinatura de um pacto de defesa mútua durante a visita de Putin a Pyongyang, capital da Coreia do Norte, em 2024.

Segundo uma investigação da BBC, cerca de 2.300 soldados norte-coreanos morreram lutando ao lado das forças russas contra a Ucrânia.

A Coreia do Norte também é acusada de fornecer munições para o esforço de guerra russo em troca de petróleo e ajuda econômica, um movimento que alarmou os EUA e seus aliados e gerou preocupação na China, ainda que de forma menos pública.

"A China quer garantir que seus interesses em relação à Coreia do Norte sejam preservados em um momento de rápida aproximação entre Rússia e Coreia do Norte", afirma Ankit Panda, especialista em política nuclear do think tank (centro de pesquisa e debates) Carnegie Endowment for International Peace, dos EUA.

A China mantém apenas um tratado formal de defesa, e é justamente com a Coreia do Norte.

Por isso, a China dificilmente veria com bons olhos um cenário em que a Rússia se tornasse a principal força de influência sobre a Coreia do Norte. Um Kim mais autônomo e menos dependente da China significaria uma redução da capacidade chinesa de pressionar o regime norte-coreano.

A resposta da China tem sido tentar reconstruir a relação. No fim do ano passado, o presidente chinês convidou o líder norte-coreano para um desfile militar em Pequim, colocando-o em posição de destaque ao lado do presidente russo, Vladimir Putin.

Foi a primeira cúpula formal entre Xi e Kim em seis anos. Na ocasião, Xi descreveu os dois países como "bons vizinhos, bons amigos e bons camaradas unidos por um destino comum" e defendeu maior coordenação estratégica entre eles. Chamou atenção a ausência de qualquer menção ao arsenal nuclear norte-coreano nas declarações públicas divulgadas após o encontro.

A China tem "sentimentos contraditórios" em relação à aproximação crescente entre a Coreia do Norte e a Rússia, afirma Lee Seong-hyon, pesquisador visitante do Harvard University Asia Center, dos EUA.

Por um lado, segundo Lee, essa aproximação desvia a atenção dos EUA e torna mais complexa a estratégia americana em diferentes frentes, o que beneficia indiretamente a China.

Por outro lado, o aprofundamento da cooperação militar entre Rússia e Coreia do Norte pode estimular uma resposta mais robusta dos EUA, do Japão e da Coreia do Sul, cenário que preocupa a China.

Essa também é uma das razões pelas quais a China evita apoiar abertamente o programa nuclear norte-coreano, já que isso ampliaria a presença americana na região e fortaleceria suas alianças locais.

Ao mesmo tempo, a China evita um confronto direto sobre o tema. Em 2022, China e Rússia vetaram uma resolução apresentada pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU que previa novas sanções à Coreia do Norte em resposta aos testes de mísseis realizados pelo regime.

Se a China adotar uma posição mais dura contra o programa nuclear norte-coreano, "isso apenas empurrará a Coreia do Norte ainda mais para os braços de Putin", avalia Victor Cha, presidente do departamento de política externa do Center for Strategic and International Studies, dos EUA.

<><> O parceiro pragmático

Mas Kim também não pode se dar ao luxo de se afastar de sua principal fonte de ajuda econômica.

As exportações chinesas para a Coreia do Norte saltaram para cerca de US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 12,4 bilhões) no ano passado, o maior nível em seis anos. No início deste ano, o serviço ferroviário de passageiros entre as capitais Pequim e Pyongyang foi retomado após uma interrupção de seis anos.

Segundo analistas, essas medidas também fazem parte de um esforço calculado da China para trazer a Coreia do Norte de volta para sua esfera de influência.

Para Kim Jong-un, essa é uma escolha pragmática. Se a guerra na Ucrânia chegar ao fim, a necessidade russa de apoio norte-coreano pode diminuir. E, ao contrário de um Putin isolado internacionalmente, o líder chinês, Xi Jinping, tem recebido líderes mundiais em Pequim.

Por isso, Kim precisa evitar ficar dependente de um parceiro em perda de força.

Mas essa relação já começou marcada por tensões.

Ao assumir o poder, Kim adotou prioridades diferentes das de seu pai. Enquanto Kim Jong-il visitava a China com frequência e dependia do apoio da China, seu filho acelerou rapidamente o programa nuclear norte-coreano.

Nos seis primeiros anos no poder, Kim supervisionou cerca de 90 testes de mísseis balísticos e quatro explosões nucleares, mais do que seu pai e seu avô haviam realizado juntos.

O avanço do programa nuclear alarmou a liderança chinesa. Depois, a execução de seu tio, Jang Song Thaek, visto pela China como uma figura moderadora dentro do regime, aprofundou ainda mais o desgaste entre os dois países.

Xi respondeu com sinais diplomáticos incomuns de insatisfação. Em 2014, visitou a Coreia do Sul antes mesmo de se encontrar com Kim, gesto interpretado amplamente como uma afronta ao líder norte-coreano.

A reação da Coreia do Norte foi dura. A imprensa estatal chegou a se referir à China como "traidora" e "inimiga".

Foi apenas em 2018, quando as sanções impostas ao programa nuclear norte-coreano começaram a produzir efeitos mais severos, que Kim realizou sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumiu o poder. Naquele ano, Kim fez sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumira o poder. Em seu trem blindado, seguiu para Pequim.

O encontro marcou o início de uma reaproximação cautelosa.

Nos anos seguintes, Kim se reuniu com líderes dos EUA e da Coreia do Sul, mas sempre depois de consultar a China. A mensagem era clara: a Coreia do Norte não negociaria sem o respaldo da China.

Hoje, a Coreia do Norte representa para a China ao mesmo tempo uma proteção estratégica e uma fonte permanente de preocupação.

O regime norte-coreano ajuda a manter as forças americanas mais distantes da fronteira chinesa, mas seus testes de armas contribuem para a instabilidade regional.

Kim, por sua vez, busca a proteção da China sem aceitar tutela política.

Nenhum dos dois lados confia plenamente no outro. Ainda assim, ambos consideram a parceria necessária e, por enquanto, isso basta para manter aberto o diálogo.

¨      O que está em jogo na visita de Xi Jinping à Coreia do Norte

O presidente chinês, Xi Jinping,  chegou nesta segunda-feira (08/06) para uma rara visita de dois dias à Coreia do Norte. Observadores afirmam que essa viagem representa uma boa oportunidade para o líder norte-coreano, Kim Jong-un, demonstrar ao seu povo que uma das superpotências mundiais reconhece a Coreia do Norte como aliada e parceira. Trata-se de um gesto significativo para um regime que busca legitimidade interna e prestígio internacional.

Xi e Kim se encontraram pela última vez em setembro de 2025, quando Pequim celebrou com um desfile militar o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Ásia. O presidente russo, Vladimir Putin, também esteve presente. No entanto, a última visita de Xi à Coreia do Norte foi há sete anos, em 2019.

China e Coreia do Norte são aliadas importantes, tanto econômica quanto militarmente, desde a Segunda Guerra Mundial. Durante a Guerra da Coreia (1950-1953), Mao Tsé-Tung descreveu a relação entre os dois países como "tão próxima quanto lábios e dentes".

Naquela época, a China enviou 1,3 milhão de soldados para a Guerra da Coreia para lutar contra a "agressão americana". Entre os 115 mil mortos estava o filho mais velho de Mao. "O principal objetivo de Xi é consolidar e fortalecer a relação da China com a Coreia do Norte", afirma Choo Jae-woo, professor de política externa do Instituto de Estudos Chineses da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul.

<><> Rússia ofusca a China

Kim tem se empenhado muito nos últimos anos em tentar melhorar suas relações com a Rússia, que precisa urgentemente do fornecimento de armas e do destacamento de soldados para sua guerra contra a Ucrânia. E ambos os países estão em listas de sanções internacionais. "A China claramente se sente ignorada pela Coreia do Norte", acrescentou Choo.

Este mês de julho marca o 65º aniversário da assinatura do tratado de amizade entre a China e a Coreia do Norte. Trata-se do único tratado de aliança militar da China. O artigo segundo estipula assistência militar "por todos os meios" caso uma das partes do tratado seja submetida a "um ataque armado" ou "agressão". Oficialmente, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte ainda estão em guerra, e o que vigora é um cessar-fogo.

<><> Preocupação chinesa com a Rússia

"Seria mais apropriado que Xi viajasse à Coreia do Norte para o aniversário [do tratado], em 11 de julho", diz Choo. "A viagem atual, um mês antes, mostra que Xi está preocupado com a possibilidade de a Coreia do Norte estar se aproximando demais da Rússia."

A China tem permitido grandes volumes de exportações para a Coreia do Norte nos últimos meses, continua Choo. E Kim espera receber mais turistas chineses na chamada "Riviera Norte-Coreana", em Wonsan-Kalma. Numerosos turistas russos já viajam para a costa do Pacífico para lazer.

Kim já anunciou seu apoio contínuo ao princípio de "uma só China" e sua visão de Taiwan como parte da China. Ele também buscará laços mais estreitos com o enorme poder econômico da China para impulsionar a economia debilitada da Coreia do Norte. Estatísticas do banco central sul-coreano mostram que, após anos de crescimento negativo e nulo, o Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Norte, um país extremamente pobre, cresceu 3% nos últimos dois anos.

<><> Coreia do Norte quer ser "Estado normal"

E Kim almeja mais. "Ele quer que a Coreia do Norte seja vista internacionalmente como um 'Estado normal'. Ele quer usar a visita de Xi para expandir o escopo e o alcance de seus esforços diplomáticos, por exemplo, através da adesão da Coreia do Norte à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ou ao Brics", afirma o especialista Choo. A Coreia do Norte não é membro nem observadora de nenhuma das duas organizações.

<><> "País que os outros devem levar a sério"

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada pela China em 2001, é composta por dez membros plenos da Ásia Central e Oriental, com o objetivo de promover a cooperação em segurança e economia. Já o Brics é formado por 11 das principais economias emergentes e em desenvolvimento do mundo e serve como um fórum para a coordenação política e econômica do chamado Sul Global.

O líder Kim, de 42 anos, quer mostrar "que a Coreia do Norte é um país que outros devem levar a sério", afirma Kim Sang-woo, ex-político do partido sul-coreano de esquerda Congresso para a Nova Política e atualmente membro do Conselho da Fundação para a Paz Kim Dae-jung, na Coreia do Sul. "O apoio incondicional da China e o reconhecimento renovado da aliança" reforçariam essa afirmação.

Por outro lado, Xi quer demonstrar "que a China é a potência hegemônica na região do Indo-Pacífico e que o compromisso e a confiabilidade dos EUA na região se tornaram cada vez mais incertos", disse Kim. "Esta é uma mensagem para os países da região, que estão se aproximando cada vez mais, incluindo Coreia do Sul, Japão, Índia, Filipinas, Austrália e outros, enquanto a China tenta exercer influência sobre essas alianças."

¨      China acelera autossuficiência e impõe risco estrutural ao futuro do agro brasileiro

A guinada estratégica da China para reduzir em até 25% suas importações de soja até 2030 acende um alerta no agronegócio brasileiro, que depende fortemente do mercado chinês e pode enfrentar queda simultânea de preços e demanda caso não diversifique seus destinos.

O agronegócio brasileiro enfrenta uma ameaça estrutural inédita devido à decisão da China de reduzir sua dependência das importações agrícolas, especialmente de soja e carne bovina. O país asiático, que absorve 71% da soja e 54% da carne bovina exportadas pelo Brasil, incluiu no seu 15º Plano Quinquenal metas para diminuir essa vulnerabilidade estratégica.

A projeção chinesa indica uma queda de 25% nas importações de soja até 2030, o que representa 23,5 milhões de toneladas — quase um terço do que o Brasil vendeu ao país em 2024, segundo levantamento da mídia brasileira. Sem compradores alternativos com escala semelhante, o Brasil corre o risco de enfrentar simultaneamente queda de preços e excesso de oferta, afetando terras agrícolas e infraestrutura logística.

A mudança decorre da adoção, pela China, de um modelo de desenvolvimento agrícola inspirado no sucesso industrial em setores como painéis solares e veículos elétricos (VEs). No novo plano, a segurança alimentar foi elevada ao mesmo nível de prioridade da segurança energética e financeira, com foco em autonomia tecnológica e redução do déficit agrícola de US$ 124,5 bilhões (mais de R$ 643,8 bilhões).

Embora reconheça limitações estruturais — apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população —, a China busca uma "dependência segura" baseada em diversificação e inovação. Consultorias como a Systemiq alertaram a um jornal de grande circulação no país que o Brasil ainda não demonstra senso de urgência diante da transformação em curso.

O plano chinês prevê forte estímulo estatal, com crédito barato, subsídios e investimentos contínuos em pesquisa, permitindo que empresas escalem produção antes mesmo da viabilidade comercial comprovada. A estratégia inclui agricultura vertical, biotecnologia avançada e expansão de áreas irrigadas e mecanizadas.

Para o coordenador do Núcleo Insper Agro Global, Marcos Jank, "as metas são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira; expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização; sementes soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito, e melhor infraestrutura no campo", ponderou.

A China também avança em biotecnologia, tratando sementes como ativo estratégico comparável a semicondutores. Variedades locais de milho e soja geneticamente modificadas já foram aprovadas, com ganhos de produtividade entre 6% e 13%. Paralelamente, o país reestrutura suas rações animais para reduzir drasticamente o uso de farelo de soja.

De acordo com a apuração, empresas como a gigante Muyuan Foods já reduziram a inclusão de soja nas rações para 5,7%, economizando 31 kg por animal. A primazia chinesa na produção de aminoácidos acelera essa transição, tornando economicamente viável a substituição proteica em larga escala.

A longo prazo, a China pretende deixar de ser o maior importador agrícola do mundo para se tornar exportadora líquida de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos até 2040. O país também investe em proteínas alternativas — vegetais, fermentadas e cultivadas — que podem suprir até 55% da demanda doméstica de carne em 2050.

Nesse cenário, o Brasil segue visto como fornecedor essencial no curto prazo, mas a crescente autossuficiência chinesa tende a elevar exigências ambientais e de rastreabilidade, aproximando-as dos padrões da União Europeia (UE), o que exige do agro uma adaptação e reposicionamento estratégico no mercado global.

 

Fonte: BBC News Mundo/DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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