quarta-feira, 10 de junho de 2026


 

Valerio Arcary: Bolsonarismo e lumpen burguesia

Uma grande transformação ocorreu no mundo nos últimos 10 ou 15 anos. No coração da Tríade que governa o mundo sob liderança dos EUA, da derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial até a virada do século XXI, a extrema-direita era percebida como pequenos círculos marginais e radicais. Não mais. São grandes partidos eleitorais de massa. Mas não são somente isso. São movimentos político-ideológicos de combate e base social com impulso contrarrevolucionário.

À escala internacional, desde o período marcado pela recessão aberta pela crise econômica deflagrada em 2008 e pela ascensão da China, o crescimento da influência política da extrema-direita tem sido ininterrupto. E passou a prevalecer na mídia, inclusive nos meios de comunicação que respondem às frações liberais da classe dominante dos países centrais, a normalização da extrema-direita. De Trump a Farage, André Ventura a Santiago Abascal, Le Pen, Meloni, Milei, Kast, Bukele, Keiko Fujimori, Abelardo de La Espriella e Flávio Bolsonaro, entre outros, todos são apresentados como representantes de um populismo de direita conservador e vêm sendo aceitos como líderes de uma corrente com direito legítimo de defender ideias, propostas e práticas extremistas. Os fascistas beneficiam-se de plena participação no debate público e disputa institucional e vêm ampliando sua força, chegando, através de sucessivas eleições, à frente de governos. Mas não tenhamos ilusões: preparam-se, com mais ou menos subterfúgios, para subverter o regime democrático-liberal e tomar o poder de Estado. A extrema-direita é “funcional” para a mobilização de camadas médias desesperadas, para amedrontar as massas populares e abrir o caminho para uma derrota histórica da classe trabalhadora. Sua naturalização expressa a tolerância da burguesia liberal com o neofascismo e obedece a um cálculo estratégico: manter a supremacia dos EUA no mundo contra a China.

A normalização que estamos assistindo da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo depois do espantoso escândalo de corrupção de caixa 2 dissimulado de financiamento do filme-biografia de seu pai, é algo assombroso, mas não é uma “jabuticaba”. Flávio mente como se não houvesse amanhã. Trata-se de um extremista, o que não é surpresa para ninguém, porque o bolsonarismo nunca disfarçou seu impulso fascista: afinal, o núcleo dirigente foi cúmplice de uma operação golpista que foi até a loucura de elaborar um plano “verde-amarelo” de liquidação física de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. É verdade e tem importância que Jair Bolsonaro e alguns generais tenham sido condenados e estejam presos. Mas é uma aberração a tolerância das instituições do regime, a começar pela Justiça Eleitoral e pela mídia comercial, com seus sucessivos crimes políticos. A impunidade é absurda. Se a revelação das estreitas relações de Flávio com o banqueiro Vorcaro não é um crime eleitoral – um objeto criminoso –, então se naturalizou o “vale tudo”. Não há nada de “normal” na operação que movimentou pelo menos 60 milhões de reais. Não é tampouco sem importância a visita a Trump, que resultou no apoio à ingerência da maior potência militar da história nas eleições brasileiras. Mas não é menos grotesca a relação dos Bolsonaros com frações lumpens da burguesia.

Na esquerda, os lumpens são associados à marginalidade pobre. Este reflexo é parcial, portanto, errado. Marx foi pioneiro na identificação do lumpen, em um primeiro nível de abstração, como um tipo de grupo social, não como uma fração de classe. O lumpen não era entendido como uma fração do proletariado. Existem, além das frações de classe, grupos sociais. Grupo social é um coletivo, em alguma medida homogêneo, que tem uma existência com autonomia relativa em relação às três grandes classes das sociedades contemporâneas: os capitalistas, a classe média e os trabalhadores. Grupos sociais são, por exemplo, os religiosos profissionais, os policiais ou mesmo os artistas, entre outros. O lumpen é um grupo social instável que conhece flutuações, ou seja, é inconstante e variável. Lumpemproletariado é um conceito do século XIX que pode ser traduzido do alemão, ao pé da letra, como “homem trapo”, e se refere a uma parcela da população que vive degradada na sociedade: os “desesperados”. Mas, no Brasil do século XXI, podemos usar também o conceito de lumpemburguesia sugerido por Ernest Mandel há cinquenta anos, recuperando do esquecimento a referência de Marx no 18 de Brumário. Lumpesinato era entendido como um grupo social reduzido a condições mínimas de sobrevivência, ou até à miséria “biológica”, que vive nos bairros populares mais pobres em atividades irregulares. O lumpen está excluído em espaços econômicos informais ou ilegais, às vezes até antissociais, o que não é o mesmo. Não são sinônimos: há atividades consideradas ilegais que não são antissociais. Muitas pessoas da classe trabalhadora escapam da condição lumpen, enquanto outras caem nela. Nas condições de desagregação social da sociedade capitalista, um grande número de pessoas pode formar uma massa excluída e “desclassada”. Mas a lumpenização atingiu, em diferentes graus, todas as classes sociais. Existe uma lumpemburguesia no Brasil.

O crime organizado, PCC, Comando Vermelho e outras facções são a face mais pública da lumpemburguesia, mas somente uma ala. O crime organizado prosperou no Brasil e alcançou a dimensão de poderosas empresas capitalistas que movimentam bilhões de reais por ano. Operam nos negócios mais variados, muito além do narcotráfico que originou a primeira etapa de acumulação de capital, e infiltraram-se nas polícias e em variadas instituições. Mas não lutam pelo poder político. A lumpemburguesia é um grupo social que explora oportunidades de ganhar dinheiro vertiginosamente rápido, explorando as inúmeras brechas jurídicas existentes. Não querem pagar impostos, não querem regras que estabeleçam limites, não aceitam regulações, não têm escrúpulos. São lumpens as frações do agronegócio que fazem a expansão da fronteira agrícola com queimadas. Madeireiras, garimpos e mineração são atividades em que a lumpemburguesia floresce. Ou aquelas empresas que usam mão de obra em condições análogas à da escravidão. Os exemplos são inúmeros.

Mas agora temos informações disponíveis sobre a REAG – e a “limpeza de capital” no negócio de combustíveis, hotelaria etc. – e do Banco Master que confirmam a desenvoltura de uma fração lumpen no mercado financeiro, apropriando-se dos depósitos em fundos de pensão em vários estados, como no Pará e no Rio de Janeiro, entre outros, e em muitas prefeituras. A relação de uma ala do Centrão – Ciro Nogueira, presidente do PP – e da extrema-direita com Vorcaro – governadores de Brasília e do Rio de Janeiro com Daniel Vorcaro, além da família Bolsonaro com as milícias – revelou uma orgia financeira lumpen indisfarçável. Flávio Bolsonaro é inimigo de todas as pequenas, mas valiosas, conquistas sociais dos últimos 35 anos, desde o fim da ditadura. Defende privatizações sem limite, despreza o Bolsa Família, desdenha do SUS, denuncia a Previdência, desqualifica a educação pública. Não fosse o bastante, é também um inimigo das liberdades democráticas e aposta num alinhamento incondicional com os planos de Trump de recolonização da América Latina. Mas isso não é tudo. Os Bolsonaros são expressão política da lumpemburguesia.

        Flávio Bolsonaro recorre a favela de IA e funk para forjar autoria do Pix

campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recorreu à inteligência artificial para tentar reescrever a história do sistema financeiro nacional. Em um vídeo publicado neste domingo (7), o parlamentar utiliza uma favela cenográfica gerada por IA e um jingle em ritmo de funk para tentar colar em Jair Bolsonaro a paternidade do Pix. A peça caricata repete à exaustão o refrão: “Pix é do Bolsonaro, meu amor”.

Na publicação, Flávio afirma na legenda que a ferramenta “foi feita no governo Bolsonaro” e decreta que “ninguém mexe no nosso Pix!”. O ex-presidente aparece na montagem digital tocando pandeiro e dançando entre apoiadores simulados por algoritmos, em uma tentativa explícita de mimetizar apelo popular e apagar a verdadeira cronologia do Banco Central (BC).

<><> Apropriação política tenta encobrir crise com os EUA

A publicação do vídeo não ocorre em um vácuo político. A investida de Flávio Bolsonaro surge como uma manobra de controle de danos após o sistema de pagamentos brasileiro virar alvo de uma investigação comercial pelo governo de Donald Trump. O clã Bolsonaro, que atuou ativamente em lobby junto a atores políticos norte-americanos, agora tenta se blindar do desgaste de ver uma ferramenta unânime entre os brasileiros ameaçada por interesses estrangeiros.

Enquanto Eduardo Bolsonaro chegou a sugerir publicamente a troca do Pix pelo sistema estadunidense Zelle, demonstrando desconhecimento sobre as diferenças estruturais e a gratuidade da ferramenta nacional, Flávio adota a tática oposta: tentar sequestrar a autoria do projeto para o bolsonarismo.

<><> Farsa desmentida pela história e pelos documentos oficiais

A narrativa de que o Pix surgiu de uma “canetada” ou do brilhantismo de Jair Bolsonaro esbarra em um obstáculo intransponível: os registros oficiais do Estado brasileiro. Como já detalhado na verdadeira história por trás do sistema , o Pix é uma infraestrutura pública de Estado, construída a múltiplas mãos pelo corpo técnico do Banco Central, e não um projeto de governo.

A massificação da ferramenta só foi possível graças a uma robusta arquitetura legal e social pavimentada muito antes de 2018. Para que o Pix funcionasse, foi necessário um longo processo que incluiu as gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que gestaram o sistema por meio de políticas de inclusão financeira e da sanção da Lei nº 12.865/2013, que quebrou o monopólio dos grandes bancos e permitiu ao BC regular os arranjos de pagamento.

<><> O cronograma que o bolsonarismo tenta apagar

O desenvolvimento tecnológico da plataforma antecede a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Em 2015, o BC já debatia o tema em fóruns de inovação. Em maio de 2018, no governo Michel Temer, foi criado o Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos. As bases estruturais de governança, liquidez e conectividade, a “planta baixa” do Pix, foram publicadas no Comunicado nº 32.927 em 21 de dezembro de 2018, semanas antes da posse de Bolsonaro.

A prova definitiva do distanciamento do ex-presidente em relação à criação da plataforma ocorreu em 5 de outubro de 2020. No dia em que os bancos iniciaram o cadastro das chaves Pix, Bolsonaro foi questionado por um apoiador sobre o sistema. Confuso, chegou a associar a ferramenta à aviação civil e admitiu que precisaria “conversar com o Roberto Campos Neto” para entender do que se tratava.

A campanha de Flávio Bolsonaro, portanto, utiliza o que há de mais moderno em inteligência artificial para embalar uma desinformação antiga. O vídeo com a favela fake funciona como uma metáfora perfeita para a narrativa bolsonarista sobre o Pix: uma fabricação digital desenhada para encobrir a realidade.

        Lula e Flávio enfrentam impasses para montar palanques nos maiores colégios eleitorais do país

Lula e Flávio Bolsonaro ainda enfrentam impasses para montar palanques nos maiores colégios eleitorais do país, enquanto disputam alianças em estados decisivos. A dois meses do período eleitoral, ambos tentam superar indefinições locais para fortalecer suas campanhas nacionais.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda enfrentam dificuldades para montar palanques nos maiores colégios eleitorais do país a dois meses do início oficial da campanha, segundo a mídia brasileira.

São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará concentram mais de 100 milhões de eleitores e são decisivos para as duas candidaturas.

Em São Paulo, Lula aposta em Fernando Haddad (PT), mas precisa resolver a disputa entre Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede) e Márcio França (PSB) pela vaga ao Senado, além de definir o vice. Tarcísio de Freitas (Republicanos) busca a reeleição e tenta transferir votos para Flávio, embora mantenha alguma distância após o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o dinheiro para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, "Dark Horse" (Azarão).

Minas Gerais é o maior foco de incerteza para ambos. Rodrigo Pacheco (PSD) desistiu de concorrer, abrindo um vácuo no palanque de Lula. Nomes como Josué Gomes (PSB), Gabriel Azevedo (MDB), Alexandre Kalil (PDT) e Marília Campos (PT) circulam como alternativas. Do lado de Flávio, Romeu Zema (Novo) mantém postura crítica ao senador e cogita disputar a Presidência, enquanto Cleitinho (Republicanos) lidera pesquisas para o governo.

No Rio de Janeiro, Flávio perdeu Cláudio Castro como candidato ao Senado após operações da Polícia Federal (PF), abrindo disputa interna no PL. Já Lula tem palanque consolidado com Eduardo Paes (PSD) ao governo e Benedita da Silva (PT) ao Senado, e avalia que as investigações contra aliados de Flávio fortalecem sua posição no estado.

Na Bahia, reduto petista, Flávio enfrenta resistência: ACM Neto (União Brasil) evita apoiá-lo e sinaliza proximidade com Ronaldo Caiado (PSD). Lula terá chapa "puro sangue", com Jerônimo Rodrigues à reeleição e Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado, todos do PT apoiados pelo PSD local.

No Paraná, a disputa entre grupos de direita enfraquece Flávio. O governador Ratinho Jr. (PSD), antes cotado para a Presidência, enfrenta desgaste e pode adotar neutralidade. Lula aposta no crescimento de Roberto Requião Filho (PDT) e Gleisi Hoffmann (PT), enquanto Sergio Moro (União Brasil) lidera pesquisas.

No Rio Grande do Sul, ambos têm palanques definidos. Lula apoiará Juliana Brizola (PDT) ao governo e Edegar Pretto (PT) como vice, após intervenção da executiva nacional. Flávio terá Luciano Zucco (PL) ao governo e Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) ao Senado.

Em Pernambuco, Lula tenta montar palanque duplo com Raquel Lyra (PSDB) e João Campos (PSB), evitando que a disputa local contamine sua campanha. Campos tem apoio natural do PT, mas Raquel dialoga com o centro e mantém boa relação com o governo federal. Flávio, por sua vez, não conseguiu lançar candidato competitivo ao governo.

No Ceará, Lula tem palanque estável com Elmano de Freitas (PT) à reeleição e Cid Gomes (PDT) e Eunício Oliveira (MDB) ao Senado. Já Flávio enfrenta turbulência: o PL local fechou apoio a Ciro Gomes (PDT), gerando reação da direita e levando Michelle Bolsonaro a apoiar Eduardo Girão (Novo) como alternativa.

 

Fonte: Opera Mundi/Opera Mundi/Fórum


Nenhum comentário: