Documentarista
que acompanha Gaza há 20 anos: “Palestina vai desaparecer em 3 anos”
Esta
entrevista com Hernán Zin foi publicada
originalmente na revista La Marea. Estou muito bravo”. Hernán Zin
(Buenos Aires, 1971) não oculta que seu sangue ferve quando fala de Gaza. Ali
rodou, em 2014, o aclamado documentário Nascido em Gaza, no qual
mostrava o impacto que a violência e a ocupação israelense provocavam em um
grupo de crianças palestinas. Dez anos depois, em meio ao genocídio,
reencontra-se com três delas (Mohamed, Bisan e Udai) para fazer a segunda
parte: Todos Somos Gaza.
Desta
vez, não pôde filmar pessoalmente, porque a entrada na Faixa está proibida para
a imprensa estrangeira. Teve de fazê-lo à distância, dirigindo sua equipe por
telefone e temendo continuamente por sua sorte. Seu diretor de fotografia,
Ebrahem Abu Eshieba, foi assassinado durante as filmagens. A experiência
reabriu a ferida do estresse pós-traumático, transtorno que carrega após muitos
anos como repórter em zonas de conflito. Mas Gaza, diz, não tem comparação com
nada que tenha visto antes.
·
Retomar a história das crianças de Nascido em
Gaza era algo que você já tinha decidido? Manteve contato com elas ao
longo destes anos?
Hernán
Zin: Sim,
mantive contato. Sempre tive o desejo de contar como tinha sido sua vida sob o
bloqueio, mas não esperava fazê-lo nestas circunstâncias. Embora o genocídio
sempre tenha estado ali. Desde que cheguei pela primeira vez, entendi que havia
uma vontade de erradicar essa população, encerrando-a, cortando a água, a
eletricidade e o acesso aos alimentos, aos medicamentos e aos livros. Era um
genocídio em câmera lenta. Sempre foi um genocídio.
·
Em situações assim, você pensa em ajudar as pessoas a
sair dali?
Eu
nunca quis tirá-las dali. Tiram-se os feridos, isso sim. Mas nunca pensei em
protegê-los tirando-os dali. Isso seria uma vitória do sionismo. Neste caso, ou
no Congo, ou no Afeganistão, ou na Somália, o que quero é que o país esteja bem
e prospere. E que se ponha fim à violência e a todo o negócio que existe por
trás dela. O que quero é tirar os colonizadores, não os oprimidos. As pessoas
querem ir embora e acabarão indo, eu entendo, mas essa não é a solução. Imagine
se tivéssemos retirado todos os que foram massacrados em Ruanda ou em Myanmar.
Venceriam os que têm poder.
·
Você nunca compartilhou essa premissa jornalística de não
se envolver demais na história que está contando.
Não,
mas é que eu não me considero jornalista. Sou um contador de histórias. Há
colegas jornalistas que brincam comigo dizendo: “Você está sempre com as
vítimas”. Acho ótimo. Um conta a parte militar, outro conta a parte política e
eu estou com as vítimas. Esta é a minha vocação. Que cada um conte a sua parte.
Tomei partido há muito tempo, na primeira vez em que visitei uma favela em
Calcutá. Estou com os oprimidos. Este é o meu ponto de vista narrativo.
·
Há um momento do documentário em que Mohamed diz: “Que
Deus perdoe quem está nos fazendo isto”. Surpreendeu-me não ver maldições
contra Israel no filme. Você as cortou ou elas simplesmente não existiam?
Eu
nunca as ouvi, pelo menos entre as pessoas que conheço. Outra coisa é ir a uma
manifestação do Hamas; ali você pode ouvir todo tipo de proclamação. Mas, em
Gaza, as pessoas são bastante moderadas. Há muito mais ódio em Israel. Recebo
cem ameaças de morte por dia, me chamam de antissemita o tempo todo… Você vê
muito mais violência do lado dos agressores. Isso ocorre em todos os conflitos,
não apenas em Gaza.
·
A primeira parte, Nascido em Gaza, teve um
êxito extraordinário na Netflix.
Sim,
estreou na plataforma em 2018 e, em 2023, explodiu. Esteve entre os mais vistos
em muitos países. Foi exibido na Organização das Nações Unidas (ONU), no Banco
Mundial… E continuo recebendo milhares de pedidos para exibi-lo. Foi aí que
entendi que era obrigado a fazer uma segunda parte. Infelizmente, os direitos
terminaram no ano passado e a Netflix não quis renová-los.
·
Por razões políticas?
Não
sei. Tampouco querem a segunda parte.
·
Sabendo do êxito internacional que teve Nascido
em Gaza, chamaram você para entrevistas de divulgação desta segunda parte
nos Estados Unidos, Argentina ou Alemanha?
Por
enquanto, desses países só recebo insultos e ameaças. A Alemanha é o que mais
me surpreende. Na Argentina, em contrapartida, sempre foi assim. Meu primeiro
livro sobre Gaza é de 2006 e não pude apresentá-lo em Buenos Aires porque
ameaçaram minha família de morte. Apresentei-o no México e em Madri.
A
Argentina está perdida. Está tomada pelo sionismo. De fato, agora qualquer
crítica é considerada um crime antissemita, como nos Estados Unidos. Embora lá,
sim, eu tenha sido entrevistado muitas vezes. Na Espanha não sabemos a sorte
que temos de poder falar livremente sobre isso. Ontem estive na rádio pública e
pude dizer tudo o que quis. Garanto que isso não acontece na França nem na
Alemanha.
·
O documentário é duríssimo, mas tenho a impressão de que
poderia ter sido ainda mais sangrento e você não quis.
Não,
porque meu objetivo é que as pessoas o vejam. Além disso, as guerras não são
como aparecem no cinema. Em uma rua de Sarajevo ou de Alepo podem estar caindo
bombas e, a 15 minutos de distância, pode haver pessoas em uma festa. Em Kiev,
as pessoas vivem com normalidade enquanto, no Donbass, estão sob fogo. A guerra
é um caos e ninguém entende nada ali. No meio dela também se podem encontrar
momentos de felicidade ou de amor. Sempre vi isso. É preciso retratar tudo,
não? Mesmo na guerra, a vida segue. Ainda que isto não seja uma guerra, mas um
genocídio.
·
Os grandes meios de comunicação não mostraram todo o
horror deste genocídio. A profissão jornalística fracassou?
A
profissão jornalística vem fracassando ali desde 1948.
·
Refiro-me ao fato de não publicarem fotos de crianças
mortas. Isso talvez tenha provocado que haja mais crianças mortas.
É
assim. Trata-se de um debate muito antigo. Mas, neste caso, é muito mais sutil.
Há estudos sobre o tratamento dado ao povo palestino no The New York
Times e em outros grandes meios de comunicação de língua inglesa, e é
escandaloso. Noventa por cento das notícias falam de Israel e 10% da Palestina.
Os palestinos são coisificados. É tudo de um racismo vergonhoso.
Mas
isso não se deve apenas a um sentimento de culpa pelo Holocausto. Lembro que,
em 2006, levei uma reportagem sobre Gaza à redação do Clarín e
me disseram: “Se publicarmos isso, todos os anunciantes irão embora. Já nos
avisaram”. O povo palestino está vendido. Vendido pelos árabes, pelos europeus,
pelos americanos… Está vendido ao sistema financeiro. O sionismo tem muito
poder.
·
Por razões políticas?
Não
sei. Tampouco querem a segunda parte.
·
Sabendo do êxito internacional que teve Nascido
em Gaza, chamaram você para entrevistas de divulgação desta segunda parte
nos Estados Unidos, Argentina ou Alemanha?
Por
enquanto, desses países só recebo insultos e ameaças. A Alemanha é o que mais
me surpreende. Na Argentina, em contrapartida, sempre foi assim. Meu primeiro
livro sobre Gaza é de 2006 e não pude apresentá-lo em Buenos Aires porque
ameaçaram minha família de morte. Apresentei-o no México e em Madri. A
Argentina está perdida. Está tomada pelo sionismo.
De
fato, agora qualquer crítica é considerada um crime antissemita, como nos
Estados Unidos. Embora lá, sim, eu tenha sido entrevistado muitas vezes. Na
Espanha não sabemos a sorte que temos de poder falar livremente sobre isso.
Ontem estive na rádio pública e pude dizer tudo o que quis. Garanto que isso
não acontece na França nem na Alemanha.
·
O documentário é duríssimo, mas tenho a impressão de que
poderia ter sido ainda mais sangrento e você não quis.
Não,
porque meu objetivo é que as pessoas o vejam. Além disso, as guerras não são
como aparecem no cinema. Em uma rua de Sarajevo ou de Alepo podem estar caindo
bombas e, a 15 minutos de distância, pode haver pessoas em uma festa. Em Kiev,
as pessoas vivem com normalidade enquanto, no Donbass, estão sob fogo. A guerra
é um caos e ninguém entende nada ali.
No meio
dela também se podem encontrar momentos de felicidade ou de amor. Sempre vi
isso. É preciso retratar tudo, não? Mesmo na guerra, a vida segue. Ainda que
isto não seja uma guerra, mas um genocídio.
·
Os grandes meios de comunicação não mostraram todo o
horror deste genocídio. A profissão jornalística fracassou?
A
profissão jornalística vem fracassando ali desde 1948.
·
Refiro-me ao fato de não publicarem fotos de crianças
mortas. Isso talvez tenha provocado que haja mais crianças mortas.
É
assim. Trata-se de um debate muito antigo. Mas, neste caso, é muito mais sutil.
Há estudos sobre o tratamento dado ao povo palestino no The New York
Times e em outros grandes meios de comunicação de língua inglesa, e é
escandaloso. Noventa por cento das notícias falam de Israel e 10% da Palestina.
Os palestinos são coisificados. É tudo de um racismo vergonhoso. Mas isso não
se deve apenas a um sentimento de culpa pelo Holocausto.
Lembro
que, em 2006, levei uma reportagem sobre Gaza à redação do Clarín e
me disseram: “Se publicarmos isso, todos os anunciantes irão embora. Já nos
avisaram”. O povo palestino está vendido. Vendido pelos árabes, pelos europeus,
pelos estadunidenses… Está vendido ao sistema financeiro. O sionismo tem muito
poder.
·
Mas as imagens da fome foram publicadas. Isso foi o que
provocou manifestações massivas em todo o mundo para acelerar essa farsa
chamada “plano de paz”.
Sim, é
curioso. Não sei por que as fotos da fome tiveram tanto impacto e não o
assassinato massivo cotidiano. Não tenho explicação para isso. O mundo desperta
quando vê que estão disparando contra pessoas famintas que vão a um centro de
ajuda buscar um saco de farinha. A Espanha não demorou tanto. Sempre teve uma
postura muito humana em relação à Palestina. Por isso o sionismo chegou aqui
com tanta força. Primeiro pelas mãos de Aznar e agora com Ayuso. Por isso
compraram tantas vontades. Por isso colocaram dinheiro no OK Diario,
por exemplo.
Desembarcaram
financeiramente e o fizeram muito bem. Com dinheiro, com empresas, com
fundações. Vieram muitos argentinos milionários para Madri e estão fazendo
lobby. Querem que isto seja a Argentina ou os Estados Unidos, mas isso lhes
custará caro.
Em
qualquer caso, apesar do muito que gastaram em propaganda, em Gaza a máscara
caiu. Quem não queira ver o que é o sionismo, quem não tome partido, é uma
pessoa desalmada, sem critério, sem humanidade, sem compasso moral. Lembro-me
de ir a Israel e me dizerem: “Na Espanha vocês são muito antissemitas”. Não
somos antissemitas, simplesmente vemos a verdade. Eles nos têm atravessados.
Tomara que não consigam nos silenciar, mas nunca se sabe. Talvez daqui a dois
anos não possamos mais estar falando assim. Ou talvez possamos, mas você acabe
na rua.
·
Você sentiu essa pressão ao fazer Todos Somos
Gaza?
Em
termos quantitativos, não, porque a subvenção que tínhamos da Comunidade de
Madri era muito pequena. Mas a retiraram da mesma forma. Sem explicação. Parece
que agora, na Comunidade de Madri, sabem muito de relações internacionais.
Põem-se a falar do que é e do que não é um genocídio. É absurdo. Eu lhes pago
para que façam estradas e hospitais, não para que opinem. Você ouve Ayuso e
Almeida falando e… é tremendo. Como a direita espanhola se equivocou com este
assunto! Não entendem que 80% dos espanhóis estão a favor de Gaza. São muito
torpes.
·
E ainda não cometeram o mesmo erro com o Saara Ocidental,
mas não se pode descartá-lo.
Não
cometeram porque isso não está na agenda. Se o PP governasse, provavelmente
destinaríamos 5% do PIB às armas. Entraram no jogo dessa extrema-direita que
busca jogar a culpa de tudo nos imigrantes. Todos aderiram ao modelo Trump:
dizer bobagens para fazer barulho e estar sempre nas manchetes da imprensa,
negar a mudança climática, negar os direitos das minorias, dar rédea solta às
grandes companhias tecnológicas…
É um
modelo muito danoso para o futuro da humanidade. Veja como a Europa se
desnaturalizou, ela que era um farol de liberdade e de direitos humanos. Agora
a classe média não consegue pagar uma casa. Estamos encurralados. Os próximos
somos nós. Não no nível de Gaza, claro. Gaza é o laboratório. Ali experimentam
armas, escutas, reconhecimento facial, inteligência artificial (IA)… e depois
vendem tudo para o mundo inteiro. As ações da Elbit Systems subiram 80% em um
ano. A Bolsa de Tel Aviv subiu 200%. É um grande negócio.
·
Proibiram você de entrar na Índia por causa das
reportagens que fez sobre a violência contra as mulheres. Aconteceu o mesmo em
Israel? Você ainda pode entrar lá?
Seguramente
não vão me deixar entrar. [Mostra o celular] Agora todos estamos sendo
monitorados. Tampouco tenho vontade de ir. Há 20 anos existia ali uma esquerda
civilizada. Havia o movimento Paz Agora. Havia organizações como a B’Tselem,
que eram pró-Palestina e se opunham à ocupação. Pessoas com quem trabalhei e
que se preocupavam em construir um Estado plurinacional, como Gideon Levy ou
Meir Margalit. Mas essas pessoas também estão encurraladas agora. Não há nada a
fazer.
·
Você acredita que a solução dos dois Estados é viável?
E onde
estariam esses dois Estados? Mal deixaram 15% do território para os habitantes
de Gaza, numa Faixa que já era o lugar mais superpovoado do mundo. Daqui a dois
anos não restará nada da Palestina. Cumprir-se-á o sonho do Grande Israel.
·
Não restará sequer a Cisjordânia?
O
futuro da Cisjordânia é quase pior. Os colonos estão matando pessoas todos os
dias. As pessoas estão fugindo. O problema é que nem a Jordânia nem o Egito as
querem. Mas os Estados Unidos estão pressionando para que as deixem sair. A
Palestina vai desaparecer. E, sobre a solução dos dois Estados, a verdade é que
não deveria ser assim. Deveria haver um Estado palestino com população judia,
como sempre houve. Mas, bem, vamos supor que existam dois Estados. Quem vai
indenizar, econômica e moralmente, os palestinos por tudo o que lhes foi
arrebatado?
Estamos
falando de reparações de milhares de milhões, como as do Holocausto. Quem vai
pagar? Os árabes lhes viraram as costas. A Europa se deslocou para a direita de
forma totalmente autodestrutiva. A Alemanha agora aposta na fabricação de
armamentos, já que os carros chineses tomaram seu mercado. Eu pensava que as
guerras acabariam no século XXI e que, como repórter de guerra, eu ficaria sem
trabalho. Mas não. Que necessidade temos de fazer guerra agora? Com quem? Por
quê? Ucrânia, Sudão, Congo, Gaza… tudo poderia ser resolvido rapidamente, por
meio do diálogo. É muito triste.
·
Você explicou que Israel mata pessoas muito específicas
para impedir a reconstrução da Palestina.
Sim. No
início, usaram uma IA chamada Lavender, que faz uma análise dos danos
colaterais que uma vítima pode gerar dependendo de seu nível social e de seu
cargo. Usaram drones quadricópteros que entravam nas casas e matavam famílias
inteiras. Assim aniquilaram todos: engenheiros, arquitetos, médicos…
Sequestravam médicos. Mataram Ebrahem, nosso diretor de fotografia, durante o
ataque de um comando ao Hospital Nasser. Entraram e deram sete tiros nele. E o
médico que estava ao seu lado levou tiros nas pernas e foi levado embora.
Mas não
estou revelando nada. Como disse Yoav Gallant. Como disseram eles mesmos: “Não
pode ficar uma criança viva. São todos terroristas. É preciso matar todos”.
Estão fazendo o mesmo que Hitler fez em 1939: destruir a inteligência, eliminar
a classe média instruída. E, na Palestina, como não há muitas outras opções, as
pessoas estudam muito. O estudo é uma paixão. Têm um dos maiores índices de
doutorado do mundo. Quase todos os que vêm para a Espanha, por exemplo, são
médicos.
·
O caso de Bisan é muito significativo. Ela estuda sem
parar. Quando caem as bombas, está sempre com um livro na mão.
Bisan
estava se preparando para uma prova que fez pela internet. Mas hackearam sua
conta e agora ela precisa fazer tudo de novo. Para você ver até onde chega a
maldade. Nós comprávamos a comida e a medicação de que ela ainda necessita. Vão
destruí-los. As pessoas não percebem isso, mas vão exterminá-los. Como fizeram
com os povos indígenas das Américas.
É a
mesma mentalidade colonizadora e racista do século 19. Lamento ser portador de
más notícias, mas já dizia há um ano que o genocídio tinha vencido, e todo
mundo caiu em cima de mim. Estou há 20 anos documentando isso e terminará,
dentro de dois ou três anos, com o desaparecimento da Palestina. Você não está
vendo? Fizeram tudo isso para que não haja nada a reconstruir. Cidade de Gaza,
Beit Hanoun, Rafah, Jabalia… tudo são escombros. O que será reconstruído ali?
·
Vimos imagens muito impactantes de outros conflitos.
Beirute completamente devastada, por exemplo. Mas tenho a impressão de que nada
se compara a Gaza.
Nada.
Não há comparação possível. Nunca se viu nada igual. Nem Dresden. Nem Hiroshima
e Nagasaki. O equivalente foi o de várias bombas atômicas. E, além disso,
diante dos olhos de todo o mundo. Por isso digo que vivemos uma época
complicada e que todos somos Gaza. Porque também vêm atrás de nós. Não com
drones, como em Gaza, mas com a IA e com a acumulação de capital.
Hoje em
dia, o trabalho não vale nada. O que vale é o capital, com o qual um fundo de
investimento, até mesmo privado, pode comprar 1.500 apartamentos de uma só vez.
Ou as pessoas se levantam e os Estados intervêm para construir um mundo com
regras, ou tudo isso vai desmoronar.
·
Você decide deixar de cobrir zonas de conflito em 2018,
quando estreia o documentário Morrer para Contar, no qual aparecem
dois amigos seus que morreriam pouco depois em Burkina Faso, David Beriain e
Roberto Fraile.
Sim,
esse documentário era minha despedida. Sofri um acidente em 2012 e já naquela
época pensei em me retirar, mas vieram a Síria e Gaza, e continuei. Em 2018 me
separei da cantora Bebe, que era minha companheira, terminei Nascido na
Síria, que ganhou todos os prêmios, e me vi sozinho em casa. Então pensei:
“Agora dou um tiro em mim. Não tenho mais futuro”.
Era
fruto do estresse pós-traumático. Depois escrevi um romance e, em seguida,
chegou a COVID-19 e a Netflix me chamou para fazer outro documentário
[intitulado 2020]. Passei um ano inteiro dentro de hospitais e
ambulâncias. E agora, outra vez, Gaza.
Durante
todo esse tempo eu queria me dedicar exclusivamente à ficção, mas não consegui.
Quando mataram David e Roberto [em 2021], corri para minha psiquiatra, que me
aplicou valium, porque naquele dia sofri uma das maiores quedas emocionais da
minha vida. Os dois eram amigos muito, muito queridos.
Compartilhamos
muito tempo e muitas risadas no Congo, no Afeganistão… Mas com Roberto eu tinha
uma conexão especial. E, naquele dia, sequer fui capaz de telefonar para a
família dele. Isso me dói na alma. Era um sujeito incrível.
·
Dado o custo pessoal que teve de pagar, você já pensou
que poderia ter feito seu trabalho de outra maneira, com menos sofrimento?
Sim,
claro que pensei. [Silêncio] Poderia tê-lo feito com mais moderação. Bem…
[Suspira] Foi uma vida bem vivida. Mas o custo familiar foi terrível. Não vejo
meus pais há 13 anos. Agora vou vê-los, mas, quando me envolvo em algo,
mergulho por completo. Esse foi o maior sacrifício: a família. Mas, enfim, o
que recebi foi uma vocação, um chamado, uma missão. Admiro as pessoas que
conseguem se desligar e sair para beber com os amigos, mas eu não consigo.
Nasci com uma missão. Não me arrependo.
·
E agora, quais são seus planos?
Acabo
de terminar minha primeira comédia. Fez-me muito bem espiritualmente. É uma
história em três capítulos que rodamos em Lanzarote. Tem um fundo social,
porque trata da imigração, mas em tom de comédia. Estou muito contente. Acho
que é preciso desmontar de uma vez essa narrativa contra a imigração. Fico
indignado com esses mauricinhos que têm uma filipina trabalhando em casa,
recebem comida entregue por um guatemalteco, têm a grama cortada por um
marroquino… mas depois votam no Vox. Já estou muito farto do efeito Trump.
>>>>
Udai, Bisan e Mohamed
Quando Nascido
em Gaza foi filmado, em 2014, Mohamed era um menino de apenas 12 anos.
E já trabalhava. Revirava o lixo em busca de embalagens que pudessem ser
recicladas ou reutilizadas. Percorria a Cidade de Gaza de ponta a ponta com um
velho cavalo puxando sua carroça.
Uma
década depois, é pai de dois filhos, pelos quais continua trabalhando
incansavelmente: procurando comida, procurando transporte, arriscando a vida
nas filas dos centros de ajuda.
Bisan
era ainda mais jovem naquela época. Uma bomba israelense destruiu sua casa.
Apenas ela saiu viva dos escombros. Hoje é uma estudante incansável. As
sequelas daquele trauma ainda são visíveis em seu rosto: uma sobrancelha e uma
pálpebra ficaram seriamente danificadas.
Udai
brincava entre as casas destruídas. Era um menino sorridente, mas, por trás do
sorriso, transparecia uma tristeza indefinível. Seu irmão mais velho acabara de
ser morto. Depois, os demais irmãos foram morrendo, um após o outro. A
sorveteria de seu pai foi bombardeada 13 vezes e reconstruída outras tantas.
Já aos
20 anos, em meio ao genocídio, não consegue esconder a felicidade porque está
noivo. E profundamente apaixonado.
“O que
mais gosto neles é que continuam tendo a mesma essência de quando os conheci,
há 11 anos”, conta Zin. “Udai tem a mesma timidez, a mesma candura. Mohamed é
um lutador. Não para um instante.
E Bisan
é uma moça que quer estudar e tem uma cabeça muito boa. Terão seus traumas
internos, obviamente, mas são um exemplo para a humanidade. Esta é a parte
luminosa do filme. A vida lhes deu recursos que nós nem somos capazes de
imaginar. Perderam metade da família, a casa, as lembranças, perderam tudo. E
não se colocam no papel de vítimas. Têm uma dignidade e uma resiliência
incríveis.”
Fonte:
Por Manuel Ligero, no La Marea

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