quarta-feira, 10 de junho de 2026

Stephen Maher: Não é neofeudalismo, é hipercapitalismo

Um dos chavões mais persistentes da esquerda é a noção de que o investimento produtivo está dando lugar à especulação improdutiva, levando ao “esvaziamento” da economia industrial e ao declínio do capitalismo. Afinal, parece óbvio que os capitalistas preferem ganhar dinheiro rápido a se aventurar no árduo e arriscado processo de produzir algo de fato. O neofeudalismo está em voga.

Esses argumentos geralmente se concentram no suposto papel parasitário das finanças e do “capital fictício”. Mais recentemente, porém, eles foram ampliados para descrever um “capitalismo rentista” emergente, no qual a extração de renda por meio do poder de monopólio e do controle sobre o Estado que suplantou a produção como o principal meio pelo qual os capitalistas acumulam riqueza. Na realidade, a distopia que se desenrola ao nosso redor não é resultado do colapso da lógica do capitalismo — é a expressão direta dela.

Em um artigo recente na Sidecar, por exemplo, Dylan Riley reitera o ponto importante frequentemente associado ao seu coautor, Robert Brenner, de que a “dependência total do mercado” é o fundamento básico do capitalismo. Ou seja, a característica definidora do capitalismo é que se trata de um sistema no qual tanto a classe dominante quanto as massas trabalhadoras dependem do mercado para o seu bem-estar. Entre outras coisas, isso tem implicações cruciais para a nossa compreensão da transição para o capitalismo, brevemente resumida por Riley no artigo. Leva-nos a focar nas relações de produção dentro das sociedades, em vez de apenas nas suas conexões comerciais externas com um “sistema mundial”, ao determinar a natureza do seu modo de produção.

Riley insiste que a crítica de esquerda não deve ser direcionada a capitalistas específicos e seus históricos particulares de violência, mas sim à lógica do capitalismo. No entanto, sua afirmação subsequente de que os capitalistas hoje acumulam riqueza cada vez mais por meio da busca de renda, da exploração política e da pilhagem, em vez de “investimento produtivo”, é conceitualmente confusa e não encontra respaldo em evidências. De fato, essas afirmações se baseiam justamente na falha em analisar “a dinâmica do sistema” e “suas leis de funcionamento”, que ele corretamente critica.

Para começar, poderíamos perguntar: qual é a origem da “renda” que esses capitalistas supostamente extraem? Para que o valor seja extraído na forma de renda, ele precisa primeiro ser produzido. A única maneira de contornar essa exigência seria adotar a visão neoclássica de que o poder de precificação das empresas cria valor do nada. Se partirmos de uma perspectiva que entende o valor como resultado de processos materiais reais realizados por seres humanos reais, essa explicação não é muito satisfatória. A renda, assim como o lucro e os juros, deve, portanto, ser entendida como uma reivindicação sobre um conjunto finito de mais-valia produzida em toda a economia, como demonstra Karl Marx.

Isso, por sua vez, implica relações específicas — sistêmicas — entre renda e lucro. A renda é uma dedução da produção total gerada em toda a economia. Isso significa que ela não pode se expandir indefinidamente. Ela é limitada pelo que foi efetivamente produzido. Se a renda for subtraída do lucro, isso só poderá ocorrer até certo ponto antes que a produção deixe de ser viável — minando, assim, a fonte da renda, bem como a reprodução de todo o sistema. O “estímulo ao lucro” (nos termos de Marx) deve ser suficiente para impelir os capitalistas a investir em atividades produtivas, ou a própria renda se torna impossível.

Se as atividades rentistas fossem consistentemente mais lucrativas do que o investimento produtivo, então todos os capitalistas tentariam se tornar rentistas, como Riley sugere. E se o fizessem, o fluxo de capital para esses setores intensificaria a competição e empurraria os retornos de volta para a média social. Essa é a essência da teoria da competição em Marx e é o mesmo que se encontra em qualquer escola de negócios: o capital sai dos setores com retornos abaixo da média e entra naqueles com retornos acima da média, resultando em uma tendência à equalização da taxa de lucro. Isso não significa que os lucros não possam ser maiores em um setor do que em outro. Implica apenas que o investimento buscará os maiores retornos e que esse investimento afeta a capacidade produtiva e, portanto, a competição e os lucros.

Assim, retornos persistentemente acima da média exigem a existência de alguma barreira à equalização competitiva da taxa de lucro. Algumas empresas devem ser capazes de impedir a entrada de outros capitais nesses setores em virtude do controle que exercem sobre alguma condição de produção ou circulação que outras não conseguem reproduzir ou acessar — em outras palavras, devem possuir poder de monopólio. De fato, é precisamente assim que Marx define renda: renda derivada de vantagens específicas de mercado que não podem ser eliminadas pela concorrência.

Se abandonarmos a ligação marxista entre renda e monopólio, então renda pode passar a se referir a qualquer rendimento proveniente da propriedade. Mas todos os capitalistas possuem e controlam as condições de produção e circulação: fábricas, armazéns, sistemas logísticos, software, marcas, redes de clientes, patentes, sistemas de pagamento, plataformas, etc. Se a propriedade for entendida como a única geradora de renda, então o lucro, como categoria distinta, tende a desaparecer completamente na renda.

Diante disso, a análise de Riley sugere, na prática, que o capitalismo está sendo substituído por alguma forma de “neofeudalismo”, uma vez que a acumulação de riqueza por meio da “pilhagem” mina a concorrência e leva à suspensão das “leis de movimento” do capitalismo.

No entanto, isso não funciona empiricamente. Como Scott Aquanno e eu demonstramos em um artigo recente na Review of Radical Political Economics, as principais empresas de tecnologia, que normalmente são o alvo desses argumentos, não têm obtido lucros consistentemente acima da média. Seus lucros têm se mantido em torno da média. Tampouco há evidências de que a mobilidade de capital na economia tenha diminuído da maneira que os argumentos do capitalismo monopolista ou do capitalismo rentista exigiriam.

Isso significa que, mesmo que presumamos que as atividades dessas empresas sejam totalmente “improdutivas” (o que, na realidade, não é o caso), sua renda não é um tipo de rendimento fictício. Em vez disso, seria o que Marx chama de “lucro comercial”, ou seja, o lucro auferido pelos capitais que desempenham funções de circulação e realização.

Google, Meta, Amazon e similares não estão simplesmente extraindo valor de empresas produtivas, mas construindo e operando infraestruturas que outros capitais utilizam para circular mercadorias, reduzir o tempo de rotatividade, realizar mais-valia e competir de forma mais eficaz.

As empresas mercantis são disciplinadas competitivamente para aprimorar continuamente — e até mesmo revolucionar — as condições de circulação. Isso inclui telecomunicações, armazenagem e infraestrutura logística, bem como publicidade. Dessa forma, a análise de Marx sobre o capitalismo segue fornecendo uma explicação poderosa para os rápidos processos de desenvolvimento tecnológico e logístico que testemunhamos ao nosso redor todos os dias. Longe de se afastarem das leis de funcionamento do capitalismo, essas dinâmicas são expressões cristalinas delas.

Como sugere Riley, os capitalistas certamente detestam a concorrência. Todos querem destruir seus rivais e obter poder de monopólio. Mas isso simplesmente não é possível. Não há como impedir o que Anwar Shaikh chama de “guerra entre empresas”, enquanto elas lutam para maximizar sua participação no excedente social total — especialmente quando o grande capital pode fornecer às gigantescas corporações o poder de fogo necessário para derrubar quaisquer barreiras à concorrência em busca de lucros acima da média. A concorrência não é contingente, mas sim constitutiva do sistema.

Por fim, a ideia de que as corporações não estão realizando “investimentos produtivos” é simplesmente um mito. As principais empresas do capitalismo contemporâneo investem maciçamente em capital fixo, logística, software, centros de dados, inteligência artificial, infraestrutura energética e cadeias de suprimentos globais. O investimento corporativo permanece elevado, os gastos com pesquisa e desenvolvimento cresceram, a inovação tecnológica avançou rapidamente e as empresas líderes continuam travando uma competição de preços implacável. As teorias de monopólio têm dificuldade em explicar toda essa dinâmica.

Não estamos diante de um capitalismo em colapso ou em declínio rumo ao rentismo, mas sim de um sistema forte, lucrativo, dinâmico e competitivo. E esse é precisamente o problema.

•        Logística cultural. Por Juan Michel Montezuma

Ao discutirmos a capacidade de mobilização de um dado discurso, especialmente no espaço social corporativo digital, tendemos com certa generalidade, talvez por conta de uma fragilidade metodológica conjugada com certos fetiches terminológicos contingentes na análise da retórica, tendemos a produção de uma crítica alienada da caracterização da espacialidade.

Elaborando, num ritmo fabril, interpretações que ignoram, talvez intencionalmente, o dinamismo das hierarquias de noções, presunções, problematizações e conceitos. Críticas, portanto, demasiadamente preocupadas em elaborar um historicismo precário dos signos numa dada tradição. Um tipo de abordagem cuja verificação, por vezes, é desenvolvida dentro de uma tautologia analítica Just in time que desconsidera, talvez intencionalmente, a materialidade da economia espacial dos enunciados, ou seja, a produção, a circulação e o consumo da retórica enquanto informação reduzida à categoria de unidade econômica.

Interpretações que se avolumam, de maneira similar a poluição do meio habitado, e, atualmente, produzem uma hipertrofia de um dado modelo de análise, exclusivamente fundamentado na relação entre experiências e signos políticos, que, aparentemente, parece impor um debate necessário, quando sóbrio e democrático, sobre as alternativas metodológicas no empreendimento de interpretar a economia política da cultura em nosso bloco histórico.

Dentre as muitas alternativas buscadas, e aparelhadas por movimentos que atualmente disputam o monopólio do estatuto da verdade científica dentro do regime acadêmico de produção, estão aquelas que compreendem a centralidade da categoria de espaço e informação. Nessas proposições, há uma busca, declarada ou não em suas premissas, por um olhar sociológico capaz de qualificar, a partir da espacialidade do setor quaternário, os arquétipos econômico-políticos que hegemonizaram o atual ritmo da produção de enunciados políticos, seja no espaço corporativo digital ou noutros, como a universidade, o campo e a favela, que com ele possuem variadas interfaces.

Aplica-se, então, uma análise socioespacial da infraestrutura intelectual da elaboração discursiva na indústria cultural. E dessas análises, já relativamente antigas no campo das ciências sociais, tal como evidencia a obra de Milton Santos e Octávio Ianni sobre os efeitos da globalização sobre o quaternário e a produção científica, surgem agendas de pesquisa fundamentadas na investigação de elementos presentes na problemática dos discursos cujas propriedades econômicas e políticas não estão necessariamente circunscritas em fenomenologias mais focadas nas formas da corporeidade individual e coletiva.

Isso não é necessariamente um problema, afinal é apenas uma outra alternativa de prestar esse serviço de vocação pública chamado ciência e educação, algo que uma parte considerável dos intelectuais comprometidos com pautas emancipatórias ou uma defesa de uma dada institucionalidade deveriam se lembrar com mais frequência.

Sob essa abordagem espacial e informacional, por exemplo, podemos questionar qual é o espaço e função do mercado editorial na produção, circulação e reificação das hierarquias de ideias metamorfoseadas em unidades econômicas? Podemos, com a sobriedade da sistematização de um escopo geográfico bem definido, investigar como a estrutura de capital corporativo, especialmente aquela engajada no arranjo monopólico que governa o setor quaternário, historicamente interviu sobre o estatuto do acontecimento, do fato social e da verdade numa dada territorialidade, afetando assim a produção e circulação de discursos.

Podemos também examinar como a logística cultural produz um dado gênero de enunciados cujas articulações discursivas, sempre variadas ao sabor do clientelismo, são produtoras de todo um conjunto de fontes históricas comunicantes da existência de regimes de historicidade, espacialidade e racionalidade que intercalados são formas culturais estruturantes das maneiras como variados discursos invadem e subjugam as poucas e preciosas esferas ainda autônomas da existência social daqueles que são, ou não são, historicamente integrantes desse pacto político chamado humanidade e do clubinho ainda mais exclusivo da intelectualidade.

Através dessa abordagem, certamente cheia dos seus pequenos vícios epistemológicos, que não subtraem o seu potencial heurístico, talvez sejamos capazes de desenvolver com compromisso, e honestidade intelectual, uma crítica cuja verificação seja um processo mais educativo, pois horizontal exatamente por preocupar-se constantemente com a espacialidade do discurso. Procedimento passivo de ser realizado por qualquer um, especialmente aqueles que, por qualquer contingência, não estão e não querem fazer parte do regime de produção acadêmica ou tem pouco, ou nenhum, interesse em serem interlocutores em suas contínuas, e necessárias, batalhas classificatórias.

Algo que aparentemente não está no interesse de uma categoria que podemos qualificar, de maneira meramente introdutória, como intelectualidade semi-jornalística, uma coletividade ideologicamente variada e muito comprometida em fomentar a fetichização da análise discursiva, a fim de fidelizar uma dada porcentagem do público, cronicamente online, no mercado de informação.

Talvez, e isso é só uma possibilidade, porque estejam muito enamorados pelo arranjo, quase sensual pois muito sedutor, entre o viés do analista e as presunções do público, especialmente quando esse casamento promete a redenção da conquista de um lugar ao sol no mercado de bens culturais, um altar muito almejado por intelectuais traumatizados por uma sociedade que lhes trata eternamente como filhos não planejados, caso esses discordem de platitudes e idiossincrasias discursivas fundamentadas nas formas mais toscas de oportunismo, conservadorismo e cooperativismo.

Ainda assim, apesar daqueles que intencionalmente turvam as fronteiras entre opinião, argumento, análise, expressão e zombaria, a abordagem espacial e informacional, talvez, seja um caminho para a transformação da participação do intelectual no debate público em um exercício de cidadania genuíno e não um negócio, uma aventura empreendedora no samba de maluco doido que virou a indústria cultural no espaço digital.

De fato, um caminho longo e difícil em terra de malandro que trabalha 6×1, mais que pode ser trilhado sem a cafonice dos pseudo-polímatas, na medida em que o rigor metodológico demanda, com certa dose de humor, uma relação mais crítica com os fetiches, sempre tentadores, para todo aquele, do norte ao sul do planeta, que se engaja no debate público através da produção de uma crítica minimamente sistemática. Especialmente os intelectuais cuja posição de classe, aparentemente, faz com que seja sensualmente irresistível tripudiar da integridade de qualquer outro cuja espacialidade seja alienada das condições materiais e espirituais do seu cotidiano.

Sem dúvida, ou talvez com certa dúvida sempre necessária, se apostarmos na questão elementar: e o espaço do discurso? Podemos nos libertar, momentaneamente, de certo cansaço geral dos limites epistemológicos relacionados a centralidade da categoria de experiência na investigação dos signos políticos que codificam a atuação das mais variadas coletividades na direita ou na esquerda.

Sem cair com isso num criticismo violento e em certa medida dissimulado, porque escamoteia como defesa institucional algumas discordâncias epistemológicas que são muito mais comunicantes da pouca plasticidade do mundo acadêmico, quando o assunto é absorver uma massa ampla e variada de pesquisadores.

Um caminho que torna a interdição discursiva abrupta e autoritária, até no debate eterno da crítica da crítica, uma norma sem prazo de validade, um hábito mal-educado e infantil, que é disputado entre os mais novos e os mais velhos como um privilégio dos verdadeiros intelectuais, ao mesmo tempo que todos fingem esquecer que os rumos da vida são feitos, em geral, de um velho morrendo e um jovem falando.

Atitude que vai contra esse sentido geracional contingente da história das ideias, e se revela numa covardia monumental, pois reacionária em relação a inapelável necessidade de renovação dos quadros intelectuais, algo que impede a integração do desenvolvimento científico e filosófico às demandas sociais mais simples, aquelas circunscritas nos limites do regime burguês, e as mais difíceis, aquelas que demandam algum grau de reforma e superação do ordenamento social vigente.

Empreendimento morto no berço que, no longo prazo, está comprometendo a capacidade da intelectualidade em produzir uma crítica dos enunciados políticos que seja, em algum grau, sinônimo de verdade verificável junto à sociedade civil. Fato social contemporâneo que é o problema fundamental que deveríamos estar enfrentando ao invés de fragilizar nossa categoria ao tornar cada vez mais públicas dissidências e presunções que enfraquecem a imagem da Universidade.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/A Terra é Redonda

 

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