O
Super El Niño é um espelho do Brasil?
sociologia, crise climática e desigualdades
Discutir
o El Niño a partir da sociologia parece pertinente porque suas influências e
efeitos não decorrem apenas de alterações climáticas, mas da forma como a
sociedade brasileira pode produzir e distribuir recursos, solidariedade, danos
ambientais, desigualdades e injustiças. O mesmo fenômeno que provocou as
enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, deslocando milhares de
pessoas e causando prejuízos bilionários, também contribuiu para secas severas
na Amazônia em 2023 e 2024, dificultando ou inviabilizando a navegação fluvial,
o abastecimento de comunidades ribeirinhas e o acesso a serviços básicos. Esses
efeitos não podem ser explicados apenas pela climatologia, pois estão
relacionados à ocupação de áreas ecologicamente sensíveis, à insuficiência de
infraestrutura urbana adequada, ao desmatamento de biomas estratégicos para a
regulação do ciclo hidrológico e às desigualdades sociais que determinam quem
possui recursos para se proteger e quem permanece mais exposto às mudanças
climáticas.
Assim,
por meio desse breve artigo, a proposta é iniciar uma conversa de como pela
sociologia é possível compreender que enchentes, secas e ondas de calor não são
apenas eventos naturais, mas processos sociais e de relação da sociedade com a
natureza que produzem efeitos sociais. Além disso, trazem à tona as condições
(ou a incapacidade) das instituições públicas e das políticas públicas no
capitalismo atual de responder aos riscos e desastres produzidos diante das
mudanças climáticas que em grande medida são causadas pelo nosso modelo de
desenvolvimento social e econômico. Analisar a possibilidade concreta de que
ocorra um fenômeno climático, que devido as suas proporções, está sendo
denominado de Super El Niño, significa analisar por que determinados grupos
sociais, regiões e comunidades sofrem impactos muito maiores do que outros e
como decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas tornam os
eventos climáticos extremos na atualidade em crises sociais de grande impacto.
Assim,
cabe considerar, que o El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento
das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, resultado do
enfraquecimento dos ventos alísios e de alterações na circulação atmosférica
conhecida como Célula de Walker. Embora tenha origem no Pacífico, seus efeitos
se propagam por grande parte do planeta, alterando padrões de temperatura,
precipitação e circulação dos ventos em diferentes continentes. No Brasil, o El
Niño costuma provocar aumento das chuvas e do risco de enchentes na Região Sul,
enquanto favorece secas no Norte e em partes do Nordeste, além de intensificar
ondas de calor em diversas áreas do país. De acordo com a pesquisadora Luciana
Gatti, em entrevista recente, quando esse aquecimento ultrapassa 2°C da média
histórica do oceano, o fenômeno passa a ser denominado como “Super El Niño”,
pois é uma versão muito mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar
significativamente seus efeitos sociais, econômicos e ambientais.
Ressalta-se
que o El Niño de 2026 não deve ser tratado como um evento cíclico
estatisticamente mapeável, mas como uma alteração climática severa catalisada
pelo aquecimento global antropogênico. A atual “rampa de aquecimento”
caracterizada pela velocidade sem precedentes na elevação das temperaturas do
Oceano Pacífico indica alterações térmicas entre 2,5°C e 4,0°C. Para a alta
gestão, o dado mais crítico transcende a média global: enquanto o Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta um aumento médio
global de 2,8°C, a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental
resultam em um aquecimento real no Brasil de 3,5°C a 4,0°C. Isto é, estamos
diante de uma massa de energia brutal que altera a circulação atmosférica de
forma irreversível no curto prazo e que não pode ser comparado, seja no que
pode acontecer, seja em seus impactos sociais.
Em um
contexto de aquecimento global provocado pelas atividades humanas, os efeitos
do Super El Niño tornam-se ainda mais preocupantes, pois ocorrem em um planeta
já mais quente, aumentando a sua frequência e a sua intensidade com enchentes,
secas, incêndios florestais, crises hídricas, perdas agrícolas e problemas de
saúde pública. Por isso, os efeitos do El Niño não podem ser compreendidos
separadamente das mudanças climáticas, dos danos ambientais e das desigualdades
sociais que caracterizam as diferentes sociedades no mundo no atual estágio do
capitalismo.
De
acordo com o pesquisador Luiz Marques, em entrevista recente, o problema não
reside apenas no fenômeno climático em si, mas no fato de que ele ocorre em um
planeta já aquecido pela acumulação de gases de efeito estufa. Os oceanos
absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas,
funcionando como uma espécie de reservatório térmico que potencializa os
efeitos do El Niño. Outro pesquisador, George Monbiot, em artigo recente,
critica o que denomina uma racionalidade econômica incapaz de reconhecer os
limites biofísicos da Terra por tratar cenários de aquecimento global em termos
de perdas econômicas graduais, desconsiderando a possibilidade de pontos de
inflexão climática, como a savanização da Amazônia ou alterações na Circulação
Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). Em síntese, o Super El Niño
traz à tona o que a sociologia ambiental a partir da ecologia política vêm
argumentando há décadas: os eventos climáticos extremos não podem ser
analisados separadamente dos modelos de desenvolvimento social e econômico, das
emissões de carbono e das escolhas políticas dos governos de diversos países,
sobretudo os do norte global, que aprofundam a crise climática no planeta.
As
vertentes críticas da sociologia ambiental discutem que desastres climáticos
não podem ser compreendidos como eventos naturais ao acaso, pois seus efeitos
são profundamente condicionados pelas estruturas sociais, econômicas e
políticas que organizam os territórios. Como argumenta Ulrich Beck, os riscos
ambientais na atualidade são produzidos pela própria modernização fabricada
pela ação humana ao longo dos últimos séculos. Contudo, autores da ecologia
política, como Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon, mostram que os impactos
ambientais não atingem todos os grupos da mesma forma, mas tendem a recair
desproporcionalmente sobre populações historicamente marginalizadas. O conceito de justiça ambiental, formulado por
Robert Bullard, evidencia que comunidades pobres e populações negras costumam
estar mais expostas a enchentes, secas, contaminações, desastres e outros
riscos ambientais, ao mesmo tempo em que possuem menor acesso aos recursos
necessários para proteção e adaptação.
No caso
brasileiro, essa dinâmica se articula a pesquisadores como Carlos Walter
Porto-Gonçalves e Henri Acselrad denominam justiça ambiental, isto é, a
distribuição desigual dos danos ecológicos segundo critérios de classe, raça e
território. Assim, quando um Super El Niño provoca enchentes no Sul, secas na
Amazônia ou crises hídricas no Semiárido, não vem à tona apenas a intensidade
das mudanças climáticas, mas expõe as consequências de décadas de urbanização
desigual, concentração fundiária, desmatamento, ausência de planejamento
territorial e exclusão social. Sob essa perspectiva, os eventos climáticos
extremos tendem a tornar mais evidente as contradições do modelo de
desenvolvimento social e econômico brasileiro, tornando visíveis processos de
racismo ambiental pelos quais determinados grupos sociais são sistematicamente
mais expostos aos riscos climáticos e menos atendidos pelas políticas públicas
de prevenção, mitigação, reconstrução e adaptação a mudanças climáticas e
desastres ambientais.
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E as políticas públicas?
Conforme
já apontei em análise anterior, entendo que o governo federal, por meio de Lula
3, precisa abandonar a lógica predominantemente reativa que historicamente
marca a gestão dos desastres ambientais no Brasil e assumir de fato política
nacional de adaptação climática baseada em planejamento de longo prazo,
coordenação federativa e justiça ambiental. Isso implicaria em fortalecer de
fato instituições científicas e de monitoramento climático, ampliar
efetivamente investimentos em infraestrutura resiliente, recuperar biomas
estratégicos como Amazônia e Cerrado, seguir combatendo o desmatamento e as
queimadas ilegais, bem como, por mais quepareça utópico integrar as políticas
ambiental, agrícola, energética, urbana e de desenvolvimento regional.
Recentemente
foi anunciada a criação de uma sala de situação e de um grupo permanente de
especialistas para acompanhar semanalmente a evolução do El Niño e seus
possíveis impactos no território nacional. A iniciativa reúne representantes do
Ministério do Meio Ambiente, do CEMADEN, do INPE, de universidades e de outros
órgãos federais com o objetivo de integrar informações científicas, produzir
cenários de risco e coordenar ações preventivas junto a estados e municípios.
Junto a isso, o governo retomou a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais
sinalizando, mesmo que em ano eleitoral e restando alguns poucos meses para a
ocorrência do Super El Niño, uma tentativa de avançar em relação a lógica
reativa que me referi anteriormente.
Em
nível regional seria necessário ampliar mecanismos de proteção social capazes
de reduzir a vulnerabilidade de populações expostas às secas, enchentes e ondas
de calor, reconhecendo que a crise climática tende a aprofundar desigualdades
históricas. Mais do que uma “super” agenda ambiental, para dar conta de um
“Super El Niño” trata-se de uma política de segurança nacional, uma vez que os
impactos do que vem por aí podem comprometer a produção de alimentos, o
abastecimento de água, a geração de energia e a estabilidade econômica do país.
Ou seja, a heterogeneidade do território brasileiro exige uma análise de riscos
por território, mesmo que integradas, em que ativos de infraestrutura serão
testados sob extremos opostos de estresse hídrico e térmico.
Por
exemplo, embora o Rio Grande do Sul tenha estabelecido um acúmulo de
experiência com o desastre em 2024 com precipitações de 600mm em 24h, as
projeções para o próximo trimestre de 2026 concentram os maiores riscos agora
no Paraná. Nesse contexto, os governos estaduais ocupam uma posição estratégica
porque são responsáveis pela articulação entre as diretrizes nacionais e as
realidades territoriais regionais. Nesse contexto seria fundamental desenvolver
sistemas permanentes de gestão de riscos climáticos e investimentos maciços em
educação ambiental, nas Defesas Civis, nos órgãos ambientais e em redes de
monitoramento hidrometeorológico. Ao mesmo tempo, os estados precisam investir
na adaptação de setores sensíveis, como agricultura, recursos hídricos, saúde
pública e infraestrutura logística. Por exemplo, no Sul, isso significaria
ampliar a capacidade de prevenção e contenção de enchentes e fortalecer o
sistema de saneamento; no Norte e Nordeste, fortalecer políticas de convivência
com a seca e proteção das bacias hidrográficas; e em todo o país, ampliar
programas de restauração ecológica e prevenção de incêndios florestais. Mais do
que responder a emergências, por mais que pareça óbvio, os estados precisariam
incorporar a variável climática em seus planos de desenvolvimento, reconhecendo
que eventos extremos deixarão de ser exceções e serão cada vez mais frequentes
da vida social, econômica e política brasileira.
Os
governos municipais, por sua vez, em tese constituem a linha de frente da
adaptação climática, e seria necessário revisar os modelos de gestão urbana,
restringir a ocupação de áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, ampliar
investimentos em drenagem, saneamento e infraestrutura verde, além de
fortalecer sistemas locais de alerta e resposta rápida. Também seria necessário
preparar os serviços de saúde para atender o aumento de doenças associadas às
ondas de calor, à poluição atmosférica e à proliferação de vetores. Em um
cenário de intensificação dos eventos climáticos extremos, a capacidade dos
municípios de planejar o território, proteger populações vulneráveis e
construir cidades mais resilientes seria decisiva para reduzir perdas humanas,
sociais e econômicas.
Diante
dessa situação, a adaptação climática deveria se tornar uma das dimensões
centrais da gestão pública no Brasil e no mundo. Entretanto, nenhuma dessas
medidas terá efetividade se o Brasil não conseguir pôr em prática o seu pacto
federativo e superar a cultura política de tomada de decisão Garbage can(lata
do lixo) que historicamente caracteriza grande parte da gestão pública
nacional. A emergência climática exige políticas de Estado com coordenação
permanente entre União, estados e municípios, compartilhamento de informações,
definição de responsabilidades (inclusive de improbidade administrativa).
Aliás, quantos(as) candidatos tem a adaptação climática e das políticas
ambientais em seus planos para legislar e governar?
Cabe lembrar, que as mudanças climáticas já
são consideradas o maior risco à soberania nacional do século XXI. De acordo
com Paulo Artacho (IPCC/USP), em entrevista recente que a elevação da
temperatura entre 2,8ºC e até 4ºC não é apenas uma métrica climática e
ambiental, mas pode ser um gatilho de instabilidade social e econômica. A
possível inação dos governos diante desse cenário irá afetar, pelo menos dois
pilares críticos da economia capitalista no Brasil: o agronegócio, dependente
da estabilidade pluviométrica, e a segurança energética, ancorada na
hidrografia. O Brasil ainda poderá enfrentar uma crise demográfica diante dos
Refugiados do Clima internos, com a desertificação da região do Rio São
Francisco e a transformação do Nordeste semiárido em uma zona árida inabitável.
Ou
seja, sem comprometimento administrativo para antecipar riscos, planejamento
continuado, políticas públicas orientadas por evidências e cooperação
federativa, vamos permanecer presos a um ciclo recorrente de tragédias
anunciadas, reconstruções custosas e ampliação das desigualdades sociais e
injustiças ambientais.
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O negacionismo ambiental e climático?
O
negacionismo climático compromete a compreensão do El Niño e de um possível
Super El Niño ao dissociar seus impactos do contexto mais amplo das mudanças
climáticas causadas pela sociedade. Embora o fenômeno seja parte da
variabilidade natural do sistema climático, sua ocorrência em um planeta
progressivamente mais quente potencializa secas, enchentes, ondas de calor e
incêndios florestais. Ao apresentar eventos extremos como episódios isolados ou
inevitáveis, o negacionismo obscurece a relação entre emissões de gases de
efeito estufa, danos ambientais e vulnerabilidade social, dificultando a
construção de respostas preventivas. Como demonstram Naomi Oreskes e Erik M.
Conway, no livro “Mercadores da Dúvida” a produção organizada da dúvida
científica frequentemente atende a interesses econômicos e políticos que buscam
evitar regulações ambientais e favorecer modelos de desenvolvimento intensivos
predatórios com emissão alta de carbono, deslocando o debate público da
adaptação e mitigação para falsas polêmicas e controvérsias sobre a própria
existência da crise climática.
Sob uma
perspectiva sociológica, os efeitos do negacionismo vão além da esfera
discursiva, produzindo consequências concretas sobre políticas públicas e
capacidades institucionais. Ao enfraquecer a legitimidade da ciência e
relativizar os impactos do desmatamento, da destruição de ecossistemas e da
expansão desordenada das cidades, ele reduz a pressão por investimentos em
prevenção, infraestrutura resiliente, monitoramento ambiental e proteção das
populações mais vulneráveis.
O
negacionismo climático atua como um mecanismo de reprodução e ampliação das
injustiças socioambientais, pois os custos da inação recaem de forma
desproporcional sobre comunidades pobres, periféricas, indígenas, quilombolas e
populações expostas a riscos climáticos. Mais do que um desacordo sobre
evidências científicas, trata-se de um fenômeno social e político que dificulta
a adaptação da sociedade aos desafios da sobrevivência e amplia os custos
humanos, econômicos e ambientais associados aos eventos climáticos extremos.
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E o povo o que pode fazer?
Preparar-se
para um possível Super El Niño não é alarmismo. Por isso, o alerta para 2026 e
parte de 2027 (até julho) deve ser compreendido como uma oportunidade de
antecipação e planejamento. Mesmo que os cenários mais severos não se confirmem
a partir julho próximo, sobretudo a partir de novembro, os investimentos que
serão feitos em prevenção, monitoramento e adaptação fortalecerão a capacidade
da sociedade de enfrentar futuras possibilidades de secas, enchentes, ondas de
calor e outros eventos que farão parte da realidade climática brasileira.
A crise
climática não será enfrentada e nem superada apenas por tecnologias ou obras de
infraestrutura, pois afinal são limitadas diante da força da natureza. Ou seja,
será necessário solidariedade e construção de laços comunitários robustos, ao
contrário do individualismo exacerbado estimulado pelo ideário neoliberal. Em
um país marcado por profundas desigualdades, a resiliência climática dependerá
tanto da preparação material quanto da capacidade de construir formas de
proteção social e cooperação entre as comunidades e as instituições.
Devido a isso a preparação da população
brasileira para um possível Super El Niño e eventos climáticos extremos com
cada vez mais frequência exige uma combinação de adaptação prática, organização
comunitária e educação ambiental para riscos e urgências climáticas. Isso
significaria acompanhar informações de fontes públicas com base científica,
conhecer os riscos específicos da região onde se vive e elaborar planos
familiares de emergência (rotas de evacuação, contatos de emergência, guardar
documentos importantes e ter estoques básicos de água, alimentos,
medicamentos).
Nos
municípios, especialmente em cidades sujeitas a enchentes e deslizamentos é
fundamental evitar a ocupação de áreas de risco e cobrar dos governos
investimentos em drenagem, saneamento e prevenção de desastres. Também será
cada vez mais importante adaptar residências às novas condições climáticas, com
sistemas de captação e drenagem de água da chuva, ampliação massiva da
arborização, melhoria da ventilação dos imóveis e demais medidas para enfrentar
períodos de calor extremo. Nas regiões rurais, agricultores e comunidades
tradicionais precisarão investir em diversificação produtiva, armazenamento de
água, recuperação de solos e práticas ecológicas que aumentem a resistência às
secas e às irregularidades climáticas causadas também pelas monoculturas intensivas.
A
experiência internacional mostra que comunidades organizadas respondem melhor
às crises do que indivíduos isolados. Associações de bairro, cooperativas,
organizações comunitárias, universidades, sindicatos e movimentos sociais podem
desempenhar papel fundamental na disseminação de informações, na construção de
redes de solidariedade e na pressão por políticas públicas adequadas as
mudanças climáticas.
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A sociologia e as ciências sociais em um mundo de mudanças climáticas
O
possível Super El Niño de 2026-2027 deve ser encarado não apenas como um
fenômeno climático, mas como um teste da capacidade da sociedade brasileira de
se adaptar a um mundo marcado pelas mudanças climáticas. Em última instância, a
principal contribuição das ciências não é eliminar as incertezas, até porque
elas são feitas de perguntas, mas permitir que governos e a sociedade ganhem
tempo para agir e reduzir os custos humanos, sociais e econômicos dos
desastres. Como também demonstra a sociologia ambiental, os maiores riscos não
decorrem apenas das forças da natureza, mas dos danos produzidos pela sociedade
por décadas de desmatamento, urbanização desordenada, desigualdades sociais e
insuficiência de planejamento estatal.
Podemos
conversar sobre a contribuição da sociologia para o debate sobre o El Niño e um
possível Super El Niño e como isso vai muito além da análise dos impactos
sociais dos desastres. Pela sociologia podemos teorizar sobre lentes analíticas
para analisar riscos climáticos, desigualdades sociais, modelos de
desenvolvimento e as relações de poder e de que modo estão inter-relacionadas,
pois crises ambientais são também crises políticas, econômicas e
civilizatórias. Ao mesmo tempo, os desafios colocados pelas mudanças climáticas
convidam as Ciências Sociais a avançarem em diálogos cada vez mais amplos com a
ecologia, a geografia, a antropologia e as ciências da Terra, incorporando
perspectivas que questionam possíveis fronteiras entre sociedade e natureza. Nesse
sentido, ganha relevância o estudo das relações entre humanos e não humanos,
das interdependências ecológicas e das relações interespécies a exemplo de
Donna Haraway e Anna Tsing. Em um contexto de crise climática global,
compreender como humanos, animais, florestas, rios, oceanos e demais formas de
vida compartilham vidas em comum torna-se não apenas um desafio intelectual,
mas uma necessidade prática para discutir no presente e no futuro formas de
habitar o planeta sem destruí-lo.
Se o
Super El Niño é um espelho do Brasil, o que ele reflete não é apenas a força da
natureza, mas decisões sociais, econômicas e políticas que se relacionam com
nossas desigualdades e que também podem construir nossa capacidade de
superá-las.
Fonte:
Por Sérgio Botton Barcellos, em Racismo Ambiental

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