Desmatamento
e aquecimento podem causar mudanças irreversíveis na Amazônia até 2040
Desmatamento
e mudanças climáticas estão rapidamente empurrando a floresta amazônica rumo a
um perigoso ponto de inflexão. A transformação da selva em savana pode chegar
muito antes do que se imaginava. Esse é o alerta de um novo artigo, publicado
na revista Nature. Caso o desmatamento chegue a uma extensão de 22% a 28% da
Amazônia, além de um aumento da temperatura entre 1,5 °C e 1,9 °C, o bioma pode
alcançar um ponto sem volta já na década de 2040.
Os
pesquisadores concluíram que ultrapassar esse limiar de desmatamento e
temperatura global poderia fazer com que mais de dois terços da floresta se
degradassem ou se transformassem em um ecossistema de savana. Atualmente, cerca
de 17% da Pan-Amazônia já foram desmatados, e tudo indica que a Terra irá
ultrapassar o aquecimento de 1,5 °C acima dos níveis pré‐industriais.
Estudos alertam que é cada vez mais provável que ultrapassemos
2°C de aquecimento até 2050.
No pior
dos casos, “esse limiar crítico [na Amazônia] poderia ser atingido já na década
de 2040”, disse Nico Wunderling, autor principal do artigo e pesquisador do
Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, em
entrevista à Mongabay. “Embora eu seja um pouco mais otimista: se as atuais
tendências [decrescentes] do desmatamento brasileiro continuarem, talvez não
alcancemos [o ponto de inflexão] até meados do século.”
“Podemos
dizer com segurança que, quanto mais desmatamento ocorrer, mais baixo será esse
limiar de aquecimento global”, disse Arie Staal, coautor do estudo e professor
assistente na Universidade de Utrecht, na Holanda.
Para
Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo (USP) e copresidente do
Painel Científico para a Amazônia, que não participou do estudo, essa nova
pesquisa serve como um alerta urgente de que o ponto de inflexão na região
amazônica pode ser alcançado muito antes do que se previa. publicadas em 2016 e
lideradas por Nobre apontaram entre 20 e 25% de desmatamento e um aquecimento
de 2 °C como um limiar crítico para a Amazônia.
“O
artigo é um avanço em relação ao estudo que publicamos há 10 anos, na mesma
linha. Mostra que estamos ainda mais próximos de um ponto de inflexão”, disse
Nobre em entrevista à Mongabay. “Eu acho que esse artigo é muito importante
para mostrar o quanto é urgente salvar a Amazônia.”
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Um “risco enorme”
Os
autores do novo artigo analisaram projeções climáticas, modelagem hidrológica e
transporte atmosférico de umidade para chegar às suas conclusões.
Até
metade da precipitação da floresta amazônica é reciclada por suas árvores, mas
o desmatamento em grande escala interrompe esse ciclo hidrológico vital que
ocore em todo o bioma. A perda de árvores em grandes proporções reduz a
liberação de vapor d’água para a atmosfera, diminui as chuvas e intensifica as
secas. Quando o transporte de umidade deixa de funcionar, o estresse hídrico
resultante pode matar árvores a centenas de quilômetros de distância, explicou
Staal.
O lugar
onde o desmatamento ocorre na Amazônia pode ser decisivo. Segundo as simulações
da equipe, a perda projetada de floresta acontecerá predominantemente na região
leste da Bacia Amazônica, próxima ao Arco do Desmatamento, contribuindo para
“transições em cascata na direção do vento”, com o ar muito mais seco se
deslocando para o oeste, na parte mais florestada do bioma, fragilizando o
ciclo hidrológico.
No
entanto, “se ultrapassarmos um ponto de inflexão, não significa que a Floresta
Amazônica vá desaparecer no dia seguinte,” explicou Wunderling, já que esse
processo se desenvolveria ao longo de décadas. “Mas isso significa que
estaríamos em uma trajetória difícil de reverter.”
Atingindo-se
o limiar, haveria menos chuva, desencadeando a transição de floresta saudável
para floresta seca, savana ou ecossistemas sem árvores, embora ainda não se
saiba qual seria o impacto exato. “Mas o que já se sabe”, disse Wunderling, é
que a Amazônia se tornaria “um tipo de ecossistema degradado que não consegue
cumprir os serviços ecossistêmicos, como reciclagem de água, que vemos
atualmente.”
Segundo
Nobre, esse cenário já está em andamento no sul da Amazônia, bastante
desmatado, uma região que abrange áreas de Rondônia e Mato Grosso, já bem
próxima de seu próprio ponto de inflexão. Lá, a estação seca já foi prolongada
em 4 a 5 semanas por ano e as chuvas diminuíram muito.
As
consequências de se atingir esse limiar em toda a Amazônia seriam de longo
alcance, incluindo a perda da biodiversidade única da floresta, a interrupção
dos ciclos hídricos regionais e, com o tempo, a liberação de bilhões de
toneladas de CO₂ atualmente retidas nas florestas e nos solos da Amazônia.
“Esse é
um risco enorme para a Amazônia”, enfatizou Nobre. Mas esses impactos também
acabariam indo muito além da região, atingindo biomas como o Cerrado, que
depende da floresta amazônica para obter umidade. Nesse cenário, a savana
brasileira seria profundamente degradada e passaria a apresentar vegetação
semiárida.
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Conter o desmatamento, intensificar o reflorestamento
O
estudo chegou a uma conclusão diferente para um cenário sem avanço adicional do
desmatamento., Nesse caso, uma transição de grande escala só seria provável com
níveis de aquecimento em torno de 3,7 °C a 4 °C . Ainda assim, esse continuaria
sendo um “cenário altamente inseguro” para a floresta, escrevem os autores, já
que até 35% da Amazônia ainda se degradariam ou se transformariam em savana.
Para
Wunderling, porém, essa descoberta mostra que o atual sistema de floresta
tropical é resiliente diante do aumento das temperaturas, desde que o
desmatamento seja moderado. Essa conclusão dá esperanças de que a crise da
Amazônia “pode ser revertida”, disse ele. “Nesse sentido, é um cenário
positivo, pois mostra que precisamos alcançar um nível muito alto de
aquecimento [de 3,7°C a 4°C] antes de vermos esses riscos de transição parcial
da floresta amazônica em todo o sistema.”
Os
autores do estudo destacam a necessidade urgente de ação para reforçar a
resiliência da Amazônia diante das mudanças climáticas, protegendo a floresta
atual e restaurando áreas perdidas. Eles apontam para iniciativas como a
promessa do Brasil de restaurar 24 milhões de hectaresde floresta tropical como
passos positivos.
Wunderling
observou que poderiam ser feitas novas pesquisas para determinar exatamente
onde o reflorestamento traria mais benefícios, “para que esse ciclo de
reciclagem da umidade atmosférica seja revitalizado”.
“Os
efeitos negativos do desmatamento podem ser amplamente compensados pelo
reflorestamento”, acrescentou Staal, o que “também daria tempo [ao mundo]” para
se descarbonizar.
Nobre
concordou com o chamado urgente à ação: “Precisamos realmente agir com muita
rapidez para conter o desmatamento e a degradação totais [e] fazer uma
restauração florestal maior [enquanto] evitamos que o aquecimento global atinja
1,8°C ”, disse ele. “Se não fizermos isso até 2040, vamos ultrapassar o ponto
de inflexão, e então será impossível salvar a Amazônia.”
Fonte:
Mongabay

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