As
pessoas traumatizadas por divórcios repentinos: 'Você pensa que está segura, e
então tudo é arrancado'
Eve
Simmons estava em um relacionamento amoroso havia oito anos e meio e casada
havia seis meses quando seu marido colocou um prato de macarrão na mesa à sua
frente, acompanhado da frase "Não estou feliz". Foi completamente
inesperado. Alguns dias depois, ele disse que não queria tentar salvar o
casamento.
Segundo
Simmons, foi uma "separação brutal".
Existem
inúmeros tópicos no Reddit e em outros fóruns online com histórias semelhantes
sobre ex-cônjuges que afirmam ter vivenciado um "divórcio abrupto".
Às vezes, isso é chamado de "síndrome do divórcio repentino".
Mas, na
opinião dos especialistas, quais são os motivos que levam um cônjuge a querer o
divórcio de repente, e o que uma separação repentina pode nos dizer sobre o
estado do amor e dos relacionamentos modernos?
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O choque de uma separação repentina
Adam
Davis (cujo nome verdadeiro foi omitido por motivos de privacidade) estava com
sua esposa havia 10 anos e casado havia quatro quando ela saiu de casa uma
manhã para ir às compras e nunca mais voltou.
Preocupado
com o paradeiro dela, Davis contatou a polícia, que confirmou que ela estava
bem e segura, mas disse que ela não tinha intenção de entrar em contato com
ele. Várias semanas depois, ele recebeu os papéis do divórcio pelo correio.
"Não
houve nenhuma explicação, não houve nenhum encerramento, não houve nenhuma
despedida", diz ele.
Davis
começou a apresentar sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
quando sua esposa o deixou.
"Eu
não conseguia dormir, não conseguia comer... Não conseguia me concentrar no
trabalho. Eu tinha dificuldade para realizar tarefas diárias, como sair da cama
de manhã ou simplesmente tomar banho e escovar os dentes", diz ele.
Depois
que o choque inicial passou, "o luto chegou. Porque aí começou a ficar
real, que ela tinha ido embora".
Davis
teme que seu divórcio repentino tenha um impacto duradouro sobre ele e seus
futuros relacionamentos — e até mesmo sobre amizades comuns.
"Eu
nunca tive um término tão traumático, que me deixou com a sensação de que não
consigo mais confiar nas pessoas", diz ele. "Saio com amigos e me
sinto socialmente inadequado. Isso afetou muito minha autoestima... Sinto que
estou sempre duvidando das intenções e motivações das pessoas agora."
Simmons
diz que a parte chocante de seu divórcio foi que "não havia nenhuma
disposição para trabalhar nisso, para curar as feridas ou mesmo para discutir o
que poderia ser salvo".
Isso
levantou a questão: qual é o sentido do casamento? "Você pensa que está na
posição mais segura e estável da sua vida, e então tudo é arrancado debaixo dos
seus pés sem aviso prévio", diz Simmons.
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Por que um divórcio repentino pode acontecer
Primeiramente,
é importante destacar que pode haver muitos motivos legítimos pelos quais um
parceiro pode abandonar um relacionamento inesperadamente — como abuso ou
controle coercitivo.
Em
casamentos seguros e sem ameaças, no entanto, a personalidade e os estilos de
apego (a maneira como as pessoas agem e se sentem em relacionamentos) podem
explicar por que algumas pessoas são mais propensas a abandonar o cônjuge sem
aviso prévio ou motivo.
"Sabe,
existem certos perfis de personalidade que podem ser mais suscetíveis a tomar
essas decisões… [como] não estar disposto a fazer concessões", diz Jeffry
Simpson, professor de psicologia da Universidade de Minnesota, nos EUA.
Algumas
pesquisas sugerem que tanto o apego ansioso (em que a pessoa teme a separação
ou o abandono do parceiro) quanto o apego evitativo (em que a pessoa busca
distância emocional ou teme ficar presa em um relacionamento) afetam
negativamente os aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais da qualidade
do relacionamento.
Outras
pesquisas sugerem que pessoas com estilos de apego evitativo são mais propensas
a buscar parceiros alternativos ou a se envolver em infidelidade.
"Uma
das coisas que observamos em alguns dos nossos trabalhos é que pessoas com
apego evitativo aos seus parceiros tendem a não se comunicar de forma direta ou
eficaz, e às vezes a tomar decisões simplistas", acrescenta Simpson.
Por
outro lado, uma pessoa com um estilo de apego seguro (alguém que sente
confiança e segurança nos relacionamentos e confiança em suas próprias
habilidades), diz Simpson, é "muito menos propensa a simplesmente terminar
o relacionamento sem tentar melhorá-lo ou, pelo menos, deixar o parceiro
entender o motivo".
No
entanto, de certa forma, "muitos divórcios são repentinos, porque
simplesmente não conseguimos prevê-los com muita precisão", afirma Galena
Rhoades, professora de psicologia da Universidade de Denver, nos EUA, e
coautora do livro Fighting For Your Marriage ("Lutando pelo seu
casamento", em tradução livre).
"[O
divórcio] raramente é, infelizmente, uma decisão mútua."
Ainda
não existem dados ou pesquisas sobre divórcios repentinos e, em última análise,
cada relacionamento e suas circunstâncias são únicos. Contudo, pesquisas sobre
divórcio em geral podem ajudar a esclarecer as consequências de uma separação
inesperada e como lidar com elas.
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Os impactos do divórcio
Atualmente,
as taxas de divórcio entre adultos jovens e de meia-idade diminuíram nas
últimas décadas nos EUA — embora as taxas de "divórcio grisalho",
para casais com 50 anos ou mais, tenham aumentado.
No
entanto, os casais estão se casando mais tarde do que nunca, ou mesmo não se
casando. O número de famílias monoparentais aumentou, assim como o número de
crianças nascidas fora do casamento.
É justo
dizer que as perspectivas sobre o casamento e os relacionamentos de longo prazo
mudaram significativamente desde o final do século 20. Para a maioria das
pessoas, o casamento não é mais esperado, mas sim uma escolha.
Ainda
assim, o divórcio — qualquer divórcio, não apenas um divórcio repentino — pode
afetar as pessoas de diversas maneiras.
De modo
geral, as mulheres enfrentam maiores desvantagens pós-divórcio do que os homens
— como diminuição da renda, problemas de moradia, pressões sociais e a
responsabilidade principal ou exclusiva pelos cuidados com os filhos (apesar de
mais mulheres conciliarem carreira e maternidade, as mulheres contribuem com
35% mais para os cuidados infantis do que as mães na década de 1960 — mesmo
aquelas que ganham mais do que seus maridos.)
Mulheres
divorciadas podem sofrer de problemas de saúde mental, incluindo estresse
relacionado à guarda dos filhos.
Para
mulheres em casamentos homoafetivos, pesquisas recentes sugerem que as perdas
materiais após o divórcio podem ser menores.
Para os
homens, os riscos são sutilmente diferentes, segundo estudos. Pesquisas mostram
que, embora os homens tenham maior probabilidade de se recuperar
financeiramente após um divórcio do que as mulheres, eles tendem a ser menos
ricos do que os homens que permanecem casados.
Os
homens também podem enfrentar um risco maior de problemas de saúde graves após
o divórcio, em comparação com as mulheres.
Seus
riscos para a saúde mental incluem um risco maior de suicídio após a separação
conjugal, em comparação com homens casados e com mulheres.
Os
homens geralmente são mais propensos do que as mulheres a depender de suas
cônjuges para intimidade, apoio social e relacionamentos com amigos e
familiares, o que pode colocá-los em risco de isolamento social após o
divórcio.
"As
mulheres são orientadas para relacionamentos, o que significa que tendem a
manter e formar novas amizades com forte conexão emocional", diz Rhoades.
"Os
homens são mais propensos a enfrentar dificuldades emocionais ou sociais,
porque não possuem os mesmos recursos interpessoais ou sociais que as mulheres
costumam ter."
Para as
mulheres, um divórcio repentino pode ser particularmente surpreendente devido
ao papel que desempenham nos relacionamentos amorosos, afirma Rhoades.
"Muitas
vezes, as mulheres acabam assumindo o papel de iniciar conversas — quase como
barômetros de como o relacionamento está indo... é por isso que um divórcio
repentino, especialmente partindo do marido, pode ser surpreendente, porque as
mulheres estão bastante atentas ao equilíbrio do relacionamento ou a como as
coisas estão indo para cada parceiro", diz Rhoades.
Nos
casos de divórcio repentino, ter menos tempo — ou nenhum tempo — para se
preparar para a separação também pode dificultar o enfrentamento das
consequências práticas, como ter que encontrar uma nova moradia, mas também das
consequências psicológicas do choque.
Davis
conta que, após o choque inicial passar, começou a sentir uma tristeza intensa
— e a falta de um desfecho tornou tudo mais doloroso.
Para se
salvar do "abismo do desespero", ele começou a se exercitar e a se
alimentar bem. Eve se refugiou no sofá da mãe e contou com o apoio de amigos e
familiares.
Ambos
também procuraram terapeutas para ajudá-los a lidar com as consequências
emocionais de seus divórcios. Refletindo sobre seus respectivos casamentos,
tanto Simmons quanto Davis concluíram que havia diferenças nos estilos de
comunicação.
"Como
muitos relacionamentos, nós tivemos problemas", diz Simmons. "Não era
perfeito, porque relacionamentos não são... não foi um mar de rosas. E
estávamos juntos há muito tempo, desde o início dos nossos vinte anos",
diz Simmons.
Eli
Finkel, professor de psicologia social na Universidade Northwestern, nos EUA,
afirma que o estado atual do casamento nos EUA é "uma mistura de coisas
boas e ruins". Em seu livro, The All or Nothing Marriage ("O
Casamento Tudo ou Nada", em tradução livre), ele argumenta que a mudança
em nossas expectativas e crenças sobre o casamento teve duas consequências.
"Primeiro,
tornou o casamento mais frágil. Muitos de nós estamos decepcionados com um
nível de conexão conjugal que teria sido totalmente suficiente para nossos
avós", diz ele.
"Mas,
em segundo lugar, fez com que os melhores casamentos ficassem melhores do que
nunca. Aspiramos a nos conectar em um nível psicológico mais profundo do que em
épocas anteriores, e os casamentos que correspondem a essas aspirações são
profundamente gratificantes."
Curiosamente,
uma análise de dados de uma pesquisa publicada pelo Pew Research Center em
novembro de 2025 mostrou que os estudantes do ensino médio nos EUA estão menos
propensos hoje em dia a dizer que querem se casar — com 67% dos jovens de 17 a
18 anos do país dizendo que escolherão se casar um dia, uma queda em relação
aos 80% em 1993.
Os
meninos são mais propensos a dizer que vão se casar do que as meninas.
Finkel
adota uma abordagem cautelosa ao interpretar as diferenças de gênero em relação
ao casamento e ao divórcio, já que as razões para a divergência não são
totalmente claras.
"Minha
leitura das evidências é que as mulheres são muito mais propensas do que os
homens a iniciar o divórcio", diz Finkel. "Há muita especulação sobre
o que impulsiona essa diferença de gênero, mas não me sinto confiante em
afirmar que alguma delas tenha um respaldo particularmente forte."
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Os relacionamentos modernos explicam o divórcio repentino?
No
mundo ocidental, as pessoas têm uma abundância de opções, o que certamente
mudou a trajetória do amor e do casamento modernos.
Tomemos
como exemplo os aplicativos de namoro, que aumentaram a acessibilidade a
relacionamentos sexuais casuais. Sua popularidade coincidiu com a mudança na
idade média de casamento e com o desejo das pessoas de construir uma carreira
antes de se estabelecerem em um relacionamento estável.
Embora
o número de usuários de aplicativos de namoro tenha diminuído, ele ainda é alto
— no Reino Unido, estima-se que haverá 12 milhões de usuários em aplicativos de
namoro até 2028.
A maior
parte da receita da indústria global de aplicativos de namoro vem dos EUA, com
três em cada dez adultos americanos afirmando já ter usado um aplicativo de
namoro. No Brasil, a expectativa é de que o número de usuários de aplicativos
de relacionamento continue a crescer, passando de 16,7 milhões em 2023 para 18
milhões em 2028, de acordo com projeções da plataforma de dados Statista.
Os
aplicativos de namoro podem levar à "paralisia da escolha" ou
"sobrecarga", já que os usuários são expostos a uma
"abundância" de parceiros em potencial.
Embora
essa abundância possa dar a impressão de que é mais provável que uma pessoa
encontre um parceiro, pesquisas sugerem que, na verdade, pode ter o efeito
oposto — tornando as pessoas mais propensas a permanecerem solteiras.
O
psicólogo americano Barry Schwartz escreveu sobre esse paradoxo e sobre por que
mais é menos. Mais opções não equivalem a mais liberdade, argumenta ele em seu
livro. Em vez disso, ele diz que as pessoas podem sentir mais responsabilidade
e culpa se estiverem insatisfeitas com uma escolha feita.
Há
também um fenômeno chamado monitoramento alternativo.
"Quanto
mais você pensa em alternativas, seja um amor do passado, alguém do trabalho
por quem você se sente atraído ou, nos dias de hoje, toda a disponibilidade de
outros parceiros em potencial, mais difícil pode ficar se comprometer com o
relacionamento e se dedicar ao trabalho que relacionamentos de longo prazo
exigem", diz Rhoades.
Pesquisas
sugerem que o monitoramento alternativo precede tanto términos quanto
infidelidade.
É claro
que isso também pode levar a uma relutância em se comprometer — daí o
"medo de rotular" e o uso de termos como "relacionamentos
casuais" (um relacionamento romântico ou sexual vago e ambíguo, que não
envolve compromisso).
"Parece
haver essa cultura do descartável", diz Simmons. "[A ideia de que]
estou com alguém há muito tempo, mas haverá algo melhor em breve, algo muito
fácil de alcançar, que exigirá o mínimo de esforço e resolverá todos os meus
problemas."
"Não
sei se isso se deve em parte à cultura dos aplicativos de namoro [ou] também à
influência das redes sociais, porque estamos nesse [estado de] consumo
constante", diz ela.
Em
última análise, os relacionamentos exigem trabalho, comprometimento e esforço.
"Relacionamentos felizes não surgem do nada", acrescenta Finkel.
"Eles exigem investimento inteligente de tempo, atenção e recursos",
afirma.
E para
os apaixonados, nem tudo está perdido. Um amplo estudo recente realizado em 90
países mostrou que as pessoas ainda valorizam o amor romântico ao considerar um
relacionamento de longo prazo, inclusive em países onde os casamentos
arranjados ainda são comuns.
O
estudo descobriu que o amor romântico funciona como um mecanismo de compromisso
— o que significa que é "universalmente percebido" como uma força que
incentiva as pessoas a cultivarem o compromisso em seus relacionamentos.
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A vida após um divórcio repentino
Davis
ainda está passando pelo processo de divórcio e tentando seguir em frente.
"Não tenho a menor esperança de reconciliação", diz ele.
Embora
possa especular e considerar os motivos pelos quais sua esposa poderia ter
desejado o divórcio, ele ainda não recebeu uma explicação dela.
Simmons
agora está em um relacionamento feliz e deu à luz recentemente. Olhando para
trás, ela diz que havia sinais de que ela e seu ex-marido não eram muito
compatíveis. Mas isso é fácil de dizer depois do ocorrido.
Ela
acabou escrevendo um livro inspirado em seu divórcio repentino, chamado What
She Did Next ("O Que Ela Fez Depois"), no qual conversou com dezenas
de homens e mulheres que passaram por experiências semelhantes.
"Em
todos os casos que conheci, sem dúvida alguma, a pessoa que foi pega de
surpresa classificou [o ocorrido] como a melhor coisa que já lhe aconteceu...
No fim, ela conseguiu tudo o que sempre quis", diz Simmons.
"Relacionamentos
nem sempre dão certo, e tudo bem."
Fonte:
BBC Future

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