quarta-feira, 10 de junho de 2026

Fake news: evangélicos são os que menos checam veracidade dos fatos, diz estudo

A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.

O dado aparece no relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, produzido pelo Aláfia Lab. Segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.

A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.

O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.

A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.

O resultado é que conteúdos enganosos conseguem se espalhar rapidamente, principalmente quando apelam para emoções fortes. Medo, indignação, sensação de ameaça aos valores religiosos ou à família costumam ser ingredientes frequentes das fake news que circulam em grupos religiosos. Muitas vezes, a intenção não é apenas informar de forma incorreta, mas mobilizar comportamentos políticos e sociais a partir de informações falsas.

O próprio relatório mostra que os brasileiros reconhecem os danos causados pela desinformação. A maioria considera que ela contribui para espalhar medo, fortalecer grupos extremistas, aumentar preconceitos, confundir as pessoas sobre o que é verdade ou mentira e influenciar decisões políticas e eleitorais.

<><> Coletivo Bereia

Nesse cenário, ganha relevância o trabalho de iniciativas voltadas especificamente para o monitoramento da desinformação religiosa. Um dos principais exemplos é o Coletivo Bereia, agência de verificação especializada em conteúdos que circulam entre cristãos.

O nome faz referência aos bereanos citados no livro de Atos dos Apóstolos, elogiados por examinarem cuidadosamente aquilo que ouviam antes de aceitarem uma mensagem como verdadeira. Inspirado nesse princípio, o coletivo realiza checagens de notícias, discursos, vídeos, publicações e narrativas que circulam em ambientes religiosos, analisando sua veracidade e contexto.

Mais do que corrigir informações equivocadas, o trabalho do Bereia procura incentivar uma cultura de responsabilidade informacional. A proposta é simples, mas profunda: fé e compromisso com a verdade não podem caminhar separados.

Essa é uma discussão particularmente importante porque a tradição cristã sempre atribuiu enorme valor à verdade. O mandamento contra o falso testemunho, as advertências bíblicas sobre falsos profetas e os inúmeros apelos à honestidade mostram que o combate à mentira não é apenas uma preocupação jornalística ou acadêmica. Trata-se também de uma exigência ética da própria fé.

Por isso, discutir fake news nas igrejas não deve ser visto como um tema secundário ou partidário. Trata-se de fortalecer uma prática coerente com os valores do Evangelho: o compromisso com a verdade, a responsabilidade com a palavra e o cuidado com o próximo.

Em tempos de excesso de informação, talvez uma das contribuições mais importantes que as igrejas possam oferecer à sociedade seja justamente recuperar uma virtude antiga: a disposição de verificar antes de acreditar e de refletir antes de compartilhar.

•        Política e eleições são os principais temas alvos de mentiras nas redes; direita lidera uso de IA, diz estudo

Não é novidade que conteúdos políticos falsos e manipulados circulam nas redes sociais, é uma prática que se arrasta desde o ano de 2018, e arrisca-se dizer desde 2016 no Brasil. Temas política e eleições seguem no centro da desinformação disseminada em plataformas digitais no país, mas agora adotando novos formatos. É o que mostra o relatório Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial, do laboratório de pesquisa independente Aláfia Lab, obtido com exclusividade pela Fórum.

O estudo é baseado em 1.512 entrevistas feitas pelo Instituto IDEIA entre 24 e 25 de setembro de 2025, e indica que 4 em cada 10 brasileiros encontram mais fake news sobre política e eleições (43%) com folga em relação a outras temáticas de interesse público.

O índice que supera com folga outros assuntos citados, como celebridades e influenciadores (24%), saúde (23%) e economia (22%), embora muitas vezes, também esteja entrelaçada a esses temas. Segundo o relatório, 55% dos brasileiros dizem encontrar informações falsas na internet sempre ou com alguma frequência, enquanto apenas 15% relatam raramente ou nunca se deparar com esse tipo de conteúdo. Além disso, 5 em cada 10 afirmam conseguir identificar fake news, mas com dúvidas em alguns casos, e só 29% dizem fazê-lo com facilidade.

Na prática, a reação mais comum diante de conteúdos suspeitos é ignorar a informação. De acordo com o estudo, 47% dos entrevistados adotam essa postura, 32% procuram checar se o conteúdo é verdadeiro e 10% dizem denunciar a publicação às plataformas. A identificação de fake news ocorre principalmente por “avaliação individual”, ou seja, a partir da proópria percepção: 58% afirmam perceber incoerências ou erros na própria notícia e 48% dizem se basear em comentários na publicação; 31% recorrem a avisos de amigos, familiares ou colegas. Ferramentas especializadas têm baixa adesão, como aplicativos de verificação de imagens (18%) e agências de checagem (17%).

O relatório também aponta que a percepção sobre a desinformação varia conforme idade, escolaridade e posição política. Pessoas com 45 anos ou mais relatam encontrar fake news com mais frequência e percebem mais os danos causados por elas; já os jovens dizem ter mais facilidade para identificá-las. Entre os que se identificam com a esquerda, 39% afirmam conseguir reconhecer notícias falsas com facilidade, ante 30% entre os de direita. Também é maior, entre os respondentes de esquerda, o uso de agências de checagem: 24%, contra 13% na direita e 17% no centro.

<><> Direita é a que mais usa IA

A direita lidera o uso de chats de inteligência artificial para produção de conteúdo. O ChatGPT é a ferramenta mais citada no levantamento, com 42% de uso geral, seguido pelo Gemini, com 25%. Na análise por posicionamento político, o ChatGPT aparece com maior incidência entre pessoas de direita (53%) do que entre as de esquerda (39%); na direita, a IA é mais usada para criação de imagens e vídeos. Já entre pessoas de esquerda e de centro, o uso para checar fake news é mais alto do que entre as de direita.

A pesquisa também revela que o uso de IA ainda é desigual no país. Embora 30% afirmem usar ferramentas de inteligência artificial diariamente, 47% dizem utilizá-las apenas ocasionalmente e 37% nunca terem usado um chat de IA. O acesso cresce entre jovens, pessoas com maior escolaridade e integrantes da classe AB; entre os mais velhos, o uso tende a ser mais cauteloso e voltado ao aprendizado.

“Quanto menor o nível socioeconômico, menor a percepção de que a desinformação causa altos níveis de dano. Por outro lado, quanto maior a escolaridade, maior a percepção de os danos causados pelas notícias falsas serem elevados”, observam os pesquisadores.

Na avaliação do Aláfia Lab, compreender como os brasileiros identificam fake news e como usam a inteligência artificial é um dos caminhos para discutir a integridade da informação e a qualidade do debate público.

“O estudo captura as mudanças provocadas por dois fenômenos contemporâneos que têm se tornado hoje estruturantes no consumo de informação. De um lado, temos a desinformação como um problema social de grande impacto na construção da percepção do público sobre a realidade. Por outro lado, temos a IA como um novo intermediário que tende a impactar cada vez mais no modo como se consome informação e, ao mesmo tempo, desinformação”.

O relatório foi produzido com base em amostra nacional, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Confira o estudo completo.

Um outro levantamento, divulgado pelo Observatório de IA nas Eleições, em parceria com o instituto de pesquisa de dados Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais no Brasil, no período entre janeiro de 2025 e abril de 2026.

Segundo o estudo, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são produzidos por inteligência artificial, apesar das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e 78% dos perfis desinformam esse mesmo público nas redes sociais, com posições simplistas, preconceituosas e discursos políticos extremistas. A investigação encontrou personagens virtuais projetados para se passar por cidadãos comuns, influenciadores, comunicadores e até lideranças populares.

Os conteúdos enganosos têm como principais alvos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. “A identificação desses materiais só foi possível a partir da análise de características das imagens e dos áudios, como diferenças de proporção, problemas de resolução e elementos robotizados”, destacam os institutos.

Um dos casos destacados pela pesquisa é o da conta “Dona Maria”, um avatar de uma mulher idosa negra que reúne mais de 400 vídeos com ataques ao presidente Lula e ao campo da esquerda. (Acesse todos os casos neste link).

“Na ocasião, a conta publicou um vídeo que simulava uma manifestação liderada pela suposta influenciadora em frente a uma agência do Banco do Brasil. No conteúdo, Dona Maria chamava o presidente Lula de “chefe de organização criminosa”. Desde então, o perfil publicou mais de 400 vídeos e passou a circular também em outras plataformas”, afirmam.

Encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após representações de partidos políticos, o caso abre um debate que vai além da simples disseminação de conteúdo falso.

No caso de “Dona Maria”, a dinâmica é outra: não existe uma pessoa real tendo suas falas e atitudes manipuladas. Trata-se de uma identidade totalmente fabricada, criada para atuar de forma contínua no ambiente digital com aparência de autenticidade. O que circula não é apenas um conteúdo falso sobre alguém existente, mas uma personagem artificial que simula espontaneidade política, interação e participação direta no debate público.

“Funcionam como fontes fictícias de opinião política, com aparência de espontaneidade. Um avatar pode parecer uma pessoa real reagindo a um fato político quando, na verdade, é uma construção artificial produzida para reforçar uma narrativa”, escrevem os pesquisadores do Data Privacy e Aláfia Labs.

“Funcionam como fontes fictícias de opinião política, com aparência de espontaneidade. Um avatar pode parecer uma pessoa real reagindo a um fato político quando, na verdade, é uma construção artificial produzida para reforçar uma narrativa”, escrevem os pesquisadores do Data Privacy e Aláfia Labs.

A maior parte das publicações foi localizada no TikTok e no Instagram, ambos com seis registros. O YouTube surge com três casos identificados. X, Kwai e Facebook também integram o conjunto de plataformas mapeadas pelo estudo.

De acordo com o relatório, sete dos 18 perfis analisados apresentavam algum tipo de indicação de que se tratava de conteúdo gerado por inteligência artificial, embora essas marcações não fossem facilmente perceptíveis. Em três casos, a identificação foi feita por meio de recursos automáticos das próprias plataformas; em dois, por marcas d’água das ferramentas utilizadas; e, em outros dois, por hashtags incluídas nas postagens.

•        Estudo identifica 18 influenciadores políticos criados por IA no Brasil; quase 80% divulga desinformação

Uma reportagem da revista Fórum de 2023 já trazia o risco das inteligências artificiais (IAs) inaugurarem uma nova era da desinformação e provocar impactos em eleições democráticas. Em 2026, essa já é uma realidade concreta.

Um levantamento divulgado pelo Observatório de IA nas Eleições, em parceria com os institutos de pesquisa de dados Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais no Brasil, no período entre janeiro de 2025 e abril de 2026.

Segundo o estudo, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são produzidos por inteligência artificial, apesar das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e 78% dos perfis desinformam esse mesmo público nas redes sociais, com posições simplistas, preconceituosas e discursos políticos extremistas. A investigação encontrou personagens virtuais projetados para se passar por cidadãos comuns, influenciadores, comunicadores e até lideranças populares.

Os conteúdos enganosos têm como principais alvos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. “A identificação desses materiais só foi possível a partir da análise de características das imagens e dos áudios, como diferenças de proporção, problemas de resolução e elementos robotizados”, destacam os institutos.

<><> As regras do TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou em março deste ano as regras sobre utilização de IA durante as eleições gerais de outubro. Por unanimidade, o tribunal decidiu proibir postagens nas redes sociais de conteúdos modificados no período de 72 horas antes do pleito e 24 horas após a votação.

A restrição vale para modificações com imagem e voz de candidatos ou pessoas públicas. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. As regras foram definidas com a aprovação de diversas resoluções que vão nortear o pleito, no qual serão escolhidos o presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.

Os ministros também proibiram que provedores de IA permitam, ainda que solicitado pelos usuários, sugestões de candidatos para votar. O objetivo é evitar a interferência de algoritmos na livre escolha dos eleitores.

Para combater a misoginia digital, o TSE proibiu postagens nas redes sociais com montagens envolvendo candidatas e fotos e vídeos com nudez e pornografia.

A Corte eleitoral também reafirmou que os provedores de internet poderão ser responsabilizados pela Justiça se não retirarem perfis falsos e postagens ilegais de seus usuários.

Para evitar episódios de censura ocorridos em eleições anteriores, os ministros decidiram permitir, no período de pré-campanha, manifestações espontâneas sobre conteúdo político em ambientes universitários, escolares e espaços de movimentos sociais. Também foi garantido que candidatos poderão fazer panfletagem em ruas, parques e praças, desde que garantida a mobilidade da população nos espaços.

Na semana anterior, o TSE aprovou mais sete resoluções sobre as eleições. Os textos tratam da divulgação de pesquisas eleitorais, transporte de eleitores, arrecadação de recursos, prestação de contas, além de alterações no cadastro de eleitores.

 

Fonte: Fórum

 

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