Como
medicina veterinária e ciência do comportamento animal ajudam consultora a
entender 'enigmas felinos'
Quatro
gatos, três enigmas.
Dois
gatinhos adotados juntos que se dão muito bem de repente começam a brigar.
Um
casal, marido e mulher, se muda com seu gato do Rio de Janeiro para Belo
Horizonte. De repente, o gato começa a agredir a mulher.
Uma
gata deixa de usar a caixa de areia e começa a pegar peças de roupa suja de seu
tutor para nelas "enterrar" suas fezes.
Os três
comportamentos atípicos foram elucidados pela consultora em comportamento
animal Letícia Orlandi.
Orlandi
concluiu que, em dois dos casos, havia uma causa clínica para a alteração no
comportamento dos animais. No terceiro, condições ambientais inadequadas
estavam na origem do problema.
A
ciência do comportamento animal vem se desenvolvendo, e o Brasil ocupa lugar de
destaque nesse campo, diz Orlandi, que tem cursos de pós-graduação em
comportamento animal pela Universidade Tuiuti do Paraná em parceria com o
Instituto de Saúde e Psicologia Animal (INSPA) e pela Pontifícia Universidade
Católica (PUC) de Minas Gerais.
Em
entrevista à BBC News Brasil, Orlandi conta como, com a ajuda de médicos
veterinários e baseando-se em um número crescente de estudos sobre o
comportamento felino, consegue compreender e reverter as estranhas condutas de
seus idiossincráticos clientes.
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Por que os gatos começaram a brigar?
Para
saber se gatos estão brincando ou brigando, é preciso observarmos alguns
sinais, diz a consultora.
"Gatinhos
que estão brincando, brincam em silêncio, com as unhas recolhidas. Eles também
exibem a barriga. Exibir a barriga um para o outro é um sinal de
confiança", ela explica
As
brigas, por outro lado, vêm acompanhadas de sons.
"Sons
de dor, de defesa. Também chamamos de 'hissado', que vem do inglês (to hiss,
sibilar), ou de 'som de cobrinha' ", diz.
Os
gatos que haviam começado a brigar eram da mesma ninhada, um macho e uma fêmea,
conta Letícia Orlandi.
Ela
explica que adotar irmãos é uma ótima prática. Significa que os dois animais
vão ter uma excelente convivência a vida inteira.
Os dois
dormiam juntos, davam banho de lambida um no outro, brincavam juntos. Sinal de
que tinham um bom relacionamento. Mas começaram a brigar.
Além
das brigas, o casal de irmãos passou a apresentar sinais físicos de agressões.
"Arranhões
na orelha, no pescoço. Marcas de mordida. Quando a tutora começou a encontrar
tufos de pelos pela casa, procurou a consultoria."
Parecia
que, um belo dia, os dois animais tinham decidido que não gostavam mais um do
outro. Orlandi explica que a mudança não é repentia, e que encontrar as causas
dessa alteração de comportamento requer um minucioso trabalho de investigação.
"Fui
conversando com essa tutora para saber tudo o que tinha acontecido na vida dela
e dos gatos nos meses anteriores", prossegue a consultora.
Orlandi
explica que se deu conta de que a gatinha tinha um vínculo forte com um homem
com quem a tutora tinha tido um relacionamento. O namorado passava bastante
tempo na casa dela e dormia lá com frequência. O relacionamento terminou, e o
homem desapareceu da vida delas.
A
gatinha então começou a manifestar algum desconforto quando ia à caixa de
areia. Passou a miar no momento de urinar, algo que não fazia antes.
Inicialmente, a dona da gata não mencionou o problema, que considerou uma
questão menor.
Ela
relatou apenas a questão das brigas entre os gatos. Os miados na caixa de areia
tornaram-se mais frequentes. Quando a tutora finalmente falou deles a Orlandi,
a consultora teve sua primeira pista.
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O estresse e a saúde dos gatos
Muitos
estudos relacionam o estresse à saúde física dos gatos.
Mas o
estresse em gatos tem algumas particularidades.
Em um
artigo intitulado Stress and Feline Health (em inglês, Estresse e Saúde
Felina), publicado na revista científica Veterinary Clinics of North America:
Small Animal Practice, os veterinários Tony Buffington e Melissa Bain, da UC
Davis School of Veterinary Medicine, relatam que as causas do estresse em gatos
são eventos interpretados pelo animal como ameaças à sua percepção de controle.
Orlandi
explica:
"Por
exemplo, quando os gatos têm uma rotina muito imprevisível, eles perdem a
sensação de controle sobre o território, sobre a própria vida. Isso produz
estresse."
No
mesmo artigo, os autores listam algumas das possíveis consequências clínicas do
estresse em gatos:
"Além
de infecção e inflamação, respostas ao estresse também podem ativar o trato
urinário inferior (dos gatos domésticos)".
No
entanto, os mecanismos que conectam o estresse psicossocial a transtornos
físicos em felinos ainda não estão claros, acrescentam os autores.
E de
volta à questão, o que estaria por trás da mudança no comportamento dos dois
irmãos? Letícia Orlandi faz a seguinte análise:
"Em
função da quebra de rotina (causada pelo desaparecimento do namorado da
tutora), essa gatinha, que tinha um vinculo maior com ele, e que,
provavelmente, é um animal mais sensível, teve um quadro relacionado ao
estresse e desenvolveu uma infecção urinária."
Orlandi
sugeriu que a gata fosse levada ao veterinário para exames e os testes
confirmaram suas suspeitas.
Mas o
que explica as brigas entre a gata e seu irmão?
A
resposta, diz Orlandi, está em um comportamento muito comum em grupos de
animais, entre eles, cães e gatos.
"Quando
um dos animais está doente, os outros podem praticar agressão. Não é uma coisa
anormal. Existe uma tentativa de afastamento daquele indivíduo que é
considerado um possível transmissor de vulnerabilidade."
Provavelmente,
o irmão havia percebido alterações sutis no comportamento da gata, um possível
aumento discreto de temperatura, os miados ao urinar. E tinha começado a
atacá-la.
"Então,
houve esse conflito relacionado à 'agressão de enfermidade', como a gente
chama."
Após
ser avaliada pelo veterinário, a gata recebeu tratamento e curou-se da
infecção.
"Ela
teve uma recuperação rápida e em algumas semanas o comportamento dos irmãos já
estava começando a voltar ao normal - dormirem juntinhos, um dar banho no
outro."
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Por que o gato passou a agredir a tutora?
Outro
caso de comportamento felino enigmático que Orlandi solucionou a partir de
conversas detalhadas com tutores e investigações em parceria com uma equipe
veterinária foi o do gato que passou a agredir a tutora.
"Às
vezes, o tutor chega para nós com queixa de agressões e isso pode estar
relacionado a algum incômodo físico, alguma dor que não foi identificada",
diz.
Orlandi
relembra o caso de dois clientes, marido e mulher, que a procuraram porque seu
gato tinha começado a atacar a tutora.
"Identificamos
que as agressões aconteciam no tempo mais frio. E que tinham passado a
acontecer após esse gatinho se mudar do Rio de Janeiro, uma cidade mais quente,
para Belo Horizonte, uma cidade menos quente."
O fato
de que as agressões aconteciam em dias mais frios despertou em Orlandi a
suspeita de que o gato estivesse sofrendo de dores ortopédicas. A associação
entre dor em gatos com artrose e baixas temperaturas já foi bastante estudada,
diz a consultora.
Os
exames confirmaram que o gato tinha osteoartrite, mas o diagnóstico não
explicava por que o gato agredia a tutora.
Para
encaixar mais essa peça do quebra-cabeças, Orlandi lança mão de pesquisas que
investigam a relação entre dor e comportamento agressivo em gatos.
Ela
cita, por exemplo, um estudo intitulado Behavioural Signs of Pain in Cats: An
Expert Consensus, (Sinais Comportamentais da Dor em Gatos: Um Consenso Entre
Especialistas), publicado pela revista científica de livre acesso PLOS One
(sigla para Public Library of Science).
"Este
estudo tem um quadro muito interessante que mostra que alguns gatos com alto
nível de dor apresentam comportamento frequente de tentar morder e
arranhar."
Os
autores enfatizam, no entanto, que o comportamento agressivo em si não é
suficiente como indicativo de dor em gatos.
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Dor e susto, receita para um trauma
Ainda
não sabemos por que o gato agredia apenas a esposa e não seu marido. A
explicação de Orlandi revela aspectos fascinantes do comportamento felino.
Segundo
a consultora, o gato passou a agredir a tutora após viver um episódio
traumático em que ela estava presente.
O
cenário da primeira agressão, relatado pela tutora à consultora, é o seguinte:
Fazia
frio e a mulher estava sozinha em casa. Agachada no banheiro, um espaço
pequeno, ela limpava a caixa de areia do gato. Nesse momento, o animal entrou
no recinto.
"Por
conta da baixa temperatura, é muito provável que a dor do gato estivesse mais
intensa. Para ele, aquela devia ser uma situação estressante. Talvez ele tenha
se sentido encurralado, vulnerável, naquele lugar pequeno. Isso, somado à dor,
fez com que ele se assustasse e a atacasse."
"Foi
um arranhão significativo, ela precisou de cuidados médicos."
"Quando
o gato atacou, a mulher gritou, chorou e se levantou repentinamente".
Isso,
prossegue Orlandi, assustou ainda mais o animal, aprofundando o trauma.
"E
o que isso significa? Aquele gato associou aquele momento, aquela pessoa,
aquele cheiro, aquela dor, a uma situação que para ele foi muito
assustadora."
"E
por fazer essa associação com essa pessoa, houve, sim, outros episódios de
agressão. Então, os tutores procuraram a consultoria."
Orlandi
conta que, feito o diagnóstico de osteoartrite, o gato recebeu medicação para
dor, foi submetido a sessões de acupuntura e passou a se deitar sobre
cobertores elétricos colocados em lugares estratégicos da casa.
Após o
tratamento, "ele passou a ficar bem mais tranquilo, mais confortável, e a
agressão deixou de existir", diz.
Mas a
relação entre a tutora e o gato havia ficado abalada, ela conta.
"Fizemos
um trabalho para que eles voltassem a ficar juntos, dormir juntos, ter uma
relação saudável."
"Tem
alguns comportamentos em gatos que parecem muito misteriosos, e são de difícil
identificação. Na minha experiência, são aqueles ligados à agressão."
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Terceiro enigma - Por que a gata estava enterrando suas fezes nas cuecas sujas
do tutor?
Nem
sempre, no entanto, comportamentos enigmáticos de gatos têm causas ligadas à
saúde, explica Orlandi.
"Tive
um caso, era um cliente com duas gatinhas. E uma das gatinhas passou a pegar as
meias, as roupas, as cuecas que estavam no cesto de roupa suja dele para
enterrar suas necessidades."
"Por
que ela estava fazendo isso? Só faltou ela escrever uma carta para ele, ela
estava demonstrando claramente qual era o problema", comenta a consultora.
O tutor
tinha várias caixas de areia, todas instaladas em um mesmo cômodo, "aquele
famoso quartinho que temos aqui no Brasil", ela diz.
"Para
os gatos, isso significa uma caixa de areia só, ou um único ponto de
eliminação, como a gente chama."
Na
cabeça do ecliente, prossegue Orlandi, enquanto uma das caixas estivesse limpa,
não era preciso limpar as outras.
"Por
isso ele tinha várias. Ele limpava as caixas uma vez por semana."
Mas
para um gato, isso significa que aquele ambiente está sujo, explica Orlandi.
"Então,
para não enterrar as necessidades dela com aquele substrato sujo, a gata pegava
a roupa - que na visão dela estava muito mais limpa - e cobria as
necessidades."
Orlandi
conta que, para solucionar o problema, o tutor passou a limpar as caixas de
areia pelo menos uma vez por dia e também instalou mais um ponto de eliminação
na casa.
"Ele
nunca mais teve problemas."
"O
comportamento felino precisa ser mais divulgado, sabe?", reflete a
consultora.
Fonte:
BBC News Brasil

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