quarta-feira, 10 de junho de 2026

Como os clubes construíram o Brasil como o país do futebol

No Brasil, a nacionalização do futebol ocorreu de maneira mais tardia em relação aos vizinhos argentinos e uruguaios. Enquanto esses países já possuíam clubes consolidados ainda no século XIX, como o Gimnasia y Esgrima de La Plata, fundado em 1887 e um dos mais antigos da Argentina ainda em atividade, além do Nacional e do Peñarol no Uruguai, o futebol brasileiro só adquiriu dimensão efetivamente popular na década de 1920. A conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919 foi o primeiro grande título internacional da seleção brasileira. É justamente após esta conquista que o esporte bretão se tornou impossível de ser contido no país.

A ascensão dos clubes de futebol acompanha a ascensão do próprio futebol brasileiro. Para tanto, foi preciso que algumas importantes agremiações, como Flamengo, Vasco da Gama e Botafogo, deixassem de concentrar suas atividades no remo, principal esporte de massas do início do século XX, e passassem a investir de forma decisiva no futebol. O crescimento das arquibancadas, o aumento do interesse popular e a expansão da imprensa esportiva transformaram o futebol em um fenômeno urbano de grandes proporções.

Houve uma primeira geração de clubes que protagonizou os primórdios da modalidade no país. São Paulo Athletic Club, Club Atlético Paulistano, Ypiranga e Germânia, por exemplo, desempenharam papel fundamental na introdução e difusão do futebol, mas abandonaram a modalidade após sua profissionalização. O Fluminense Football Club, do Rio de Janeiro, pode ser classificado como integrante da primeira geração de clubes, mas permaneceu mesmo com a transição para o profissionalismo, iniciada em 1933. A profissionalização representou uma ruptura com a concepção elitista do esporte e ocorreu em meio às transformações políticas e sociais promovidas pela Era Vargas. O processo de institucionalização do esporte brasileiro seria aprofundado alguns anos depois com a promulgação da Lei nº 3.199, de 1941, que criou o Conselho Nacional de Desportos (CND) e estabeleceu as bases da organização esportiva nacional. Ao reconhecer e regulamentar a prática esportiva em escala nacional, o Estado brasileiro contribuiu para consolidar o futebol como uma atividade profissional e como um importante instrumento de integração social e construção da identidade nacional.

A década de 1930 marca o enfraquecimento gradativo do controle exercido pelas elites sobre o futebol. Até então, negros, trabalhadores e setores populares enfrentavam barreiras explícitas e implícitas para participar dos clubes e das principais competições. Nesse processo, o Vasco da Gama desempenhou papel fundamental. Em 1923, apenas um ano após ingressar na primeira divisão carioca, o clube conquistou o Campeonato Carioca com uma equipe formada por jogadores negros, operários, trabalhadores humildes e filhos de imigrantes portugueses, rompendo o monopólio esportivo dos clubes tradicionais. A reação das elites foi imediata. Dirigentes tentaram impor restrições que excluiriam parte dos atletas vascaínos das competições. A resposta do clube, materializada na histórica carta de 1924, tornou-se um dos documentos mais importantes da luta contra a discriminação no futebol brasileiro. A profissionalização aprofundaria esse processo, abrindo caminho para uma democratização relativa do esporte e permitindo que jogadores oriundos das camadas populares passassem a ocupar papel central nos gramados e no imaginário nacional.

Enquanto muitos clubes associados às elites abandonavam o futebol por discordarem de sua crescente popularização e profissionalização, agremiações de perfil popular, como Corinthians, Palestra Itália e o próprio Vasco da Gama, conquistavam novos torcedores e se consolidavam como grandes forças esportivas e culturais. A primeira metade do século XX consolidou o eixo Rio-São Paulo como principal centro do futebol nacional, mas também favoreceu o surgimento de clubes em outras regiões do país, especialmente em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Os anos 1930 também marcaram o esforço da intelectualidade brasileira para compreender e formular uma interpretação da identidade nacional. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior estão entre os intelectuais que se dedicaram a investigar a formação histórica, social e cultural do povo brasileiro. Personagens como Mário de Andrade igualmente assumiram o desafio de desvendar o Brasil profundo, suas tradições, contradições e particularidades regionais.

Foi nesse contexto de busca por uma definição do que seria o Brasil que o futebol emergiu como um fenômeno social de enorme relevância. Sua capacidade de mobilizar multidões, atravessar fronteiras de classe e gerar sentimentos coletivos de pertencimento chamou a atenção de intelectuais, jornalistas e agentes políticos. O futebol deixava de ser apenas uma prática esportiva para se transformar em um dos principais símbolos da vida nacional.

Nesse período, surgia também uma nova geração de clubes. São Paulo Futebol Clube, Esporte Clube Bahia, Goiás Esporte Clube e Fortaleza Esporte Clube, entre outros, nasceram ou se consolidaram carregando em seus nomes e símbolos referências explícitas aos estados e cidades que representavam. Mais do que equipes esportivas, esses clubes passaram a expressar identidades regionais em um país que buscava fortalecer seus laços nacionais.

Os meios de comunicação tiveram papel decisivo nesse processo. Jornais, revistas e, posteriormente, o rádio ampliaram o alcance do futebol e contribuíram para a construção de narrativas sobre o caráter nacional brasileiro. Muitos intelectuais e cronistas esportivos que atuavam na imprensa passaram a associar o futebol a características consideradas tipicamente brasileiras, como a criatividade, a improvisação e a mestiçagem cultural.

O esforço da diplomacia brasileira para sediar a Copa do Mundo de 1950 impulsionou ainda mais esse projeto simbólico que associava o país ao futebol. A escolha do Brasil como anfitrião do primeiro Mundial realizado após a Segunda Guerra Mundial foi apresentada como demonstração da capacidade de modernização nacional e da inserção do país no cenário internacional. Embora a derrota para o Uruguai na final, no episódio que ficou conhecido como Maracanazo, tenha representado um trauma coletivo, ela não interrompeu a crescente identificação entre futebol e identidade nacional.

A conquista da Copa do Mundo de 1958 marcou um ponto de inflexão nessa trajetória. O título obtido na Suécia não apenas colocou o Brasil no topo do futebol mundial, mas também revelou ao planeta o talento extraordinário de Pelé. Ao lado de Garrincha, Didi, Vavá e tantos outros craques, Pelé tornou-se símbolo de uma nova imagem do Brasil, um país capaz de produzir um futebol admirado em todos os continentes.

Na década de 1960, o Santos Futebol Clube transformou-se na principal vitrine internacional do futebol brasileiro. Impulsionado pelo protagonismo de Pelé e por uma geração excepcional de jogadores, o clube conquistou títulos nacionais e internacionais, difundindo a imagem do futebol brasileiro pelo mundo. A lendária linha de ataque formada por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe entrou para a história como uma das mais talentosas de todos os tempos.

As excursões internacionais do Santos atraíam multidões em diferentes países e ajudaram a consolidar a reputação global do futebol brasileiro. Naquele período, o clube paulista alcançou um prestígio comparável ao de gigantes como o Real Madrid e o Milan. Em muitos aspectos, o Santos tornou-se a principal marca esportiva do Brasil no exterior, contribuindo decisivamente para fortalecer a imagem do país como referência mundial do futebol.

Contudo, a projeção internacional do futebol brasileiro não foi obra exclusiva do Santos. Nas décadas seguintes, clubes como Flamengo, São Paulo, Grêmio, Internacional, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Palmeiras, Corinthians e tantos outros ampliaram a presença brasileira em torneios continentais e intercontinentais. Cada conquista reforçava a associação entre o Brasil e a excelência futebolística, transformando os clubes em verdadeiros embaixadores da cultura nacional.

Foi nesse contexto que a ideia do Brasil como “país do futebol” deixou de ser apenas uma construção da imprensa e da intelectualidade para ganhar reconhecimento internacional. Os títulos mundiais, o brilho de Pelé e de outras gerações de craques, bem como o sucesso dos clubes brasileiros, transformaram o futebol em um dos mais importantes instrumentos de projeção cultural do Brasil no século XX.

Mais do que um esporte, o futebol tornou-se um elemento central da identidade brasileira. Sua história acompanha os processos de urbanização, industrialização, integração territorial e construção do Estado nacional. Ao longo do século XX, o futebol ajudou a criar símbolos compartilhados, mobilizou paixões coletivas e ofereceu uma linguagem comum capaz de conectar diferentes regiões, classes sociais e culturas locais.

Por isso, a expressão “país do futebol” não deve ser entendida apenas como um slogan esportivo. Ela representa uma construção histórica, cultural e política que envolveu clubes, atletas, jornalistas, intelectuais, governantes e milhões de torcedores. Os clubes tiveram papel decisivo nessa trajetória. Foram eles que organizaram as competições, construíram rivalidades, formaram torcidas, revelaram ídolos e transformaram uma prática esportiva importada em um fenômeno popular de alcance nacional.

É preciso lembrar que o Brasil não nasceu como o país do futebol. Tornou-se o país do futebol ao longo de décadas de disputas, conquistas, narrativas e identificações coletivas que transformaram um esporte importado em uma das mais poderosas expressões da cultura nacional. E, nessa história, os clubes foram os protagonistas que levaram o futebol brasileiro dos campos locais para o mundo.

•        Mundial 2026: a revanche chinesa será disputada nas arquibancadas. Por Fernando Capotondo

Há mais de uma década, Xi Jinping resumiu seu sonho para o futebol em três objetivos: que a China voltasse a se classificar para uma Copa do Mundo, que algum dia a organizasse e que terminasse conquistando o título. A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, nenhum desses objetivos foi alcançado. A seleção chinesa ficou novamente fora do torneio e o país foi incapaz de desenvolver uma liga minimamente competitiva.

No entanto, Pequim encontrou outra maneira de se tornar protagonista da competição. Durante os 39 dias de duração do Mundial, o selo “Feito na China” estará presente em grande parte do merchandising que inundará o planeta do futebol e os estádios no México, Canadá e Estados Unidos. Xi sonhou com a Copa do Mundo. A China, por enquanto, fracassou em campo, mas acabou fabricando o torneio.

A história dessa revanche industrial leva a Yiwu, cidade da província de Zhejiang conhecida como “o supermercado do mundo”. Ali funciona um dos maiores centros manufatureiros do planeta. Apenas o Mercado Internacional de Comércio de Yiwu reúne mais de 70 mil estandes, formando uma das principais redes chinesas de abastecimento para a Copa do Mundo de 2026.

<><> A fábrica da Copa do Mundo

Nos meses que antecederam o torneio, as máquinas trabalharam 24 horas por dia, sete dias por semana. As galerias de Yiwu foram preenchidas com camisas de seleções nacionais, bandeiras, cachecóis, bonés, cornetas, bonecos, chaveiros e bolas destinados às arquibancadas, fan zones e vendas online nos cinco continentes.

Embora ainda não existam números oficiais, os resultados dos últimos anos mostram o que pode ser esperado para este Mundial. Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, Yiwu concentrou cerca de 70% da produção global de merchandising. Em 2025, a cidade exportou artigos esportivos no valor aproximado de US$ 1,6 bilhão, com crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior. Apenas entre janeiro e maio de 2026, as vendas alcançaram cerca de US$ 668 milhões.

Wu Xiaoming, gerente-geral da Yiwu Aokai Sports Goods, afirmou que a empresa chegou a produzir aproximadamente 4 mil bolas por dia destinadas principalmente à Europa e à América Latina e Caribe. Segundo ele, todas as empresas começaram a desenvolver produtos relacionados ao Mundial um ano antes do início da competição, para atender às demandas específicas de diferentes mercados.

Yiwu é o coração desse negócio, mas seria um erro imaginar que é o único polo produtivo. A engrenagem da Copa também envolve centros manufatureiros em Guangzhou, Xiamen e Qingdao. Nesta última cidade, a empresa têxtil Qingdao Wandelong fabricou cerca de 10 milhões de bandeiras destinadas a estádios, lojas e torcedores de todo o mundo.

“A maior parte da produção foi enviada no final de março, mas o verdadeiro teste começará quando o torneio tiver início e precisarmos operar um sistema industrial ininterrupto capaz de responder a pedidos urgentes em prazos entre 24 e 72 horas”, explicou Xiao Chang'ai, presidente da companhia, em reportagem especial da agência Xinhua.

<><> Das fábricas ao VAR

Por trás dessa máquina industrial existe um negócio global em expansão. Segundo a consultoria Fortune Business Insights, o mercado mundial de produtos esportivos licenciados deverá atingir neste ano cerca de US$ 42 bilhões, impulsionado por grandes eventos como a Copa do Mundo de 2026.

O torneio poderá superar os 6 bilhões de espectadores acumulados em todo o mundo e aumentar sua exposição midiática em 20% em relação ao Catar 2022, segundo a empresa de tecnologia publicitária The Trade Desk. A crescente convergência entre televisão, streaming, aplicativos esportivos e vídeos curtos amplia o valor comercial do Mundial muito além dos estádios.

Nesse cenário, a presença chinesa já não se limita à fabricação de camisas, bandeiras e souvenirs. Ela também alcança áreas estratégicas da infraestrutura tecnológica da competição.

É nesse contexto que surge a Lenovo. A empresa figura entre os oito principais patrocinadores da Copa, integra o grupo de parceiros tecnológicos da FIFA e fornecerá soluções de Inteligência Artificial (IA) para as operações das 16 sedes do torneio.

Alexander Metzlaff, coordenador de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) da FIFA, informou que o acordo permitirá a utilização de 10 mil computadores e o trabalho de mais de 200 engenheiros para fornecer suporte técnico e logístico.

A Lenovo também disponibilizará tecnologias de IA baseadas nos chamados “gêmeos digitais”, réplicas virtuais de jogadores e árbitros geradas por escaneamento corporal em 3D. Esses modelos permitirão reconstruir jogadas com precisão milimétrica para melhorar decisões de arbitragem e a detecção de impedimentos, entre outras infrações.

Por sua vez, a empresa tecnológica Hisense desempenhará papel importante ao fornecer as telas RGB Mini LED utilizadas pelo sistema VAR, além de milhares de outros equipamentos de visualização instalados nos estádios.

“A Hisense estabelece novos padrões de inovação que melhorarão diretamente a experiência dos jogadores, árbitros e equipes”, afirmou Nick Brown, diretor de parcerias comerciais da FIFA.

Além da tecnologia, a gigante de laticínios Mengniu também integra o grupo de patrocinadores oficiais, em um acordo que inclui a Copa do Mundo Feminina de 2027 e a Copa do Mundo de 2030. Para a FIFA, a parceria fortalece sua presença no mercado chinês; para Pequim, representa mais uma demonstração de como grandes empresas do país conquistaram espaço no centro comercial de um dos espetáculos esportivos mais populares do planeta.

<><> Futebol sem bola

Essa expansão corporativa ocorre em um país onde o futebol está muito atrás do tênis de mesa, do basquete e até do badminton em termos de popularidade. Ainda assim, pesquisas e estimativas não oficiais apontam que existam cerca de 200 milhões de torcedores de futebol na China — uma população superior à de muitos países participantes da Copa do Mundo.

Nesse contexto, Pequim mantém uma ambição ainda maior: transformar o futebol em uma ferramenta de projeção internacional. Em 2015, o governo lançou um plano para converter a China em uma potência futebolística até meados do século. O programa previa a construção de milhares de campos, reformas educacionais e o objetivo explícito de sediar e vencer uma Copa do Mundo.

Os resultados ficaram muito aquém dessas expectativas. A Superliga Chinesa perdeu força após anos de investimentos bilionários e contratações de estrelas internacionais. Diversos clubes desapareceram por dificuldades financeiras, enquanto dirigentes, árbitros e treinadores se envolveram em escândalos de corrupção e manipulação de resultados.

A seleção masculina ocupa atualmente a 84ª posição no ranking da FIFA e continua presa a um ciclo de maus resultados, frustrações e mudanças constantes. Ainda assim, as derrotas dentro de campo não impediram que a China encontrasse outra maneira de ocupar o centro do palco global.

Cada bandeira pendurada em uma sacada em Buenos Aires, cada boné vendido em Boston, cada bola utilizada em uma promoção na Cidade do México ou cada souvenir comprado por um torcedor em Toronto provavelmente saiu de alguma fábrica de Yiwu, Guangzhou, Xiamen ou Qingdao.

A China continua distante de realizar o sonho futebolístico de Xi Jinping. Mas já conquistou uma parte significativa do negócio que torna possível uma Copa do Mundo. Sua revanche, por enquanto, não é disputada no gramado. Ela ecoa das arquibancadas.

 

Fonte: Por Alexandre Machado Rosa, em Brasil 247

 

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