Como
os clubes construíram o Brasil como o país do futebol
No
Brasil, a nacionalização do futebol ocorreu de maneira mais tardia em relação
aos vizinhos argentinos e uruguaios. Enquanto esses países já possuíam clubes
consolidados ainda no século XIX, como o Gimnasia y Esgrima de La Plata,
fundado em 1887 e um dos mais antigos da Argentina ainda em atividade, além do
Nacional e do Peñarol no Uruguai, o futebol brasileiro só adquiriu dimensão
efetivamente popular na década de 1920. A conquista do Campeonato Sul-Americano
de 1919 foi o primeiro grande título internacional da seleção brasileira. É
justamente após esta conquista que o esporte bretão se tornou impossível de ser
contido no país.
A
ascensão dos clubes de futebol acompanha a ascensão do próprio futebol
brasileiro. Para tanto, foi preciso que algumas importantes agremiações, como
Flamengo, Vasco da Gama e Botafogo, deixassem de concentrar suas atividades no
remo, principal esporte de massas do início do século XX, e passassem a
investir de forma decisiva no futebol. O crescimento das arquibancadas, o
aumento do interesse popular e a expansão da imprensa esportiva transformaram o
futebol em um fenômeno urbano de grandes proporções.
Houve
uma primeira geração de clubes que protagonizou os primórdios da modalidade no
país. São Paulo Athletic Club, Club Atlético Paulistano, Ypiranga e Germânia,
por exemplo, desempenharam papel fundamental na introdução e difusão do
futebol, mas abandonaram a modalidade após sua profissionalização. O Fluminense
Football Club, do Rio de Janeiro, pode ser classificado como integrante da
primeira geração de clubes, mas permaneceu mesmo com a transição para o
profissionalismo, iniciada em 1933. A profissionalização representou uma
ruptura com a concepção elitista do esporte e ocorreu em meio às transformações
políticas e sociais promovidas pela Era Vargas. O processo de
institucionalização do esporte brasileiro seria aprofundado alguns anos depois
com a promulgação da Lei nº 3.199, de 1941, que criou o Conselho Nacional de
Desportos (CND) e estabeleceu as bases da organização esportiva nacional. Ao
reconhecer e regulamentar a prática esportiva em escala nacional, o Estado
brasileiro contribuiu para consolidar o futebol como uma atividade profissional
e como um importante instrumento de integração social e construção da
identidade nacional.
A
década de 1930 marca o enfraquecimento gradativo do controle exercido pelas
elites sobre o futebol. Até então, negros, trabalhadores e setores populares
enfrentavam barreiras explícitas e implícitas para participar dos clubes e das
principais competições. Nesse processo, o Vasco da Gama desempenhou papel
fundamental. Em 1923, apenas um ano após ingressar na primeira divisão carioca,
o clube conquistou o Campeonato Carioca com uma equipe formada por jogadores
negros, operários, trabalhadores humildes e filhos de imigrantes portugueses,
rompendo o monopólio esportivo dos clubes tradicionais. A reação das elites foi
imediata. Dirigentes tentaram impor restrições que excluiriam parte dos atletas
vascaínos das competições. A resposta do clube, materializada na histórica
carta de 1924, tornou-se um dos documentos mais importantes da luta contra a
discriminação no futebol brasileiro. A profissionalização aprofundaria esse
processo, abrindo caminho para uma democratização relativa do esporte e
permitindo que jogadores oriundos das camadas populares passassem a ocupar
papel central nos gramados e no imaginário nacional.
Enquanto
muitos clubes associados às elites abandonavam o futebol por discordarem de sua
crescente popularização e profissionalização, agremiações de perfil popular,
como Corinthians, Palestra Itália e o próprio Vasco da Gama, conquistavam novos
torcedores e se consolidavam como grandes forças esportivas e culturais. A
primeira metade do século XX consolidou o eixo Rio-São Paulo como principal
centro do futebol nacional, mas também favoreceu o surgimento de clubes em
outras regiões do país, especialmente em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e
Minas Gerais.
Os anos
1930 também marcaram o esforço da intelectualidade brasileira para compreender
e formular uma interpretação da identidade nacional. Gilberto Freyre, Sérgio
Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior estão entre os intelectuais que se
dedicaram a investigar a formação histórica, social e cultural do povo
brasileiro. Personagens como Mário de Andrade igualmente assumiram o desafio de
desvendar o Brasil profundo, suas tradições, contradições e particularidades
regionais.
Foi
nesse contexto de busca por uma definição do que seria o Brasil que o futebol
emergiu como um fenômeno social de enorme relevância. Sua capacidade de
mobilizar multidões, atravessar fronteiras de classe e gerar sentimentos
coletivos de pertencimento chamou a atenção de intelectuais, jornalistas e
agentes políticos. O futebol deixava de ser apenas uma prática esportiva para
se transformar em um dos principais símbolos da vida nacional.
Nesse
período, surgia também uma nova geração de clubes. São Paulo Futebol Clube,
Esporte Clube Bahia, Goiás Esporte Clube e Fortaleza Esporte Clube, entre
outros, nasceram ou se consolidaram carregando em seus nomes e símbolos
referências explícitas aos estados e cidades que representavam. Mais do que
equipes esportivas, esses clubes passaram a expressar identidades regionais em
um país que buscava fortalecer seus laços nacionais.
Os
meios de comunicação tiveram papel decisivo nesse processo. Jornais, revistas
e, posteriormente, o rádio ampliaram o alcance do futebol e contribuíram para a
construção de narrativas sobre o caráter nacional brasileiro. Muitos
intelectuais e cronistas esportivos que atuavam na imprensa passaram a associar
o futebol a características consideradas tipicamente brasileiras, como a
criatividade, a improvisação e a mestiçagem cultural.
O
esforço da diplomacia brasileira para sediar a Copa do Mundo de 1950
impulsionou ainda mais esse projeto simbólico que associava o país ao futebol.
A escolha do Brasil como anfitrião do primeiro Mundial realizado após a Segunda
Guerra Mundial foi apresentada como demonstração da capacidade de modernização
nacional e da inserção do país no cenário internacional. Embora a derrota para
o Uruguai na final, no episódio que ficou conhecido como Maracanazo, tenha
representado um trauma coletivo, ela não interrompeu a crescente identificação
entre futebol e identidade nacional.
A
conquista da Copa do Mundo de 1958 marcou um ponto de inflexão nessa
trajetória. O título obtido na Suécia não apenas colocou o Brasil no topo do
futebol mundial, mas também revelou ao planeta o talento extraordinário de
Pelé. Ao lado de Garrincha, Didi, Vavá e tantos outros craques, Pelé tornou-se
símbolo de uma nova imagem do Brasil, um país capaz de produzir um futebol
admirado em todos os continentes.
Na
década de 1960, o Santos Futebol Clube transformou-se na principal vitrine
internacional do futebol brasileiro. Impulsionado pelo protagonismo de Pelé e
por uma geração excepcional de jogadores, o clube conquistou títulos nacionais
e internacionais, difundindo a imagem do futebol brasileiro pelo mundo. A
lendária linha de ataque formada por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe
entrou para a história como uma das mais talentosas de todos os tempos.
As
excursões internacionais do Santos atraíam multidões em diferentes países e
ajudaram a consolidar a reputação global do futebol brasileiro. Naquele
período, o clube paulista alcançou um prestígio comparável ao de gigantes como
o Real Madrid e o Milan. Em muitos aspectos, o Santos tornou-se a principal
marca esportiva do Brasil no exterior, contribuindo decisivamente para
fortalecer a imagem do país como referência mundial do futebol.
Contudo,
a projeção internacional do futebol brasileiro não foi obra exclusiva do
Santos. Nas décadas seguintes, clubes como Flamengo, São Paulo, Grêmio,
Internacional, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Palmeiras, Corinthians e tantos
outros ampliaram a presença brasileira em torneios continentais e
intercontinentais. Cada conquista reforçava a associação entre o Brasil e a
excelência futebolística, transformando os clubes em verdadeiros embaixadores
da cultura nacional.
Foi
nesse contexto que a ideia do Brasil como “país do futebol” deixou de ser
apenas uma construção da imprensa e da intelectualidade para ganhar
reconhecimento internacional. Os títulos mundiais, o brilho de Pelé e de outras
gerações de craques, bem como o sucesso dos clubes brasileiros, transformaram o
futebol em um dos mais importantes instrumentos de projeção cultural do Brasil
no século XX.
Mais do
que um esporte, o futebol tornou-se um elemento central da identidade
brasileira. Sua história acompanha os processos de urbanização,
industrialização, integração territorial e construção do Estado nacional. Ao
longo do século XX, o futebol ajudou a criar símbolos compartilhados, mobilizou
paixões coletivas e ofereceu uma linguagem comum capaz de conectar diferentes
regiões, classes sociais e culturas locais.
Por
isso, a expressão “país do futebol” não deve ser entendida apenas como um
slogan esportivo. Ela representa uma construção histórica, cultural e política
que envolveu clubes, atletas, jornalistas, intelectuais, governantes e milhões
de torcedores. Os clubes tiveram papel decisivo nessa trajetória. Foram eles
que organizaram as competições, construíram rivalidades, formaram torcidas,
revelaram ídolos e transformaram uma prática esportiva importada em um fenômeno
popular de alcance nacional.
É
preciso lembrar que o Brasil não nasceu como o país do futebol. Tornou-se o
país do futebol ao longo de décadas de disputas, conquistas, narrativas e
identificações coletivas que transformaram um esporte importado em uma das mais
poderosas expressões da cultura nacional. E, nessa história, os clubes foram os
protagonistas que levaram o futebol brasileiro dos campos locais para o mundo.
• Mundial 2026: a revanche chinesa será
disputada nas arquibancadas. Por Fernando Capotondo
Há mais
de uma década, Xi Jinping resumiu seu sonho para o futebol em três objetivos:
que a China voltasse a se classificar para uma Copa do Mundo, que algum dia a
organizasse e que terminasse conquistando o título. A poucos dias do início da
Copa do Mundo de 2026, nenhum desses objetivos foi alcançado. A seleção chinesa
ficou novamente fora do torneio e o país foi incapaz de desenvolver uma liga
minimamente competitiva.
No
entanto, Pequim encontrou outra maneira de se tornar protagonista da
competição. Durante os 39 dias de duração do Mundial, o selo “Feito na China”
estará presente em grande parte do merchandising que inundará o planeta do
futebol e os estádios no México, Canadá e Estados Unidos. Xi sonhou com a Copa
do Mundo. A China, por enquanto, fracassou em campo, mas acabou fabricando o
torneio.
A
história dessa revanche industrial leva a Yiwu, cidade da província de Zhejiang
conhecida como “o supermercado do mundo”. Ali funciona um dos maiores centros
manufatureiros do planeta. Apenas o Mercado Internacional de Comércio de Yiwu
reúne mais de 70 mil estandes, formando uma das principais redes chinesas de
abastecimento para a Copa do Mundo de 2026.
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A fábrica da Copa do Mundo
Nos
meses que antecederam o torneio, as máquinas trabalharam 24 horas por dia, sete
dias por semana. As galerias de Yiwu foram preenchidas com camisas de seleções
nacionais, bandeiras, cachecóis, bonés, cornetas, bonecos, chaveiros e bolas
destinados às arquibancadas, fan zones e vendas online nos cinco continentes.
Embora
ainda não existam números oficiais, os resultados dos últimos anos mostram o
que pode ser esperado para este Mundial. Na Copa do Mundo do Catar, em 2022,
Yiwu concentrou cerca de 70% da produção global de merchandising. Em 2025, a
cidade exportou artigos esportivos no valor aproximado de US$ 1,6 bilhão, com
crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior. Apenas entre janeiro e
maio de 2026, as vendas alcançaram cerca de US$ 668 milhões.
Wu
Xiaoming, gerente-geral da Yiwu Aokai Sports Goods, afirmou que a empresa
chegou a produzir aproximadamente 4 mil bolas por dia destinadas principalmente
à Europa e à América Latina e Caribe. Segundo ele, todas as empresas começaram
a desenvolver produtos relacionados ao Mundial um ano antes do início da
competição, para atender às demandas específicas de diferentes mercados.
Yiwu é
o coração desse negócio, mas seria um erro imaginar que é o único polo
produtivo. A engrenagem da Copa também envolve centros manufatureiros em
Guangzhou, Xiamen e Qingdao. Nesta última cidade, a empresa têxtil Qingdao
Wandelong fabricou cerca de 10 milhões de bandeiras destinadas a estádios,
lojas e torcedores de todo o mundo.
“A
maior parte da produção foi enviada no final de março, mas o verdadeiro teste
começará quando o torneio tiver início e precisarmos operar um sistema
industrial ininterrupto capaz de responder a pedidos urgentes em prazos entre
24 e 72 horas”, explicou Xiao Chang'ai, presidente da companhia, em reportagem
especial da agência Xinhua.
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Das fábricas ao VAR
Por
trás dessa máquina industrial existe um negócio global em expansão. Segundo a
consultoria Fortune Business Insights, o mercado mundial de produtos esportivos
licenciados deverá atingir neste ano cerca de US$ 42 bilhões, impulsionado por
grandes eventos como a Copa do Mundo de 2026.
O
torneio poderá superar os 6 bilhões de espectadores acumulados em todo o mundo
e aumentar sua exposição midiática em 20% em relação ao Catar 2022, segundo a
empresa de tecnologia publicitária The Trade Desk. A crescente convergência
entre televisão, streaming, aplicativos esportivos e vídeos curtos amplia o
valor comercial do Mundial muito além dos estádios.
Nesse
cenário, a presença chinesa já não se limita à fabricação de camisas, bandeiras
e souvenirs. Ela também alcança áreas estratégicas da infraestrutura
tecnológica da competição.
É nesse
contexto que surge a Lenovo. A empresa figura entre os oito principais
patrocinadores da Copa, integra o grupo de parceiros tecnológicos da FIFA e
fornecerá soluções de Inteligência Artificial (IA) para as operações das 16
sedes do torneio.
Alexander
Metzlaff, coordenador de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) da FIFA,
informou que o acordo permitirá a utilização de 10 mil computadores e o
trabalho de mais de 200 engenheiros para fornecer suporte técnico e logístico.
A
Lenovo também disponibilizará tecnologias de IA baseadas nos chamados “gêmeos
digitais”, réplicas virtuais de jogadores e árbitros geradas por escaneamento
corporal em 3D. Esses modelos permitirão reconstruir jogadas com precisão
milimétrica para melhorar decisões de arbitragem e a detecção de impedimentos,
entre outras infrações.
Por sua
vez, a empresa tecnológica Hisense desempenhará papel importante ao fornecer as
telas RGB Mini LED utilizadas pelo sistema VAR, além de milhares de outros
equipamentos de visualização instalados nos estádios.
“A
Hisense estabelece novos padrões de inovação que melhorarão diretamente a
experiência dos jogadores, árbitros e equipes”, afirmou Nick Brown, diretor de
parcerias comerciais da FIFA.
Além da
tecnologia, a gigante de laticínios Mengniu também integra o grupo de
patrocinadores oficiais, em um acordo que inclui a Copa do Mundo Feminina de
2027 e a Copa do Mundo de 2030. Para a FIFA, a parceria fortalece sua presença
no mercado chinês; para Pequim, representa mais uma demonstração de como
grandes empresas do país conquistaram espaço no centro comercial de um dos
espetáculos esportivos mais populares do planeta.
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Futebol sem bola
Essa
expansão corporativa ocorre em um país onde o futebol está muito atrás do tênis
de mesa, do basquete e até do badminton em termos de popularidade. Ainda assim,
pesquisas e estimativas não oficiais apontam que existam cerca de 200 milhões
de torcedores de futebol na China — uma população superior à de muitos países
participantes da Copa do Mundo.
Nesse
contexto, Pequim mantém uma ambição ainda maior: transformar o futebol em uma
ferramenta de projeção internacional. Em 2015, o governo lançou um plano para
converter a China em uma potência futebolística até meados do século. O
programa previa a construção de milhares de campos, reformas educacionais e o
objetivo explícito de sediar e vencer uma Copa do Mundo.
Os
resultados ficaram muito aquém dessas expectativas. A Superliga Chinesa perdeu
força após anos de investimentos bilionários e contratações de estrelas
internacionais. Diversos clubes desapareceram por dificuldades financeiras,
enquanto dirigentes, árbitros e treinadores se envolveram em escândalos de
corrupção e manipulação de resultados.
A
seleção masculina ocupa atualmente a 84ª posição no ranking da FIFA e continua
presa a um ciclo de maus resultados, frustrações e mudanças constantes. Ainda
assim, as derrotas dentro de campo não impediram que a China encontrasse outra
maneira de ocupar o centro do palco global.
Cada
bandeira pendurada em uma sacada em Buenos Aires, cada boné vendido em Boston,
cada bola utilizada em uma promoção na Cidade do México ou cada souvenir
comprado por um torcedor em Toronto provavelmente saiu de alguma fábrica de
Yiwu, Guangzhou, Xiamen ou Qingdao.
A China
continua distante de realizar o sonho futebolístico de Xi Jinping. Mas já
conquistou uma parte significativa do negócio que torna possível uma Copa do
Mundo. Sua revanche, por enquanto, não é disputada no gramado. Ela ecoa das
arquibancadas.
Fonte:
Por Alexandre Machado Rosa, em Brasil 247

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