DARK
HORSE: Religião, martírio e messianismo político na construção cinematográfica
de Jair Bolsonaro
Eu li o
roteiro de Dark Horse, assinado por Mark e Cyrus Nowrasteh. O documento,
facilmente encontrado na internet, possui 107 páginas e revela muito mais do
que uma dramatização da facada sofrida por Jair Bolsonaro durante a campanha
presidencial de 2018. O texto funciona como uma sofisticada operação simbólica
de reconstrução do bolsonarismo pela via do mito.
Rapidamente,
o roteiro abandona qualquer pretensão de neutralidade política para mergulhar
numa narrativa atravessada por elementos de martírio, providência,
transcendência e perseguição. O Bolsonaro de Dark Horse não aparece apenas como
um candidato conservador ou um líder populista de direita. Ele é
progressivamente moldado como um escolhido.
A
facada deixa de ser somente um atentado político e passa a operar como ritual
sacrificial. O corpo ferido transforma-se em linguagem religiosa. O sofrimento
converte-se em legitimidade. O sangue passa a autenticar uma missão histórica.
O filme parece empenhado em produzir uma memória messiânica de Bolsonaro: um
homem simples, perseguido pelas elites, salvo da morte e preservado por uma
espécie de desígnio superior.
Não se
trata apenas de cinema político. Trata-se da tentativa de consolidar, no
imaginário audiovisual, aquilo que parte significativa do bolsonarismo
construiu socialmente desde 2018: a imagem de um líder simultaneamente humano e
providencial, vulgar e sagrado, falho e predestinado.
Ao
longo do roteiro, religião e política deixam de funcionar como esferas
separadas. Elas se fundem numa gramática típica daquilo que o jurista alemão
Carl Schmitt chamou de teologia política: quando conceitos do sagrado passam a
organizar o poder, o conflito e a autoridade no mundo secular. Em Dark Horse,
Bolsonaro não surge apenas como representante eleitoral.
E
talvez seja justamente aí que reside o aspecto mais importante do roteiro: ele
ajuda a compreender como o bolsonarismo ultrapassou os limites tradicionais da
política institucional para operar também como experiência moral, afetiva e
quase espiritual.
Max
Weber, ao discutir os tipos de dominação legítima, observava que a autoridade
carismática emerge quando um indivíduo passa a ser percebido como portador de
qualidades extraordinárias. Não se trata necessariamente de santidade formal,
mas da crença coletiva de que aquele sujeito possui algo fora do comum. O
carisma depende menos da pessoa em si do que da adesão emocional daqueles que o
reconhecem como excepcional.
É
exatamente essa operação que o roteiro constrói.
Bolsonaro
aparece desde as primeiras páginas como alguém incompreendido pelas elites
políticas e midiáticas, mas amado pelo “povo real”. A imprensa é representada
como cínica, arrogante e persecutória. Já os apoiadores surgem emocionados,
esperançosos e espontaneamente conectados ao candidato. O contraste não é
casual. Ele reproduz uma lógica clássica do populismo religioso: a oposição
entre um establishment corrupto e um líder autêntico investido de legitimidade
popular.
Essa
estrutura lembra aquilo que Ernesto Laclau identificava como construção
discursiva do povo. O líder populista não representa simplesmente demandas
sociais. Ele encarna simbolicamente uma totalidade moral. Em Dark Horse,
Bolsonaro deixa de ser apenas um deputado radical para tornar-se metáfora da
própria redenção nacional.
O
roteiro trabalha continuamente para reforçar essa dimensão.
Ele
surge como homem simples, espontâneo, emocional, vulgar em alguns momentos, mas
sincero. Não fala como político profissional. Fala “como o povo”. Há uma
tentativa clara de humanização através da rusticidade. A grosseria aparece
quase como prova de autenticidade moral.
Essa
operação é profundamente religiosa em termos sociológicos. Pierre Bourdieu já
demonstrava que o campo religioso funciona como espaço de produção de
legitimidades simbólicas. Em sociedades marcadas por insegurança, crise e
ressentimento, figuras capazes de condensar emoções difusas tornam-se
depositárias de capital simbólico extraordinário. Bolsonaro aparece no roteiro
como esse receptáculo.
O ponto
central do roteiro é, evidentemente, a facada. Mas a forma como ela é
construída cinematograficamente merece atenção. A sequência abandona o simples
registro factual do atentado para transformá-lo em experiência sacrificial. O
corpo de Bolsonaro é elevado, carregado pela multidão, exposto sobre os ombros
dos apoiadores pouco antes do golpe. Há algo profundamente cristológico nessa
iconografia.
O
candidato é literalmente erguido pelo povo antes de ser perfurado.
A
multidão o sustenta enquanto o corpo sangra. Em seguida, ele atravessa uma
espécie de via crucis hospitalar, cercado por orações, lágrimas, rumores de
morte e discursos sobre milagre.
A
semelhança estrutural com narrativas hagiográficas é evidente.
René
Girard argumentava que sociedades frequentemente organizam suas tensões através
da construção sacrificial de vítimas. O sacrifício reorganiza simbolicamente o
caos social. Em Dark Horse, a facada reorganiza o sentido político da campanha.
Bolsonaro deixa de ser apenas candidato e torna-se sobrevivente. Mártir. Homem
marcado pela violência dos inimigos da nação.
A
própria imprensa no roteiro contribui involuntariamente para isso. Ao anunciar
erroneamente sua morte, oferece ao personagem uma espécie de ressurreição
simbólica. O candidato retorna da beira da morte mais forte politicamente do
que antes.
Essa
estrutura ecoa aquilo que Joseph Campbell identificava como “a jornada do
herói”. O personagem atravessa morte simbólica, desce ao abismo e retorna
transformado. A facada funciona como ritual iniciático.
Não é
coincidência que o roteiro enfatize repetidamente a ideia de destino.
A
personagem mais reveladora do roteiro talvez seja Dolores. Ela aparece como
figura quase sobrenatural. Surge silenciosamente, carrega uma Bíblia, prevê uma
“febre”, entrega remédios misteriosos e desaparece “como um fantasma”.
Posteriormente retorna ao hospital afirmando que Bolsonaro foi poupado “para a
nação e o mundo”.
Dolores
não pertence exatamente ao universo institucional do cristianismo evangélico ou
católico. Ela opera numa zona híbrida do imaginário religioso latino-americano:
mistura de misticismo popular, profecia, curandeirismo e religiosidade
carismática.
O mais
importante é perceber sua função narrativa. Ela legitima espiritualmente o
destino do personagem.
O
atentado deixa de ser mero acontecimento político e passa a integrar um plano
transcendente. A presença de Dolores transforma a facada em prova espiritual.
Ela atua como profetisa do sofrimento necessário.
Nesse
ponto, o roteiro aproxima Bolsonaro daquilo que Carl Schmitt chamava de
“teologia política”. Conceitos políticos modernos frequentemente funcionam como
secularizações de categorias religiosas. O soberano contemporâneo herda
atributos outrora destinados ao sagrado.
Bolsonaro
aparece como alguém preservado providencialmente. A ideia de eleição divina
atravessa todo o roteiro. A narrativa hospitalar reforça essa dimensão.
Médicos,
apoiadores e familiares falam continuamente sobre sobrevivência improvável. O
roteiro produz tensão dramática em torno da possibilidade de morte, apenas para
reafirmar repetidamente a permanência do personagem.
Há uma
insistência simbólica no retorno.
Nietzsche
observava que sociedades em crise frequentemente necessitam de figuras
redentoras. Em contextos de ressentimento coletivo, o líder passa a ocupar
espaço emocional semelhante ao do salvador religioso.
No caso
brasileiro, essa dinâmica encontra terreno fértil numa cultura política
profundamente marcada pelo cristianismo popular.
O
bolsonarismo já operava eleitoralmente através dessa gramática. O roteiro
apenas radicaliza cinematograficamente aquilo que a campanha de 2018 explorou
politicamente.
Não é
por acaso que o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” aparece no
filme quase como profissão de fé.
O
discurso político deixa de ser apenas administrativo ou ideológico. Torna-se
moral e espiritual.
Outro
aspecto importante é a construção dos antagonistas.
A
esquerda aparece constantemente associada ao caos, corrupção, degeneração moral
e destruição nacional. O roteiro simplifica radicalmente o cenário político
brasileiro numa batalha moral entre forças da ordem e forças da decadência.
Essa
estrutura se aproxima muito da lógica da guerra espiritual presente em setores
do neopentecostalismo contemporâneo.
Pesquisadores
como Ricardo Mariano, Christina Vital e Ronaldo de Almeida demonstram que parte
significativa do conservadorismo religioso brasileiro passou a interpretar a
política como campo de batalha entre Deus e forças malignas que ameaçam
família, pátria e moralidade.
Em Dark
Horse, essa cosmologia aparece traduzida para linguagem cinematográfica.
O
inimigo não é apenas adversário político. É ameaça civilizacional. Isso ajuda a
explicar por que o atentado ganha dimensão tão central. O ataque ao corpo do
líder torna-se símbolo do ataque à própria nação moral imaginada pelo
bolsonarismo.
Pierre
Bourdieu talvez ajudasse a compreender a facada como produção de capital
simbólico.
O
sofrimento corporal frequentemente legitima lideranças religiosas e políticas.
O corpo ferido autentica a narrativa do sacrifício. Mártires possuem autoridade
porque sofreram.
A
imagem do corpo hospitalizado de Bolsonaro tornou-se central na campanha de
2018 justamente porque condensava vulnerabilidade e heroísmo simultaneamente.
O
roteiro entende isso perfeitamente.
O
sangue, a cirurgia, os corredores hospitalares, os rumores de morte e as
orações funcionam como dispositivos de santificação política. O candidato passa
a carregar marcas físicas da perseguição. Seu corpo torna-se prova material da
batalha entre bem e mal construída narrativamente pelo filme.
Talvez
o aspecto mais importante seja compreender que Dark Horse não busca apenas
contar uma história. Busca organizar uma memória. Todo cinema político atua
também como disputa historiográfica.
O filme
procura estabilizar uma interpretação dos acontecimentos de 2018: Bolsonaro não
teria vencido apenas uma eleição. Teria sobrevivido a uma conspiração moral,
política e espiritual contra ele. Essa narrativa interessa profundamente ao
bolsonarismo porque reforça sua identidade de movimento perseguido.
Aqui
podemos recorrer a Maurice Halbwachs e sua noção de memória coletiva. Memórias
não são apenas lembranças individuais. São construções sociais organizadas por
grupos para dar sentido ao presente.
Dark
Horse atua exatamente nesse campo. Ele transforma a facada em mito fundador.
É
importante observar que o roteiro evita transformar Bolsonaro explicitamente em
santo. O filme preserva traços de vulgaridade, ironia e imperfeição. Isso é
estratégico.
O
bolsonarismo sempre operou através da ideia de autenticidade imperfeita.
Bolsonaro seria falho como qualquer homem comum, mas moralmente verdadeiro.
Essa
lógica lembra fortemente o conceito de “homem providencial” discutido por Raoul
Girardet. O líder salvador não precisa ser virtuoso em todos os aspectos. Basta
ser percebido como instrumento histórico necessário.
O filme
parece investir exatamente nisso.
Bolsonaro
surge como alguém escolhido não por perfeição moral, mas por missão histórica.
Essa talvez seja a principal dimensão religiosa do roteiro.
Não se
trata simplesmente de inserir Deus na narrativa política. Trata-se de construir
Bolsonaro como personagem providencial dentro de uma cosmologia moral de
redenção nacional.
Por
fim, Dark Horse revela como o bolsonarismo ultrapassa os limites tradicionais
da política institucional e se aproxima cada vez mais de formas de
religiosidade política.
A
facada deixa de ser apenas um atentado e transforma-se em paixão sacrificial. O
candidato deixa de ser apenas líder populista e torna-se sobrevivente
providencial. O corpo ferido converte-se em símbolo nacional.
O
roteiro trabalha cuidadosamente para fundir política, transcendência e destino.
Nesse
sentido, talvez o aspecto mais relevante do filme não seja sua fidelidade
histórica, mas sua capacidade de traduzir cinematograficamente aquilo que o
bolsonarismo representou para parte significativa da sociedade brasileira: não
apenas uma preferência eleitoral, mas uma experiência emocional, moral e quase
espiritual de pertencimento.
O
Bolsonaro de Dark Horse não é simplesmente um político.
É um
homem atravessado pelo mito.
Fonte:
Por Marcio Ferreira, no Le Monde

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