Claude
Mythos: O que é o novo modelo de inteligência artificial que assusta o sistema
financeiro
Nas
últimas semanas, o mundo da inteligência artificial tem andado em polvorosa
após alegações feitas pela empresa líder Anthropic sobre seu novo modelo,
Claude Mythos.
A
empresa afirma ter descoberto que a ferramenta pode superar humanos em algumas
tarefas de hacking e segurança cibernética — o que levou reguladores,
parlamentares e instituições financeiras a discutirem os perigos que ela
poderia representar para serviços digitais.
Várias
gigantes da tecnologia receberam acesso ao Mythos por meio de uma iniciativa
chamada Project Glasswing, concebida para reforçar a resiliência contra o
próprio Mythos.
A
Anthropic anunciou esta semana que vai estender o acesso ao Mythos para outras
150 instituições em setores diversos, como energia, água, saúde, comunicações e
equipamentos. Novos parceiros precisarão atender a requisitos de segurança
antes de obterem acesso ao modelo.
Alguns
analistas ainda são mais céticos sobre a capacidade do Mythos e dizem que é do
interesse da Anthropic sugerir que ela possui uma ferramenta com habilidades
nunca antes vistas.
O tema
também causou medo no sistema financeiro e chegou a ser abordado em reunião do
FMI em Washington envolvendo autoridades internacionais.
Na
prática — como costuma acontecer com a IA — a tarefa de distinguir entre fatos
e exageros é complicada.
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O que é o Claude Mythos?
O
Mythos é um dos modelos mais recentes da Anthropic, desenvolvido como parte de
seu sistema de IA mais amplo chamado Claude. Ele engloba o assistente de IA e a
família de modelos da empresa, rivalizando com o ChatGPT da OpenAI e o Gemini
do Google.
Ele foi
apresentado pela Anthropic no início de abril como "Mythos Preview".
Pesquisadores
que testam como modelos de IA lidam com solicitações ou tarefas específicas,
conhecidos como "red teams", disseram em um relatório que o Mythos
era "incrivelmente capaz em tarefas de segurança de computadores".
Eles
descobriram que a ferramenta poderia localizar bugs inativos escondidos em
códigos de décadas atrás e explorá-los com facilidade.
Em vez
de disponibilizá-lo amplamente aos utilizadores do Claude, a Anthropic concedeu
acesso a 12 empresas de tecnologia por meio do Project Glasswing, que descreveu
como "um esforço para proteger sistemas essenciais de software".
Entre
elas estão a gigante de computação em nuvem Amazon Web Services, os fabricantes
de dispositivos Apple, Microsoft e Google, e os fabricantes de chips Nvidia e
Broadcom.
A
Crowdstrike, cuja atualização defeituosa de software causou uma grande
interrupção global em julho de 2024, também está entre os parceiros do projeto,
e a Anthropic afirma ter concedido acesso ao Mythos a mais de 40 organizações
responsáveis por softwares considerados críticos.
Em um
vídeo divulgado junto com o lançamento do Project Glasswing, o chefe da
Anthropic, Dario Amodei, disse que a empresa se ofereceu para trabalhar com
funcionários do governo dos EUA a fim de "ajudar a se defender contra o
risco desses modelos".
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Por que existem preocupações?
A
Anthropic afirma que, durante os testes, descobriu que o modelo é altamente
habilidoso em tarefas de segurança cibernética e hacking, superando humanos.
"O
Mythos Preview já encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade,
incluindo algumas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores
web", afirmou a Anthropic em 7 de abril.
"Dada
a velocidade do progresso da IA, não demorará muito para que tais capacidades
se disseminem, potencialmente além de agentes comprometidos com seu uso
seguro."
A
empresa disse que ele poderia localizar — com pouca supervisão — falhas
críticas que exigem ação imediata em sistemas antigos, incluindo uma
vulnerabilidade que esteve presente em um sistema por 27 anos, e sugerir
maneiras de explorá-las.
Desde
então, alguns ministros das finanças, banqueiros centrais e executivos do setor
financeiro expressaram sérias preocupações, temendo que o modelo possa
comprometer a segurança dos sistemas financeiros.
O
ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, disse à BBC que o
Mythos foi discutido em uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em
Washington em abril.
"Certamente
é sério o suficiente para merecer a atenção de todos os ministros das
Finanças", disse ele.
O
diretor do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, disse à BBC: "Temos de
analisar com muito cuidado agora o que esse desenvolvimento recente da IA pode
significar para o risco de crime cibernético."
A União
Europeia disse que também está em discussões com a Anthropic sobre suas
preocupações relacionadas ao Mythos. Em maio, o bloco europeu recebeu acesso à
ferramenta.
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O que dizem os especialistas cibernéticos?
Ciaran
Martin, ex-chefe do Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido,
disse à BBC no início desta semana que a alegação de que o Mythos poderia
descobrir vulnerabilidades críticas muito mais rapidamente do que outros
modelos de IA "realmente abalou as pessoas".
"A
segunda questão é que, mesmo com vulnerabilidades existentes que conhecemos,
mas contra as quais as organizações podem não ter aplicado correções ou podem
não estar bem defendidas, ele é simplesmente um hacker muito bom", disse
ele.
Muitos
analistas independentes e especialistas em segurança cibernética ainda não
puderam testar o Mythos por conta própria, e alguns permanecem céticos quanto
ao seu desempenho.
O
Instituto de Segurança em IA do Reino Unido concluiu recentemente que, embora
se trate de um modelo muito poderoso, sua maior ameaça seria contra sistemas
mal protegidos e vulneráveis.
"Não
podemos afirmar com certeza se o Mythos Preview seria capaz de atacar sistemas
bem protegidos", disseram seus pesquisadores.
Para
eles, onde há boas práticas de cibersegurança, esse modelo, em teoria, seria
contido.
A
italiana Valentina Palmiotti — mais conhecida como Chompie — participa de
torneios internacionais de hacking ético, em que competidores ganham dinheiro
encontrando vulnerabilidades em sistemas de segurança antes que elas possam ser
exploradas por cibercriminosos.
Ela
disse à BBC que seus dias de competição podem estar contados devido à ascensão
de ferramentas de IA como o Claude Mythos.
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Devemos nos preocupar?
Os
medos relacionados à IA não são novidade.
Novos
modelos e ferramentas estão surgindo o tempo todo e geralmente são acompanhados
por promessas de revolucionar nossas vidas — para melhor ou para pior.
Aproveitar
essa mistura de medo e entusiasmo sobre a IA e seu impacto futuro também se
tornou uma marca registrada do setor e de suas estratégias de marketing nos
últimos anos.
No caso
da Mythos, ainda não sabemos o suficiente para entender se essas esperanças ou
temores são justificados, ou mais um reflexo do entusiasmo que cerca o setor.
Em
ambos os casos, de acordo com o National Cyber Security Centre, órgão britânico
de cibersegurança, a coisa mais importante que podemos fazer agora é não entrar
em pânico e, em vez disso, focar na necessidade de corrigir a segurança
cibernética básica.
Afinal,
a maioria dos hackers não precisa de ferramentas de superinteligência
artificial para violar sistemas — ataques muito mais simples geralmente são
suficientes.
"Para
alguns, esse é um evento apocalíptico, para outros, parece muito exagero",
disse Martin à BBC.
Mas ele
afirmou que, seja esta ferramenta ou outras subsequentes desenvolvidas pela
Anthropic ou por concorrentes, além dos riscos existe uma oportunidade de
construir um mundo online mais seguro.
"No
médio prazo, há uma oportunidade de usar essas ferramentas para corrigir muitas
das vulnerabilidades subjacentes da internet", afirmou.
No
final de abril, a Anthropic anunciou que estava investigando uma denúncia de
que um pequeno grupo de pessoas obteve acesso ao Claude Mythos.
"Estamos
investigando uma denúncia de acesso não autorizado ao Claude Mythos Preview por
meio de um de nossos ambientes de fornecedores terceirizados", afirmou a
empresa em comunicado.
A
declaração foi uma resposta a uma reportagem da Bloomberg, que revelou que
usuários em um fórum privado conseguiram acessar o modelo sem as permissões
necessárias.
• Nova IA revela a fragilidade do dinheiro
nas mãos das Big Techs
Claude
Mythos Preview, modelo de inteligência artificial da empresa estadunidense
Anthropic ainda mantido em acesso restrito, abriu uma nova frente de alerta
sobre o sistema financeiro global. Segundo a própria companhia, a ferramenta é
capaz de encontrar e explorar falhas críticas em softwares usados por
infraestruturas essenciais. O risco não está apenas na ação de criminosos
digitais, mas na dependência de bancos, governos e serviços cotidianos de
tecnologias controladas por poucas Big Techs estrangeiras.
A
Anthropic apresentou o modelo dentro do Project Glasswing, iniciativa que reúne
gigantes como Amazon Web Services, Apple, Cisco, Google, JPMorgan Chase,
Microsoft, Nvidia e Palo Alto Networks. A empresa afirma que o Claude Mythos
Preview já encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade, inclusive
em grandes sistemas operacionais e navegadores.
Em uma
atualização sobre o projeto, a companhia disse que cerca de 50 parceiros
identificaram mais de 10 mil vulnerabilidades de alta ou crítica gravidade com
o apoio do modelo. A Anthropic também informou que varreduras em mais de mil
projetos de código aberto apontaram 6.202 falhas estimadas como graves ou
críticas.
Os
números são expressivos, mas precisam ser lidos com cautela. A principal fonte
pública sobre o desempenho do Claude Mythos Preview é a própria empresa que
desenvolveu a tecnologia. Não há, até o momento, uma auditoria independente
amplamente divulgada que permita separar com precisão o avanço técnico real da
estratégia de mercado em torno do produto.
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Claude Mythos muda o centro da ameaça
O caso
desmonta uma visão limitada sobre segurança digital. A ameaça não é apenas o
hacker isolado diante de uma tela. O novo problema é estrutural: modelos
avançados de IA podem acelerar a descoberta de brechas em escala industrial,
enquanto a correção dessas falhas continua dependendo de equipes humanas,
prazos de atualização, orçamento e capacidade técnica.
Essa
diferença de velocidade cria uma assimetria perigosa. A IA pode encontrar uma
falha em minutos. A sociedade pode levar dias, semanas ou meses para corrigir
seus efeitos. Em sistemas financeiros, esse intervalo pode significar
aplicativos fora do ar, pagamentos bloqueados, golpes em massa, vazamento de
dados e perda de acesso ao dinheiro por trabalhadores, aposentados e pequenos
comerciantes.
É por
isso que o debate não pode ficar restrito a especialistas de tecnologia. Quando
uma falha digital ameaça bancos, pagamentos, crédito, serviços públicos e dados
pessoais, o tema passa a ser de segurança pública, defesa econômica e proteção
social.
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O dinheiro da população depende de infraestrutura privada
O Fundo
Monetário Internacional alertou que ferramentas de inteligência artificial
podem ampliar ataques cibernéticos e afetar a estabilidade financeira. Segundo
o FMI, modelos como o Claude Mythos mudam a equação do risco porque operam em
velocidade de máquina e podem tornar mais barata a identificação e exploração
de vulnerabilidades.
O
alerta é grave porque o sistema financeiro moderno é construído sobre camadas
compartilhadas de software. Bancos, fintechs, seguradoras, empresas de
pagamento e governos usam provedores de nuvem, bibliotecas de código aberto,
sistemas operacionais e plataformas que se repetem em diferentes países.
Quando
uma dessas camadas falha, o impacto pode se espalhar. O problema deixa de ser
uma instabilidade técnica em uma empresa e vira risco para a vida concreta de
milhões de pessoas. Para quem depende do salário do mês, de um benefício
social, de uma transferência bancária ou de crédito para manter um pequeno
negócio, a segurança digital não é abstração. É sobrevivência econômica.
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Big Techs passam a controlar também a defesa
A
Anthropic afirma que não pretende liberar o Claude Mythos Preview ao público
neste momento porque ainda não há salvaguardas suficientes para impedir mau uso
grave. A justificativa revela o tamanho do impasse. A mesma tecnologia capaz de
ajudar defensores a corrigir falhas também pode ser usada para encontrar
brechas antes deles.
O
problema político está em quem decide os limites dessa tecnologia. Hoje, o
acesso aos modelos mais avançados, aos servidores, às nuvens e às ferramentas
de defesa digital é controlado por um grupo restrito de corporações privadas.
Essas empresas não apenas vendem infraestrutura para o sistema financeiro. Elas
passam a definir quem pode acessar a inteligência artificial capaz de proteger,
mapear ou ameaçar essa infraestrutura.
Essa
concentração transforma segurança digital em poder econômico. Países, bancos
menores, órgãos públicos e comunidades de software livre ficam em posição
desigual diante de empresas que controlam a infraestrutura e, ao mesmo tempo,
oferecem a solução para os riscos criados nesse ambiente.
O
Conselho de Estabilidade Financeira, órgão internacional que reúne autoridades
financeiras, discutiu em junho novas vulnerabilidades do sistema global e
práticas para adoção de IA por instituições financeiras. A pauta mostra que a
inteligência artificial deixou de ser promessa de produtividade e passou a
ocupar o centro da estabilidade econômica.
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Brasil precisa tratar IA como soberania
No
Brasil, o caso dá novo peso à discussão sobre o PL 2338/2023, que trata da
regulação da inteligência artificial. A proposta foi aprovada no Senado e está
em análise na Câmara dos Deputados, onde tramita em comissão especial.
A
regulação brasileira não pode olhar apenas para inovação, uso de dados, redes
sociais ou direitos autorais. O avanço de modelos como o Claude Mythos mostra
que a IA também toca a proteção de bancos, pagamentos, energia,
telecomunicações, serviços públicos e infraestrutura digital crítica.
Um país
que depende de nuvens estrangeiras, softwares fechados e modelos de
inteligência artificial controlados fora de seu território também depende das
prioridades comerciais, jurídicas e geopolíticas dessas empresas. A soberania
tecnológica, nesse cenário, deixa de ser discurso abstrato e passa a ser uma
condição para proteger o dinheiro, os dados e os serviços essenciais da
população.
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A pergunta é quem manda na tecnologia
O
Claude Mythos Preview pode ser uma ferramenta relevante para defesa
cibernética. Também pode ser o sinal de uma nova vulnerabilidade social: a
transferência de decisões estratégicas sobre segurança econômica para empresas
privadas estrangeiras.
Sem
transparência, auditoria independente, regulação pública e capacidade
tecnológica nacional, a promessa de proteção pode virar mais uma camada de
dependência. O Estado não pode abrir mão de controlar tecnologias capazes de
afetar bancos, pagamentos e dados de milhões de pessoas.
A
questão central, portanto, não é apenas se a nova IA assusta o sistema
financeiro. A questão é por que sistemas tão essenciais à vida cotidiana foram
colocados em uma posição na qual sua segurança depende de decisões tomadas por
poucas Big Techs, longe do controle democrático da sociedade.
Fonte:
BBC World Service/Fórum

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