Como
Trump tenta influenciar eleições em outros países — e por que seu apoio nem
sempre tem o resultado esperado
Quando
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio
"completo e total" ao candidato da direita na eleição presidencial colombiana, no fim de maio, ele
estava repetindo um gesto raro entre seus antecessores, mas cada vez mais comum
neste segundo mandato.
O
candidato, Abelardo De La Espriella, disputará o
segundo turno com Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico, o mesmo do
presidente Gustavo Petro. Em sua rede social, Truth Social, Trump parabenizou
De la Espriella, a quem chamou pelo apelido de "El Tigre", pela
vitória no primeiro turno.
"Abelardo
enfrentará um marxista de esquerda radical no segundo turno em 21 de
junho", acrescentou, referindo-se a Cepeda. "Os resultados desta
eleição são de extrema importância para o futuro da Colômbia e para suas
relações com os Estados Unidos."
De La
Espriella agradeceu Trump pelo "apoio decisivo". Cepeda, por sua vez,
denunciou o que descreveu como "tom intervencionista" e exigiu
respeito à soberania da Colômbia.
A
Colômbia é apenas o exemplo mais recente em que Trump tenta influenciar o
resultado de um pleito ao manifestar preferência por determinado candidato ou
partido. Também fazem parte dessa lista crescente países como Argentina,
Honduras, Hungria e Japão, entre vários outros.
Embora,
historicamente, os Estados Unidos tenham interferido em eleições de diversos
países no passado, a maneira como isso tem sido feito pelo governo Trump tem
chamado a atenção.
"Geralmente
era feito de maneira velada, não costumava ser explícito por parte dos
presidentes", diz à BBC News Brasil o professor de História Mikael Wolfe,
da Universidade Stanford, na Califórnia.
"Era
raro um presidente, antes de Trump, intervir diretamente em uma eleição em
andamento e de forma tão pública", afirma Wolfe. "Trump rompeu com o
modus operandi."
Em vez
de operações secretas da CIA, a agência de inteligência americana, como
documentado durante a Guerra Fria, ou de manifestações sutis da diplomacia em
defesa de eleições justas e transparentes, Trump recorre às redes sociais para
pedir votos abertamente, às vezes com ameaças, para candidatos alinhados
ideologicamente.
O
presidente americano, que iniciou o segundo mandato com uma retórica de
não-intervencionismo, também se destaca pela escala de seu envolvimento em
assuntos domésticos de outros países.
"Neste
momento, o governo Trump adota uma postura de buscar de alguma forma
influenciar todas as eleições que ele acompanha", diz à BBC News Brasil o
cientista político Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do
Carnegie Endowment for International Peace.
"Na
América Latina, o que se vê é que algum tipo de opinião ou de tentativa de
influenciar virou regra", observa. "A exceção agora é o governo
americano não fazer isso."
Stuenkel
lembra que, às vésperas do segundo turno nas eleições presidenciais peruanas,
no domingo (7/6), muitos se perguntavam por que Trump ainda não havia declarado apoio à
candidata da direita, Keiko Fujimori.
Nesse
contexto, crescem no Brasil discussões sobre a possibilidade de que os Estados
Unidos tentem interferir nas eleições presidenciais de outubro.
A
percepção de tentativa de interferência foi reforçada nas últimas semanas, com
a decisão do governo americano de
classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando
Vermelho (CV) como organizações terroristas e com ameaças de novas tarifas
contra produtos brasileiros.
Essas
medidas foram anunciadas poucos dias após uma visita a Washington do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à
Presidência e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump.
Vinte
dias antes, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deverá buscar a
reeleição em outubro, havia sido recebido por Trump na Casa Branca, em mais um
sinal de aproximação após meses de tensão entre os dois países no ano passado.
Diante
desse cenário, há no Brasil a expextativa de que, com ou sem tentativa de
interferência americana, temas ligados à política externa e às relações entre
Brasília e Washington devem ganhar relevância na campanha.
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O impacto do apoio de Trump
Mesmo
que Trump busque influenciar a eleição brasileira, é difícil medir o possível
impacto. Em alguns países, os candidatos apoiados por ele saíram vitoriosos.
Nas eleições legislativas da Argentina, em outubro do ano
passado, Trump foi além da mera manifestação pública de apoio, e sugeriu que o
auxílio financeiro ao país dependia da vitória da coalizão do presidente Javier Milei, seu aliado.
"Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina", disse o
americano.
A
coalizão de Milei conquistou uma vitória clara no pleito, que foi comemorada
por Trump em sua rede social: "GRANDE VITÓRIA na Argentina para Javier
Milei, um candidato maravilhoso apoiado por Trump!"
Um mês
depois foi a vez de Trump se manifestar sobre a eleição presidencial de
Honduras, declarando apoio ao conservador Nasry Asfura em várias postagens e
insinuando que, caso o candidato fosse derrotado, os Estados Unidos não
continuariam a destinar recursos ao país.
Após a
votação, em meio a um longo processo de contagem de votos, Trump postou, sem
oferecer provas, que autoridades eleitorais estavam tentando "mudar os
resultados" do pleito. Asfura acabou
sendo eleito por pequena margem.
Pouco
antes das eleições legislativas do Japão, em fevereiro, Trump postou mensagem
de apoio à coalizão da primeira-ministra Sanae Takaichi, que acabou conquistando uma vitória
considerada histórica.
"Como
presidente dos Estados Unidos da América, é minha Honra conceder o meu Apoio
Completo e Total a ela e ao que a sua altamente respeitada coalizão está
representando", postou Trump antes do pleito.
No ano
passado, em visita à Polônia, a então secretária de Segurança Interna
americana, Kristi Noem, pediu abertamente aos poloneses que votassem no
candidato conservador, Karol Nawrocki, que acabou eleito presidente.
No
entanto, se nesses casos os candidatos apoiados pelo governo Trump saíram
vitoriosos, em outros países a interferência americana parece não ter ajudado,
ou até mesmo atrapalhado, aparentemente favorecendo partidos opostos à agenda
de direita.
Durante
as eleições parlamentares da Hungria, em abril deste ano, Trump manifestou
diversas vezes apoio ao então primeiro-ministro, Viktor Orbán, seu aliado
próximo.
"Hungria:
SAIAM ÀS RUAS E VOTEM EM VIKTOR ORBÁN", escreveu Trump em uma das várias
postagens na Truth Social. "Ele é um verdadeiro amigo, um lutador e um
VENCEDOR, e tem o meu Apoio Completo e Total para a sua Reeleição como
Primeiro-Ministro da Hungria."
O vice
americano, JD Vance, chegou a visitar Budapeste poucos dias antes da votação,
para demonstrar o apoio do governo americano à campanha de Orbán. Apesar desses esforços, Orbán acabou
derrotado por Péter Magyar.
No
Canadá, a interferência americana acabou
prejudicando o candidato conservador nas eleições do ano passado.
Em vez de apoio explícito, a influência de Trump se deu principalmente por meio
de tarifas e provocações, ao insistir que o Canadá deveria ser anexado como o
51º Estado americano.
Essas
declarações acabaram despertando uma onda de orgulho nacional no Canadá. O
Partido Conservador, de Pierre Poilievre, à frente nas pesquisas até a reta
final, foi derrotado pelo Partido Liberal, do primeiro-ministro Mark Carney.
"Quando
um país é muito dependente e não possui nenhuma capacidade de resistir a esse
tipo de interferência, como é o caso de Honduras, acho que o eleitor sabe que
uma boa relação com os Estados Unidos é fundamental para o bem-estar do
país", diz Stuenkel.
"Em
países menos expostos, onde a tentativa de influenciar é vista como uma
interferência indevida, há um risco de isso virar algo contraproducente",
afirma .
"[No
Canadá], as ameaças criaram um problema para o candidato pró-Trump, que virou
alvo de críticas. Nesse caso, as ameaças de Trump decidiram a eleição, deram a
vitória a Mark Carney", salienta Stuenkel.
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O que esperar nas eleições no Brasil
No caso
do Brasil, um país que não tem tanta dependência dos Estados Unidos, tentativas
anteriores de interferência de Trump parecem não ter surtido o efeito desejado.
No ano
passado, o governo Trump adotou uma série de medidas em resposta ao que descreveu como
"perseguição" sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. As medidas
incluíram tarifas sobre produtos brasileiros e sanções a autoridades, como
restrições financeiras ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre
de Moraes.
Mas a
pressão americana não ajudou Bolsonaro, que em setembro foi condenado pelo STF a 27 anos e
três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder a eleição
de 2022.
"Toda
vez que Trump meio que intervém, posta algo em suas redes, seja para favorecer
Bolsonaro ou para tentar punir Lula de alguma forma, por meio de tarifas ou
outros meios, isso parece reverter em benefício do próprio Lula", observa
Wolfe.
Em
reação às medidas americanas, o presidente Lula adotou uma postura de defesa da
soberania nacional que, segundo pesquisas, parece ter aumentado seu apoio.
"As
tarifas no ano passado produziram uma reação entre as elites empresariais em
São Paulo, e no país como um todo", diz à BBC News Brasil o cientista
político Will Freeman, pesquisador do Council on Foreign Relations. "Eles
acreditaram em Lula quando Lula disse que isso era um comportamento
traidor."
Stuenkel
lembra que a questão da soberania é algo muito enraizado no Brasil, o que torna
mais difíceis tentativas de influenciar as eleições vindas de fora.
Em
2018, quando Jair Bolsonaro venceu a eleição, ele foi apelidado por muitos como
"o Trump dos trópicos", devido à sua afinidade com o presidente
americano, que estava na época em seu primeiro mandato.
No
entanto, naquela eleição o governo americano manteve a neutralidade diplomática
padrão, e foi somente após a vitória de Bolsonaro que Trump se manifestou
oficialmente, parabenizando o brasileiro.
No
pleito de 2022, quando estava fora da Casa Branca, Trump apoiou abertamente
Bolsonaro e pediu que os brasileiros votassem nele, mas a disputa foi vencida
por Lula.
Naquela
eleição, também houve relatos de que o governo do então presidente americano
Joe Biden teria feito uma "campanha de pressão silenciosa" para
instar líderes políticos e militares do Brasil a respeitar a democracia
brasileira.
O
governo americano estaria preocupado com a possibilidade de uma crise
institucional no Brasil, em meio a alegações de fraude nas urnas feitas por
Bolsonaro. As ações dos Estados Unidos foram criticadas por alguns como
intromissão nas eleições brasileiras.
"Acho
que a forma como os democratas (do partido de Biden) viam é que o processo
estava em risco, e que eles estavam defendendo o processo, não um candidato ou
outro", diz Freeman.
"Os
conservadores olharam para isso e disseram 'vocês podem dizer que estavam
defendendo o processo, mas o que fizeram beneficiou a centro-esquerda, ou
esquerda, ou como queiram chamar'", observa.
"Então,
acho que há um debate aí. Mas, para mim, a diferença clara é que os democratas
e Biden foram muito cuidadosos em justificar publicamente suas políticas como
orientadas pelo processo, para garantir que o processo fosse respeitado,
independentemente de quem ganhasse", afirma Freeman.
"Enquanto
Trump nem se dá ao trabalho de fazer isso. Acho que ele não se importa se
alguém o acusar de intervir a favor de um candidato, ele está obviamente
fazendo exatamente isso", destaca.
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Interesses americanos e 'queda de braço'
Trump
não é o primeiro presidente americano a tomar partido em eleições. Alguns anos
atrás, um levantamento do cientista político americano Dov Levin encontrou mais
de 80 episódios nos quais os Estados Unidos interferiram em eleições
estrangeiras no período entre 1946 e 2000.
Mas
quando se buscam exemplos de apoio feito de maneira tão aberta, são raros os
casos citados. Wolfe, da Universidade Stanford, menciona a eleição presidencial
na Nicarágua em 1990, disputada pelos sandinistas e pela oposição, que era
apoiada pelos Estados Unidos.
"(O
presidente americano na época) George H. W. Bush (1989-1993) deixou claro que,
se os sandinistas vencessem, a guerra dos Contras (contra o governo) na
Nicarágua e as sanções comerciais continuariam", diz Wolfe. "Foi uma
interferência explícita, e a oposição acabou vitoriosa."
Outro
exemplo comumente citado é de Bill Clinton (1993-2001), cujo governo, temendo a
volta do comunismo na Rússia, forneceu ajuda política, financeira e diplomática
ao presidente russo Boris Yeltsin, na década de 1990.
"Mas
não foi algo tão explícito, não foi Bill Clinton escrevendo uma carta ao povo
russo", observa Stuenkel. "Agora é completamente aberto e inclusive
chega a atrapalhar outras estratégias chave dos Estados Unidos."
Uma das
diferenças frequentemente apontadas entre a postura do governo Trump e a de
seus antecessores é em relação às motivações ao buscar interferir em outros
países. Antes, os objetivos costumavam ser estratégicos, para avançar
interesses americanos.
"Trump
parece mais preocupado com a lealdade declarada desses líderes do que com suas
posições em questões como Estados Unidos versus China", diz Freeman.
"Está apoiando pessoas apenas por serem de direita, mesmo que não estejam
trazendo grandes resultados nas prioridades geopolíticas dos Estados
Unidos."
Freeman
ressalva que, no caso da América Latina, há a questão dos cartéis de drogas,
importante para o governo Trump. "Acho que veem a eleição desses líderes
de direita como parte de um plano para alinhar os países do hemisfério em uma
abordagem militarizada contra os cartéis."
No
entanto, além de quebrar normas diplomáticas, apoiar publicamente determinado
candidato no exterior pode prejudicar as relações bilaterais, que passam a ser
baseadas em afinidades entre líderes individuais em vez interesses
compartilhados entre os países. Além disso, há o risco de o candidato
favorecido perder.
"Esse
intervencionismo partidário introduz uma instabilidade na relação
bilateral", observa Stuenkel. "Ou você estabelece relações sólidas
pra tentar conter a China (na América Latina, como defende um grupo dentro do
governo), ou você quer apoiar governos de direita, e isso inevitavelmente
produz uma fricção com governos de esquerda."
No caso
das relações com o Brasil, há dois grupos no governo americano que disputam a
atenção de Trump: um mais pragmático e outro mais ideológico e alinhado à
direita. Essa ala ideológica é liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio,
que recentemente descreveu o Brasil como um país que não é amigável aos
interesses americanos.
"Há
uma verdadeira queda de braço em relação ao Brasil", salienta Freeman.
"São apenas algumas poucas pessoas profundamente interessadas nesse
assunto, e elas estão puxando Trump para uma direção ou outra, um dia após o
outro."
"Esses
lobbies específicos, é interessante como isso virou uma espécie de alavanca
para direcionar a política da Casa Branca para a América Latina, e como pode
ser usado em eleições futuras", diz Freeman. "Não é apenas Trump
fazendo isso por preferência pessoal, porque acorda pensando e se importando
com a Colômbia ou algo do tipo."
Para
Stuenkel, a postura explícita de Trump ao apoiar candidatos ao redor do mundo
faz parte também de uma erosão mais abrangente das normas segundo as quais um
presidente não se intrometia em eleições de outros países.
"Tem
a ver, em parte, com uma maior articulação, sobretudo da direita, no âmbito
internacional. Há uma rede muito coesa, uma maior interlocução em todas as
áreas, seja de comunicação, construção de narrativa", afirma Stuenkel.
"Trump
é um símbolo disso. Mas acho que esse é um fenômeno que veio pra ficar e que
vai além dele."
Fonte:
BBC News Brasil

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