Juvêncio
– o último preso político da ditadura brasileira
Você já
ouvir alguma coisa a respeito da vida do “último preso político da ditadura
militar brasileira”? O gaúcho radicado na fronteira Oeste paranaense, Juvêncio
Mazzarollo (1944-2014), foi preso pelo regime militar a partir da publicação de
um texto no jornal semanário Nosso Tempo, de Foz do Iguaçu, veiculado em março
de 1981.
E, foi
assim que, em 27 de setembro de 1982, Juvêncio foi condenado por uma ‘corte
militar’ em Curitiba, onde já foi preso e encaminhado à penitenciária de
Piraquara, na região metropolitana da capital paranaense. Os outros dois sócios
do Nosso Tempo – João Adelino de Souza e Aluízio Ferreira Palmar – foram
absolvidos, pois o texto que baseou a condenação era assinado pelo ex-professor
Juvêncio Mazzarollo. O jornalista foi julgado, condenado e preso pela ditadura
militar sob acusação de “propaganda subversiva”, enquadrado no artigo 42 da
famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN), criada pela própria ditadura. No
complexo Piraquara, o jornalista foi logo encaminhado ao setor de Segurança
máxima, onde ficavam os presos políticos e criminosos condenados por crimes
comuns.
É
oportuno lembrar que a Lei de Segurança Nacional voltou à pauta no Brasil em
meados do ano 2020, quando o então presidente volta e meia alegava que
manifestantes, principalmente de movimentos sociais, deveriam ser enquadrados
pela famigerada legislação que orientou a ditadura militar no País. A imprensa,
via de regra, repercutia, como se fosse algo aceitável ou a pretexto de
contextualizar os desmandos herdados pelo regime golpista.
Na
versão que “define os crimes contra a Segurança Nacional, estabelece
sistemática para o processo e julgamento e dá outras providências”, a Lei
referência (Nº 6.620) é de 17 de dezembro de 1978, amparado pelo Código Penal
Militar, feito por Decreto-Lei nº. 1.001, de 21 de outubro de 1969. E foi com
tal normativa que Juvêncio foi condenado e preso pelos militares. Pouco depois,
em 14 de dezembro de 1983, a lei de segurança foi atualizada, inclusive por
pressão de diversos setores da população que já não aguentavam tanto desmando e
violência, pela Lei nº. 7.170.
Juvêncio
Mazzarollo ficou em Piraquara em uma cela especial (por ter formação
universitária) até fevereiro de 1983, quando foi transferido ao Batalhão da
Guarda da Prisão Provisória (o conhecido Presídio do Ahú), em Curitiba. Alguns
meses depois, em 08/08/1983, também por pressão da de entidades sociais,
sindicais e religiosas, Juvêncio foi transferido para uma cela no quartel do
Corpo de Bombeiros, localizado no bairro Portão, onde ficou preso até 8 de
abril de 1984, quando conseguiu sair, depois de incontáveis campanhas com apoio
nacional e internacional de solidariedade.
E o que
falar de Juvêncio Mazzarollo, antes e depois, de uma longa e injusta prisão
política? O autor já tinha publicado um livro que não passou batido aos olhos
dos censores do regime. O livro A taipa da injustiça (1980) conta a história de
alguns impactos (sociais, econômicos e ambientais) da construção da usina de
Itaipu no Oeste Paranaense. Estima-se que, só no lado brasileiro, cerca de 40
mil pessoas foram retiradas de suas terras para viabilizar a construção da
hidrelétrica, com 8,2 mil desapropriações, a maioria de pequenos agricultores.
Foi com
esse povo, diretamente atingido pelo projeto dos militares, que Juvêncio
Mazzarollo trabalhou entre 1977 e 1979, orientando e ajudando na organização
popular em busca de reconhecimento e pagamento de um valor justo às famílias
desapropriadas. A partir de 1980, Juvêncio Mazzarollo acompanha os movimentos
de agricultores como repórter do jornal Nosso Tempo, onde também era sócio.
O
jornalista Aluízio Palmar retorna a Foz do Iguaçu em 1979, com a anistia
política aos perseguidos pela ditadura e foi recebido pelo fotógrafo João
Adelino, que trabalhava no Hoje Foz, desde 1977, recebeu Aluízio na chegada à
cidade, depois de peregrinar por diversos países, fugindo de regimes
ditatoriais (Chile, Argentina, Brasil).
Lançado
em 3 de dezembro de 1980, o semanário Nosso Tempo teve um papel importante nas
lutas democráticas ao final da ditadura, não apenas no Oeste, mas em todo o
Estado, pois pautou problemas sociais e demandas populares que, até então,
tinham espaço limitado na mídia regional. A edição era escrita e editada pelos
próprios jornalistas/sócios, que faziam todas as atividades no jornal.
“O
jornalismo engajado, analítico e critico não é facilmente digerido pelos
privilegiados que não aceitam perturbações a seu comodismo. Nem sempre o
remédio mais eficaz é o que mais agrada ao paladar do doente. O Nosso tempo
estará sempre em busca do remédio eficaz, tenha o sabor ou o dissabor que
tiver”, destaca o editorial da primeira edição do NT, em 3/12/1980. E foi esse
o tom editorial que o projeto manteve ao longo de quase uma década de
existência, o que resultou em ataques, perseguições, ameaças, processo e a
prisão de um dos profissionais responsáveis pelo Nosso tempo.
E quem
teve a ideia e iniciativa de contar a história do último preso político do
regime militar? Foi a jornalista e professora Daniela Neves quem teve a ideia,
inclusive recuperando algumas memórias autorais, quando ela própria ia com os
pais visitar o então preso político Juvêncio Mazzarollo no qualquer do Corpo de
Bombeiros, no bairro Portão, em Curitiba.
O livro
é também uma justa homenagem à dedicação de apoio e lutas solidárias que os
pais da autora travaram – e ainda hoje travam – ao longo da vida em defesa da
dignidade, direitos humanos, cidadania e, em especial, pela educação pública:
Eliana e Lafaiete Neves.
Por
ironia do destino, a primeira vez que ouvi a história foi de um ex-presidente
da Federação Nacional dos Jornalistas (Sérgio Murillo), em meados dos anos
1990, recém-chegando ao Paraná para trabalho. Uma história contada pelo então
colega de projeto, trabalho e sonhos com um jornalismo independente: o também
preso político Aluízio Palmar.
Juvêncio
Mazarollo esteve no curso de Jornalismo da UEPG, em Ponta Grossa, em outubro de
2001, para uma palestra na X Semana de Comunicação, evento do calendário anual
mantido por estudantes e professores. Já Aluízio esteve em diversas ocasiões,
também sempre prestigiando eventos locais na UEPG, para lançamentos de livros,
conversas e entrevistas em eventos para descomemorar a série de golpes contra a
democracia.
A
pergunta aqui é intencional: sim, Juvêncio Mazzarollo foi preso por ousar fazer
um jornalismo independente, disposto a criticar as práticas autoritárias do
regime militar no interior do Paraná. Julgado, condenado e libertado, graças ao
apoio de incontáveis manifestações, protestos e ações judiciais que
pressionaram a tal ‘justiça’ de um regime autoritário.
Com um
embasado trabalho de pesquisa, o livro foi publicado com recursos da Política
Nacional de Aldir Blanc de Fomento à Cultura, mantido pelo Ministério da
Cultura, através do edital público da Secretaria de Estado da Cultura do
Paraná, em 2025. A biografia tem ilustrações de imagens da vida da personagem e
também reproduções de reportagens do jornal Nosso Tempo, periódico em que
Juvêncio trabalhou e publicou as matérias usadas pelo regime militar para
condená-lo à prisão política.
Aliás,
o arquivo completo do jornal está disponível na internet, graças a uma parceria
do ex-editor (Palmar) com a entidade Guatá Cultura em Movimento. O acervo pode
ser acessado direto no site https://www.nossotempodigital.com.br/
A
história contada pela jornalista Daniela Neves faz justiça à memória de uma das
personagens que lutou publicamente contra a ditadura e pagou com anos de uma
violência do estado. A biografia de Juvêncio Mazzarollo, “o último preso
político da ditadura brasileira”, é uma leitura necessária para entender a vida
no interior do Paraná e em qualquer região ou município do País, onde as
pessoas não silenciaram aos desmandos, perseguições e crimes executados por
‘autoridades’ que mantinham um regime que caiu graças às incontáveis
iniciativas de resistência popular depois de longos 21 anos. O trabalho da
Daniela Neves precisa de divulgação para chegar às bibliotecas e escolas
públicas em todo o Brasil.
Fonte:
Por Sérgio Gadini, em A Terra é Redonda

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